31 Devocionais #21 – A Morte é Lucro

     A fé cristã nasce a partir da morte. Jesus seria apenas mais um profeta, não tivesse morrido e ressurgido dentro os mortos. A morte e a promessa de vida. Não apenas a vida que respira, que se move pela terra, mas que perdura pela Eternidade, de volta pra casa, ao lado do Pai, através do Cristo.
     
     Os primeiros cristãos, testemunhas da vida, morte e ressurreição de Jesus, entendiam que haviam sido chamados para com Ele morrer e então viver eternamente. Mas não como quem teme a morte e sonha com fartura de dias, mas como quem não teme aqueles que podem apenas ferir seu corpo, e não seu espírito. Todos os apóstolos escolhidos de Jesus foram martirizados pelo evangelho – não por correrem atrás da morte do corpo, mas pelo Amor escandaloso por Jesus, e a disposição de ir até os confins da Terra para cumprir a carreira proposta diante deles. 
     
     Paulo estabelece o patamar de vida que devemos buscar quando diz em Filipenses 1:21 que o viver é Cristo, e a morte é lucro. Se você é cristão e tem medo de morrer, você ainda não entendeu a fé que proclama, você ainda não entendeu a promessa da Vida Eterna. Tudo é vaidade – nada é indispensável, e o Senhor ainda provê tudo por amor a nós. Não há motivo para ansiedade, nem medo. Nosso viver foi entregue à Ele e toda vez que respiramos, respiramos por Amor àquEle que primeiro nos amou. 
     
     Nem todos são chamados para ser mártires pelo Senhor; vários viveram, e viverão, fartura de dias caminhando sobre a Terra com o Espírito Santo. O coração de todos, no entanto, é chamado para as mesmas convicções; viva 20 ou 80 anos com a certeza de que aquEle que te salvou foi Senhor de todos.
     
     Por Amor dEle, já matamos nossa própria carne, nossa própria vontade, todos os dias. Não existe coisa, não existe dinheiro, presente, pessoa ou sentimento mais importante que a certeza de que nosso Pai nos ama, e nos chamou para ir ao mundo, levando Seu Fogo em nosso peito. Não ame sua vida, ame viver pra Cristo. A Alegria dEle é a sua força, e a Vida Eterna é a recompensa que Ele prepara para aqueles que forem fiéis até o fim dos seus dias. 
     
     “mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contando que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.” Atos 20:24
    

Welcome to the New

     Já foram 44 dias de Reino Unido e, apesar do layout estar pronto já há vários meses, não havia arriscado escrever nada ainda. 2015, na verdade, foi um ano muito parado, apesar de todos os planos que eu havia feito. Ninguém mais usa blogs hoje em dia, alguns diriam, mas eu continuo mantendo o meu, mesmo que às vezes fique tão abandonado. Casa é casa, e, no fim, a gente sempre volta. 
    
     Engraçado porque, no momento, tudo aquilo que eu chamo de “casa” é novo, diferente do que era 45 dias atrás. Agora, já estou bem estabelecida, correndo pra viver meus sonhos mas, acima de tudo, os sonhos de Deus pra mim aqui. E, mesmo sabendo que eventualmente a vida vai me levar de volta pra casa, o tal do choque cultural não me pegou. Nenhuma dificuldade me fez chorar e sentir tanto a falta do lar que eu quisesse largar tudo e ir embora correndo.
    
     Se você é alguém que já me leu em outros momentos, sabe que sempre fui muito apegada à dor, em parte por acreditar que ela constrói, muito mais que destrói. E isso é bíblico, na verdade – “melhor estar na casa em que há luto que na casa em que há riso”. Não que eu não ria aqui; rio muito, o tempo todo, pelos bons amigos brasileiros que vieram comigo, e pelos bons amigos que estou fazendo no ambiente um tanto hostil da universidade e na igreja tão aquecida pelo amor do Senhor que encontrei. Mas, para alguém que sempre ponderou tanto sobre solidão, nunca deixa de faltar a ponta de dor no coração quando se lembra de que tudo que já conheceu até hoje na vida está muito, muito distante.
     
     Tudo ainda é lindo, até a neblina que cegava a vista da minha janela hoje de manhã, os ternos e gravatas dos rapazes se preparando para apresentar trabalhos de arquitetura, as árvores despidas de outono, a mistura de sotaques de todos os dias. Poderia ser deslumbramento, mas é um pouco mais que isso. É gratidão.
    
     Uma gratidão bem mais funda, que consegue se regozijar no domingo perdido lavando roupa, no quarto bagunçado, na falta de família no Natal, na ausência de caronas num dia de chuva inesperada, na falta de colos e mimos quando algum mal ataca o corpo ou, tão fortemente, o coração. Muito mais que feliz por morar na Europa, no Reino Unido, em Leicester – essa cidadezinha tão mal compreendida – , estou feliz por estar construindo minha história e poder contar com esse ano tão privilegiado.
     

     Por trás de toda compra feita com dinheiro trocado hoje pra não faltar amanhã, existe um propósito muito maior, que foi orquestrado com amor pelo Autor da minha Fé. Estou cumprindo meu destino. Nada pode ser mais gostoso que isso.
   
   
     

Uma em um bilhão

Eu nem sempre tive 100% de certeza de onde eu vim. E eu sei que você também não. Acontece que, às vezes, a gente olha pra esse mundão e não consegue nem imaginar o tamanho que tem, e quantas pessoas diferentes existem, e quanta fauna, flora, e todos os outros planetas e corpos celestes que existem nesse universo. E, voando pelo espaço, procurando uma resposta, a gente perde altura de voo e vai caindo aos poucos de volta pra atmosfera, pro nosso país, pra nossa cidade, até que volta pro nosso umbigo, e não sabe mais sequer qual o valor que se tem.
     
Eu gosto de pensar que sou o fruto de uma máquina de improbabilidade infinita. Não só pensando em tudo que fez parte do surgimento do planeta, do universo, e das espécies todas, mas pensando em tudo que me torna quem eu sou. Todos os meus atributos, minha personalidade, as pessoas que conheci, os lugares por onde andei. É lindo imaginar que nada aconteça por acaso.
     
Eu não sou só filha dos meus pais. Sou filha dos meus avós, bisavós, tataravós, e dos tataravós deles, e dos tataravós seguintes. Eu não seria quem sou se outro dos espermatozoides do meu pai tivesse fecundado o óvulo da minha mãe. Eu poderia nunca ter existido sem alguém a centenas de anos atrás tivesse tomado um caminho diferente num dia quente, ou não tivesse se mudado de cidade. Se, em vez de olhar pra esquerda, e visto a pessoa por quem se apaixonou, tivesse olhado pra esquerda.
     
Isso parece pequeno, mas é grande, poderoso, precioso. Eu não sou um acidente, nem milhares de acidentes. Eu sou como uma canção da orquestra do Universo. E toda pedra no caminho é uma nova história em potencial para que surja na minha vida. Todo bem, e todo mal que vem, faz parte da minha vida, e estará sempre contido na história de quem vier depois.
     
Eu poderia ter sido várias, mas fui eu quem venci nessa máquina de possibilidades. Eu sou uma em um bilhão, mas também sou só uma parte dessa rede que relações sobre a qual nós construímos a vida. Muitas outras pessoas ainda virão. Pessoas que eu conhecerei, pessoas cujas vidas começarão através de mim. E eu fico feliz em saber que farei parte da improvável preciosidade da vida delas.
     
     

Literata


     Eu queria escrever algo que fosse maior. Maior do que eu, maior que o meu drama, maior que as minhas lágrimas. Algo que fosse o bastante pra atingir as pessoas ao meu redor, e as pessoas ao redor delas, e as pessoas ao redor delas outras. Algo que criasse vida própria, vida além de mim. Que fosse mais da Vida do que meu. Que fosse tão melhor que eu.
     
     Eu queria escrever algo que fosse digno de entrar nos corações, e fazer Vida. Trazer alívio, trazer reflexão, trazer reflexo. Algo que trouxesse brilho aos olhos, ainda que brilho de lágrimas. Algo que não fosse esquecido, que não fosse apagado. Algo que trouxesse a tristeza da averiguação, mas a alegria da superação. Algo que fizesse saltar um caminho àqueles perdidos. 
     
     Eu queria escrever algo que fosse um porto seguro em meio à tempestade, ou um mirante descoberto num belo dia de Sol. Que abrisse os olhos, que abrisse os ouvidos, que abrisse os lábios e terminasse em canções de júbilo. Algo que traga o júbilo da Vida propriamente dita – a alegria puríssima do existir, do entre olhos distantes que sabem que, de uma forma ou outra, sempre hão de superar o novo dia, tão mais difícil que o anterior.
     
     Ou talvez não. Talvez isso tudo seja grande demais para que alguém queira para si a honra. Talvez toda essa escrita maravilhosa, inconcebível, esteja impregnada nas linhas sinuosas da Vida que nos envolve, como uma lufada de vento num dia de verão. Talvez não seja exprimível, nem pronunciável, ou legível por olhos humanisticamente letrados. Talvez seja só uma aspiração, uma ilusão, uma vocação, uma busca que eu não posso completar.
     
     Eu queria escrever algo que fosse tão grande que eu pensasse ter vencido e alcançado a graça de exprimir o mais sublime da grandeza da Vida. Só para que, no dia seguinte, eu descobrisse não ter conseguido. E nunca parasse de tentar encontrar, entender, conquistar.
 

De novo, madrugada.

     Eu sempre vi o Sol nascer. Desde pequena, mamãe gostava de madrugar, e eu a acompanhava. Também sempre vi as estrelas em seu momento mais brilhante – na madrugada mais densa, das luzes mais apagadas. O escritório de papai sempre foi em casa, e eu sempre o acompanhava em suas muitas madrugadas de trabalho.

     O começo da manhã é sempre mais solitário. Poucas pessoas acordadas, a maioria fazendo café, desligando despertadores, sob as cobertas. Trabalhadores nos ônibus, o Sol surgindo no cantinho da minha janela. Minha irmã dormindo, quase desmaiada. Mamãe vindo até mim “Já está acordada, pirulita?”. Sempre os melhores programas de tevê. A madrugada é silenciosa, calma. Só os sons do mouse. Eu desenhava o tempo inteiro, bons tempos de pixel art. Papai escutava blues e Sérgio Lopes. Às vezes me mostrava algo que estava fazendo, ou entrava no The Die Line e me convidava pra fazer uma pausa. Eu permanecia ali até que mamãe acordasse e me mandasse ir pra cama. Às vezes eu ia, às vezes não.

     Os tempos passaram e a escola se intensificou. Dormir tornou-se imprescindível. Fiquei por muitos anos vivendo uma vida de horários medíocres, sofrendo com alguma insônia por bastante tempo. Vivia das 5h até as 23h. 22h era incrivelmente tarde. Isso, claro, até que entrei na faculdade. Eu posso ser exagerada, mas existe algo de muito bonito, apesar de deprimente, em ficar tantas noites acordada, seja em casa ou na universidade. As madrugadas e o mais primitivo das manhãs são próprias de quem as presencia, em silêncio ou fazendo muito barulho. Eu soube que algo realmente havia mudado quando 23h tornou-se cedo. Significava que eu ainda tinha toda a madrugada pela frente até que meu prazo de serviço se encerrasse.

     Parei de ser acompanhante das madrugadas, tornei-me dona delas. Tornei-me dona da cadeira em que me sento, e de onde assisto o Sol se pôr e, várias horas depois, na mesma posição, seu ressurgimento. Minha sobrevivência momentânea passou a depender disso. Prazos, datas, entregas, trabalhos, maquetes, seminários, projetos, e a madrugada como a excelência do processo. Meu melhor momento. Já passou da meia noite e ainda parecem oito. Da manhã ou da noite. Sempre parece bom e certo viver meio nas sombras. Fazer acontecer quando as pessoas estão dormindo.

     Essa semana, vi três vezes o Sol nascer de uma janela que não pertencia nem a mim, nem a nenhuma das outras pessoas que estavam comigo. Minha mesa estava bagunçada, meus olhos, inchados, e meus dedos doíam do desenho. Desliguei uma das dezenas de músicas que havia escutado em todas aquelas horas e observei tudo que estava ao meu redor. Mais um amanhecer. Mais um dia da minha vida. Não sua, não nossa, não deles. Minha. Mesmo que mamãe ainda vá me buscar às 7h, na universidade. Mesmo que ela faça um lanche para que eu leve. Mesmo que, quando eu vá pra casa, encontre-a, e papai, ainda trabalhando pra que paguem minhas contas também. Estou construindo minha história, num lugar que é só meu. Com um povo que é só meu, e ideias que são só minhas, e motivos que são só meus; estou construindo minha história, um amanhecer por vez.