I am a hoarder by nature. In fact, I could argue that this relates to my vocation as a storyteller, because, to tell stories, you have to collect them. But, however poetic I can make it sound, I have to fight the temptation of hoarding endlessly. I see the act of passing things on to others as its own form of storytelling, making sure the world of possibilities that they contain won’t be stuck with me forever. I have given away half of my snow globes, a bunch of hardcover books (my favourite ones). Gifting my own possessions feels like letting go of parts of myself, but isn’t that the reason why sharing is so meaningful? It is a hopeful act, that whatever I have to offer can be like a seed, bringing new life into existence when it falls on good soil.
I have been living on the internet since I was a teenager, and I have a bunch of memories scattered across different platforms. Maybe most people my age feel the same, as if most of our lives had been kept online, in virtual spaces and formats. At least once a week, I take a trip down the gallery on my phone, going through the different seasons of my life, past experiences, people I have known, things I have seen and photographed, those that I have never posted about, screenshots of news and events that are no longer relevant, or conversations that I barely remember having. Today, I came across a memory of exactly one year before, when I was trying to teach a friend how to read poetry. I found the picture I sent him, counting the poetic syllables of a well-known Brazilian poem: “Mas as coisas findas,/muito mais que lindas,/essas ficarão.” (But the things that end,/much more than beautiful,/they will remain.)
I strongly believe in a metaphor that came to me in a dream, a few months ago, of building relationships like building a lighthouse in the middle of the ocean of anything (it might not always be water, but this is a topic for another text). In my dream, I climbed up the stairs of the lighthouse; at the top, I could see the night sky, the ocean, the light, and a friend, and I met a different friend every single time I woke up then fell asleep again. My mind was telling me that we had reached the point of no return—when two people build something together, and what they can do for each other, amidst the chaos of living. I am fascinated by people and the marks we leave on each others’ lives. This is the beauty of the pages of the story that we write, as we go through the world—the worn edges, the teardrops that blur the ink and turn full stops into commas.
I write because I like to pass stories on, because I don’t want them to be stuck with me forever. That one day, I taught my friend how to read poetry, then he wrote a poem about me, and I wrote a poem about him, and then we fought, and we haven’t spoken since. It’s been a year, it’s not a lot, and so many things have changed, but the lighthouse is still there, even if I have stopped going up the stairs to meet him, and the steps and rails are covered in dust. We might miss those who have come and gone, but it does bring me some comfort to know (or believe) that nothing comes and goes in vain.
As I sailed these seas, I made sure to bring light at every stop along the way. Sometimes, as I navigate the days, the light of a distant lamp reaches me from afar. Sometimes, it is so bright that it almost blinds me through my eyelids, and I realise I hadn’t noticed I had come this close to old, familiar waters… Even when it brings me to tears, I know it’s for the better. It lights the way to other seas, other shores, places to build other lighthouses, that will help us go to even farther places, and so on. At the end of the day, this is just one of many ways to think about the most beaten up clichés of living, but such is life, whether we like it or not. This is as much as I have to offer today: a picture, a text, and three verses: “But the things that end,/much more than beautiful,/they will remain.“
Entre as muitas pessoas que me fizeram essa pergunta nos últimos tempos, minha preferida foi eu mesma, no diálogo imaginário que criei com meu eu aos 15. Foi nessa idade que eu fiz uma promessa solene de que nunca me renderia à “moda” do kpop, desde que Super Junior roubou metade dos fandoms dos quais eu fazia parte na época – da banda alemã Tokio Hotel, a paixão da minha juventude, e da fatídica banda brasileira de happy pop punk, Restart. Isso foi há quase dez anos.
A segunda melhor reação que recebi ao BTS foi dos meus pais, que perguntaram se eu havia decidido voltar àqueles meus 15 anos, de calça colorida, Pe Lanza e Bill Kaulitz. Restart foi a última banda socialmente estigmatizada da qual eu gostei, antes que outros interesses e novas percepções ocupassem minha mente. Aos 16, eu consumia Glee diariamente, e comecei a me interessar por filosofia, política, o que me levou a consumir livros diferentes do que eu costumava ler até então. Terminei o Ensino Médio e comecei a faculdade de Arquitetura, e me reconectei com as histórias em quadrinhos. Com os anos, aprofundei minhas raízes e fundamentos cristãos, fortaleci minha teologia, conheci a história do punk rock e morei na Inglaterra, cercada de bandas indies e amigos que haviam sido emos.
Não é difícil entender porque minha família, num primeiro momento, achou que gostar de uma boyband coreana era uma regressão, já que qualquer coisa que envolva garotos bonitos e fãs escandalosas não recebe muito crédito social.Eu provavelmente não teria me interessado por BTS se não tivesse passado por um período complicado e musicalmente intenso entre 2017 e 2018, acompanhado por doses cavalares de Foster the People, Twenty One Pilots, Joy Division, George Ezra, SWMRS e My Chemical Romance. Trabalhar no meu TCC foi um processo solitário, temperado por muitas horas de música, que me fizeram refletir sobre o quanto eu havia sido construída pelas coisas que havia escutado, muito mais do que eu já havia concluído até então. Eu reconhecia, nas minhas crises e respostas emocionais, traços que haviam sido retirados diretamente de canções que eu escutava há 10, 12 anos, que ficaram gravadas em mim, mesmo depois que joguei meus CDs fora. Apesar das coisas preciosas que descobri, algumas foram surpresas negativas, que eu tenho tentado arrancar do meu subconsciente, e que me fizeram questionar quais são as coisas que não só eu, mas os adolescentes desta época, têm escutado.
Eu provavelmente também não teria começado a gostar tanto de BTS se não tivesse começado a consumir TV coreana, que me fez ganhar simpatia pela cultura pop do país, e pela língua. Mas o ponto de virada definitivo foi o dia em que, falando dos meus doramas [novelas coreanas] no Twitter, um pastor do Rio de Janeiro compartilhou comigo sua surpresa ao descobrir, em favelas, que a febre entre os adolescentes era o k-pop. Eu tinha uma vaga noção de que o BTS já havia discursado na ONU, e subido ao palco dos Grammy Awards, mas saber que um grupo cantando em língua coreana conseguia entrar em um dos locais e corações mais socialmente vulneráveis do país despertou minha curiosidade.
Uma coisa que eu sempre considerei maravilhosa sobre a internet é a possibilidade de que assuntos sejam discutidos ativamente diante dos nossos olhos sem que nós sequer precisemos conhecer aquilo de que se está sendo falado. Admito que meu distanciamento era metade desinteresse, metade um desprezo quase elitista (uma reprodução do mesmo desprezo que outras pessoas demonstraram por mim quando relatei que havia gostado deles). Até então, eu sequer havia me dado ao trabalho de reparar os sinais de que aquilo era muito maior do que eu dava crédito. Jogar “BTS” no Google foi o primeiro passo pra um mundo de número absurdos, feitos extraordinários, e um exército de fãs que é potencialmente a força construtiva/destrutiva mais poderosa do planeta, centralizados em torno de 7 rapazes de aproximadamente 1,75-1,80 metros de altura, cada, juntamente com sua agência e produtores, a Big Hit Entertainment.
BTS foi a forma reduzida que os fãs internacionais encontraram pra se referir ao Bangtan Sonyeondan, ou Bangtan Boys – “Garotos à Prova de Balas”, formados a partir 2010 e lançados em 2013. Neste artigo de Setembro de 2018 para o Vox, Aja Romano descreve bem o processo que os transformou num fenômeno global. O grupo certamente não teria se tornado o que se tornou sem seu poderosíssimo fandom, o ARMY. Existe espaço para discutir muito aqui sobre os limites da idolatria, e a cultura tóxica do fã, mas eu queria me concentrar mais no fato de que, antes de tudo, este exército de fãs assumiu a postura de trabalhar agressiva & eficientemente para promover os garotos devido ao fortíssimo senso de empatia que eles são capazes de gerar.
BTS no Grammy 2019. Da esquerda para a direita: V/Kim Tae-hyung (1995), Jungkook/Jeon Jeong-guk (1997), Jin/Kim Seok-jin (1992), RM/Kim Nam-jun (atrás, 1994), J-Hope/Jeong Ho-seok (abaixado, 1994), Jimin/Park Ji-min (1995) e Suga/Min Yun-ki (1993). Fonte: Getty Images [romanização revisada]
A proposta de seu produtor Bang Si-hyuk era de criar um grupo que se conectasse com o coração do público e fosse capaz de quebrar os paradigmas de perfeição e divindade que fazem parte da imagem dos idols coreanos. Quase que uma sacada messiânica do mercado, em que você tira deus do céu e o coloca caminhando sobre a face da terra – ele queria um grupo de working class heroes (ou youth class heroes), que oferecessem um ombro e te dissessem, com suas músicas, que entendem suas dores, seus sofrimentos, porque fazem parte deles também [não é meu objetivo falar sobre a indústria do kpop como um todo neste texto, mas vou deixar links recomendando outras leituras, no final]. O primeiro desafio foi juntar um grupo de rapazes talentosos que pudessem contar histórias e representar sua geração. O segundo desafio, claro, foi provar que isso era real.
Suas músicas contam histórias sobre a realidade e os sentimentos dos jovens, em um nível local (na Coreia do Sul), mas com um apelo global. Fazem críticas sociais incisivas, falam de bullying, sonhos, ambições, amor-próprio, família, amizade, medo e esperança, e refletem sobre a constante luta de entender quem somos, e qual nosso lugar no mundo. Seus clipes e storytelling fazem referências à psicologia Junguiana, Hermann Hesse, iconografia greco-romana, e seus álbuns são organizados em ciclos, com histórias em uma linha do tempo paralela. Pra completar, cada um dos três rappers do grupo lançou mixtapes próprias (RM, J-Hope e Suga, sob o nome Agust D), buscando se expressar individualmente como artistas.
Quando eu caí no limbo das suas entrevistas no YouTube, e dos muitos episódios de Run! BTS (na plataforma VLive), fui tomada por um sentimento generalizado de que deveria ter alguma coisa errada com as coisas que eu estava assistindo, porque eles comunicavam muita verdade (e eu naturalmente desconfio da toda e qualquer verdade na indústria pop). Mesmo tendo ciência das estratégias da indústria pop pra manipular a realidade, e oferecer uma alternativa maquiada e financeiramente conveniente, a impressão que eu tinha era de que, a despeito disso tudo, havia algo de honesto que permeava o que os rapazes fazem e são. Não é muito difícil saber que existem muitas pessoas interessadas em lapidar a imagem pública deste grupo para que ganhe os corações de seus fãs de forma sem precedentes. Por isso, se faz necessário voltar ao início de todas as coisas – porque, para além de ser uma iniciativa de uma pequena agência, e de um produtor renegado, o BTS se organizou a partir do seu líder, Kim Nam-jun – o RM – , um rapper talentoso e jovem brilhante, e certamente o principal responsável por cultivar entre os 7 rapazes os valores e o senso de responsabilidade que os torna um grupo tão singular. Nos bastidores da indústria musical, eles são reconhecidos por serem gentis, atenciosos e humildes, a despeito do quão grandes se tornaram.
A grande tragédia do clichê é que nunca deixa de ser verdade – com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Talvez tenha sido a atitude de ousadia perante a tarefa de influenciar, misturada com uma humildade diante da proporção que a mensagem tomou, que me fez entrar pro grupo das pessoas que torcem muito pelo sucesso genuíno de tudo que os Bangtan Boys fazem. Eu poderia argumentar que estou muito velha pra vestir camisetas ou acampar nas filas dos shows, mas isso nunca foi muito minha praia; a questão é que eu cresci me reconhecendo como artista, e minha coisa favorita do mundo, ao longo dos meus 24 anos, tem sido descobrir os corações por trás daquilo que eu admiro. Nem sempre as descobertas são positivas, mas, neste caso, foi uma feliz surpresa, mesmo pra mim, que sempre acreditei que Deus poderia agir de formas imprevisíveis. Escutar coisas que eles têm a dizer sobre como se enxergam como pessoas no mundo foi um alento em dias em que eu não queria escutar mais ninguém.
Apesar da intensa desconstrução do elitismo intelectual e cultural que eu já havia experimentado até então, uma parte de mim ainda tratava os fenômenos mais populares de cada tempo como aquilo de menos digno que a cultura de uma época tinha para oferecer – talvez uma consequência dos anos em que consumi Crepúsculo, e me arrependi? É certo pra mim também que eu fugia de certos fenômenos por conta do estigma de ser vista como mais uma dessas garotas “vazias” que gostam de gritar por qualquer coisa que tenha garotos bonitos, mas, ao mesmo tempo, quando eu descobri o tesouro escondido em BTS, eu quis muito contar pro mundo que eles estavam errados. Claro, nós todos temos todo esse direito de não nos interessar por certas coisas, e de desistir de outras, e talvez eu só esteja ainda sob o impacto de ter saído da minha zona de conforto e ter encontrado algo de valor.
E, claro, existem muitas coisas que precisam ser pontuadas em afirmações tão emotivas quanto as que eu acabei de fazer. Transformar mensagens importantes em um produto é um dos grandes dilemas da indústria dos nossos tempos, e o quão genuíno é converter valores importantes em estratégias de mercado. No fim das contas, esses rapazes ainda viram objetos nas mãos de companhias, são embranquecidos nos seus vídeos e fotos promocionais, lançam canções com títulos convenientemente ligados ao marketing de grandes grifes, fazem lip sync, e caem em contradição. Eu talvez precise confessar que nem sempre gosto de todas as músicas deles, e que existem muitos grupos que eu considero musicalmente melhores, passando até mensagens melhores(já ouviu falar de SWMRS?), mas o processo de descobrir BTS foi o processo de descobrir um reflexo meu em algo que eu sequer sabia que poderia me refletir. Encontrar algo precioso pra mim naquilo que eu considerava menos importante.
Acho que me toquei da relevância do que eles fazem em um dia particularmente ruim, em que eu fui pra academia pra tentar fugir de mim mesma, correndo na esteira. Não escutei BTS, mas escutei Welcome to the Black Parade [2006], do My Chemical Romance. Já perdi as contas dos anos e momentos em que essa música me acompanhou, e, naquele dia, mais uma vez, ela gerou em mim o sentimento do qual eu precisava para fazer as pazes comigo mesma – “on and on we carry through the fears […] do or die, you’ll never break me, because the world will never take my heart”. Por coincidência, hoje é aniversário do Gerard Way, frontman da banda e cantor desta canção; toda vez que escuto suas músicas, sou tomada por uma sensação de que os sons que eles produziram vão continuar ecoando em mim por muito tempo. As turnês passam, as camisetas desbotam, os CDs se quebram, o dinheiro gasto vai embora, e a maioria das memórias também – aliás, coisas como perder um show importam cada vez menos conforme os anos passam, e manter isso em mente vai te ensinando a ser um consumidor mais consciente. O tempo ensina que a verdadeira grande estrutura é o que se pode construir no coração, e que os palcos, arenas e estádios são muito pequenos perto disso.
O que você lê, escuta, assiste, consome, te constrói, e eu na verdade ainda teria (tenho) muitas outras coisas pra falar sobre isso. Eu deveria mencionar que, desde que incluí k-pop nas minhas manhãs, meu humor melhorou exponencialmente, e assistir entrevistas e doramas me fez começar a apreciar minhas bochechas de uma forma que meus ícones ocidentais bichectomizados nunca foram capazes. Também, que a coisa mais importante que eu fiz em 2018, além de me formar, foi contar pro Mark Foster como Deus havia me dado uma das músicas do Foster the People de presente. Eu te garanto que, se eu tivesse filhos agora, eles estariam escutando BTS comigo, dançando cedo enquanto lavo a louça, faço minha corrida, ou aspiro meu quarto. Aprendendo a pronunciar fonemas coreanos pra cantar sobre amizades e amores doces, ou pra apreciar o próprio sotaque (algo que também aprendi com BTS), ou conhecendo a cultura de honra que existe na Coreia. Enfim. Em três dias, eles lançam música nova, que pode ser horrível, ou excelente, e logo depois vem os anos, e o momento deles passa, como muitos outros passaram. Eu torço muito para que todos eles tenham futuros felizes; que colham bons frutos do que plantaram, mesmo nos lugares em que os olhos não alcançam. E que continuem crescendo e descobrindo as coisas ainda maiores, e melhores, e mais importantes, que a vida tem a oferecer.
E, claro, levantando o comentário específico com aquilo que eu acredito que seja a coisa mais preciosa do Universo, o Evangelho de Cristo Jesus; fico às vezes pensando na vida como um grande jardim de flores cheias de pólen, e insetos que voam pra todos os lados. Nós podemos argumentar que mensagens “positivas” que não possuem o Evangelho não tem valor – já que qualquer bem do qual o ser humano seja capaz ainda assim é insuficiente pra salvar sua alma – , mas eu nunca seria capaz de desprezar uma mensagem, porque nunca seria capaz de prever os caminhos misteriosos que as palavras fazem pela mente e pelo coração das pessoas. Em algum lugar dessa rocha gigante em que nós vivemos, 1 entre quase 8 bilhões de pessoas pode estar sendo alcançada por uma voz inesperada, e gerando algo que vai mudar sua vida pra sempre. Só isso não faz tudo valer a pena? Eu sempre penso que sim.
Que saudades, e que surpresa receber sua mensagem! Muito obrigada pelo e-mail, e pelas felicitações (que eu sei que são sinceras), mas, por alguma razão, você recebeu a informação pela metade. Eu fui, de fato, pedida em casamento. Mas eu não disse sim.
Pode respirar aliviado. De certa forma, eu talvez não teria tomado essa decisão sem você. Fui procurar ontem as mensagens que trocamos logo que eu conheci o Fábio, e as coisas que eu disse sobre ele, e como você viu logo de cara meu engano. Ele falava tudo que eu queria escutar, impressionou até meus pais, e eu achava aquilo mais do que suficiente, ainda mais em um moço tão lindo. Depois de umas semanas, ele quis postar no Instagram uma foto comigo. Foi só no stories, mas a foto ficou tão bonita, nós parecíamos uma pintura juntos. Todo mundo que conversava com ele vinha me falar depois sobre como nós éramos perfeitos um pro outro, e eu comprei mesmo a narrativa. Eu estava ansiosa pra que as coisas dessem certo, e me considerava sortuda de estar sendo escolhida por ele.
Você com certeza se lembra de quando eu me apaixonei pelo Eduardo, e aquela história que contei milhares de vezes, do abraço inesperado que ele me deu, que ficou abraçando em mim por muitos meses depois. Aquele abraço se tornou minha referência de como uma fagulha de amor se acendia em alguém – mas, pensando melhor hoje, não foi ali que ele me ganhou de verdade. Foi algumas semanas depois, quando nós visitamos um abrigo pra menores, e ele colocou todas as roupas que tinha numa mala, e doou pra instituição. Ninguém mais viu aquilo, ele não tirou fotos, não contou pra ninguém, mas eu vi, e eu guardei isso no meu coração. Você sabe, tanto o Fábio quanto o Eduardo são rapazes grandes e articulados, que se destacam e chamam atenção, mas a questão, Pedro, é o que existe por trás, o que fica de verdade depois que passa o momento, e passa a performance. Eu não quero dizer que o Eduardo era perfeito, mas, a despeito dos muitos defeitos, ele era de verdade. Ele tinha substância, e, mesmo que às vezes o jeito de falar ou de se portar fosse irritante (muito irritante), não era vazio. Não era um teatro.
Confesso que parei de te contar das coisas do Fábio porque sabia que você não gostava dele, mas eu percebi sim, mais ou menos rápido, que tinha algo de errado. Só que, depois de envolver os pais, os parentes e os pastores, eu acreditei que precisava dar uma chance de colocar tudo à prova, e ter certeza de que não era paranoia ou auto-sabotagem. Eu me dei o benefício da dúvida, e me abri pra chance de ser a errada da situação – algo do qual ele se aproveitou centenas de vezes, pra manipular as situações em favor próprio. Em um e-mail só não cabem todos os casos que eu pacientemente engoli, mas eu sabia que tudo aquilo só poderia ser digerido ou vomitado. E daí aconteceu que, depois de oito meses sendo tratada como um chaveirinho pra auto-afirmação de um homem de quase 30 anos, eu cheguei no meu limite num daqueles coquetéis da revista da agência dele.
Eu detestava aqueles eventos porque ele nunca me deixava falar uma frase inteira na frente dos colegas e clientes sem me interromper com uma piadinha sobre mulheres serem burras ou dirigirem mal. E toda vez que nós conversávamos sobre isso, ele conseguia me convencer de que o problema era meu, que não sabia brincar, que não aceitava o humor dele, e eu te juro que me esforcei pra deixar passar ou aprender a lidar. Até que veio o evento de Outubro, da edição especial sobre a história do terror. Acabamos numa roda de conversa com alguns clientes da agência, e um deles comentou que gostava muito de Edgar Allan Poe. Eu fiquei empolgada, e comecei a falar sobre como ele era meu escritor preferido, mas fui interrompida na velocidade da luz. Fábio começou “Sim, sim, Poe, um dos grandes mestres do terror, gosto muito daquele poema que ele escreveu sobre a morte da esposa, “O Corvo”. Sabiam que ela era prima dele? Não sei o que era mais assustador, os poemas ou o escritor” e soltou uma risadinha imbecil. Eu não sei de qual parte das minhas entranhas eu tirei serenidade pra corrigi-lo com educação, mas falei com extrema tranquilidade “Meu bem, “O Corvo” não é sobre a morte da Virginia”. Ele me olhou de canto de olho, e depois continuou conversando, como se eu não tivesse dito nada.
O clima ficou desconfortável, e o cliente que havia feito o comentário ficou visivelmente desconcertado. Um outro cliente, que também estava na roda, tentou remendar a situação, e dar atenção ao meu comentário “Na verdade, Fábio, ela está certa, porque o poema foi publicado antes do falecimento da Virginia Poe”. Ele não tinha como ignorar um cliente, mas não tinha nenhuma saída que não fosse minimamente humilhante, àquela altura, e ele optou por uma desculpa esfarrapada “Ah, sim, bom, eu tenho certeza que ouvi essa informação em algum lugar”. Eu não me aguentei, Pedro, e soltei na frente de todo mundo – “É nisso que dá ficar assistindo qualquer vídeo no YouTube só pra impressionar as pessoas, você aprende besteira e fica repetindo igual um idiota”. Não com muita emoção, mas com muita frieza e dissimulação, pra ele não ter nenhum espaço pra me chamar de histérica mais uma vez. Eu saí de perto com elegância, todo mundo me encarando com olhos esbugalhados. Fui em direção ao banheiro, mas pedi um Uber e fui embora pelos fundos. O carro passou pela porta e eu o vi com o telefone na mão, tentando me ligar. Emocionalmente, o relacionamento acabou ali pra mim.
Eu sumi de todo mundo por uns dias, até que minha irmã me ligou pra me contar que o Fábio andava dizendo que eu havia dado uma crise histérica (sim) no coquetel da agência, e que fui embora sem dar satisfações, depois de o humilhar na frente dos clientes e colegas. Eu não sabia disso, mas a Teresa nunca tinha gostado muito dele, então ficou desconfiada demais da história. Foi quando eu finalmente contei das coisas que estavam acontecendo desde o começo, que eu havia guardado esse tempo todo. Eu tinha muito medo de que ninguém acreditasse, ou de me dissessem que relacionamento era assim mesmo, e que no casamento eu precisaria inclusive rir das piadas racistas dele. Graças a Deus, Pedro, ele não enganava tanto quanto eu pensava. Minha irmã nunca chegou a conhecer o Eduardo, pra entender bem a comparação, mas entendeu minha frustração diante de uma pessoa que falava muito daquilo que não vivia. Ela foi me visitar depois, e eu pude chorar tudo embora.
Ele era sempre tão fascinado consigo mesmo, que não sobrava tempo nenhum pra pensar nos outros, no próximo sobre o qual ele gostava tanto de pregar. As palavras, Pedro, são muito baratas, quando não saem de uma fonte boa. Por exemplo, era muito fácil pra todo mundo assumir que nós éramos um casal incrível por causa das coisas que ele me escrevia nas legendas de fotos. Sim, o rapaz sabia escrever, mas nada daquilo significava qualquer coisa. Como dizia Thoreau, “como é vão se sentar para escrever quando você não se levantou pra viver”. Eu só não digo que nunca mais quero ver um escritor na minha frente, porque conheci muitos bons escritores, que cultivavam coisas boas dentro de si, e lançavam palavras como sementes, que eu ainda guardo, florescendo, no meu coração. Lembra daquele moço com quem eu trocava cartas, que morava na Califórnia? Ou quando pude conversar com o compositor da minha banda favorita. As pessoas por trás daquelas palavras me cativaram. Eu achei que havia muito por trás do que o Fábio mostrava, mas esse rebuliço todo foi a lição que eu precisava pra ser menos impressionável. E me perdoa por não ter te escutado desde o começo, mas, agora, se você tiver mais coisas a dizer, sou toda ouvidos.
Voltando pro ocorrido, depois de conversar com a minha irmã, eu cuspi meu medo de ficar sozinha, e decidi terminar de vez, antes mesmo de falar com meus pais. Mandei uma mensagem pedindo pra gente se encontrar num restaurante perto da agência, depois do expediente. Consegui sair mais cedo do escritório, peguei uma mesa e esperei que desse a hora dele chegar. 40 minutos depois do horário combinado, ele não havia dado sinal, nem atendido o telefone. Eu estava prestes a ir embora, quando um violinista entrou tocando “Across the Universe”, e parou o salão. Levei meio minuto pra ver o Fábio entrando atrás, todo bem vestido, e fiquei tão nervosa que comecei a tremer de raiva. Dei um passo involuntário pra trás e me desequilibrei, acabei caindo sentada na minha cadeira. Quando ele finalmente se aproximou e se ajoelhou, eu me levantei e saí andando. Senti os olhos de todas as mesas me acompanhando, enquanto eu contornava o violinista e saía pela porta da frente do estabelecimento, correndo pro meu carro. Ele deve ter ficado genuinamente paralisado de susto, porque demorou pra ir atrás de mim, e eu fui mais rápida.
Eu não sei se ele me achava tão carente que achou que eu ficaria impressionada com aquele showzinho, o suficiente pra me esquecer da falta de caráter dele. Ele deve ter dito pra vários amigos que nós íamos nos casar, e deve ter sido assim que tanta gente recebeu essa informação incompleta, como você. Alguns são mais chatos de esclarecer que outros, mas deve estar sendo bem pior pra ele. Depois eu descobri que ele havia falado com meus pais antes de me encontrar, e eles disseram que não abençoariam nada antes de falar comigo. Ele fez o pedido mesmo assim, e isso foi o suficiente pros meus pais ficarem tão decepcionados que acreditaram em tudo que eu tinha pra dizer. Ele apareceu no meu trabalho umas vezes, e eu precisei trocar meu número de telefone e bloquear uns perfis fakes no Instagram. Eu confesso que fiquei com medo que ele fizesse algo pra me punir pelo término, mas ouvi falar que ele já estava muito empolgado dando em cima de uma menina nova na igreja dele. Fico aliviada por ter sido deixada em paz, mas não sei se eu deveria alertar a garota. Espero ouvir sua opinião.
Eu achava que talvez o problema fosse meus parâmetros muito elevados, mas, Pedro, eu posso não ser impecável, mas eu cuido de falar e escrever daquilo que eu faço e vivo. No fim das contas, isso nem é sobre o Eduardo, mas é sobre pessoas de verdade, pessoas transformadas, e como elas são difíceis de achar. Essas coisas todas desmontaram totalmente a ideia de pessoa perfeita que eu tinha, e é ruim de repente descobrir que não sobrou nenhuma expectativa, mas é bom descobrir que também não sobrou nenhuma idealização. E, claro, eu estou feliz por ter sido capaz de dizer não. Eu me senti como a Lizzy Bennet, decidindo que ser fiel aos próprios princípios era mais importante que não deixar passar uma oportunidade de casamento. Se Deus quiser, eu vou constituir uma família, um dia, mas vai ser com um homem que me ame, e que ame a Verdade. Até lá, a gente vive como deve. Acho que vou arriscar uma oportunidade de emprego em outra cidade, ou outro país, mas queria conversar com você pessoalmente sobre isso. Quando você está disponível?
Já notou quão paradoxal é o fato de que nossa era humanista coloca o homem no centro do universo, mas, depois desses últimos séculos, o que nos restou como sociedade secular foi um bando de gente deprimida e ansiosa? Ajuda a entender se a gente pensar em termos comparativos. A Bíblia diz em Gênesis 1 que os astros foram colocados no céu para sinais, e eu sempre penso que tudo que nós precisamos saber de nós mesmos já aconteceu de alguma forma com as estrelas e planetas.
Pensa comigo: a Terra gira em torno do Sol, a Lua gira em torno da Terra. A Terra é muito menor que o Sol, a Lua é muito menor que a Terra. O que faz um corpo celeste girar em torno do outro é a atração gravitacional que eles exercem – e, segundo a lei da gravitação universal, a força de atração mútua é proporcional às suas massas. Ou seja, um corpo só consegue fazer com que outros girem ao seu redor se ele for grande o bastante para sustentá-los.
Se você pensar nos planetas como pessoas, e tentar montar uma cena em que a Lua decide que é o centro do sistema solar, agora, talvez a gente veria uma Lua esgotada de tentar sustentar todos os planetas e estrelas entre o Sol e aquilo que a gente chamava de Plutão. Talvez a gente sequer visse mais uma Lua, mas vários fragmentos de um corpo celeste arrebentado por um peso que sequer tinha estrutura pra suportar. Ou, talvez, a gente veria exatamente o que continuamos vendo, ou supondo que vemos, quando olhamos pro céu – Sol, Lua, planetas, todos no mesmo lugar – , porque a vontade da Lua de ser o centro desse sistema não inverte a ordem das coisas, não substitui a força gravitacional que o Sol exerce e mantém a Terra no mesmíssimo lugar, dando uma volta em torno do próprio eixo por dia.
O problema, então, seria todo da Lua, porque, enquanto o universo continuaria girando e se expandindo da mesma forma, independente do que ela ache ou deixe de achar, na cabeça dela, todas as referências estariam invertidas, e talvez, em algum ponto, ela até acreditasse que a Terra estava o tempo todo girando em torno dela. E talvez causar o movimento das marés reforçasse essa ilusão de que era tudo sobre ela, no final das contas, e era tudo questão de ponto de vista mesmo, pra que ela descobrisse o próprio valor como ponto focal do universo. E, talvez ela começasse a achar que tinha luz própria, de tanto desprezar o Sol, e se deixasse esquecer que era apenas um reflexo, algum tipo de imagem, e que tinha um lado permanentemente escuro.
Aconteceu, no entanto, que, no girar dos astros, todos se alinharam, e a Terra entrou no caminho do Sol. Houve escuridão sobre a face da Lua. Foi Pink Floyd quem nos deixou essa de presente – não existe um lado escuro da Lua; ela é, de fato, inteira trevas. Será que, então, ela se daria conta de que não tinha luz própria, e se deixaria afogar nas trevas? Será que seria capaz de crer que, em algum momento, o Eclipse passaria? Talvez, muito tempo depois, ela se daria conta de que não era a sua força que fazia o sistema girar, mas talvez ela aprendesse a relevar todos os fatos se sobrevivesse ao primeiro Eclipse e conseguisse suportar o tempo de escuridão, em prol da sua ilusão. Talvez a Lua seja uma grande iludida, sobrevivendo à todas as suas fases e seus ciclos de 28 dias, recusando-se a reportar-se ao Sol como sendo a fonte de Luz.
Salmos 89:37 chama a Lua de uma “fiel testemunha” no céu. Eu sei, eu sei, aquilo fala da Aliança de Deus com Davi, mas não é uma imagem fascinante? Já ouvi gente dizendo que nós somos muito parecidos com as árvores, mas acho que somos muito parecidos com os corpos celestes, flutuando sob um campo gravitacional muito maior que o seu, sendo iluminados por uma Estrela muito maior que si, e ficando fascinados demais com o reflexo pra lembrar que somos feitos de escuridão, e que precisamos do Sol todos os dias. Nossa força não muda a forma como os dias giram, mas depende da nossa honestidade com os fatos reconhecer qual é a verdadeira ordem que faz surgir as estações. Aliás, a Bíblia também diz isso em Gênesis 1, não?
Acho que era Kant quem dizia que não existiu nenhuma Revolução Copernicana, porque Copérnico não foi lá e tirou a Terra e substituiu pelo Sol no centro do sistema – só revelou a Verdade das coisas. Mas talvez o ponto que Kant não quisesse admitir é que a Verdade é a coisa mais revolucionária de todas, e traga os mais significativos impactos profundos pra história de quem vê a realidade sob o ponto de vista de correto. Neste momento, por exemplo, está muito calor, e eu não consigo pensar mais no Sol como Deus, mas como uma metáfora do inferno – mas isso não é mais assunto pra agora.
Eu nunca gostei de caixas de areia, na infância, porque detestava a sensação de ser engolida pelos pés, dedinho por dedinho. É claro, eu cresci longe da praia e do mar; mesmo assim, eu sabia que você tinha cheiro de água salgada – mesmo que eu sequer soubesse como esse cheiro deveria ser. Talvez você fosse uma concha, mas eu também só as conhecia de longe, da TV. Só conseguia imaginar quem você era e de onde você vinha, sentada aqui, nesse parquinho.
Eu poderia jurar que tinha 25, mas na verdade eu era uma criança de 5. Muito menor que eu deveria, com pernas magricelas, encolhida em um banco pra que meus chinelinhos não tocassem o chão. Eu tinha certeza que estava no meu bairro, na minha vizinhança, mas eu não reconhecia meus vizinhos, e não tinha amigos. Você tinha alguns, eu reconhecia você. E, se você me chamasse pra brincar, eu iria, mesmo que eu tivesse medo da areia (porque não tinha medo de você). Mas eu nem sabia seu nome! Ou talvez eu soubesse, mas não me lembrasse. Por que era tão difícil reconhecer a hora e o lugar das coisas? Talvez eu tivesse 25, e fosse grande demais pra caixa de areia, e conhecesse o cheiro de mar, e tivesse sentido na sua pele o frio e a dureza das conchas, quando você veio e segurou a minha mão. Não, o tamanho dos dedos me dava a certeza de infância, que parecia tão abundante e fácil enquanto nós éramos pequenos o bastante pra segurá-la.
Havia uma brisa fresca, e um sol se pondo sobre crianças brincando a tarde toda, como se cada hora na verdade durasse três ou quatro. Ainda assim, tudo passava rápido, como um borrão, como se fossem lembranças sendo recuperadas.Talvez fossem, mas eu não me lembrava de você. Construindo castelos, subindo e descendo de escorregadores, sujando as roupas e ralando os cotovelos e o ladinho do braço; você me acertou com lama, nós bebemos água suja, e eu não me lembrava de ter sido tão feliz antes dos 16. Poderia ser só um sonho, porque eu criança nunca faria nada que causasse problemas, ou fizesse bagunça. Minhas mãos de desenhista se sujavam apenas do grafite das muitas histórias de princesa que eu já havia inventado, mas hoje eu realmente tinha um castelo. Você até tentou ser rei sozinho, mas eu já era uma arquiteta muito melhor, e conquistei aquela terra para mim também.
E poderia ter chovido, e minha mãe poderia ter saído pra me procurar, e se assustar com a cor dos meus joelhos e da minha camiseta branca. Poderíamos ter perdido a escola no dia seguinte, porque acordamos com o peito cheio, de brincar por tanto tempo no sereno. Poderia ter sido um sonho, mas não era, porque eu estava acordada, e tinha 25, e suas mãos muito grandes seguravam as minhas, que continuavam pequenas, sentindo o frio e a dureza da sua pele de concha. Talvez eu estivesse intoxicada pela maresia, talvez eu estivesse intoxicada imaginando como seria se eu tivesse tido você comigo a vida toda. Naquele fragmento de tempo, nosso momento parecia se cruzar com a Eternidade, e eu podia escrever uma história inteira que nunca havia existido, só de respirar a certeza de que, com você, eu finalmente estava em casa.
Eu assumi, há algum tempo, um compromisso sem precedentes com a verdade na minha vida. Apesar de ainda estar em desenvolvimento, e de eu realmente não entender plenamente quais os termos deste compromisso, eu tenho descoberto que comprometer-se com a verdade e a integridade, de corpo e alma, é ainda mais desconfortável que você consegue escrever, ou descrever. E causa muita confusão. Começando em mim, ou você, porque nós somos essencialmente inclinados pra autopreservação, e, neste jogo de sobrevivência, tudo que mente, finge, ou engana, faz melhor ao ego.
Existem pessoas que focam mais nos resultados, em vez dos processos que levam até eles, e cada um consegue mais ou menos ajustar a própria consciência de acordo. Eu particularmente sempre fui muito preocupada com os processos, mas eu fui viciada demais na opinião dos outros, desde criança (ou talvez todos nós fomos, mas eu não tenho como falar por todos). Quanto mais você se ocupa da opinião dos outros, mais facilmente você abre mão da verdade e da integridade – porque, na maioria das vezes, seus atos mais verdadeiros ficam só entre você e sua consciência, e isso raramente contribui pro sucesso da sua imagem perante os outros. Aliás, eu até ousaria dizer que a integridade mais importante é aquela que fica no secreto,
Eu sei que tenho problemas com autoimagem e aceitação há uns bons anos – a maioria de nós tem, eu presumo – , mas, até algumas semanas atrás, eu te diria que tinha aprendido a me importar muito menos com a opinião dos outros. Eu reduzi drasticamente minhas expectativas e ambições na vida, passei a valorizar o silêncio, as coisas modestas e escondidas, os pequenos trabalhos e tudo aquilo que se passa pela minha mente e que nunca vai virar um texto, nem uma legenda de Instagram, nem uma frase no Twitter. Se você me perguntasse mais, eu diria que havia abrido mão dos desejos por alcançar lugares altos, e só queria ser “eu” – tudo dito em um tom que transformava qualquer outra pessoa que fosse ou pensasse diferente de mim em um ser “menos evoluído”.
O problema é que minha mente não parava de refletir sobre todas essas coisas nas quais eu pensava. O fluxo de pensamento ficou flertando com o fundo da minha mente por vários dias, semanas, até que a ideia começou a se infiltrar e, então, eu precisei começar a assumir pra mim mesma que eu não era muito modesta, mas muito, muito orgulhosa. Profunda e extremamente orgulhosa. Tão orgulhosa (e ferida), que eu estava escolhendo abrir mão de todos os meus sonhos, planos, desejos, vontades, perspectivas, expectativas… Por medo de fracassar, sentir todas as dores da frustração, e me tornar uma piada diante dos olhos públicos. A covardice mais amarga que eu já tive que admitir.
Eu era viciada na opinião dos outros, então toda ideia de valor que eu tinha de mim mesma estava baseada em ser a melhor em alguma coisa. Esses são os fatos, eu quase sempre estive em ambientes em que eu era a melhor em alguma das coisas que eu fazia – meus desenhos, meus textos, meu conhecimento sobre meus assuntos preferidos. Eu não tinha capacidade de me reconhecer como uma pessoa de valor se eu não fosse sempre a melhor, porque eu não conseguia imaginar como eu poderia ser amada de outra forma. E eu ainda tive muita disposição pra me esforçar pra superar pessoas do meu convívio que eram melhores que eu, e talvez por isso as pessoas que me conheciam sabiam me machucar tão bem, quando me diminuíam ou me comparavam de forma negativa. Sempre foi tudo que eu tive.
Crescer invariavelmente me trouxe cada vez mais provas de que eu poderia sempre ser muito boa, com meus talentos naturais, e meus esforços, mas que, em algum lugar do mundo, sempre haveria alguém melhor do que eu. Poderia ser na China, mas também poderia ser do meu lado. Na minha sala, na minha turma, na mesma igreja, com os mesmos amigos. Eu era muito boa em artes gráficas, mas minha irmã se tornou muito melhor que eu. Minha melhor amiga estudou um curso de Humanas e leu muitos mais livros que eu. Foi com certeza também o que consolidou meu pânico de autoestima, quanto mais eu percebia que eu jamais seria a mais bonita, ou mais magra, nem comparada com as meninas ao meu redor, nem comparada com as milhares de meninas que a gente consegue ver todos os dias, agora, pela internet, como uma galeria de terror, de todos os rostos e corpos que eu nunca terei.
Com o tempo, conforme eu conheci muita gente que argumentava melhor, e escrevia melhor, que havia amadurecido muito mais, e aguentava muito mais, e era muito melhor que eu em todas as coisas nas quais eu me apoiava pra sobreviver, eu entrei em desespero – e, no meio do desespero, tomei todas as decisões erradas. Eu estava me agarrando a ídolos de papel, que se desmanchavam nas águas do mar no qual eu estava, mas, em vez de trocar de barco, eu preferi me afogar, porque eu não estava disposta a passar pela dor excruciante de tirar uma parte de mim. Como se isso fosse um câncer muito grande, como daquelas pessoas que acabam deformadas pelo tamanho e peso dos tumores, que precisava ser tirado sem anestesia, porque é assim que as coisas da alma funcionam.
Minha irmã passou os últimos quarenta dias fora, e voltou com uma frase que me perfurou dolorosamente – a verdadeira humildade é querer ser exatamente quem você é em Deus, nada acima, nem abaixo, mas querer ser tanto mais quanto menos do que quem você é, é orgulho. Eu poderia jurar pra mim que estava agradando a Deus e deixando ir embora meu orgulho, escolhendo propósitos modestos e sonhos ínfimos, mas acabei descobrindo que, como uma boa ilusão, eu estava subindo uma escada, enquanto acreditava estar descendo. Passei meses tentando me comprometer com a verdade, enquanto vivia uma mentira, cheia de palavras bonitas, enfeitadas, repetidas, automáticas, que ajudavam a enganar minha consciência consciente. A minha grande sorte – e sua, caso você também tenha se identificado com isso – é que nosso subconsciente, e o Espírito, nunca se enganam. Mas, se estamos disposto a nos deixar convencer da nossa grande fantasia, fica a critério de cada um. Existem pessoas que focam mais nos resultados, em vez dos processos que levam até eles. Cada um pode tentar ajustar a própria consciência de acordo.
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Esse texto não tem uma conclusão clara porque o processo ainda não está completo. Claro, existem muitas coisas ainda a se dizer sobre propósito, sobre identidade, sobre motivações secretas, desejos ocultos, perspectivas mais próximas ou mais distantes, qual o plano maior, e a razão pela qual nós existimos, mas tudo tem uma hora designada, e eu não sei se é esta. Eu poderia dizer, de forma bastante dramática, que estou no meu ponto mais baixo, mas eu não quero testar o quão ruim as coisas ainda podem ficar.
No entanto, ainda tenho esperança suficiente pra esperar que esse seja realmente, pelo menos, o ponto mais baixo deste processo, e que o que vem em seguida é cura e plenitude, mas eu achava que estava assim há bem pouco tempo, e consegui descobrir que essa estrada tinha mais uma curva acentuada inesperada. Dói demais, eu não consigo aceitar às vezes o quanto dói ser humana e insistir em ter fé suficiente pra acreditar no fim dos processos, quando tudo que você queria era uma morte rápida, e indolor. Literal ou figuradamente, cada um interprete como quiser. Mas, convenhamos – o tempo se arrasta, ou voa, mas, de qualquer forma, a morte chega, qualquer morte que seja. Não é melhor continuar acreditando que, se eu aguentar essa dor, posso alcançar Graça pra Vida plena depois? Eu realmente penso que sim.
Eu comecei a escrever pra ser dona de histórias. Eu gostava de ler histórias, gostava de ouvir histórias, mas queria ser dona delas também. Comecei com histórias de princesas, nas quais a princesa se parecia comigo, porque eu queria um final feliz pra mim. Pouco tempo depois, viramos super-heroínas, e havia muito cor-de-rosa. Então, eu descobri um universo completamente novo, e escrevi dúzias de contos sobre marionetes, gatos pretos, e meninas que eram atropeladas durante surtos esquizofrênicos. Logo depois, eu descobri a poesia.
A poesia tirou o foco daquilo que eu projetava em personagens, e jogou sobre mim. Foi a primeira vez em que eu vi como meus contos se pareciam muito com os desabafos que eu escrevia noite e dia em dezenas de caderninhos e diários. Eu me virei do avesso em dezenas de versos, até que me embaralhei toda em mim mesma, entre amores, desamores, e algumas dores. Escrevi sobre tantas coisas e pessoas que precisei dar um tempo, pra tentar me recuperar. Não voltei pra poesia, ainda.
Não sei bem porque eu escrevo, hoje em dia. Pra compartilhar, representar, apresentar? Eu gosto de fazer bem aos outros com o que eu escrevo, e eu acredito que eu possa curar, transformar, revirar o mundo, com palavras. Mas existe um sentimento específico, que floresce quando eu estou diante de uma folha em branco, que eu não consigo superar.
Uma vez, eu li que escrever era uma forma aceitável de se desnudar em público, e, exatamente como a pessoa que se desnuda, quando eu escrevo, quero chamar atenção pra alguma coisa. Sem pudor, assim como uma pessoa que se desnuda, eu tento chamar atenção pras coisas que ficam encobertas – em mim, e nos outros também, mas principalmente em mim. Talvez porque eu seja chata demais, na maior parte do tempo, mas, quando eu escrevo, às vezes fico até emocionada com as coisas bonitas que consigo fazer aparecer. Algumas são menos bonitas, mas são muito mais profundas que eu achava que eu era, e é sempre uma surpresa nova, uma face nova da Graça que é revelada, e me deixa um tanto feliz por existir e ser exatamente quem eu sou.
Então, toda vez que eu escrevo algo, e compartilho com o mundo – mesmo aquilo que vem com lágrimas e um gosto amargo na boca – , é como se eu entregasse as pedrinhas preciosas que encontrei dentro de mim, coisas de valor, que eu não quis deixar guardadas. Coisas que me deixaram feliz. Mesmo que às vezes algo que me pareça um diamante te pareça um caco de vidro, ou um pedacinho quebrado de espelho. Acho que, se você puder ver seu reflexo neles, eu já vou ficar muito feliz. Nós somos todos como bordados complicados demais, mas que parecem muito simples quando são vistos do outro lado. Depende mesmo do seu ponto de vista.
Abri uma página em branco hoje porque queria escrever sobre essa frase que vinha martelando há alguns dias – “Qual é o som que a estrela faz?”. Sinto muito pela decepção, mas eu ainda não faço ideia. Quando eu souber o que dizer sobre isso, escrevo uma continuação, mas pode demorar um pouco – em 23 anos de vida, eu infelizmente ainda não encontrei nenhuma estrela dentro de mim.
Uma vez, uma amiga escreveu que encontrou os olhos de Jesus no espelho. Eu sempre fui uma pessoa sensível e poética, mas eu achava aquilo misterioso demais. Eu era acostumada a encontrar Jesus na Palavra, nas canções, nas obras de arte, no pôr-do-Sol. Mas no espelho? Em mim mesma? Impossível. Eu pensava na época que ela era algum tipo de pessoa especial em quem Jesus habitava plenamente a ponto de vazar pelo olhos, mas isso porque eu ainda não entendia muito bem quem eu era. Eu descobri com o tempo que eu me tratava como uma máquina, e me descrevia como uma máquina, e tentava ser como uma máquina. E máquinas não têm alma, muito menos Espírito.
Sentar-se na frente do espelho é um exercício lamentável, se você é mulher. Você quer enxergar algo de bom em si, procura seus ângulos mais bonitos, joga um sorriso pro alto, infla o peito, murcha a barriga, empina a bunda, e depois se desmancha, desanimada. Conta todas as pintinhas e manchinhas do rosto, imagina um novo corte de cabelo, ou quais roupas te fariam parecer mais bonita que você é. Às vezes você chora, o que só piora o quadro – além de enxergar tudo que te desanima sobre seu rosto e corpo, você se lembra de tudo que te desanima sobre seu coração.
Eu sempre lamentei todas as partes que faltavam em mim, porque elas estragavam meu amor por mim, e, enfim, quem amaria alguém com tantas partes faltando? Eu queria ser inteira, ter um coração curado de todas as vezes em que foi quebrado, uma consciência limpa de todas as vezes em que quebrou os outros, um humor leve, um raciocínio menos entulhado de tanta ladainha, uma imaginação despoluída das coisas decadentes que eu colecionei pela vida. Inteira, completa. Perfeita.
Um dia, lendo Isaías 53, eu dei de cara com uma lembrança da humanidade de Jesus. “Desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento (…) Certamente Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças”. Jesus não só era humano, era homem, mas tomou sobre Ele as mazelas, as nossas mazelas. Pediu pra que nós lançássemos sobre Ele nossas ansiedades. Disse que nos aliviaria. Olhei no espelho de novo.
Eu via a mesma pessoa. Os mesmos buracos. As mesmas olheiras escuras, as bochechas cheias, a postura encurvada, a mandíbula torta. As mesmas partes faltando. Eu não podia fazer muito sobre elas, mas, em cada pedaço que eu não tinha, eu sabia que Ele estava lá, preenchendo os vazios. Ele É tão grande que cabia até no buraco negro que eu guardava no peito. Como uma tampa, que segura o fluxo de um ralo muito violento, que estava me engolindo. E, no vazio dos meus olhos, Ele era o brilho discreto, no canto, que, ao fim dos dias mais difíceis, me lembrava que ainda havia esperança.
Eu achava que minhas imperfeições eram uma maldição, porque elas nunca seriam totalmente resolvidas. Eu poderia me esforçar pra sempre, mas nunca conseguiria vencer a humanidade, minha carne, meus ossos, meu sangue, e essa pele cheia de cicatrizes. Mas existe algo nas minhas manchas que me lembra que eu preciso, eu careço de algo maior, que carregue o fardo que eu não aguento, que alimente a esperança dos dias vindouros, que me salve de mim mesma quando eu não me suporto. Alguém infalível, que eu possa admirar sem restrições, alguém digno da minha adoração, do meu louvor. Alguém que já estava dentro de mim, mas eu mesma não entendia. Que bom te ter aqui, Jesus. Fica pra sempre. A casa é Sua.
Vincent van Gogh. Noite estrelada sobre o Ródano (1888). Musée d’Orsay.
Era quase meia-noite, cruzando de ônibus uma das muitas pontes de Paris, entrando na cidade. A luz da lua e das estrelas sobre o rio Sena fazia parecer o Ródano, e os tons de azul da noite faziam suspirar as cores e amores de um pintor em especial. Era tarde, mas eu não hesitei em fazer uma parada não planejada ali perto. No fim das contas, eu já desviei meu caminho por coisas menos belas.
Ele já estava me esperando, tão debruçado sobre a ponte como se quem observasse mais o abismo da queda que a superfície das águas. A ilusão era completa, com cabelos vivamente laranjas, como se pintados de tinta acrílica brilhante. Quem sabe haveria até uma cafeteria aberta por perto. São poucos os momentos em que a vida é naturalmente graciosa com quem vive com a cabeça nas nuvens, mas, nessa noite, eu diria que várias horas de desgraçamento mental pagariam um pouco. Eu teria uma conversa com Vincent van Gogh.
“Quantos tons você enxerga?”
“Bom, depende. Quantos tons existem pra se enxergar?”
“Esse é exatamente o segredo, você entende? Existe sempre um tom entre o outro. Um entretom, e entre os entretons, um entre-entretons. É virtualmente infinito.”
“Quantas cores dif—” (eu provavelmente deveria ter me lembrado que ele não era conhecido por ser um bom interlocutor)
“Você entende, na verdade, que a riqueza não está no fato de haver tantos tons e nuances, mas na percepção apurada que consegue percebê-los. Um olho comum, um olho qualquer, só enxerga que lhe convém que existam as cores primárias, por exemplo, e algumas secundárias pra fechar a conta. Essas pessoas, não poderiam estar mais distantes dos céus, quanto os céus estão distantes da terra.” Não quis me arriscar a ser interrompida de novo. Não havia mais ninguém na ponte.
“A maioria dos mortais, você vê, é tão pobre, que vive uma vida leve mediante a superficialidade. Só tocam a superfície do que é belo, porque o que é belo na superfície pode ser tocado por cima, sem nos tocar fundo. Arranhar, cavar a terra, encontrar na ponta mais distante do solo, as raízes, as origens, o sustento, tudo isso custa muito. A vida, ela pesa sobre quem quebra os frascos de vidro e se banha no perfume genuíno, na essência de todas as coisas.”
“As cores, elas são belas?”
“As cores que você nomeia, talvez, mas mais é o que se faz com elas. O Deus Criador pinta os céus todos os dias, a todas as horas, em todos os minutos em que as nuvens e as luzes explodem em cores, e nunca os céus de um dia são totalmente iguais aos do outro. Nem mesmo nos dias cinzentos e nublados. Isso, isso é belo. Nós somos o esforço.”
Ele continuou, de costas para o rio, observando os prédios da cidade, ao longe.
“Eu sinto pena de quem espreme os dias em ordens infinitas, certo de que, na ordem, existe uma segurança engarrafada, que pode ser bebida, que tem o mesmo gosto de felicidade. Esses são os que sentem pena de mim. A vida pesa, todos os dias, quando você contempla um abismo, e um abismo chama outro abismo, mas, só das coisas mais profundas pode sair qualquer esperança de contentamento, ainda que a dor seja inevitável. Vocês querem beleza? Olhem para as nossas cicatrizes, dos cortes que a vida nos deu. Elas não mais sangram, mas ainda doem um pouco toda vez que você aperta.” Ele apertava meu braço, como quem sabia que a minha pele sem manchas aparentes escondia marcas que não eram visíveis aos olhos.
“Eu nunca vi beleza em mim.”
“Eu nunca tive beleza em mim. Pelo menos, na superfície, ela passou muito rápido. O tempo e as dores foram ingratas. Mas eu tirei beleza de mim, tirei a beleza de dentro. As pessoas se lembram de mim com pena, com duvidas e questionamentos, mas elas não contemplam o ponto mais crucial dos meus 37 anos.” Estávamos como espelho um do outro, encarando o rio de novo, com os rostos apoiados nos punhos.
“E qual seria?”
“Eu nunca fui tão inocente, sempre soube que meus dias acabariam cedo. Mas, ainda que meu corpo morresse, toda a vida que havia em mim explodiu em cores e formas e pinceladas em telas. A vida que havia em mim continua vivendo e fazendo viver outros. Ainda que fosse uma outra pessoa só. Isso já significa alguma coisa.”
Passamos algum tempo em silêncio, escutando o som suave das águas correntes. Os carros que passavam ocasionalmente não faziam desaparecer o meu delírio. Nenhum outro ônibus deu sinal por aqueles lados.
“Eu queria poder voltar no tempo.”
Vincent não me respondeu. Tomou meu rosto em suas mãos, virando de um lado para o outro, como quem avalia a qualidade de uma antiguidade. “Você tem beleza sim, Amélia, mas tem muito rosto no meio do caminho. Precisamos espremer suas cores pra fora, primeiro.”
Eu não me lembro exatamente como aconteceu, mas, mal pisquei, e já estava sozinha de novo. Não teve café, nem conhaque, mas teve um gosto amargo de tinta na boca. Cuspi no rio, mas não passou. Fui embora a pé.
Não sei você, mas eu e mais uma pilha de gente tem relatado constantemente um cansaço em relação ao aplicativo de mensagens e comunicação instantânea. Ao contrário do que seu pai ou algum cronista conservador poderiam afirmar, não é uma rejeição à vida “vazia” e “de aparências” de internet – apesar de haver alguma conexão distante. Diretamente, é uma questão dos limites que nossa mente nos impôs, em relação à interação com outros, e o caos que se instaura quando se tenta extrapolá-los.
Você provavelmente já ouviu falar daquela história de que uma pessoa só consegue interagir com qualidade com cerca de 150 pessoas, em seu círculo social. Esse dado, chamado “número de Dunbar”, foi averiguado pelo antropólogo britânico Robin Dunbar, ao longo de vários experimentos sobre interação social, primeiro em primatas, depois em seres humanos. Outros pesquisadores, com o fenômeno das redes sociais, tentaram, de várias formas, demonstrar que a internet poderia alterar esse número máximo de interações, mas só conseguiram provar as limitações cognitivas sociais dos indivíduos. Ou seja, não adianta tentar abraçar o mundo todo com as pernas. Você pode até ter um coração de mãe, mas, social e biologicamente, você vai ter superlotação em algum momento. E isso já está acontecendo.
Na verdade, isso acontece sistematicamente desde que você é criança, e aconteceu com seus pais, avós, bisavós, e todo mundo, basicamente. A vida passa, as pessoas vêm e vão, algumas ficam, outras não, e nossos círculos sociais vivem em uma dinâmica constante. Tem gente que sente raiva pelos que não ficam, e culpa quando são eles próprios quem vão, mas, mesmo nos limites mais saudáveis de interação entre humanos, as relações não serão totalmente fixas e estáveis. Mesmo um casamento, por exemplo, que é pensado para ser pra sempre, é apenas de um momento em diante, não dura a vida “inteira”, desde o primeiro fôlego ao último. Se cada vida fosse uma linha, o universo seria um grande novelo, um emaranhado de linhas diferentes, sobrepostas, entrelaçadas, separadas, mas todas indiscutivelmente individuais e únicas.
O problema das redes sociais é que a intensidade das interações e comunicações na esfera virtual geram algumas confusões. Aquela falsa impressão de proximidade e familiaridade que se sente por acompanhar a rotina online uns dos outros complica os limites que existem nos círculos sociais de cada pessoa. Uma interação superficial frequente pode gerar, em uma pessoa, uma sensação de um vínculo mais profundo do que a outra parte supõe, o que leva a muitas frustrações infundadas – por exemplo, seu amigo de Instagram que não te convidou pra festa de aniversário dele, ou a pessoa que se ofendeu com você porque você não a convidou, a despeito dos vários tweets que trocaram ao longo da semana anterior. Algo nesse sentido.
E, aliás, existem muitos limites entre a interação virtual e a interação real. Não tem como chamar pro seu casamento ou pro seu aniversário todas as pessoas que “torcem pelo seu bem” pelas redes, principalmente pessoas que não fazem parte do seu dia-a-dia realmente, as coisas são sempre mais complicadas que isso. Hoje, vi no Twitter um amigo comentando de como estava devendo muitos cafés, cinemas, encontros com tantas pessoas, marcados pelas redes, alimentados pelas redes. Os nossos muitos círculos se sobrepõem o tempo todo, entre trabalho, faculdade, igreja, academia, os amigos exclusivamente da internet, e manter contato virtual com gente do passado, por exemplo, é extremamente desgastante, porque gera uma cobrança de tentar manter todas as pessoas da sua história na sua vida ao mesmo tempo. Porque, de alguma forma, vocês se sentem participantes da vida um do outro, e obrigados a tentar manter algo que talvez tenha perdido a espontaneidade, que não faça mais tanto sentido, ou que simplesmente tenha sido superado. Não que eu seja defensora de simplesmente fechar portas do passado; eu valorizo laços, valorizo alianças! Mas é inegável que a vida segue, todos os dias, e, por mais difícil que seja aceitar, as pessoas seguem também.
E existem ainda outros agravantes nessa situação, como o caso dos influenciadores digitais, que atraem muita gente por serem figuras de referência e destaque no ambiente virtual. Desde aqueles que têm milhões de seguidores e impacto mundial, até os que colecionam alguns milhares e influência muito local, no ambiente virtual, onde as interações são muito fáceis, isso gera um acúmulo de atenções em alguns indivíduos que pode ser extremamente cansativo. Toda nova interação gera na outra parte a esperança de uma amizade que é de seu interesse, e gera um contato insistente que é objeto de frustração pra uma parte, e incômodo para a outra. E tem aquela sensação constante de que todo mundo tá sempre se achando no direito de opinar na vida do outro, sendo que, pra início de conversa, expôr-se nas redes nunca foi se fazer objeto da opinião pública. Nunca deveria ter sido.
E isso não se restringe à quem tenha alguma influência virtual, de forma alguma. O problema está mesmo nesses limites mal-definidos de interação, amizade, contato, e nossa própria capacidade de gerenciar tanta gente ao mesmo tempo. Estamos saturados. EU estou saturada! E a culpa é meio minha, meia dos outros. Principalmente pra pessoas como eu, que gostam de se colocar à disponibilidade de ajudar todo mundo, sem pensar se terão tempo ou disponibilidade real para isso. A culpa não é das pessoas por responderem à uma mão aberta que eu mesma estendi, mas sempre tem quem abusa, e, bom, isso aqui não é um ensaio sobre quem é mais responsável pelo problema.
O WhatsApp virou bode expiatório desse momento de saturação porque é o mais instantâneo dos aplicativos, aquele que gira em torno de ser uma ferramenta direta de comunicação. Mas é tudo um sistema, porque todo mundo já se irritou quando esperava uma resposta de alguém, e via que essa pessoa estava ativa em uma outra rede social. Esse tipo de irritação se resolve com um exercício simples de empatia. Colocar-se no lugar dos outros te ajuda a tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado, mas não se irritar com quem pode estar tentando fazer a mesma coisa, e falhando, como você mesmo já deve ter falhado. Mas não é suficiente.
Quando limites são quebrados, ultrapassados, é preciso se posicionar firmemente para reestabelecê-los. A nossa vida deve ser um esforço cuidadoso para não dar motivos pra que ninguém se escandalize conosco, mas sabendo que isso é inevitável, porque as ações e pensamentos dos outros são incontroláveis. Afastar-se de algumas pessoas, cortar alguns laços, deixar de responder algumas mensagens. Sair das redes, para os mais radicais – meu pai, inclusive, usa apenas WhatsApp na vida, e não poderia estar mais tranquilo e satisfeito. Também explicar com cuidado a alguns que nem tudo aquilo que se quer fazer, tem-se tempo para. Eu, por exemplo acho profundamente difícil dizer não pras pessoas que me procuram em busca de algum tipo de ajuda ou auxílio, mas eu estou, no momento, no limite do que consigo fazer, na altura dos meus 22 anos.
Os gregos entendiam que limite é “a partir de onde uma coisa consegue existir em sua própria essência” – ou seja, ser plenamente ela mesma. Seu limite, nosso limite, é o limite da nossa humanidade, e, até onde eu saiba, não temos capacidade pra ser plenamente nada além de humanos. Quem é Onipotente é Deus, eu sou só uma trouxa que tem mensagens demais sem responder no WhatsApp. Aliás, me perdoem por isso, porque a maioria não é de propósito. Não posso prometer que vou melhorar porque estou fazendo meu melhor e não consegui gerenciar, ao mesmo tempo, todas as pessoas que eu de alguma forma amo e com quem me importo na minha vida. Não conseguir lidar com todas ao mesmo tempo não é, nunca foi, sobre não ter sentimentos, mas sobre a dialética da vida colocada diante disso tudo. Tudo começa e termina e, como isso não pode ser impedido, mais sábios seríamos se tirássemos disso a beleza e a delícia de estar vivos.