Cesta de Frutas

English version.

Existem muitas formas de dimensionar o tempo. Além dos minutos e segundos, horas, dias, semanas, tem as manhãs, tardes e noites, e as estações, e os bimestres ou semestres escolares, e os quatro anos entre cada eleição, Olimpíada e Copa do Mundo. Quantas refeições em família, quantos cafés com amigos, quantas vezes pegamos o mesmo ônibus indo para o mesmo lugar, na mesma hora. Quantas vezes abrimos e fechamos a mesma porta da frente. Faz alguma diferença também o sentido da contagem — se os ciclos sempre reiniciam (como todo mês que nunca passa do dia 31), se acumulamos indefinidamente, se fazemos contagem regressiva, e o que estamos esperando que chegue quando chegar o zero.

A playlist de músicas que escutei entre Novembro e Janeiro. Daria para escrever um texto novo só falando do que que cada uma significou nesse período.

Eu tive muitas ideias diferentes sobre contar meu tempo aqui. Esperei o fim do mês de Agosto, que começou em um país, e terminou em outro. Depois contei cada semana até o primeiro mês completo, e o segundo, e o terceiro, até que, com mais duas semanas (14 semanas e mais dois dias), completaram-se os primeiros 100 dias de cada marca significativa pra mim — 100 dias na Coreia, em Daejeon, ou como aluna do KAIST. Entre o Equinócio que marcou o fim do Verão, e o Solstício de Inverno há alguns dias, minha primeira estação completa passou também. Um Outono bonito, gelado e cheio da ambiguidade que os tons de vermelho, laranja e amarelo das árvores trazem. Eu me vi um pouco na nudez dos troncos, nos jardins que eram tão fartos de folhas, e pareciam guardar tantos segredos, antes que fossem despidos pelo frio, e eu sobrepusesse mais e mais camadas de casaco, como quem se protege do vento e da sensação de estar indefesa fora da própria zona de conforto.

Parece besteira, mas pensei muito em como contar o tempo porque estava pensando muito em qual a melhor forma de fazer sentido dos dias, porque estava ansiosa pra escrever sobre tudo. Eu escrevi muito desde que cheguei, mas nada que fosse digno de vir a público, porque pareciam fragmentos confusos da minha vontade de achar um fio a partir do qual todas as experiências pudessem se conectar. Penso que a Luisa de 18 anos encontraria uma narrativa mais rapidamente que a de 27; não que minha imaginação tenha atrofiado tanto assim, mas porque já não tenho mais aquela pressa de quem não se importa com as consequências das ideias que deixa crescer. A Luisa de 27 ainda cria histórias sobre tudo o tempo todo, mas morre de medo delas na mesma proporção, porque tem o vício de sempre acreditar demais que sabe exatamente o que está acontecendo, e no fim das contas não sabe de nada. E odeia a sensação de voltar à estaca zero, reorganizando os fatos, jogando o jogo dos números para encontrar uma forma de dizer que, na verdade, tudo sempre esteve sob (meu) controle.

A passagem das estações no campus do KAIST, entre o fim de Agosto e o fim de Dezembro. Acervo Pessoal.

Esse deve ser o perigo de fazer questão de fazer conta do tempo — a forma que o acúmulo nos leva a criar expectativas sobre o que eles significam, a ansiedade que espera que os fatos confirmem que todo esse tempo serviu, sim, ao propósito maior de nos fazer crescer, e não foi gasto em vão. Como uma forma de nos certificar de que continuamos em movimento, mas nem sempre é claro o ponto de partida, a referência de onde saímos até chegarmos onde estamos. Para quem é crente (como eu), a certeza de que todas as coisas cooperam para “o nosso bem” só resolve até o ponto em que a gente se conforma com a abstração do que esse bem significa. Nesse sentido, acho que a terapia me ajuda a fazer a ponte entre o abstrato, e o concreto. Por outro lado, vejo no meu feed quase vazio do Instagram minha dificuldade em explicar com imagens as camadas mais profundas do que minha vida nova significa. Eu já não tenho mais a mesma urgência de me compartilhar na internet — não como tinha há alguns anos. Mesmo assim, confesso que guardei muitas fotos, de coisas e pessoas e lugares, porque estava esperando passar pela marca dos 100 dias, para fazer uma única, grande postagem, de “tudo” que essa nova estação havia me dado. No fundo da minha cabeça — no lugar onde ficam os pensamentos que deixamos estar sem admitir que eles existem — foi onde eu me deixei imaginar como essa postagem seria, quais fotos poderiam representar as pessoas queridas que eu conheci, e que fizeram esses dias mais bonitos, e significativos.

Pensar em como eu postaria sobre os primeiros meses era só uma expressão do desejo de solenizar o tempo passado, mas me mostrou que eu talvez eu não estivesse errada em ter medo dos meus próprios pensamentos e narrativas. Mesmo em tão pouco tempo, aconteceram coisas suficientes para mudar (e muito) a imagem mental que eu tinha da minha nova vida, quase semanalmente. Não seria isso uma prova de que eu continuo em movimento? Mas talvez não fosse a prova que eu queria, porque também é a prova de que as coisas mudam muito mais rápido do que eu consigo prever. Nesses momentos, eu me dei conta, repetidas vezes, de que minha vida aqui ainda é tão pequena, quase ínfima e ridícula, perto da dimensão que a gente espera que a vida tenha aos vinte e tantos. Ela não deixa de significar muito pra mim, que a vivo todos os dias, mas também não deixa de ser um desafio encher um pote vazio com memórias, com coisas que se repitam de forma constante o suficiente para que eu me lembre que aqui é uma casa, e não um retiro de férias, ou só um devaneio que tive enquanto tomava café.

Fotos do show do Stray Kids que eu fui em Seul, em Setembro, que eu havia guardado para um photo dump dos primeiros 100 dias.

Nessa confusão de eventos e pensamentos, a escala mais apropriada que encontrei para dimensionar esses quatro meses foram frutas. Abundantes no Brasil, elas se tornaram um item mais caro, e raro, na minha rotina. Nos mercados da Coreia, várias são vendidas em unidades, selecionadas e imaculadas, embaladas como um presente. Até hoje não recebi uma fruta com laço, mas toda fruta que recebi veio enfeitada com aquele afeto trivial de quem está feliz em compartilhar um pouco do que tem.

Cada um de nós sabe onde dói mais quando nossa ilusão de estabilidade é abalada. Meu maior medo era nunca me sentir parte desse lugar, de forma alguma, e essa foi a raiz de toda a ansiedade e desespero que me consumiram, em maior ou menor escala, nas entrelinhas desse semestre letivo. Minha relação com a falta de pertencimento é complicada desde a infância; mesmo com os aprendizados e tranquilidades que o tempo trouxe, toda vez que entro em um lugar novo, os mesmos traumas antigos ameaçam me assombrar de novo, e essa mudança não foi diferente. O primeiro rascunho deste texto era uma reflexão sobre o pânico que eu sentia quando saía de casa, e não encontrava nada familiar, que me trouxesse qualquer dose de conforto ou segurança; foram muito longos os dias costurando percepções até que meu corpo e minha consciência entrassem em acordo sobre onde nossos pés estavam plantados. Eram os dois lados da moeda do que me aterrorizava — quanto tempo levaria para que eu estivesse em paz completamente sozinha, e quanto tempo levaria para que eu estivesse em paz no meio de muita gente. Eu conseguia imaginar que seria difícil, mas minha imaginação estava convencida de que seria mais fácil do que foi (ou tem sido).

Eu sentia falta de leveza, de uma forma quase paradoxal, porque percebi que não ter vínculo ou raiz alguma que me prendesse a esse chão era um peso para mim. Descobrir a existência desse peso foi uma surpresa difícil de processar, que ocupou meus pensamentos e deu força às minhas ansiedades. Por isso, eu me lembro da alegria banal, mas significativa, que senti quando recebi tangerinas de presente pela primeira vez, de uma amiga que havia ido para Jeju. Eram três unidades pequenas, de casca fina e brilhante, que me contaram que nós tínhamos um vínculo que poderia durar para além do trabalho em grupo que havíamos feito juntas. Depois, ganhei mais uma, de um colega de laboratório, e uma sacola cheia da tia muito gentil, de cabelo vermelho, que trabalha na loja de conveniência do meu dormitório. Toda vez que vou à igreja, ganho mais uma ou duas — até três, se eu recusar ainda que uma vez. Foi assim, depois de algumas semanas pisando em ovos,  sem saber bem se algumas pessoas me tratavam bem só por educação ou obrigação, que eu finalmente comecei a colecionar pequenos testemunhos da natureza das conexões que estava fazendo aqui, e pude sentir alguma leveza de novo.

Tive um exercício de gerar imagens pelo DALL-E 2 e eu escolhi tentar algo que falasse sobre a leveza (ou a falta dela). O prompt foi “weightlessness, low-exposure photograph, bw”, geradas em 8 de Outubro, 2022. Usei a #2 no trabalho e fiquei empatada em 2º lugar em uma votação dentro da turma.

A minha fruteira de estudante estrangeira já recebeu e deu um tanto nesses quatro meses — várias tangerinas, ou as uvas mais suculentas que já provei na vida, caquis, kiwis, morangos — que eu sempre divido com mais um alguém, porque são demais pra uma pessoa só comer em tempo hábil, e nós somos apenas estudantes, afinal de contas, fazendo o possível para dar conta de ter vinte e tantos dentro da universidade, criando uma vida que tenha valor e significado. Além das tangerinas, foram um punhado de pacotes compartilhados de bolachas e biscoitos, dadinhos de chocolate, convites para jantar, tomar café ou soju, caronas, e muitas idas às lojas de conveniência. E tudo diz alguma coisa sobre quem se abre para se importar um pouco.

Nos gestos pequenos das pessoas ao meu redor, eu sentia como se deixasse de ser um decalque na paisagem, e tivesse corpo e presença próprios nessa nova realidade. Foi assim que a metáfora da minha cesta de frutas se tornou o recurso narrativo favorito do começo da minha vida na Coreia. Pelo preço, pelo significado cultural, pela antecipação de que chegue o tempo da fruta de cada estação. E gosto da parte que me força a pensar na questão das diferenças. Meu Deus, como é clichê falar de diferenças entre um lado do mundo e o outro, mas como é impossível escapar delas! Nem mesmo as frutas que como aqui são as mesmas que as que comia em casa, ainda que as chame pelo mesmo nome. Dia desses, ganhamos um caqui como cortesia em um restaurante muito gostoso que visitei; era minha segunda ida àquele lugar, e o dono ainda se lembrava do que eu havia pedido na primeira vez, quase dois meses antes (e quem se esqueceria da estrangeira de cabelo azul-piscina?). Foi minha primeira vez provando um caqui oriental; a casca era fina como a dos que comia no Brasil, mas a textura era mais firme, menos suculenta, não se desfazia nas mãos. O sabor era adstringente; diferente. E mais saboroso, pro meu paladar.

Alguns momentos especiais que lembrei de registrar. Recortes das frutas que ganhei de presente, a primeira vez em que visitei meu restaurante favorito (a convite da minha labmate), e o dia em que dei um jeito de achar um limão na rodoviária de Seul, para minha amiga que estava passando mal.

As tangerinas que comi aqui também são diferentes — são mais delicadas, menores que as mexericas que minha mãe colocava na mesa depois do almoço, mas a casca finíssima requer mais habilidade para descascar sem machucar os gomos, ou espirrar suco na roupa. Um dos meus amigos da igreja aqui, que é do México, sempre pede que eu descasque pra ele, porque ele não consegue fazer bem sozinho. E eu penso muito em todas essas coisas — pelas piadas que fiz e ninguém entendeu, pelos acenos não respondidos nas ruas e corredores, pelo sarcasmo corriqueiro que soava rude por acidente, pelo estranhamento da facilidade ou dificuldade com a qual alguém fala da própria vida. Penso muito em todas essas coisas, por todas as vezes em que eu fiz algo de errado, ou achei que fiz, e me culpei. Não seria esperar demais acertar tudo de cara, ao tentar abrir sozinha uma tangerina tão delicada pela primeira vez?

Penso também em como é preciso algum cuidado ao manusear hoje a casca da fruta que eu quero comer amanhã, para preservar a textura viçosa e o cheiro doce, que fazem lembrar que ela é recém-colhida. Mas esse perfume da fruta fresca, que enche meu quarto e estampa minhas mãos, tem data de validade, e ela precisa ser apreciada e consumida com uma certa velocidade, antes que deixe de ser um presente, e se torne uma inconveniência. E então fica a expectativa de repôr quando acabar esse punhado, e eu fecho o círculo dessa alegoria com a promessa de que tudo que me acontece aqui é bom no quanto é corriqueiro, cheio da medida banal de amor que consegue fazer com que o nascer e morrer dos dias seja mais suportável, e que os momentos sozinha se pareçam menos com solidão, e mais com solitude. Não precisa durar para sempre, mas é doce, e enche os olhos (e faz bem pra saúde, se você pensar por esse lado). 

Mesmo assim, seria mentira dizer que não lamento pelas coisas que vieram e foram tão rápido, sem reposição, na minha vidinha de wegugin, estrangeira nessa terra. Vira e mexe, a expectativa não-realizada da reciprocidade me leva a pensar no que eu posso ser para quem me vê. Nesse programa de Mestrado, eu vou me demorar mais que uma tangerina, caqui ou cacho de uvas resiste na minha fruteira, então entendo que preciso continuar entregando e recebendo novas demonstrações do que as pessoas significam pra mim, e do que eu significo pra elas. Gostaria de não descobrir mais nenhuma vez que estava errada sobre o que alguém pensava de mim, mesmo sabendo que isso sempre pode acontecer, porque o risco e a incerteza fazem parte da equação de resolver se abrir pras pessoas. Mas o ponto mais importante dessa reflexão é que, antes mesmo de decidir que queria tentar vir para esse país, eu já sabia que só dá certo ser exatamente quem eu sou do lado de fora da minha casca se eu não tiver medo de ficar triste. Como bem disse minha amiga Dora Sanches, “quem sente medo de ficar triste também tem medo do amor.” Sem amor — ou a expectativa e a esperança do amor — não tem troca; os corações não se abrem, os vínculos não se sustentam, o peso do estranhamento nunca vai embora, o corpo e a mente nunca entram em acordo sobre o lugar da planta dos pés.

Mais um punhado de memórias boas que fiz com pessoas especiais.

Enquanto escrevo, converso com minha amiga Ashley — Coreana-Americana, Mestranda, que mora em Seul, e voltou para os Estados Unidos para passar o fim de ano com a família. Ela é uma cantora-compositora, uma das pessoas mais sensíveis que já conheci, e todas as nossas conversas sempre terminam com a mesma pergunta — como seria viver com um coração que agoniza menos todos os detalhes de todas as coisas? Não sei se temos, ou se jamais teremos resposta. Mas é por isso que eu gosto de metáforas — é da natureza delas nos fazer pensar menos nos detalhes que elas não explicam bem. Se eu quisesse, poderia extrair muitas outras camadas de significado sobre as frutas que ganhei neste semestre, mas também poderia ter contado essa história a partir do meu hábito de sempre ter chicletes comigo, e oferecer para todas as pessoas ao meu redor. Em ambos os casos, vemos duas mãos estendidas — uma para dar, outra para receber. Minha cesta de frutas perfumadas vai ficar bem enquanto continuarmos dando e recebendo, e eu for capaz de sofrer menos pelo que se perdeu, ou nunca mais voltou. Essa é a arquitetura dos relacionamentos que abre espaço para que a gente crie raízes — o processo é irregular e incerto, mas as trocas me lembram que eu não sou a única pessoa tentando se encontrar no meio disso tudo aí.

O lado bom é que eu sinto meu coração sendo renovado dentro do meu peito. Mesmo sob a ameaça de todas as coisas que me aterrorizam há tantos anos, eu me mantenho sensível às pequenas bênçãos corriqueiras, e deixo que elas curem mais um pouquinho do meu medo de seguir em frente. A conversa de que a dor é uma zona de conforto é prova de que nosso instinto pode falhar conosco; nossas percepções, entre a mente, e as superfícies, e janelas do nosso corpo, podem mandar sinais que não sabemos interpretar. Mas eu ainda não me confundi nenhuma vez quando provei um pedaço de fruta, e experimentei seu sabor e textura na minha boca, e tive convicção de que minha mente e meu corpo estão em um lugar só. Talvez esse seja o tal do gostinho de liberdade do qual tanto se fala.

Todas essas fotos aqui tem um contexto que significa muito pra mim, mas tomaria espaço demais explicar todas, então vou deixar para a imaginação dos leitores.

Featured Image by Jonathan Pielmayer on Unsplash

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