O Lado Escuro da Lua

     Já notou quão paradoxal é o fato de que nossa era humanista coloca o homem no centro do universo, mas, depois desses últimos séculos, o que nos restou como sociedade secular foi um bando de gente deprimida e ansiosa? Ajuda a entender se a gente pensar em termos comparativos. A Bíblia diz em Gênesis 1 que os astros foram colocados no céu para sinais, e eu sempre penso que tudo que nós precisamos saber de nós mesmos já aconteceu de alguma forma com as estrelas e planetas.

     Pensa comigo: a Terra gira em torno do Sol, a Lua gira em torno da Terra. A Terra é muito menor que o Sol, a Lua é muito menor que a Terra. O que faz um corpo celeste girar em torno do outro é a atração gravitacional que eles exercem – e, segundo a lei da gravitação universal, a força de atração mútua é proporcional às suas massas. Ou seja, um corpo só consegue fazer com que outros girem ao seu redor se ele for grande o bastante para sustentá-los.

     Se você pensar nos planetas como pessoas, e tentar montar uma cena em que a Lua decide que é o centro do sistema solar, agora, talvez a gente veria uma Lua esgotada de tentar sustentar todos os planetas e estrelas entre o Sol e aquilo que a gente chamava de Plutão. Talvez a gente sequer visse mais uma Lua, mas vários fragmentos de um corpo celeste arrebentado por um peso que sequer tinha estrutura pra suportar. Ou, talvez, a gente veria exatamente o que continuamos vendo, ou supondo que vemos, quando olhamos pro céu – Sol, Lua, planetas, todos no mesmo lugar – , porque a vontade da Lua de ser o centro desse sistema não inverte a ordem das coisas, não substitui a força gravitacional que o Sol exerce e mantém a Terra no mesmíssimo lugar, dando uma volta em torno do próprio eixo por dia.

     O problema, então, seria todo da Lua, porque, enquanto o universo continuaria girando e se expandindo da mesma forma, independente do que ela ache ou deixe de achar, na cabeça dela, todas as referências estariam invertidas, e talvez, em algum ponto, ela até acreditasse que a Terra estava o tempo todo girando em torno dela. E talvez causar o movimento das marés reforçasse essa ilusão de que era tudo sobre ela, no final das contas, e era tudo questão de ponto de vista mesmo, pra que ela descobrisse o próprio valor como ponto focal do universo. E, talvez ela começasse a achar que tinha luz própria, de tanto desprezar o Sol, e se deixasse esquecer que era apenas um reflexo, algum tipo de imagem, e que tinha um lado permanentemente escuro.

     Aconteceu, no entanto, que, no girar dos astros, todos se alinharam, e a Terra entrou no caminho do Sol. Houve escuridão sobre a face da Lua. Foi Pink Floyd quem nos deixou essa de presente – não existe um lado escuro da Lua; ela é, de fato, inteira trevas. Será que, então, ela se daria conta de que não tinha luz própria, e se deixaria afogar nas trevas? Será que seria capaz de crer que, em algum momento, o Eclipse passaria? Talvez, muito tempo depois, ela se daria conta de que não era a sua força que fazia o sistema girar, mas talvez ela aprendesse a relevar todos os fatos se sobrevivesse ao primeiro Eclipse e conseguisse suportar o tempo de escuridão, em prol da sua ilusão. Talvez a Lua seja uma grande iludida, sobrevivendo à todas as suas fases e seus ciclos de 28 dias, recusando-se a reportar-se ao Sol como sendo a fonte de Luz.

     Salmos 89:37 chama a Lua de uma “fiel testemunha” no céu. Eu sei, eu sei, aquilo fala da Aliança de Deus com Davi, mas não é uma imagem fascinante? Já ouvi gente dizendo que nós somos muito parecidos com as árvores, mas acho que somos muito parecidos com os corpos celestes, flutuando sob um campo gravitacional muito maior que o seu, sendo iluminados por uma Estrela muito maior que si, e ficando fascinados demais com o reflexo pra lembrar que somos feitos de escuridão, e que precisamos do Sol todos os dias. Nossa força não muda a forma como os dias giram, mas depende da nossa honestidade com os fatos reconhecer qual é a verdadeira ordem que faz surgir as estações. Aliás, a Bíblia também diz isso em Gênesis 1, não?

     Acho que era Kant quem dizia que não existiu nenhuma Revolução Copernicana, porque Copérnico não foi lá e tirou a Terra e substituiu pelo Sol no centro do sistema – só revelou a Verdade das coisas. Mas talvez o ponto que Kant não quisesse admitir é que a Verdade é a coisa mais revolucionária de todas, e traga os mais significativos impactos profundos pra história de quem vê a realidade sob o ponto de vista de correto. Neste momento, por exemplo, está muito calor, e eu não consigo pensar mais no Sol como Deus, mas como uma metáfora do inferno – mas isso não é mais assunto pra agora.

     [featured image by user Shinzo_Shikimira on Reddit]

The Beautiful Dream

     Eu nunca gostei de caixas de areia, na infância, porque detestava a sensação de ser engolida pelos pés, dedinho por dedinho. É claro, eu cresci longe da praia e do mar; mesmo assim, eu sabia que você tinha cheiro de água salgada – mesmo que eu sequer soubesse como esse cheiro deveria ser. Talvez você fosse uma concha, mas eu também só as conhecia de longe, da TV. Só conseguia imaginar quem você era e de onde você vinha, sentada aqui, nesse parquinho.

     Eu poderia jurar que tinha 25, mas na verdade eu era uma criança de 5. Muito menor que eu deveria, com pernas magricelas, encolhida em um banco pra que meus chinelinhos não tocassem o chão. Eu tinha certeza que estava no meu bairro, na minha vizinhança, mas eu não reconhecia meus vizinhos, e não tinha amigos. Você tinha alguns, eu reconhecia você. E, se você me chamasse pra brincar, eu iria, mesmo que eu tivesse medo da areia (porque não tinha medo de você). Mas eu nem sabia seu nome! Ou talvez eu soubesse, mas não me lembrasse. Por que era tão difícil reconhecer a hora e o lugar das coisas? Talvez eu tivesse 25, e fosse grande demais pra caixa de areia, e conhecesse o cheiro de mar, e tivesse sentido na sua pele o frio e a dureza das conchas, quando você veio e segurou a minha mão. Não, o tamanho dos dedos me dava a certeza de infância, que parecia tão abundante e fácil enquanto nós éramos pequenos o bastante pra segurá-la.

     Havia uma brisa fresca, e um sol se pondo sobre crianças brincando a tarde toda, como se cada hora na verdade durasse três ou quatro. Ainda assim, tudo passava rápido, como um borrão, como se fossem lembranças sendo recuperadas.Talvez fossem, mas eu não me lembrava de você. Construindo castelos, subindo e descendo de escorregadores, sujando as roupas e ralando os cotovelos e o ladinho do braço; você me acertou com lama, nós bebemos água suja, e eu não me lembrava de ter sido tão feliz antes dos 16. Poderia ser só um sonho, porque eu criança nunca faria nada que causasse problemas, ou fizesse bagunça. Minhas mãos de desenhista se sujavam apenas do grafite das muitas histórias de princesa que eu já havia inventado, mas hoje eu realmente tinha um castelo. Você até tentou ser rei sozinho, mas eu já era uma arquiteta muito melhor, e conquistei aquela terra para mim também.

     E poderia ter chovido, e minha mãe poderia ter saído pra me procurar, e se assustar com a cor dos meus joelhos e da minha camiseta branca. Poderíamos ter perdido a escola no dia seguinte, porque acordamos com o peito cheio, de brincar por tanto tempo no sereno. Poderia ter sido um sonho, mas não era, porque eu estava acordada, e tinha 25, e suas mãos muito grandes seguravam as minhas, que continuavam pequenas, sentindo o frio e a dureza da sua pele de concha. Talvez eu estivesse intoxicada pela maresia, talvez eu estivesse intoxicada imaginando como seria se eu tivesse tido você comigo a vida toda. Naquele fragmento de tempo, nosso momento parecia se cruzar com a Eternidade, e eu podia escrever uma história inteira que nunca havia existido, só de respirar a certeza de que, com você, eu finalmente estava em casa.

Uma impostora melhor que você.

 

     Eu assumi, há algum tempo, um compromisso sem precedentes com a verdade na minha vida. Apesar de ainda estar em desenvolvimento, e de eu realmente não entender plenamente quais os termos deste compromisso, eu tenho descoberto que comprometer-se com a verdade e a integridade, de corpo e alma, é ainda mais desconfortável que você consegue escrever, ou descrever. E causa muita confusão. Começando em mim, ou você, porque nós somos essencialmente inclinados pra autopreservação, e, neste jogo de sobrevivência, tudo que mente, finge, ou engana, faz melhor ao ego.

     Existem pessoas que focam mais nos resultados, em vez dos processos que levam até eles, e cada um consegue mais ou menos ajustar a própria consciência de acordo. Eu particularmente sempre fui muito preocupada com os processos, mas eu fui viciada demais na opinião dos outros, desde criança (ou talvez todos nós fomos, mas eu não tenho como falar por todos). Quanto mais você se ocupa da opinião dos outros, mais facilmente você abre mão da verdade e da integridade – porque, na maioria das vezes, seus atos mais verdadeiros ficam só entre você e sua consciência, e isso raramente contribui pro sucesso da sua imagem perante os outros. Aliás, eu até ousaria dizer que a integridade mais importante é aquela que fica no secreto,

     Eu sei que tenho problemas com autoimagem e aceitação há uns bons anos – a maioria de nós tem, eu presumo – , mas, até algumas semanas atrás, eu te diria que tinha aprendido a me importar muito menos com a opinião dos outros. Eu reduzi drasticamente minhas expectativas e ambições na vida, passei a valorizar o silêncio, as coisas modestas e escondidas, os pequenos trabalhos e tudo aquilo que se passa pela minha mente e que nunca vai virar um texto, nem uma legenda de Instagram, nem uma frase no Twitter. Se você me perguntasse mais, eu diria que havia abrido mão dos desejos por alcançar lugares altos, e só queria ser “eu” – tudo dito em um tom que transformava qualquer outra pessoa que fosse ou pensasse diferente de mim em um ser “menos evoluído”.

     O problema é que minha mente não parava de refletir sobre todas essas coisas nas quais eu pensava. O fluxo de pensamento ficou flertando com o fundo da minha mente por vários dias, semanas, até que a ideia começou a se infiltrar e, então, eu precisei começar a assumir pra mim mesma que eu não era muito modesta, mas muito, muito orgulhosa. Profunda e extremamente orgulhosa. Tão orgulhosa (e ferida), que eu estava escolhendo abrir mão de todos os meus sonhos, planos, desejos, vontades, perspectivas, expectativas… Por medo de fracassar, sentir todas as dores da frustração, e me tornar uma piada diante dos olhos públicos. A covardice mais amarga que eu já tive que admitir.

     Eu era viciada na opinião dos outros, então toda ideia de valor que eu tinha de mim mesma estava baseada em ser a melhor em alguma coisa. Esses são os fatos, eu quase sempre estive em ambientes em que eu era a melhor em alguma das coisas que eu fazia – meus desenhos, meus textos, meu conhecimento sobre meus assuntos preferidos. Eu não tinha capacidade de me reconhecer como uma pessoa de valor se eu não fosse sempre a melhor, porque eu não conseguia imaginar como eu poderia ser amada de outra forma. E eu ainda tive muita disposição pra me esforçar pra superar pessoas do meu convívio que eram melhores que eu, e talvez por isso as pessoas que me conheciam sabiam me machucar tão bem, quando me diminuíam ou me comparavam de forma negativa. Sempre foi tudo que eu tive.

     Crescer invariavelmente me trouxe cada vez mais provas de que eu poderia sempre ser muito boa, com meus talentos naturais, e meus esforços, mas que, em algum lugar do mundo, sempre haveria alguém melhor do que eu. Poderia ser na China, mas também poderia ser do meu lado. Na minha sala, na minha turma, na mesma igreja, com os mesmos amigos. Eu era muito boa em artes gráficas, mas minha irmã se tornou muito melhor que eu. Minha melhor amiga estudou um curso de Humanas e leu muitos mais livros que eu. Foi com certeza também o que consolidou meu pânico de autoestima, quanto mais eu percebia que eu jamais seria a mais bonita, ou mais magra, nem comparada com as meninas ao meu redor, nem comparada com as milhares de meninas que a gente consegue ver todos os dias, agora, pela internet, como uma galeria de terror, de todos os rostos e corpos que eu nunca terei.

     Com o tempo, conforme eu conheci muita gente que argumentava melhor, e escrevia melhor, que havia amadurecido muito mais, e aguentava muito mais, e era muito melhor que eu em todas as coisas nas quais eu me apoiava pra sobreviver, eu entrei em desespero – e, no meio do desespero, tomei todas as decisões erradas. Eu estava me agarrando a ídolos de papel, que se desmanchavam nas águas do mar no qual eu estava, mas, em vez de trocar de barco, eu preferi me afogar, porque eu não estava disposta a passar pela dor excruciante de tirar uma parte de mim. Como se isso fosse um câncer muito grande, como daquelas pessoas que acabam deformadas pelo tamanho e peso dos tumores, que precisava ser tirado sem anestesia, porque é assim que as coisas da alma funcionam.

     Minha irmã passou os últimos quarenta dias fora, e voltou com uma frase que me perfurou dolorosamente – a verdadeira humildade é querer ser exatamente quem você é em Deus, nada acima, nem abaixo, mas querer ser tanto mais quanto menos do que quem você é, é orgulho. Eu poderia jurar pra mim que estava agradando a Deus e deixando ir embora meu orgulho, escolhendo propósitos modestos e sonhos ínfimos, mas acabei descobrindo que, como uma boa ilusão, eu estava subindo uma escada, enquanto acreditava estar descendo. Passei meses tentando me comprometer com a verdade, enquanto vivia uma mentira, cheia de palavras bonitas, enfeitadas, repetidas, automáticas, que ajudavam a enganar minha consciência consciente. A minha grande sorte – e sua, caso você também tenha se identificado com isso – é que nosso subconsciente, e o Espírito, nunca se enganam. Mas, se estamos disposto a nos deixar convencer da nossa grande fantasia, fica a critério de cada um. Existem pessoas que focam mais nos resultados, em vez dos processos que levam até eles. Cada um pode tentar ajustar a própria consciência de acordo.

 

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     Esse texto não tem uma conclusão clara porque o processo ainda não está completo. Claro, existem muitas coisas ainda a se dizer sobre propósito, sobre identidade, sobre motivações secretas, desejos ocultos, perspectivas mais próximas ou mais distantes, qual o plano maior, e a razão pela qual nós existimos, mas tudo tem uma hora designada, e eu não sei se é esta. Eu poderia dizer, de forma bastante dramática, que estou no meu ponto mais baixo, mas eu não quero testar o quão ruim as coisas ainda podem ficar.

     No entanto, ainda tenho esperança suficiente pra esperar que esse seja realmente, pelo menos, o ponto mais baixo deste processo, e que o que vem em seguida é cura e plenitude, mas eu achava que estava assim há bem pouco tempo, e consegui descobrir que essa estrada tinha mais uma curva acentuada inesperada. Dói demais, eu não consigo aceitar às vezes o quanto dói ser humana e insistir em ter fé suficiente pra acreditar no fim dos processos, quando tudo que você queria era uma morte rápida, e indolor. Literal ou figuradamente, cada um interprete como quiser. Mas, convenhamos – o tempo se arrasta, ou voa, mas, de qualquer forma, a morte chega, qualquer morte que seja. Não é melhor continuar acreditando que, se eu aguentar essa dor, posso alcançar Graça pra Vida plena depois? Eu realmente penso que sim.

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o som que a estrela faz

Photo by Teddy Kelley on Unsplash.

      Eu comecei a escrever pra ser dona de histórias. Eu gostava de ler histórias, gostava de ouvir histórias, mas queria ser dona delas também. Comecei com histórias de princesas, nas quais a princesa se parecia comigo, porque eu queria um final feliz pra mim. Pouco tempo depois, viramos super-heroínas, e havia muito cor-de-rosa. Então, eu descobri um universo completamente novo, e escrevi dúzias de contos sobre marionetes, gatos pretos, e meninas que eram atropeladas durante surtos esquizofrênicos. Logo depois, eu descobri a poesia.

      A poesia tirou o foco daquilo que eu projetava em personagens, e jogou sobre mim. Foi a primeira vez em que eu vi como meus contos se pareciam muito com os desabafos que eu escrevia noite e dia em dezenas de caderninhos e diários. Eu me virei do avesso em dezenas de versos, até que me embaralhei toda em mim mesma, entre amores, desamores, e algumas dores. Escrevi sobre tantas coisas e pessoas que precisei dar um tempo, pra tentar me recuperar. Não voltei pra poesia, ainda.

      Não sei bem porque eu escrevo, hoje em dia. Pra compartilhar, representar, apresentar? Eu gosto de fazer bem aos outros com o que eu escrevo, e eu acredito que eu possa curar, transformar, revirar o mundo, com palavras. Mas existe um sentimento específico, que floresce quando eu estou diante de uma folha em branco, que eu não consigo superar.

      Uma vez, eu li que escrever era uma forma aceitável de se desnudar em público, e, exatamente como a pessoa que se desnuda, quando eu escrevo, quero chamar atenção pra alguma coisa. Sem pudor, assim como uma pessoa que se desnuda, eu tento chamar atenção pras coisas que ficam encobertas – em mim, e nos outros também, mas principalmente em mim. Talvez porque eu seja chata demais, na maior parte do tempo, mas, quando eu escrevo, às vezes fico até emocionada com as coisas bonitas que consigo fazer aparecer. Algumas são menos bonitas, mas são muito mais profundas que eu achava que eu era, e é sempre uma surpresa nova, uma face nova da Graça que é revelada, e me deixa um tanto feliz por existir e ser exatamente quem eu sou.

      Então, toda vez que eu escrevo algo, e compartilho com o mundo – mesmo aquilo que vem com lágrimas e um gosto amargo na boca – , é como se eu entregasse as pedrinhas preciosas que encontrei dentro de mim, coisas de valor, que eu não quis deixar guardadas. Coisas que me deixaram feliz. Mesmo que às vezes algo que me pareça um diamante te pareça um caco de vidro, ou um pedacinho quebrado de espelho. Acho que, se você puder ver seu reflexo neles, eu já vou ficar muito feliz. Nós somos todos como bordados complicados demais, mas que parecem muito simples quando são vistos do outro lado. Depende mesmo do seu ponto de vista.

      Abri uma página em branco hoje porque queria escrever sobre essa frase que vinha martelando há alguns dias – “Qual é o som que a estrela faz?”. Sinto muito pela decepção, mas eu ainda não faço ideia. Quando eu souber o que dizer sobre isso, escrevo uma continuação, mas pode demorar um pouco – em 23 anos de vida, eu infelizmente ainda não encontrei nenhuma estrela dentro de mim.

     [06/06/2019 – hey, eu descobri qual o som que a estrela faz.]

O dia em que eu vi Jesus

     Uma vez, uma amiga escreveu que encontrou os olhos de Jesus no espelho. Eu sempre fui uma pessoa sensível e poética, mas eu achava aquilo misterioso demais. Eu era acostumada a encontrar Jesus na Palavra, nas canções, nas obras de arte, no pôr-do-Sol. Mas no espelho? Em mim mesma? Impossível. Eu pensava na época que ela era algum tipo de pessoa especial em quem Jesus habitava plenamente a ponto de vazar pelo olhos, mas isso porque eu ainda não entendia muito bem quem eu era. Eu descobri com o tempo que eu me tratava como uma máquina, e me descrevia como uma máquina, e tentava ser como uma máquina. E máquinas não têm alma, muito menos Espírito.

     Sentar-se na frente do espelho é um exercício lamentável, se você é mulher. Você quer enxergar algo de bom em si, procura seus ângulos mais bonitos, joga um sorriso pro alto, infla o peito, murcha a barriga, empina a bunda, e depois se desmancha, desanimada. Conta todas as pintinhas e manchinhas do rosto, imagina um novo corte de cabelo, ou quais roupas te fariam parecer mais bonita que você é. Às vezes você chora, o que só piora o quadro – além de enxergar tudo que te desanima sobre seu rosto e corpo, você se lembra de tudo que te desanima sobre seu coração.

     Eu sempre lamentei todas as partes que faltavam em mim, porque elas estragavam meu amor por mim, e, enfim, quem amaria alguém com tantas partes faltando? Eu queria ser inteira, ter um coração curado de todas as vezes em que foi quebrado, uma consciência limpa de todas as vezes em que quebrou os outros, um humor leve, um raciocínio menos entulhado de tanta ladainha, uma imaginação despoluída das coisas decadentes que eu colecionei pela vida. Inteira, completa. Perfeita.

     Um dia, lendo Isaías 53, eu dei de cara com uma lembrança da humanidade de Jesus. “Desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento (…) Certamente Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças”. Jesus não só era humano, era homem, mas tomou sobre Ele as mazelas, as nossas mazelas. Pediu pra que nós lançássemos sobre Ele nossas ansiedades. Disse que nos aliviaria. Olhei no espelho de novo.

     Eu via a mesma pessoa. Os mesmos buracos. As mesmas olheiras escuras, as bochechas cheias, a postura encurvada, a mandíbula torta. As mesmas partes faltando. Eu não podia fazer muito sobre elas, mas, em cada pedaço que eu não tinha, eu sabia que Ele estava lá, preenchendo os vazios. Ele É tão grande que cabia até no buraco negro que eu guardava no peito. Como uma tampa, que segura o fluxo de um ralo muito violento, que estava me engolindo. E, no vazio dos meus olhos, Ele era o brilho discreto, no canto, que, ao fim dos dias mais difíceis, me lembrava que ainda havia esperança.

     Eu achava que minhas imperfeições eram uma maldição, porque elas nunca seriam totalmente resolvidas. Eu poderia me esforçar pra sempre, mas nunca conseguiria vencer a humanidade, minha carne, meus ossos, meu sangue, e essa pele cheia de cicatrizes. Mas existe algo nas minhas manchas que me lembra que eu preciso, eu careço de algo maior, que carregue o fardo que eu não aguento, que alimente a esperança dos dias vindouros, que me salve de mim mesma quando eu não me suporto. Alguém infalível, que eu possa admirar sem restrições, alguém digno da minha adoração, do meu louvor. Alguém que já estava dentro de mim, mas eu mesma não entendia. Que bom te ter aqui, Jesus. Fica pra sempre. A casa é Sua.

     >> I’m learning how to love myself.

     Photo by Rhett Wesley on Unsplash

Por que a gente tá cansado do WhatsApp?

     Não sei você, mas eu e mais uma pilha de gente tem relatado constantemente um cansaço em relação ao aplicativo de mensagens e comunicação instantânea. Ao contrário do que seu pai ou algum cronista conservador poderiam afirmar, não é uma rejeição à vida “vazia” e “de aparências” de internet – apesar de haver alguma conexão distante. Diretamente, é uma questão dos limites que nossa mente nos impôs, em relação à interação com outros, e o caos que se instaura quando se tenta extrapolá-los.
     
     Você provavelmente já ouviu falar daquela história de que uma pessoa só consegue interagir com qualidade com cerca de 150 pessoas, em seu círculo social. Esse dado, chamado “número de Dunbar”, foi averiguado pelo antropólogo britânico Robin Dunbar, ao longo de vários experimentos sobre interação social, primeiro em primatas, depois em seres humanos. Outros pesquisadores, com o fenômeno das redes sociais, tentaram, de várias formas, demonstrar que a internet poderia alterar esse número máximo de interações, mas só conseguiram provar as limitações cognitivas sociais dos indivíduos. Ou seja, não adianta tentar abraçar o mundo todo com as pernas. Você pode até ter um coração de mãe, mas, social e biologicamente, você vai ter superlotação em algum momento. E isso já está acontecendo.
     
     Na verdade, isso acontece sistematicamente desde que você é criança, e aconteceu com seus pais, avós, bisavós, e todo mundo, basicamente. A vida passa, as pessoas vêm e vão, algumas ficam, outras não, e nossos círculos sociais vivem em uma dinâmica constante. Tem gente que sente raiva pelos que não ficam, e culpa quando são eles próprios quem vão, mas, mesmo nos limites mais saudáveis de interação entre humanos, as relações não serão totalmente fixas e estáveis. Mesmo um casamento, por exemplo, que é pensado para ser pra sempre, é apenas de um momento em diante, não dura a vida “inteira”, desde o primeiro fôlego ao último. Se cada vida fosse uma linha, o universo seria um grande novelo, um emaranhado de linhas diferentes, sobrepostas, entrelaçadas, separadas, mas todas indiscutivelmente individuais e únicas. 
     
     O problema das redes sociais é que a intensidade das interações e comunicações na esfera virtual geram algumas confusões. Aquela falsa impressão de proximidade e familiaridade que se sente por acompanhar a rotina online uns dos outros complica os limites que existem nos círculos sociais de cada pessoa. Uma interação superficial frequente pode gerar, em uma pessoa, uma sensação de um vínculo mais profundo do que a outra parte supõe, o que leva a muitas frustrações infundadas – por exemplo, seu amigo de Instagram que não te convidou pra festa de aniversário dele, ou a pessoa que se ofendeu com você porque você não a convidou, a despeito dos vários tweets que trocaram ao longo da semana anterior. Algo nesse sentido.
     
     E, aliás, existem muitos limites entre a interação virtual e a interação real. Não tem como chamar pro seu casamento ou pro seu aniversário todas as pessoas que “torcem pelo seu bem” pelas redes, principalmente pessoas que não fazem parte do seu dia-a-dia realmente, as coisas são sempre mais complicadas que isso. Hoje, vi no Twitter um amigo comentando de como estava devendo muitos cafés, cinemas, encontros com tantas pessoas, marcados pelas redes, alimentados pelas redes. Os nossos muitos círculos se sobrepõem o tempo todo, entre trabalho, faculdade, igreja, academia, os amigos exclusivamente da internet, e manter contato virtual com gente do passado, por exemplo, é extremamente desgastante, porque gera uma cobrança de tentar manter todas as pessoas da sua história na sua vida ao mesmo tempo. Porque, de alguma forma, vocês se sentem participantes da vida um do outro, e obrigados a tentar manter algo que talvez tenha perdido a espontaneidade, que não faça mais tanto sentido, ou que simplesmente tenha sido superado. Não que eu seja defensora de simplesmente fechar portas do passado; eu valorizo laços, valorizo alianças! Mas é inegável que a vida segue, todos os dias, e, por mais difícil que seja aceitar, as pessoas seguem também.
     
     E existem ainda outros agravantes nessa situação, como o caso dos influenciadores digitais, que atraem muita gente por serem figuras de referência e destaque no ambiente virtual. Desde aqueles que têm milhões de seguidores e impacto mundial, até os que colecionam alguns milhares e influência muito local, no ambiente virtual, onde as interações são muito fáceis, isso gera um acúmulo de atenções em alguns indivíduos que pode ser extremamente cansativo. Toda nova interação gera na outra parte a esperança de uma amizade que é de seu interesse, e gera um contato insistente que é objeto de frustração pra uma parte, e incômodo para a outra. E tem aquela sensação constante de que todo mundo tá sempre se achando no direito de opinar na vida do outro, sendo que, pra início de conversa, expôr-se nas redes nunca foi se fazer objeto da opinião pública. Nunca deveria ter sido.
     
     E isso não se restringe à quem tenha alguma influência virtual, de forma alguma. O problema está mesmo nesses limites mal-definidos de interação, amizade, contato, e nossa própria capacidade de gerenciar tanta gente ao mesmo tempo. Estamos saturados. EU estou saturada! E a culpa é meio minha, meia dos outros. Principalmente pra pessoas como eu, que gostam de se colocar à disponibilidade de ajudar todo mundo, sem pensar se terão tempo ou disponibilidade real para isso. A culpa não é das pessoas por responderem à uma mão aberta que eu mesma estendi, mas sempre tem quem abusa, e, bom, isso aqui não é um ensaio sobre quem é mais responsável pelo problema. 
   
     O WhatsApp virou bode expiatório desse momento de saturação porque é o mais instantâneo dos aplicativos, aquele que gira em torno de ser uma ferramenta direta de comunicação. Mas é tudo um sistema, porque todo mundo já se irritou quando esperava uma resposta de alguém, e via que essa pessoa estava ativa em uma outra rede social. Esse tipo de irritação se resolve com um exercício simples de empatia. Colocar-se no lugar dos outros te ajuda a tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado, mas não se irritar com quem pode estar tentando fazer a mesma coisa, e falhando, como você mesmo já deve ter falhado. Mas não é suficiente.
     
     Quando limites são quebrados, ultrapassados, é preciso se posicionar firmemente para reestabelecê-los. A nossa vida deve ser um esforço cuidadoso para não dar motivos pra que ninguém se escandalize conosco, mas sabendo que isso é inevitável, porque as ações e pensamentos dos outros são incontroláveis. Afastar-se de algumas pessoas, cortar alguns laços, deixar de responder algumas mensagens. Sair das redes, para os mais radicais – meu pai, inclusive, usa apenas WhatsApp na vida, e não poderia estar mais tranquilo e satisfeito.  Também explicar com cuidado a alguns que nem tudo aquilo que se quer fazer, tem-se tempo para. Eu, por exemplo acho profundamente difícil dizer não pras pessoas que me procuram em busca de algum tipo de ajuda ou auxílio, mas eu estou, no momento, no limite do que consigo fazer, na altura dos meus 22 anos. 
     
     Os gregos entendiam que limite é “a partir de onde uma coisa consegue existir em sua própria essência” – ou seja, ser plenamente ela mesma. Seu limite, nosso limite, é o limite da nossa humanidade, e, até onde eu saiba, não temos capacidade pra ser plenamente nada além de humanos. Quem é Onipotente é Deus, eu sou só uma trouxa que tem mensagens demais sem responder no WhatsApp. Aliás, me perdoem por isso, porque a maioria não é de propósito. Não posso prometer que vou melhorar porque estou fazendo meu melhor e não consegui gerenciar, ao mesmo tempo, todas as pessoas que eu de alguma forma amo e com quem me importo na minha vida. Não conseguir lidar com todas ao mesmo tempo não é, nunca foi, sobre não ter sentimentos, mas sobre a dialética da vida colocada diante disso tudo. Tudo começa e termina e, como isso não pode ser impedido, mais sábios seríamos se tirássemos disso a beleza e a delícia de estar vivos. 
     

Um comentário honesto sobre Nós – o que eu acho que sei sobre Amor, Verdade, e os clichês do Ser.

     (Não que os outros não tenham sido honestos, claro)
     Gastei algum tempo hoje refletindo sobre tudo que eu tenho escrito e pensado nos últimos meses. Esse blog sempre foi principalmente um canal pra extrapolar os meus pensamentos sobre várias coisas, mas uma análise atenciosa demonstra como eu tenho uma tendência inegável a refletir sobre o Ser e suas muitas implicações.
     E isso não é um sintoma de excesso de discurso e falta de prática. Pelo contrário; sem transformar isso em uma autodefesa, mas eu sempre busquei ser atenta às implicações práticas das coisas nas quais eu pensava. Aliás, foi assim que esse comentário honesto aqui nasceu; uma reflexão sobre o que eu aprendi, depois de tantas crises existenciais, emocionais, espirituais, histéricas e afins. Ou o que eu estou aprendendo, porque o processo parece longe de acabar.
     Ainda quero desenvolver isso melhor em outro momento, mas por ora basta eu te contar que tem uns 5 ou 6 anos que eu tenho pensado muito sobre como o mundo precisa de mais empatia. “Mais Amor, por favor” não adianta nada se tivermos mais amor interesseiro, egoísta, buscando os próprios ganhos e benefícios – amor este do qual o mundo JÁ está transbordando. O genuíno Amor transformador, desde os contos de fada até as mais antigas religiões da humanidade, é o Amor desinteressado e altruísta. E não existe Amor que se sacrifica sem empatia, sem a capacidade de se enxergar na dor do outro (e, sim, isso é bíblico – Hebreus 4:14-16, a empatia é o fundamento do milagre da Graça).
     Indivíduos só são capazes de se compadecer daqueles que eles enxergam como sendo seus semelhantes. Por isso alguns seres parecem ser mais “humanos” que outros, para certas pessoas – diferenças de classe, etnia, língua, e até espécie (pra certos vegetarianos/veganos radicais) alteram o grau de humanização que atribuímos uns aos outros. E se eu me vejo como diferente de todo mundo, ou melhor que todo mundo, vou desejar pra mim apenas coisas que não desejo pros outros, e se eu realmente acredito que todos somos iguais, vou buscar justiça pra que todos possam compartilhar dos mesmos direitos, e assim por diante. O princípio é simples. Mas tá, o que tem a ver?
     Quem me conhece há vários anos provavelmente se lembra muito bem de uma certa arrogância e um nível de egoísmo que permeavam tudo que eu fazia (sem tempo pra explicar com detalhes, mas eu me sentia tão isolada na vida que eu acreditava que ninguém era como eu e etc.). Pela misericórdia de Deus, tô me aproximando dos 23 com a plena conviccção de que a maior parte disso foi destruído na minha vida. Pela misericórdia de Deus, eu reitero, porque foi Ele quem permitiu que os caminhos que eu mesma escolhi pra mim fossem organizados pra me levar até o fundo do poço.
     O lado legal disso tudo é que Ele foi comigo e, chegando lá, pelas minhas próprias pernas, Ele foi a luz que me permitiu ver que, ao contrário do que eu pensava, eu nunca estive sozinha, nem no fundo daquele poço – muita gente tava lá. Muita gente que eu amava, conhecia, admirava, gente até cuja aparente perfeição machucava a minha percepção de mim mesma. Aliás, vamos tratar essa ilustração como se eu estivesse caída no Inferno de Dante, em vez do fundo do poço, e a luz divina me permitiu descobrir que eu não estava sozinha no meu círculo, mas que havia muitos outros, acima de mim, abaixo de mim, mas, mais importante, todos lotados.
     Nada é novidade. Todo mundo é um caos. Já leu isso antes, aqui? Vai ler muitas vezes ainda. É a verdade nua e crua (ou não a verdade inteira, mas pelo menos uma boa parte dela).
     Cada ser humano é um universo desgovernado em si, todo antagônico, e a maior revelação da minha vida foi descobrir que eu não era a única em guerra, a única dormindo aos prantos todos os dias, incapaz de formular pensamentos equilibrados ou passar um dia inteiro sem me odiar completamente. Eu descobri que todo mundo tinha níveis de carência, e todo mundo queria conseguir coisas por mérito próprio, fazia muitas coisas pra aparecer, postava fotos pra ver se uma pessoa X ou Y curtia, dormia no meio do tempo de oração, gastava horas preciosas refletindo sobre coisas desnecessárias.
     Descobri, entre lágrimas e risos, que nós todos somos humanos. Meu Deus! Que revelação aguada. Qual a grande surpresa?
     Meu problema com os clichês é que, quanto mais eu reflito sobre a vida, mais eu percebo que eles são reais, e que nossas vãs tentativas de quebrá-los nos fazem esquecer das verdades mais fundamentais da vida. Qual é a graça real em quebrar todos os paradigmas, mesmo? Tem coisa que, de tão desconstruída, deixa de ser verdade e vira mentira, só pela abstração. Parece capenga falar tanta coisa aqui como eu falei, pra no fim só constatar que nós somos todos humanos, mas será que nós já de fato vivemos como se entendêssemos que somos humanos? Fiz um exame cuidadoso de mim mesma aqui e, não, eu não. Não sei quanto a você.
     Não se engane. Muita gente ao seu redor tem tanta vontade de crescer e provar que pode fazer melhor que os próprios pais quanto medo de crescer e descobrir que é igual ou pior que eles. Quase todo mundo perderia o sono por ansiedade, ou esperaria coisas e se frustraria. São nossas tendências naturais. Se existe algum prumo que possa alinhar essas bagunças e nos ensinar a enxergar as coisas simultaneamente do nível do solo e dos olhos do pássaro, isso é outra história. Aliás, é o tal do processo do qual eu falei um pouco na “Carta aberta aos meus amigos”. Uma versão macro da mágica que transforma o caos dos pensamentos em poesia.
     Enfim. Amor. Empatia. Somos todos iguais, ou pelo menos muito parecidos. Não se cobre tanto, mas não se acomode. Não use as diferenças pra justificar as divisões. Não use as semelhanças pra justificar a uniformidade. E, se tudo isso aqui se parece demais com tudo que você já leu ultimamente, eu espero que hoje você acredite e aceite. E, se não for hoje, que outra pessoa, mais competente que eu, te convença a aceitar sua essência. Algum dia vai. Algum dia, vai.
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Deus não é simples. Deus é Amor.

     Sobre 1 Coríntios 13, Eclesiastes 3 e 12, Salmos 139, Jó 38, João 17 e 1 João 2.

     Eu sempre vou refutar categoricamente todas as pessoas que tentarem argumentar que Deus, em seu Ser, É simples, e que nossa razão é culpada por torná-Lo complicado. Tentar simplificar Deus pra fugir das armadilhas da racionalidade é uma estratégia furada. Depois de quase 2,000 anos de Cristianismo – 500 só da Reforma, um sem-número de livros, doutrinas, interpretações e denominações, é impossível dizer que Deus é simples.

     O conflito está na incapacidade da nossa razão, tão limitada, de apreender as coisas desde o começo até o fim – uma antítese da Eternidade que foi colocada por Ele no nosso coração. Milhares de anos não deram conta do Ser, que se perde em milhares de perguntas, e Deus não responde à todas elas. Tudo Ele fez apropriado em seu tempo, em Seu Tempo, e tal conhecimento vai além daquilo que podemos conhecer. Estaremos sempre um passo atrás. Ou muitos, muitos. “Nada faz sentido!”, porque é grande demais para que caiba na nossa cabecinha.

     Há muito que se refletir sobre a nossa pequenês quando nos colocamos como um sujeito em busca do conhecimento de Deus, seja na Palavra, ou nas coisas Criadas. Conhecê-Lo é impossível enquanto houver trevas em nosso meio, porque as trevas não compreendem a luz. Será que ainda falta muito, para que conheçamos como somos conhecidos? Não sei. Eu sou só humana. Eu não estava lá quando Ele lançou os fundamentos da terra, delimitou os mares, firmou as estrelas, ensaiou as estações. Não andei com Ele pelos mais profundos abismos, não conheci todos os cantos dos céus, não dou ordens às chuvas, não sou capaz de discernir os milhares de anos de história que convergiram pra formar quem eu e você somos.

     Por isso, muitos fogem, rejeitam, abusam ou fetichizam um conceito de Deus – é um caminho mais fácil que assumir a derrota da nossa razão. Todo o Seu conhecimento é maravilhoso demais e está totalmente além do meu alcance. Ele é elevado demais para que eu O possa conhecer. Mas Ele abriu uma porta. O Deus, criador dos céus e da terra, compartilhou com a humanidade o Seu coração, e nos revelou um segredo maravilhoso – Ele É Amor. E isso, hoje, me importa mais.

     Sim, Ele É Amor nos importa mais. Porque um Deus Grande, Glorioso, Altíssimo, Todo-Poderoso, Eterno, e Santo, É a evidência suprema do quão distantes dEle nós estamos. E estaríamos, pra sempre, se Ele também não fosse Amor. O Amor dobra nossos joelhos, quebranta nosso coração, destrói o nosso orgulho, e convence um Deus Soberano a esvaziar-se de Si mesmo, e tornar-se homem, de carne e osso, como nós. Ele desafiou nossas motivações, nossa justiça, nossa ética, nossas ações, e se entregou, em nosso lugar, bebendo do cálice que era nosso, para abrir uma porta que nos permitiria estar com Ele para sempre, conhecendo-O, e experimentando a satisfação sem fim da Sua Glória.

     Um Deus Criador Grande e Glorioso seria apenas um objeto de terror e um fato lamentável à uma humanidade caída, incapaz de escolher o bem, em vez do mal, e a vida, em vez da morte. Mas, ainda que nós sejamos tão pequenos, Ele nos ama. Uma vez, um amigo viu Deus e Sua Criação como um Pai se deleitando nos rabiscos indecifráveis do filho pequeno – “um dia, meu filho, você se conhecerá, como Eu já te conheço”. Mas, exatamente como o Pai e o filho pequeno, enquanto não crescemos, nos conectamos pela Aliança Eterna do Amor. Se amar como Ele amou, e andar como Ele andou, é estar nEle, eu fico aqui até o fim dos meus dias. Um dia, eu verei face a face, e não mais por espelho; mas, até lá, enquanto minha mente caída apenas consegue imaginar a Sua Glória, eu me contento em saber que Ele é Amor – e isso, basta.

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Carta aberta aos amigos – Eu acredito em você.

     O ser humano é uma máquina de contradições ambulante. Minha falta de conhecimento científico sobre o assunto me impede de saber se existe alguma teoria do comportamento que explique isso, mas, enfim, contradições. Nós somos naturalmente inclinados ao desacordo. Isso porque somos feitos de razão, emoções, e sensações; mente, coração e corpo. E não precisa ser muito reflexivo pra entender que nossa mente, nosso coração e nosso corpo querem coisas totalmente diferentes, o tempo todo. O desacordo entre as nações, entre os povos, entre as pessoas, começa no desacordo de dentro. Não há coerência, apenas o caos. E a tendência ao caos.
     
     Por isso, criamos tantos códigos pra nos comunicar e regulamentar, buscamos tanto pela Verdade, procuramos um prumo que nos alinhe, ou pelo menos crie condições de estarmos alinhados um ao lado do outro, ainda que o caos de dentro permaneça o mesmo. Existe alguma virtude no fingimento em sociedade, porque ele disfarça nossa total incapacidade de viver em paz (eu já até escrevi um pequeno parágrafo sobre como a falta de empatia evidencia a falácia da vida em sociedade). Cada indivíduo é um caos só.
     
     É por isso que as pessoas se machucam o tempo todo. Mente, coração e corpo em jogo, entre pais e filhos, irmãos, amigos, parceiros, casados, solteiros, colegas de trabalho, colegas de classe, conhecidos e desconhecidos passando pela rua; a imprevisibilidade de cada linha do tempo se encontrando com outras no lugar e na hora errados. Meias-verdades contraditórias tentando encontrar algum ponto em comum. O caos que há em mim saúda o caos que há em você – e algo explode no meio do caminho. 
     
     Um dos maiores triunfos da individualização das referências na sociedade pós-moderna foi transformar a geração da comunicação numa geração falha em comunicação. A multiplicação dos contatos evidencia cada vez mais o caos dentro de você. Numa palavra, numa mensagem, um olhar, um gesto, uma imagem, algo dito ou não dito, as pessoas conseguem construir ou destruir pontes, abrir ou fechar pra sempre portas, porque são tempos intensos, e ninguém tem tempo pra se demorar uns com os outros. Sua mente machuca o que seu coração ama, seu corpo rejeita o que sua mente aprecia, seu coração rejeita o que seu corpo quer. E, no fim, alguém sempre sai prejudicado – um, ou todos. É o preço.
     
     É muito confortável a posição de quem analisa as pessoas de fora, mas não repara nas próprias mãos sujas de sangue, ou nos buracos de bala furados no peito. Entre mortos e feridos, não se salvaram todos, e tanto eu quanto você fomos culpados de uma guerra que não acaba quando eu e você morrermos – a guerra do ser contra o próprio ser, seu ser interior, e todos os seres tentando ser, um dia de cada vez ao nosso redor. Eu simpatizo com a sua dor, amigo, porque ela sempre dói, ou já doeu, ou doerá em mim. E eu simpatizo com a sua culpa, porque a culpa sempre é, ou foi, ou será minha. Já disse o poeta que “o mundo gira, e vacilão roda”.
     
     A Bíblia me diz que eu não posso amar meu próximo verdadeiramente enquanto não amar a mim mesma. Eu te pergunto, quem poderia amar o caos que nós somos? Sem romantizações, eu acho bem improvável, porque o caos sempre machuca, e é machucado. Só me resta torcer por tudo aquilo que eu posso ser, quando reconciliar cada parte de mim e da minha história, pra que possamos viver em paz – ainda que seja um trabalho de uma vida toda. E ainda que a convergência completa seja apenas a expectativa do fim dos tempos, a esperança da plenitude ainda é suficiente. E, se eu posso me amar pelo meu potencial, amigo, eu também posso te amar pelo seu. Não desista nunca de quem você é, por todos os sacrifícios de quem você já foi, e por tudo que você pode ser. Você ainda vai muito longe. Eu tenho certeza.