Eu sou difícil de amar.

     Ou, pelo menos, foi nisso que me fizeram acreditar a vida toda. Eu não era suficiente pra que ninguém se esforçasse. Chata demais, espinhosa demais, especial de menos, bonita de menos. Desde criança, consciente ou inconscientemente, a mensagem que as pessoas que passaram pela minha vida foi uma só – você é difícil de amar.
    
     Ninguém queria se esforçar pra entender meu jeito de falar, ou de pensar, de me vestir, de me comportar, apesar de eu ansiar tanto por um pouco de compreensão, alguém que sinalizasse que eu não estava sozinha dentro da minha cabeça no mundo. Nem meus pais escaparam dessa. Não os culpo, porque eu sei que, de alguma forma, eles achavam que me fariam bem, apontando as dificuldades de relacionamento que havia entre eu e o mundo. Mas algo se perdeu nessas boas intenções também.
    
     Não é surpreendente que, no meio de toda essa bagunça, mesmo tendo crescido na igreja, eu tenha passado meus 22 anos de vida sofrendo com um sentimento de que nem Deus seria capaz de me amar. Mesmo conhecendo e experimentando de todo o maravilhoso cuidado do Pai comigo ao longo de toda a vida, e a insondável profundidade do seu Ser, essa barreira não se fechava. Não se fechou, aliás. Não completamente. Eu vivo em altos e baixos dessa jornada de contemplar minha própria imperfeição nas superfícies reflexivas da vida, e não saber olhar pros céus depois disso. Algo sempre morre um pouquinho.
    
     Eu já falei milhares de vezes aqui sobre o perigo de colocar sua esperança no amor dos outros, mas acho que esse é um erro que todos vamos acabar cometendo, em algum momento, antes de acertarmos o alvo das nossas expectativas. Até porque o ser humano foi essencialmente criado para relacionamento, para amar e ser amado, e, em primeiro momento, é muito mais fácil se apoiar naquilo que está bem diante dos olhos. Aliás, eu diria que a vida é toda sobre o que amamos ou deixamos de amar entre o espaço e o tempo. Um movimento constante de aprender e desaprender, mas tudo sempre gira em torno disso. Não à toa, do nosso coração procedem as fontes da vida.
    
     Eu posso descrever com exatidão a forma como meu coração se aperta toda vez que eu experimento algum tipo de rejeição, mas existe também uma forma muito específica como meus ombros se relaxam quando eu me enxergo nos olhos de Jesus, o verdadeiro espelho pra mim. Saber que você é feitura divina é uma verdade que demora a descer da cabeça pro coração. Saber que você não nasceu pra agradar a todos, que sua individualidade é linda, são tantos clichês que, de tão repetidos, parecem nem fazer sentido mais. Parecem até mentira.
    
     Muitas pessoas foram responsáveis por me privar de viver a verdade do Amor genuíno que o Pai derramou sobre mim. E, pro meu total desespero, eu já fui responsável por privar outros de acreditar que eles eram dignos de amor e atenção. Essa contradição ambulante entre o que eu vivi e o que eu queria viver e o que eu já fiz e o que eu queria fazer gerou um sentimento profundo de empatia dentro de mim. Como olhar pra outra pessoa e não enxergar nela os mesmos cacos que me tornaram o vaso quebrado que eu sou? Enquanto Ele não volta, continuamos sendo refeitos, sujeitos a quebrar de novo, e de novo, e eu preciso amar todos os vasos em pedaços que existem por aí, tanto quanto eu gostaria que amassem os meus caquinhos.
    
     Sempre parece uma idiotice colocar dessa forma, em palavras tão simples, porque amor, misericórdia e compaixão na prática são a maior batalha que nós enfrentamos. Principalmente quando a pessoa a ser amada é exatamente aquela que nos magoou. Acho que é esse o ponto em que tudo converge e se encontra. O mais profundo do nosso Amor é testado no perdão, e na capacidade de se enxergar no lugar de quem não foi capaz de fazer isso por você.
    
     Por coincidência (ou não), amar àqueles que nos fazem mal, àqueles que nos matam, que nos pregariam numa Cruz se pudessem, foi exatamente aquilo que o Ponto de Convergência de toda a dispensação dos tempos fez. AquEle que se entregou por Amor, obediente até a morte. Aliás, aprender a Amar é poder contemplar o pior e ainda assim enxergar o melhor. Quem de nós é capaz de fazer isso? Assim como em Cristo, um pouco de nós sempre morre nesse processo. Eu prefiro pensar que aquilo que me torna difícil de ser amada aos olhos dos homens some um pouquinho quando o caráter dEle aparece em mim.
    
     Todo esse fluxo de ideias confusas é só um reflexo de sentimentos confusos, que, somados e subtraídos, são só as consequências de um coração machucado tendo que se recuperar de novo. Eu nunca fui dessas que foge dos processos, mas amar, às vezes me dá vontade de voltar atrás. Poder viver minhas mágoas e cultivar rancor e amargura em paz, até que me consumam totalmente. Mas, acho que, no final, de tantas mortes diferentes, tudo que eu quero é encontrar Vida. A minha, a dEle, pra que nós possamos ser um, e eu consiga finalmente aceitar que, sim, meu Pai me ama, apesar de tudo aquilo que eu odeio sobre mim, e que os outros odeiam também. A realidade é dura, mas a verdade é bela. Existe esperança no meio do caos. Existe Amor. Tanto pra mim, quanto pra você.
    

O Jesus que você inventou

    Vamos começar essa reflexão entendendo que existe uma distância entre quem as pessoas realmente são, e a ideia que nós temos delas. Nós somos virtualmente incapazes de conhecer e compreender plenamente a complexidade de sentimentos e pensamentos que os outros são, porque sempre olhamos pra eles a partir da nossa própria complexidade de sentimentos e experiências. O Único capaz de te conhecer plenamente é aquEle que criou e não apenas viu, como viveu com você, todas as experiências da sua vida.
   
    A afirmação é válida inclusive pro maior de todos os homens, Jesus, o Cristo, aquEle que dividiu a história entre antes e depois de Seu nascimento. Nossos olhos não viram seu rosto, nem nossos ouvidos ouviram Suas palavras, ou nossas mãos apalparam Suas mãos, mas Ele continua aí, sendo maioria absoluta na face da Terra.
   
    Aliás, em um mundo religiosamente complicado, muita gente foge dos rótulos dizendo que só tenta viver sendo como Jesus. E, não me levem a mal, eu mesma solto essa de vez em quando. Mas a geração do “O que Jesus faria?” se acidentou em algum momento, porque se esqueceu que Jesus é vivo, e Ele não faria – Ele faz, e está fazendo. E Ele sempre disse que apenas fazia o que via o Pai fazendo, então fica bem estabelecido um padrão – fazer o que o Pai está fazendo. Então, a lógica me manda imitar não apenas a superfície das atitudes de Jesus, mas a origem de todas elas, porque elas seguiam um princípio do qual eu não posso fugir, se realmente decidi devotar minha vida a ser como Ele.
   
    [Se você não acredita em nada do que eu falei até o momento, imagino que possa pelo menos concordar que Jesus foi um cara muito importante e digno de imitação. Aguenta firme aí.]
   
    E aquilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nos é revelado pelo Único que está conosco até hoje, e que conhece as mais profundas profundezas de Deus. O Espírito Santo vive em nós, e não há desculpa que nos isente da responsabilidade de cumprir a vontade de Deus, a única que Jesus aceitou sobre Sua vida. Assim como Ele não veio pra fazer o bem, mas para cumprir Seu papel no bom propósito do Pai, estabelecido nEle mesmo, eu e você também não viemos para andar pela terra como seres de luz cheios de frases de efeito. Viemos cumprir uma missão, estabelecida antes da fundação do mundo.
   
    O problema é que a figura de um homem bom, cuja vida terminou em sacrifício, é muito conveniente pra sociedade dos cidadãos de bem. É lindo que eu fale que quero ser uma pessoa iluminada e cheia de amor. Mas, se sou eu quem decido o que é luz e o que é amor, isso é apenas um alívio de consciência e um disfarce pro meu egoísmo. A Vida não é, nunca foi, e nunca será, o que nós queremos que ela seja. Ela é muito grande, muito maior que nós, pra que possamos segurá-la com nossas próprias mãos humanas, e achar que nossa individualidade tem o direito e o poder de fazer com que o Universo gire em torno da nossa lista pessoal de achismos.
   
    O homem bom favorito da sociedade ocidental não era nada como essa sociedade tentou pintá-Lo. Mudaram não só Sua aparência, mas suavizaram Suas palavras e o transformaram num retrato genérico de tudo aquilo que nós queremos que seja bom, puro e agradável. Um ser “de luz”, que “fazia o bem” e deixou o Amor como mandamento. Aliás, “Jesus é Amor!”, eles gritam – mas amor não é Jesus.
   
    Jesus não foi uma pessoa boa. Jesus trouxe uma espada, porque Ele é a Verdade, e a Verdade não é negociável – ela é ou não é. Jesus trouxe justiça, Jesus proferiu exortações, deixou instruções precisas sobre como se deve viver a vida, e não pílulas genéricas para ser feliz. Até porque pessoa boas não transformam a sociedade! Atitudes generosas esvaziadas de propósito não transformam a sociedade. A humanidade tá aí há séculos tentando provar que consegue usar a gentileza pra mudar a natureza decaída do homem. É necessário algo maior. Um mundo inteiro afundado em corrupções precisa de uma grande estratégia, precisa de visão além do alcance, precisa de um exército bem treinado e um General apto a discernir as intenções e as atitudes dos corações, para que a essência do convencimento do mal possa alcançar tantos quanto seja possível. Te parece exagerado? Pois era assim que Jesus vivia.
   
    E não me entendam mal, Ele era bom, muito bom. O Único genuinamente Bom. As Suas palavras duras eram boas, Seus milagres eram bons, Seus mandamentos eram bons. Ele se preocupava com os pobres, com os fracos, oprimidos, doentes. Ele entregou tudo de Si. Mas em obediência ao Pai, dentro de um projeto, de um propósito, tudo por Amor. O verdadeiro Amor, muito além do que nossa mente humana consegue aceitar; que não é egoísta, que não busca os próprios interesses, nem a própria vontade. Amor à Vida e ao que é Eterno, em seu sentido mais puro e pleno – conhecer e prosseguir em conhecer o Único que vive eternamente. Ele abriu um Caminho para ser trilhado; não inaugurou um estilo de vida, mas um Reino.
   
    Jesus não é um medicamento genérico que cura todas as suas dores, Ele é uma injeção precisa que te mata, depois te ressuscita. Ele não é uma lâmpada que você encaixa em qualquer lanterninha, Ele é a própria Luz. Se só te interessa iluminar alguns, a história está cheia de homens e mulheres de bem. Se te interessa buscar e encontrar a Salvação, a boa notícia é que Ele é o Salvador do Mundo. Mas Ele também é Senhor. Não tente fazer dEle seu servo, não tente inventar a sua versão daquEle que criou todas as coisas. Ele é o Rei desse Reino, o ponto de convergência de todo esse bom propósito, o dono do Poder. Ele é. Eu e você, não.

    
    

O que eu vi dos assentos baratos

     Nós não tínhamos dinheiro pros assentos mais caros da casa. Mas faz parte. O salão não é feito só da primeira fila, nem da segunda, nem da terceira. Nem da vigésima. Nem da quinquagésima-terceira, onde nos instalamos. Sentamos os dois em bancos de fundo, de canto, perto do papel de parede rasgado e dos braços de poltrona quebrados, onde casais se amavam e se amassavam (nós, não).
     
     Não dava pra dizer se os atores tinham nariz grande ou queixo quadrado, nem de óculos. O som das suas vozes ecoava agradavelmente por todos os lados, mas os sons do fundo se misturavam. Perto da rua, eu conseguia ouvir o ir e vir de carros, me lembrando que a vida não parava. Ouvia ao longe as vozes de fora, e os sussurros das vozes de perto, com tédio demais, ou empolgadas demais. Quem havia estado ali uma dezena de vezes recitava as falas sem soltar grandes sons, mas, dos assentos baratos, eu via o vulto de seus lábios se movendo.
     
     Vimos duas baratinhas que se moviam incessantemente pelo teto, tão perto de nós, e cruzavam com uma fila de formigas pretas. Tinha chiclete no cabelo de alguém cinco fileiras depois de nós. Som de gente passando com pipoca. Um lanterninha passou metade do tempo parado no nosso campo de visão, cobrindo metade da cena. Brincamos de adivinhar o que acontecia atrás. Ele estava muito longe para que pedíssemos licença.
     
     Alguém quase na frente filmava tudo discretamente, escondendo a câmera no ombro dos outros. A menina ao nosso lado atendeu o telefone cerca de cinco vezes antes do primeiro intervalo. Outro lanterninha, parado atrás de nós, fungava a cada dois minutos, espirrava a cada quatro. As duas baratinhas viraram três, depois quatro, depois três novamente. A distorção de escala era tanta que eram quase maiores que as atrizes no palco. E elas se misturavam com as cenas numa tragédia kafkiana, e que só existia no nosso ponto de vista. Uma história feita nos assentos mais baratos da casa.
     
     As luzes se acenderam. Quem sentou na frente assistiu com detalhes a peça inteira. Nós assistimos tudo e todos. Valeu cada um dos dois mil centavos.

    

    

Sobre Estantes e Malas

     Pessoas ansiosas são inclinadas a filosofar sobre o Tempo, porque ele sempre passa muito devagar. Quando tudo parece desejo adiado, só um exame aprofundado dos enganos do Chronos pode fazer sossegar um coração que se arrasta pelos dias e semanas antecipados.
   
     Há dois anos, eu me preparava pra ficar longe pela primeira vez. Eu cresci tendo a certeza de que faria isso, mas nenhuma antecipação me preparou pro peso de virar as costas pra certas coisas e abraçar outras, com tanta distância física no meio. Mesmo sabendo que 11 meses depois eu voltaria. Hoje já fazem 9 meses que retornei, mas o processo de pensar e repensar tudo não para, porque eu sei que construir e seguir em frente pro próximo projeto é a vida pra qual eu fui chamada.
   
     Muita gente já escreveu sobre isso – nossa identidade é essencialmente memória. De onde viemos, o que vimos, ouvimos, apalpamos. Eu mesma já falei muito sobre a vida como construção, assim como a vereda do justo, que vai brilhando mais e mais, até que seja dia perfeito. Eu tenho muita história, e você também, todo mundo tem. Nomes, fatos, lugares, pequenas lembranças, livros que leu, dores que sofreu. Eu sou uma pessoa de lembrancinhas, gosto de guardar algo significativo de tudo que vivo – uma pedra, um ticket, algo que me faça reviver os cheiros e sabores de outros dias. Minha casa transborda de coisas insignificantes que significam o mundo pra mim. Minha família, meus amigos, minhas viagens, meus livros, minhas dores, tudo que couber na minha estante.
   
     O problema é que casa não cabe na mala. A altura, largura e profundidade dos dias não vai comigo quando eu vou – ao menos, não integralmente. Quanta coisa já ficou pra trás! Quantos sorrisos eu nunca mais vi, em quantos lugares eu não pisarei de novo. Quantas dores se foram pra não voltar mais – glória a Deus! As memórias, as marcas ficam. Nem tudo dá pra apagar. Tem coisa que ainda machuca quase como quando aconteceu. Tem gente que não vai voltar, mas a gente ainda olha pela janela como se fosse passar de novo.
   
     Mas a vida continua seguindo. Logo menos, eu faço as malas de novo. Eu amo tudo que guardei, tudo que tenho, até o que me dilacerou, mas abriu caminho pra que eu crescesse. Espero poder jogar certas coisas fora com o tempo, mas, quando for a hora de sair de casa, não quero fazer questão de muita coisa. Não por falta de amor, nem de consideração, mas por respeito ao limite de bagagem que a vida impôs. Eu vou mais leve quando sou mais simples, não como quem tem pouco, mas como quem soube guardar seu muito no lugar certo.
   
     Eu escolhi pedir pro Senhor uma mala pequena, pra caminhar sobre a vida apenas com o necessário, que, no fim de tudo, é só Ele mesmo. E Ele me deu uma estante enorme, onde guardar tudo aquilo que eu mais amei, mais amo, tudo aquilo que me construiu, pra que eu um dia construísse também. O mais importante de tudo, pra quem vai, sempre foi ter pra onde voltar. E eu tenho um Lar.
    

O Caráter do Arquiteto do Universo

     Os niilistas se desiludiram na vida porque somaram todas as probabilidades e entenderam que nada aqui faz qualquer sentido. Nascer, crescer, sentir, viver, amar, nem o famoso “viver pra fazer o bem” fazem sentido se todo mundo vai nascer e morrer igualmente. Mudar a vida das pessoas? Você e o outro vão se esquecer, vão morrer; nada tem valor, a menos que exista um projeto maior. Os tais do niilistas não acreditam que o tal do projeto exista. Eu testemunhei dele. Conheci o Arquiteto.
     
     Aliás, eu sou uma arquiteta (bom, quase), mas um dos caras que eu mais tentei imitar na vida era Físico. Meu amado Albert Einstein não acreditava em Deus, não como eu acredito, mas ele entendia, por observação, um princípio que eu aprendi com a boa prática de projeto – Deus não joga dados com o Universo. A mais excelente experiência projetual vem através de um trabalho exaustivo de garantir que todos os fatores possíveis e imagináveis sejam coerentes, coesos, funcionem juntos, e, mais importante de tudo, sejam as respostas adequadas aos problemas que eles respondem. Projeto, essencialmente, é isso, uma resposta a um problema – pode ser uma resposta artística, técnica, determinista, livre, espontânea, aberta, fechada, matemática, mas começa numa necessidade e termina em como o Arquiteto a resolve.
     
     E dois Arquitetos diferentes não projetam um mesmo programa de necessidades da mesma forma, porque o charme da Arquitetura é o caráter e a personalidade de quem projeta permeados nas linhas do desenho do projeto. Tem uma essência específica do Niemeyer nas curvas que ele desenhava que não está presente na curva ampla que Lúcio Costa desenhou, cortando Brasília de Norte a Sul. Os ângulos retos de Mies van der Rohe não são os mesmos que os da Lina Bo Bardi. E, falando da Lina, a semelhança entre seus projetos está nas sutilezas de quem ela era, porque ela soube, como poucos, responder com exatidão artística e técnica às necessidades colocadas diante de si. Entre no SESC Pompeia e se maravilhe com os inúmeros detalhes e a explosão de usos e sentimentos que eles podem inspirar. E se pessoas foram capazes de obras tão sublimes, quanto mais aquele que a Palavra chama de “O Arquiteto do Universo”. Aquele que lançou os fundamentos da terra, levantou os limites dos mares, ensaiou o balé das estações e colocou o planeta pra girar, dia e noite, sem parar, através da mais sublime Sabedoria.
     
     Qualquer dia muito ruim pode ser suavizado por alguns minutos com um pôr-do-Sol enquadrado por uma janelinha. Você tromba exatamente com quem queria na rua, numa precisão geométrica, sabendo que, se tivesse olhado pro ângulo errado, teria perdido. Às vezes, escapa por pouco de bater o carro e, no dia seguinte, precisa muito dele. Às vezes, bate o carro, e no dia seguinte, de ônibus, escapa de um assalto no atalho que pegava todos os dias, ou passa um bom tempo não planejado em casa com sua mãe, de repouso de uma perna quebrada. Um problema que acontece hoje faz todo o sentido três meses, ou três anos, ou trinta, depois.
     
     Uma sucessão de incertezas e fatalidades não gera beleza. O final de uma roleta russa só pode produzir morte. Jogar dados é um desafio de azar. Um bom projeto, no entanto, produz relações ricas, se adapta às múltiplas pessoas que o vivenciam todos os dias, e permanece no tempo se for sempre bem gerido, bem cuidado. É esse o caráter de Deus, o Arquiteto disso tudo, e Edificador, e Gerente Supremo. 7 bilhões de pessoas vivas, milhares morrendo, milhares nascendo, todos os minutos, riqueza, pobreza, guerra, fome, e nossa capacidade humana de levar o livre-arbítrio às últimas péssimas consequências. Ainda assim, por mais que seu pessimismo tente te convencer do contrário, você sabe que existe esperança, porque, na multiplicação das possibilidades, você entende que a chance de que você estivesse aqui, agora, é tão ínfima quanto a chance de que Deus exista.
     
     Aí começa a fé.
     
     Você é completo e perfeito sendo exatamente quem você é, algo que ninguém mais é capaz de fazer no mundo, mesmo entre 7 bilhões (e uns quebrados) de pessoas. Olhe pra exatidão do Universo e descubra o que o Arquiteto diz sobre quem você é – talvez você seja uma porta, uma parede, uma pedra do jardim, ou uma tubulação de esgoto, e esse projeto não funciona plenamente sem a sua função – pode até estar em você a solução para os problemas dos quais você tanto reclama. Se te falta conhecimento de quem você é, ou do que você faz, divirta-se com um bom estudo de caso – leia O Livro, converse com outros funcionários, analise os desenhos, e sente-se e convide o Arquiteto para um café. A agenda dEle está sempre aberta pra você.
    

Eu, um Estereótipo.

        Eu consumo ficção loucamente desde que me entendo por gente. Livros, filmes, desenhos animados. Boa parte da minha visão de mundo, por muitos anos, foi moldada por histórias e personagens da ficção. Meu pai sempre me disse que isso me dava uma visão distorcida da realidade, e, por mais que eu negasse, o fato era que eu amava minha visão distorcida da realidade.
    
     Eu sempre fui uma menina com dificuldades razoáveis pra me encaixar nos lugares e me sentir confortável em meio aos outros. A ficção era a realidade na qual pessoas como eu tinham superpoderes secretos, lutavam contra o crime, salvavam toda a dimensão mágica e ainda voltavam pra escola a tempo de serem zoadas pelos colegas de turma mais uma vez. Os livros e desenhos animados eram cheios de personagens que tinham as mesmas dúvidas e questionamentos que eu, e se sentiam como eu. Então, a decisão mais óbvia diante de mim era que a maneira certa de viver era como eles! Se, nos quadrinhos, as meninas esquisitas sempre achavam um amor no fim do corredor, talvez, se eu agisse totalmente como elas, uma hora, eu encontrasse também.
    
     Isso, obviamente, foi a maior armadilha na qual eu me coloquei na vida. Quando eu comecei a viver desenhando minha história como um roteiro de filme, eu vendi minha identidade pra uma lista de coisas que meu personagem poderia ou não, deveria ou não fazer. Eu assumi vários papéis ao longo dos anos, mas nenhum foi tão decepcionante quanto o da clássica heroína romântica indie.
    
     Batizada de “manic pixie dream girl”, essas personagens são moças de personalidade viva, cheia de manias engraçadas, truques bizarros escondidos na manga, gostos peculiares, encantadoras e sempre dispostas a tirar um homem brilhante da depressão e ensiná-lo a viver como se deve. Era o papel perfeito pro meu coração carente, era a promessa do amor no fim do arco-íris! Ser uma Zooey Deschanel, uma Kirsten Dunst. A Bela de uma Fera – totalmente eu, mas totalmente amável (o que eu nunca tinha sido, diga-se de passagem).

     O fim de todas as minhas histórias foi decepção. Decepção de todo mundo que age como e espera dos outros uma atitude de personagem, ensaiada e exata. Eu fui temporariamente a garota dos sonhos de alguns rapazes, mas o complexo de musa só dura enquanto você é exatamente aquilo que se imagina. E ninguém é tão bom ator que consiga fingir o tempo todo. Viver de aparências gera o espanto de quando caem as máscaras e nós descobrimos pessoas bem menos que perfeitas por trás delas. A Manic Pixie Dream Girl não tinha sentimentos próprios, nunca se chateava, irritava, mudava de ideia, e eu me odiava sempre que fazia isso. Eu odiava ser eu, por isso eu tentava ser ela. Mas ela não era real. E os papéis que eu inventava pros outros também não.

     Eu descobri a vida de verdade quando parei de negar a realidade – a minha, e a das pessoas. Ninguém é um roteiro ensaiado, ninguém é uma coisa só na vida. Ninguém é a garota de cabelo colorido que coleciona broches antigos o tempo todo, nem o herói indie depressivo e brilhante que vai amar suas músicas favoritas. As pessoas engraçadas choram, as pessoas empolgadas desanimam. Ninguém é o que 2 horas de filme podem mostrar. Nós somos cada um como um jardim, e todo jardim tem espinhos, e é assim que a vida é mesmo. Não precisa fingir que eles não existem, como se te tornassem uma pessoa menos admirável. Todo mundo tem seus prós e contras, e nenhuma solidão é pra sempre. O mundo é enorme demais pra isso.

     Hoje, eu tô me esforçando ainda pra aprender a ser eu de verdade. E, acontece, eu sou bem chata, falo demais, rio alto, tenho preguiças, me chateio com várias coisas, sofro por antecipação, e sinto demais, demais, todas as coisas, eu sou um furacão de sentimentos (e às vezes levo as pessoas ao meu redor juntas no tornado). A vida, aos poucos, vai me mudando, melhorando e moldando, mas a única forma na qual eu aceito ser colocada é na melhor versão de mim, desenhada pelo meu Criador. Nunca poderei oferecer perfeição às pessoas, nem esperar o mesmo delas. E a vida é linda por isso.

    

"30 de 22", ou "Por que não estou mais decepcionada comigo mesma"

     Há exatamente 4 anos, eu publiquei neste blog um grande desabafo sobre a minha vida, intitulado 30 de 18, ou “Por que estou decepcionada comigo mesma”. Um mês depois de completar 18 anos, eu coloquei um espelho diante de mim e não enxerguei nada além de coisas que me frustravam, decepcionavam, chateavam. Naquele dia, eu odiei ser eu, não pelo que eu era, mas pelo que eu estava me tornando. No dia seguinte, um vídeo também (pode assistir também).

     Depois daquele 28 de Março de 2013, eu ainda me frustrei muito. Poucas semanas depois, tive uma grande frustração amorosa. Ainda tive outras, meses, anos depois. Tive muitos altos e baixos nas expectativas profissionais. Fiquei obcecada por dezenas de coisas diferentes, de ideologias políticas a séries de TV. Coloquei minha identidade em todas elas, e descobri que não me encaixava em nenhuma. Engordei, emagreci, engordei mais, emagreci de novo, e agora não sei bem. Pintei mil quadros e escrevi dois mil textos, tentando me expressar. Mudei de país, vivi vários sonhos, e voltei pra casa com o gosto amargo de quem descobre que lutou por algo que nem era tão importante assim. Eu vi meu castelinho de areia da vida desabar. E uma das minhas avós faleceu também.

     Passado esse tempo, ainda curto, mas significativo, eu coloco diante de mim, aos 22, o mesmo espelho dos 18. É curioso observar que várias das feridas, mesmo cicatrizadas, ainda doem, como se pudessem se abrir a qualquer momento. Acontece que, essencialmente, este espelho reflete as mesmas coisas que refletia há quatro anos. Minha vida ainda parece um retumbante fracasso, diante das expectativas que eu cultivava sobre mim mesma. A grande diferença hoje é que eu resolvi trocar de espelho.

     Aqueles fracassos não me assustam mais, porque aquelas expectativas não importam. A Luisa de 18 queria ser dona do próprio destino, e se esqueceu que, logo quando nasceu, sua vida foi consagrada ao próprio Autor da Vida. Eu achava que as coisas mais importantes que eu faria na vida viriam antes dos 18, sendo que existe muito mais pra ser vivido. Eu me esforçava pra ser reconhecida pelos homens pelo que eu fazia, como uma extensão do que eu era, mas não percebia que isso me fazia morrer.

     Eu sou feliz hoje. Não como quem acha que já fez o bastante, mas como quem sabe que tá a caminho, no Caminho certo. Eu olho ao meu redor e vejo que, em todo esse fracasso aparente, tem sido gerada uma vida que tem significado. O maior projeto da minha vida não é cumprir meus planos, mas completar a carreira exata para a qual eu fui criada. Se os propósitos se cumprem hoje ou daqui a 25 anos, não importa. E não é que eu não tenha dias frustrados, tristes, ou desanimadores – a vida continua sendo vida. Mas, quando parece que eu vou cair, eu descubro que existe uma segurança maior, como uma rede de proteção me protegendo do abismo.

     A maior frustração que eu experimentei na minha vida foi descobrir que toda a minha racionalidade não era suficiente pra conter a tempestade de sentimentos dentro de mim. Mas a resposta disso foi a Voz que acalmou os mares sussurrando paz à minha alma. A Paz que transcende todo entendimento é sentar-se no barco dentro do mar agitado e ter a certeza de que, qualquer que seja o fim da história, eu confio o bastante nas mãos que estão escrevendo, mãos furadas na Cruz, que também seguram o universo e também meu coração. Agora, me parece que tem um tornado vindo, mas tá tudo bem. Se eu e o barco afundarmos, no final, eu também sei pra onde vou. Dá pra ficar decepcionada, assim?

Sobre a Morte.

     O maior problema que nós enfrentamos na vida é que a vivemos como se ela nunca fosse acabar. Parece engraçado, mas sempre falamos disso pensando nos outros. Eis o fato: você e eu vamos morrer também. Um dia, que parece distante agora, quando eu penso em tudo que ainda preciso fazer, mas parece que chegará em breve, diante da velocidade com que as coisas correm. O Tempo, ele corre.
     O que você faria se tivesse apenas mais um mês, seis, um ano, dez, quinze de vida? A maioria diria que iria então viver, viver tudo que não foi vivido antes. A ideia de saber do fim motivaria uma troca de perspectiva. A ideia de saber do fim motivaria a finalmente viver a vida como se deve, como se gosta, como se deseja. A maioria de nós continua não sabendo quando vai morrer, mas eu tenho um amigo que não só entende que vai, como tem uma ideia bem mais acertada que nós de quando. E ele vive como se deve. 
     A perspectiva correta de se observar a vida é aquela que coloca a coisa mais importante de todas em destaque, e faz o resto parecer menor e menos importante. O fato é que você vai morrer. E, quando você morrer, mais tarde, hoje ainda, ou em 2077, só vai contar o que realmente importa. E isso não é um lugar-comum, um clichê, isso é fato. Pense sobre isso. Coloque-se no seu velório. Não há mais qualquer movimento que seus pés ou mãos possam fazer, não há mais qualquer dia que você possa viver.
     Passei uma boa parte da vida chorando pelo que não tinha. Um dia, eu tive, e não importou mais. É mais ou menos a mesma ideia, no fim – nenhuma das coisas que nós lutamos pra ter, pelo ter, importa. Nenhum dos sonhos que sonhamos pra nós, que vivemos sozinhos, nossas experiências, nada mais importa. Morre com nosso corpo. Jesus me lembrava hoje, mais cedo, “ajuntai tesouros no céu… Seja a Sua atitude a mesma que a minha…”. Ele, sendo Deus, não considerou que ser igual a Deus era algo ao qual devia apegar-se. Divino, esvaziou-se de Si, assumiu a forma de servo, um homem, como nós. Deixou um padrão inabalável – foi obediente até à morte, morte de cruz. Quais são as coisas às quais eu me apego? Nenhuma delas é maior que Ser Deus. Será que minha própria vida ainda vale tanto assim?
     Tornar-se perfeito e completo é o processo de esvaziar-se totalmente de si, até que aquEle que É Perfeito seja completo em nós. Sou atraída pela ideia de um dia morrer totalmente pra mim, e por Ele. Sou atraída pela ideia de entender que fui chamada pra um caminho de obediência que produzirá frutos a 30, 60 e 100 por um, por uma, uma tão insignificante que não produziria nem 1 por 1 sozinha. Sou atraída pela ideia de ter visão, missão, propósito, e de aprender a abrir mão de tudo que não seja importante ou necessário. De queimar por algo todos os dias, até que eu seja consumida. Sou atraída pela ideia da morte, porque já me foi prometida a Vida Eterna, e é com os olhos fitos nEle, a própria Vida, que eu caminho a passos largos pro meu fim. 

    

The forgotten photograph.

         Para a versão em Português, clique aqui.

     Once upon a time in the future, and she can’t remember a single thing. Can’t remember her wedding day, the many trips she took, all the places she had been to. Can’t remember her children’s birth dates, nor their first days in school, nor the days they left home. But she does remember their faces; she kept the people, but forgot the facts.

      Nothing is as important as the story it carries within, but hers isn’t hers anymore. Everyday, she holds on to whatever others tell her about the adventures of her lifetime, even though not everything seems true or right. She can’t guess if she would really climb a mountain, but she can’t remember if she was ever scared of heights. Some stories seem so simple she can’t believe she could have forgotten them. But that’s what she got – she fell asleep, and, one day later, everything was gone.

         “Have I so far lived a life worth living?”

     With love, every weekend, she would sit down with her husband, children, grandchildren, siblings and friends and examine all of the memories she kept all those years. And they would tell her about party dresses, first kisses, family trips, parties they went. The photographs were many, the objects as well. Luckily, she had always been a storyteller. All of her children and grandchildren could tell where she had bought each of the snowglobes in her collection. And they would retell her the same stories she had first told them, so many times, before she forgot everything. They all knew the first drinks she had in every glass and mug she had kept, and why some book covers were dirtier than others. She would smile, hearing about a life that was hers, as if it was someone elses’s. Maybe tomorrow she would forget that as well.

      “Nana”, her third older granddaughter, nearly grown-up, asked her, one day, “do you remember the people in this picture?”

     It was a small photograph, slightly blurry, but no one there could tell much more about it. “I suppose these were good friends of mine. But I don’t know why.”. The landscape seemed cold and bucolic, but they were all smiles. Rocks, yellow winter fields, and a grey foggy sky. Anyone smart enough would have guessed they were in the English countryside. “I would guess this is in the English countryside, ma”, her smarter daughter spoke, “but, unfortunately, I have reasons to believe all these friends have already passed away. I can recall having been to at least one funeral with you”.

She careful and sadly examined the photograph. If they were all gone, as well as her memory, who else could remember that day? Five beautiful happy young people, but no one could tell the reason they smiled. The frozen moment would last forgotten. The whole room remained in silence, for much longer than it was usual in that family.

     “Nana”, her only great-grandson, almost gone through childhood, that dreamt of being Peter Pan just like she used to, “I can make up a story for your picture, then you can be happy like that again! Could I, please?”

     He rapidly sat down next to her. He was quite clever. His mommy had told him nana would no longer remember that they used to read Peter Pan everytime he stayed at ther place for the weekend. He kept bringing the book with him, though, but he would read her stories about Neverland. And, now, he would read a story in the subtle lines of that picture no one knew a thing about.

     “You’re all smiling, nana, because you’ve just eaten magical delicious food that makes you feel really really happy! You and your two friends are sitting down on the rocks because you ran a lot to get there! You would stop by to play with every animal on the way up! Your friends standing would shout at you all the time ‘Girls, come quickly, before it’s too cold!’, but you didn’t want just to get on the top, you wanted to have fun! The grass is only half green because winter came just like a wave, that destroyed just little by little, and that’s why only half of it has been burnt by the cold! The picture is blurry because even the person who took it was very cold, but forgot to bring gloves! And I’m sure you left home very early, to have the most fun before the Sun was gone! You may not be holding each other, nana, but I know you were holding each other in your hearts, because I think you really loved these friends, nana. I’m sure you loved them a lot, just like I love you.”

     And she really loved them. That, she could tell. She loved them all – the friends in the photographs, the children, the grandchildren, the great-grandchild, the husband. She couldn’t remember a thing, but she knew that, whoever had this much love in life, should have lived an amazing life. On that day, they stayed up later, making up new stories about the photos and objects whose real stories no one could tell.

     [This post is part of the 80 Somethings project. Read more about it here.]

“Look at this photograph!”

Eu não me lembro mais.

     Era uma vez no futuro, e ela não se lembra de quase nada. Não se lembra do dia do seu casamento, não se lembra das viagens que fez ou dos lugares em que foi. Não se lembra de quando seus filhos nasceram, nem seus primeiros dias na escola, ou quando se formaram e saíram de casa. Mas se lembra dos seus rostos, não se esquece de seus nomes. Guardou as pessoas, mas me esqueceu de todos os fatos.
     Nada em si vale tanto quanto a história que carrega, mas ela não tem mais história sua. Todos os dias, ela se apega àquilo que outros lhe contam sobre as aventuras que viveu, mas algo lhe diz que nem tudo que dizem é verdade. Não consegue adivinhar se escalaria uma montanha, mas também não se lembra se já teve medo de altura. Algumas histórias parecem tão simples que ela se questiona como conseguiu esquecer de coisas tão corriqueiras. Mas foi isso que a vida lhe reservou – dormiu e, no outro dia, acordou, e tudo havia sumido.
     “Será que vivi uma vida que valeu a pena ser vivida?”
     Com amor, sentava-se, aos fins de semana, com seu marido, filhos, netos, irmãos, amigos, diante das fotos e lembranças que acumulou ao longo dos anos. E falavam sobre seus vestidos de formatura, o primeiro beijo dos namorados, as viagens que fizeram em família, as festas às quais foram convidados. As fotos eram muitas, os artefatos também. Sorte sua que adorava contar histórias. Seus filhos e netos sabiam todos como ela havia comprado cada um dos globos de neve de sua coleção. E repetiam as histórias da mesma forma que ela as havia contado muitas e muitas vezes, antes que se esquecesse de tudo. Sabiam o que ela havia tomado primeiro em cada caneca e copo que guardou, e por que as capas de alguns livros eram mais amassadas que as de outros. E ela sorria, escutando casos da sua vida como se fosse de outra pessoa. Amanhã ela talvez não se lembrasse disso também.
     “Vovó”, sua terceira neta mais velha , quase adulta, perguntou, um dia, “você lembra quem são as pessoas nessa foto?”
     Era uma foto pequena, meio embaçada, mas ninguém ali naquela sala saberia dizer muita coisa sobre ela. “Eram meus bons amigos, querida. Mas não sei bem o porquê.”. A paisagem era fria e bucólica, mas eles sorriam. Pedras, campos amarelados de inverno, e um céu cinza. Uma pessoa esperta imaginaria que eles estavam no interior da Inglaterra. “Acho que é no interior da Inglaterra, mãe”, sua filha mais esperta falou, “mas, infelizmente, acho que todos nessa foto já faleceram. Eu me lembro de te acompanhar em pelo menos um funeral.”
     Ela examinou a foto com cuidado e tristeza. Se todos já haviam ido, e sua memória também, quem mais se lembraria daquele dia? Cinco lindos sorrisos jovens, e não havia quem pudesse contar o que viveu quando as lentes de uma câmera capturaram o momento. Eternizado, porém esquecido. Houve silêncio por muito mais tempo que era habitual naquela família.
     “Vovó”, seu único bisneto, já um mocinho que costumava sonhar junto com ela em ser o Peter Pan, “Eu posso inventar uma história pra sua foto, e daí você não fica triste mais! Você deixa?”
     Ele rapidamente se sentou ao lado dela. O rapazinho era bastante esperto. Sua mamãe lhe explicou que a vovó não iria mais lembrar que eles liam o livro do Peter Pan sempre que ele ia passar um fim de semana com ela. Ele continuou levando o livro todas as noites, mas agora era ele quem lia as histórias da Terra do Nunca. E, agora, leria na foto uma história que ninguém mais se lembrava.
     “Vocês estão sorrindo, vovó, porque vocês acabaram de almoçar comidas mágicas e deliciosas que te fazem sorrir muito! Você e suas duas amigas estão sentadas porque vocês correram muito pra chegar ali, porque se distraíam o tempo todo com os bichinhos no caminho! Seus amigos que estão em pé ficavam o tempo todo ‘Meninas, venham, antes que fique mais frio!’, mas vocês não queriam só subir, vocês queriam se divertir! A grama tá meio verde no fundo porque o inverno veio igual uma onda, que foi destruindo aos pouquinhos, e naquele dia só a outra metade tava amarela e queimada de frio. A foto ficou embaçada por que até a pessoa que tirou estava com muito frio, mas esqueceu as luvas em casa! Aposto que vocês saíram cedo, pra se divertir antes que o Sol fosse embora. E vocês não estão abraçados, vovó, mas eu sei que vocês estavam se abraçando dentro do coração, porque eu acho que você amava muito esses seus amigos, vovó. Amava muito mesmo, igual eu amo você.”
     Ela os amava muito mesmo. Disso, ela sabia. Amava todos, os amigos das fotos, os filhos, os netos, o bisneto, o marido. Não se lembrava de nada, mas tinha certeza que quem tinha tanto amor assim, devia ter vivido uma vida e tanto. Naquele dia, inventaram histórias até tarde sobre as fotos e objetos cuja história ninguém conhecia.

[Este texto faz parte do projeto 80 Coisas. Para saber mais, clique aqui.]

“Look at this photograph!”