#3. as palavras que você deixou pra trás.

      Este texto é o terceiro de uma série. Leia o primeiro aqui, e o segundo aqui.

      Quando comecei a escrever essa série de textos, eu queria falar sobre pessoas & relacionamentos como se fossem luzes, inspirada por uma canção chamada “Mikrokosmos”. Confesso que não era assim que eu havia planejado fechar a trilogia, mas, olhando de volta pros faróis, e pro som que a estrela faz, eu percebo que estava desde o começo me preparando pra escrever isso aqui. Hoje, 17 de Setembro, fazem 4 anos que um álbum chamado “Story Op. 1” foi lançado. Eu pretendia guardar este assunto pra Dezembro, ou próximo Abril, mas achei justo publicá-lo hoje, em homenagem ao insubstituível Kim Jonghyun.

      Há uns 3 anos, eu perguntei pros céus qual era minha vocação divina na Terra; fui respondida na mesma hora – “você é uma contadora de histórias”.

      Ainda que existam palavras celestiais que chegam como uma surpresa, e trazem à existência novas realidades e novas identidades, as palavras que eu escutei apenas colocaram em ordem coisas que já existiam em mim. Eu gosto de histórias; aliás, eu gosto das pessoas que existem por trás delas, e do Deus que nos criou e que se revela através dos fragmentos da nossa rotina desorganizada – como se o plano dessa realidade fosse uma cortina, e a Eternidade estivesse a um pequeno rasgo de distância. Eu já escrevi muito sobre os motivos pelos quais eu gosto de escrever, como se eu me mantivesse como uma permanente leitora do mundo, como alguém que está sempre respondendo à outra coisa. 

      Hoje, especificamente, quero responder ao Jonghyun. Escolher publicar este texto é algo que eu faço com muito cuidado; tenho muito zelo e respeito por ele, sua família, fãs, e pelo legado que construiu. No desenrolar dos fatos, eu sou das que perderam o privilégio do seu tempo em vida, e só se apaixonaram pelo seu trabalho brilhante depois da sua morte. Falar sobre o Jjong hoje é falar sobre as palavras que ele deixou pra trás – como a luz de uma estrela que continua viajando e iluminando por muitos anos-luz, mesmo depois que ela se vai. 

      Em todo meu fascínio por estrelas, eu coleciono a luz de muitas dentro da minha mente e do meu coração. Eu me criei muito sozinha, dentro do meu próprio mundo, e os artistas cujo trabalho influenciou minha vida são como os melhores amigos que muitas vezes eu não tive, mas que estiveram ali pra mim, de uma forma ou outra. Minha vida já deu muitas voltas, mas, até hoje, conhecer o trabalho de alguém é como ganhar uma nova companhia, que chega no tempo certo, pra agregar como deve. Quando comecei a me aproximar da música coreana, mantive uma distância consciente do trabalho solo do Jonghyun, poque eu nunca quis que a tragédia falasse mais alto que qualquer outra coisa que ele tivesse pra me dizer. Pro meu deleite, com o tempo, a aproximação veio naturalmente, cuidadosamente mediada pelo aleatório do meu Spotify, e facilitada pela voz doce e cativante de alguém que, como eu, amava histórias, e era muito bom em escrevê-las e contá-las [e cantá-las]. 

Promovendo seu primeiro EP, “Base”, em 2015, cantando também “Juliette”, música que compôs para o SHINee. Das minhas performances preferidas, prestem atenção nos vocais.

      Além de membro por 9 anos de um dos maiores grupos da sua geração [o SHINee]Jonghyun também apresentou um programa de rádio, chamado “Blue Night”, entre 2014-2017. Em uma entrevista concedida em Abril de 2017, no último dia em que o programa foi ao ar, ele disse que entrar para o rádio foi o segundo maior ponto de virada da sua vida [o primeiro sendo a decisão de largar a escola no Ensino Médio]. Ele considerava ambos mais importantes que entrar pra indústria do k-pop, ou publicar o primeiro livro, pois foram decisões que transformaram e ampliaram sua visão de mundo. No Blue Night, que ia ao ar entre 00:00 e 02:00, ele se juntava aos seus ouvintes para construir e compartilhar um mesmo espaço, e fazer daquelas duas horas um lugar seguro de descanso no fim dos dias.

      O grande triunfo do programa foi ter tido sucesso como um canal de comunicação e troca, tão sinceros quanto fosse possível. Das muitas histórias que eram compartilhadas, ele começou a escrever canções, em um quadro especial intitulado “Escrito pelo Blue Night, composto por ele”, em que ouvintes enviavam seus relatos – vagos ou específicos, expressões de desejo do momento, desabafos curtos, pequenas manifestações de rotina que passariam totalmente desapercebidas até que alguém colocasse em palavras. Essas canções se tornaram eventualmente sua primeira coletânea musical – o Story Op. 1lançado em 2015, e que completa 4 anos hoje.

      Algumas músicas surgiram a partir de mensagens dos ouvintes – como a faixa “Like You”, baseada na história de um rapaz que estava em uma paixão unilateral e não-confessada, ou “I’m sorry”, sobre uma moça que havia recebido um e-mail de seu ex-namorado. “Maybe tomorrow” foi uma resposta às muitas mensagens sobre cansaço e desânimo ao fim de um expediente, enquanto “End of a Day” fala sobre ter pra quem voltar no fim de mais um dia. A excelente “Diphylleia grayi [skeleton flower]” partiu de uma proposta que ele recebeu, de descrever a vida através de flores e tempo, e foi também o título de um romance, publicado em Setembro de 2015, que combinava trechos e aspectos das canções do álbum em uma mesma história. [para saber mais sobre cada faixa – em inglês] A coletânea não foi promovida de forma convencional, nos music shows coreanos, mas com uma série de pequenos concertos, intitulados The Story by Jonghyun – momentos de convergência modestos para o vocalista de um grupo acostumado a esgotar as maiores arenas da Ásia.

      “U & I”, faixa no. 2 do álbum e música tema do Blue Night, fala sobre o encontro de todos os dias entre Jonghyun e seus ouvintes, para compartilhar um pouquinho de si uns com os outros. De dentro daquele estúdio, ele pode desconstruir partes da sua imagem de ídolo jovem, e revelar seu lado pessimista, suas indisposições, sua rotina atípica, e conhecer mais sobre a vida comum das pessoas que o acompanhavam – tanto as que viviam na mesma cidade quanto as que o escutavam de outros países, em outros fusos horários. Incontáveis pessoas que ele nunca conheceria pessoalmente, mas de cujas vidas ele fez parte – como imagem, como voz, como artista, poeta, canção – como lembrança. Todos os dias, quando se encerrava às 2 da manhã, ele deixava um convite, quase como uma declaração de missão – “Aqui fala o Jonghyun do Blue Night. Se você não tem um lugar de descanso, você é bem-vindo aqui sempre que precisar. Venha e descanse aqui amanhã, também.”

“U&I”, apresentada em um dos pequenos shows que acompanharam o lançamento do Story Op. 1.

      Hannah Ewens, em seu livro “Fangirls” [2019] chama atenção para o uso do termo “fandoms” [ou fan kingdoms] para se referir ao universo de admiradores que se organiza em torno de uma figura mais ou menos pública – um reino, algo que pressupõe a existência de um território sob o domínio de alguém. De fato, o maior poder que um artista tem é o de fundar mundos ao seu redor; abrir espaços e inaugurar novos lugares de encontro, dimensões paralelas em que pessoas diferentes se cruzam, e constroem memórias, e tocam as vidas umas das outras, movimentando a história e as redes da nossa sociedade. Na ocasião de seu último programa, no dia 02 de Abril de 2017, entre as muitas mensagens que recebeu, uma sempre me chama a atenção – “Graças ao Jjong-D, minha vida simples se tornou um pouco mais especial. Muito obrigada por sempre ter estado aqui, independente do quão bom ou ruim tivesse sido meu dia”. Assistindo às suas transmissões antigas, lendo suas entrevistas, e escutando suas músicas, ele continua fundando novos mundos e novos espaços, em mim e em outros; suas canções dão o tom de alguns dias, mudam o clima de outros, ou às vezes não encontram espaço algum. Algumas são como um abraço, outras me fazem rir e dançar, outras ficam como plano de fundo dos afazeres do dia. Já fiz amigos falando delas, já levei unfollows falando delas, e, hoje, eu escrevo um texto sobre elas, na esperança de que elas possam tocar a vida de mais alguém. O farol continua brilhando.

“Our Page”, música escrita pelos 4 membros do SHINee, a respeito da perda de seu 5º membro.

      Das muitas coisas que me fascinam sobre ele e sua música, a maior talvez seja o esforço em se manter sensível ao mundo ao seu redor, mesmo que as circunstâncias apontem na direção oposta. Todos nós enxergamos a realidade em narrativas – os pontos de vista, subjetividades, vieses, preconceitos e peculiaridades do nosso próprio olhar. Estar em constante troca é o que nos permite ver por outros olhos, reconhecer outras perspectivas e descobrir mais das facetas da vida que não se revelam quando estamos sozinhos. As histórias que guardamos e compartilhamos ficam bem sobre o limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo – como os faróis que nós construímos, e que continuam iluminando os mares, mesmo depois que ninguém mais se ocupa de tirar o pó das escadas. Nas palavras do próprio Jonghyun, “qualquer tipo de relacionamento [ou de conexão] é importante, pois você nunca sabe qual será o fim”

“1000”, minha música preferida, parte da coletânea Story Op. 2 [lançada em 2017]. A canção foi escrita em comemoração ao 1000º dia do Blue Night

      Olhar para uma pessoa como o Jonghyun me faz pensar no contraste pungente dos cheios e vazios que ficam quando uma pessoa vai embora, mas deixa muito. Os lugares que ele ocupava continuam lotados, porque as suas palavras eram muitas, eram fortes, altas, poderosas, e preenchiam todos os espaços. E é por isso que a sua ausência também fala tão alto; tudo que ele deixou pra trás faz lembrar a falta que ele faz. Fica um vazio de tudo aquilo que ele ainda poderia fazer e viver, mas não fez; a família que não construiu, as histórias que não contou, as músicas que não compôs, os livros que não escreveu, o retorno ao Blue Night que não aconteceu. As coisas que ele dizia com os olhos, com as mãos, além da própria voz, ainda ecoam, ainda se fazem presente, pra quem se importa de parar e ouvir, e pra quem não se importa, mas cuja vida toca a de outros que pararam pra escutar. São gatilhos pra lembranças, são o motivo de ficarmos acordados à noite, esbarram nos pedaços da rotina… Mas isso não é só sobre o Jonghyun, ainda que seja a respeito dele que eu fale aqui, hoje. 

      E, claro, de tudo que eu falo, falo apenas como simples fã, e uma fã póstuma – a menor e mais insignificante de todos, que nunca experimentou a expectativa presente de admirá-lo em vida, e para quem a ausência foi a primeira realidade. Mas este é o poder das histórias que compartilhamos – aquele limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo. Mesmo como fã póstuma – mesmo assim – eu sinto meu coração vazio toda vez em que, assistindo um vídeo ou escutando uma canção, eu me lembro que ele não está aqui mais. A morte é nosso problema mais antigo, mas é sempre um problema novo, porque morremos só uma vez, e quem continua em vida segue em direção à própria morte sem saber também o que isso significa. Sempre vai doer em alguém, mas isso também vai passar – mas algo também fica. Acho isso intrigante. 

      Se ele fosse uma história, seria uma grande história; é difícil explicar isto sem que pareça absurdo, então vou deixar em aberto, e confiar na imaginação dos leitores. De qualquer forma, a vida continua, e nós todos ainda temos muitas páginas para encher até o fim de todas as coisas. É assim que tudo corre, como um grande jogo de pinball, ou uma partida de futebol de botão, ou uma fissão nuclear e sua reação em cadeia; as ilustrações são muitas, mas o sentido é mais ou menos o mesmo. Nem tudo é bom, quase nada é louvável, pouca coisa é agradável, mas o mundo não parou de girar ainda por causa de nada disso. Contar histórias é uma forma de nos lembrar que, apesar de tudo, ainda pode ser um privilégio fazer parte da vida uns dos outros. Pelo menos, eu penso assim. Muito obrigada por fazer parte da minha, Jonghyun. You did well. 

      [Tem playlist também.]

o som que a estrela faz

Photo by Teddy Kelley on Unsplash.

      Eu comecei a escrever pra ser dona de histórias. Eu gostava de ler histórias, gostava de ouvir histórias, mas queria ser dona delas também. Comecei com histórias de princesas, nas quais a princesa se parecia comigo, porque eu queria um final feliz pra mim. Pouco tempo depois, viramos super-heroínas, e havia muito cor-de-rosa. Então, eu descobri um universo completamente novo, e escrevi dúzias de contos sobre marionetes, gatos pretos, e meninas que eram atropeladas durante surtos esquizofrênicos. Logo depois, eu descobri a poesia.

      A poesia tirou o foco daquilo que eu projetava em personagens, e jogou sobre mim. Foi a primeira vez em que eu vi como meus contos se pareciam muito com os desabafos que eu escrevia noite e dia em dezenas de caderninhos e diários. Eu me virei do avesso em dezenas de versos, até que me embaralhei toda em mim mesma, entre amores, desamores, e algumas dores. Escrevi sobre tantas coisas e pessoas que precisei dar um tempo, pra tentar me recuperar. Não voltei pra poesia, ainda.

      Não sei bem porque eu escrevo, hoje em dia. Pra compartilhar, representar, apresentar? Eu gosto de fazer bem aos outros com o que eu escrevo, e eu acredito que eu possa curar, transformar, revirar o mundo, com palavras. Mas existe um sentimento específico, que floresce quando eu estou diante de uma folha em branco, que eu não consigo superar.

      Uma vez, eu li que escrever era uma forma aceitável de se desnudar em público, e, exatamente como a pessoa que se desnuda, quando eu escrevo, quero chamar atenção pra alguma coisa. Sem pudor, assim como uma pessoa que se desnuda, eu tento chamar atenção pras coisas que ficam encobertas – em mim, e nos outros também, mas principalmente em mim. Talvez porque eu seja chata demais, na maior parte do tempo, mas, quando eu escrevo, às vezes fico até emocionada com as coisas bonitas que consigo fazer aparecer. Algumas são menos bonitas, mas são muito mais profundas que eu achava que eu era, e é sempre uma surpresa nova, uma face nova da Graça que é revelada, e me deixa um tanto feliz por existir e ser exatamente quem eu sou.

      Então, toda vez que eu escrevo algo, e compartilho com o mundo – mesmo aquilo que vem com lágrimas e um gosto amargo na boca – , é como se eu entregasse as pedrinhas preciosas que encontrei dentro de mim, coisas de valor, que eu não quis deixar guardadas. Coisas que me deixaram feliz. Mesmo que às vezes algo que me pareça um diamante te pareça um caco de vidro, ou um pedacinho quebrado de espelho. Acho que, se você puder ver seu reflexo neles, eu já vou ficar muito feliz. Nós somos todos como bordados complicados demais, mas que parecem muito simples quando são vistos do outro lado. Depende mesmo do seu ponto de vista.

      Abri uma página em branco hoje porque queria escrever sobre essa frase que vinha martelando há alguns dias – “Qual é o som que a estrela faz?”. Sinto muito pela decepção, mas eu ainda não faço ideia. Quando eu souber o que dizer sobre isso, escrevo uma continuação, mas pode demorar um pouco – em 23 anos de vida, eu infelizmente ainda não encontrei nenhuma estrela dentro de mim.

     [06/06/2019 – hey, eu descobri qual o som que a estrela faz.]

Senti falta da Poesia.

Senti falta da Poesia
Como quem sente
Falta de um dedo necrosando;
Meio morto, meio frio,
Impossível de usar, impossível de sentir,
Mas sempre ali, sempre aqui.
    
Senti falta da Poesia
Como uma Pequena Sereia sentiu
Falta da voz que negociou para ter pernas
E andar em paz entre os homens
(Que decisão idiota).
    
É complicada, essa tal de Poesia;
Às vezes, parece charme, mas é só tristeza;
Às vezes, parece tristeza, mas são só espasmos,
E, só de escrever, parece que sente
Mais, e enxerga melhor,
Sente até o cheiro do jardim que não plantou.
     
É complicada, essa tal de Poesia,
Porque as palavras bem jogadas
Jogam fácil conosco.
    
Mas, ainda assim,
Senti falta da Poesia.
Senti falta, porque preciso do dedo, preciso da voz;
Eles são parte de mim.
    
E sou eu mesma todo o clichê das almas poéticas,
Se desfazendo e fazendo em verso, rima e estrofe;
Sou uma Poesia em forma de Filha,
E meu Pai é a Palavra.
    

Lamentação de Poetisa

Eu me desfaço em cada verso,
E logo me refaço no seguinte,
Mas a estrofe nunca é tão completa ou tão bela
Quanto o parágrafo que construo,
O parágrafo de cada dia da vida –
Sou melhor na prosa que na poesia.
Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque a frase contínua é vida minha;
Mas estão mortas autora e narrativa,
E não há como vivê-las de novo,
Não há como contá-las, por ora;
Só restam minhas entonações falhas de poetisa.
Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque o meu lirismo cheira à Covardia
De quem precisa de linhas partidas, e rimas,
E figuras de linguagem e alegorias
Pra que se faça escutada, contemplada,
Para que se faça ouvida.

Literata


     Eu queria escrever algo que fosse maior. Maior do que eu, maior que o meu drama, maior que as minhas lágrimas. Algo que fosse o bastante pra atingir as pessoas ao meu redor, e as pessoas ao redor delas, e as pessoas ao redor delas outras. Algo que criasse vida própria, vida além de mim. Que fosse mais da Vida do que meu. Que fosse tão melhor que eu.
     
     Eu queria escrever algo que fosse digno de entrar nos corações, e fazer Vida. Trazer alívio, trazer reflexão, trazer reflexo. Algo que trouxesse brilho aos olhos, ainda que brilho de lágrimas. Algo que não fosse esquecido, que não fosse apagado. Algo que trouxesse a tristeza da averiguação, mas a alegria da superação. Algo que fizesse saltar um caminho àqueles perdidos. 
     
     Eu queria escrever algo que fosse um porto seguro em meio à tempestade, ou um mirante descoberto num belo dia de Sol. Que abrisse os olhos, que abrisse os ouvidos, que abrisse os lábios e terminasse em canções de júbilo. Algo que traga o júbilo da Vida propriamente dita – a alegria puríssima do existir, do entre olhos distantes que sabem que, de uma forma ou outra, sempre hão de superar o novo dia, tão mais difícil que o anterior.
     
     Ou talvez não. Talvez isso tudo seja grande demais para que alguém queira para si a honra. Talvez toda essa escrita maravilhosa, inconcebível, esteja impregnada nas linhas sinuosas da Vida que nos envolve, como uma lufada de vento num dia de verão. Talvez não seja exprimível, nem pronunciável, ou legível por olhos humanisticamente letrados. Talvez seja só uma aspiração, uma ilusão, uma vocação, uma busca que eu não posso completar.
     
     Eu queria escrever algo que fosse tão grande que eu pensasse ter vencido e alcançado a graça de exprimir o mais sublime da grandeza da Vida. Só para que, no dia seguinte, eu descobrisse não ter conseguido. E nunca parasse de tentar encontrar, entender, conquistar.
 

Madrugada(s)

     Acordamos, e inicia-se o dia, como sempre. E chega ao fim, mais uma vez. Manhã, tarde, noite, e é hora de ir dormir. Hora de deitar, descansar a cabeça pesada do estresse diário que a rotina nos causa. Deixar que nossa mente respire calmamente um ar puro de relaxar-se.
     
     Quem dera fosse fácil assim.
     
     Existem dias cansados que não se encerram ao deitar. Dias perturbados, psicologicamente balançados, que nos deixam pensando, pensando… 
     
     Coisas para fazer, preciso de coisas para fazer.
     
     Qualquer texto, desenho, vídeo, canção ou conversa que me distraia. Pelo celular, pelo computador, usando uma caneta ou um livro. Qualquer coisa. Qualquer coisa que mudasse meus pensamentos. Um bom amigo passando por problemas. Um jogo que pareça especialmente complicado. Algo que me dê sono, cansaço de pensar. Televisão sempre me faz dormir. Me dá sono, tantas banalidades, que abraço como se fossem as mais úteis dessa vida. Grande distração.
     
     Mas, uma hora, o programa tão bom acaba. Os amigos vão dormir. O livro chega ao fim. O desenho está completo. E o sono, o sono ainda não chegou. Ainda não quis chegar. O descanso foge de mim, em noites assim, como demônio foge da Cruz, sabendo que nela está o poder que o dissipa.
     
     Silêncio. Escuro. Solidão. Nenhum amigo com quem falar.
     
     Quem? Por quê? Como? Até quando?
     
     E minha mente se desfazia em perguntas.
     
     Eram sempre as mesmas perguntas, dentro dessa mesma mente. No mesmo quarto. À mesma hora. E por muitas e muitas madrugadas, consequências de dias semelhantemente cansativos. Desgastantes. Psicologicamente. 
     
     Ao contrário outras noites em claro, em que minhas filosofias acabam por me levar a alguma resposta, que me satisfazia para o sono, nessas não ocorria bem assim. Eram perguntas que ecoavam, e rebatiam nas paredes do quarto, voltando para mim. Algumas escapavam pelas janelas, e subiam até os céus. As respostas retornavam, mas eu não as conseguia escutar.
     
     E era isso.
     
     Ficava assim até que fosse tarde o suficiente da madrugada, e cedo do dia, para me levantar, e agir como se tudo houvesse ocorrido tão normalmente como deve ser. 
     
     Acordamos, e inicia-se o dia, como sempre. E chega ao fim, mais uma vez. Manhã, tarde, noite, e é hora de ir dormir. 
     
     Mais uma vez.

Eu não tenho amigos.

– Eu não tenho amigos.
Felicia bufou, sentada em sua cama, encarando o guarda-roupa. Uma voz surgiu da porta.
– Ah, vira homem, menina. Claro que você tem amigos. Tem a mim!
– Katarzyna, você é uma voz do meu inconsciente que representa minha subjetividade e meu ódio de mim mesma. Além de não ser minha amiga por não ser real, você não possui uma opinião válida. Por favor, retorne ao meu córtex cerebral e me deixe em paz essa noite. – Felicia suspirou e deixou-se cair deitada sobre o travesseiro. Sua imaginação fez com que a voz se movesse em sua direção e parasse ao seu lado.
– Você tem amigos sim, sua resmungona.
– Se eu for realmente tão chata quanto você é, deveria ser fácil deduzir que seria impossível pra qualquer pessoa me aturar.
– Você tem a sua família.
– Família não conta.
– Jesus.
– Além dEle.
– Mas aí você está querendo demais, né?
– Suma, Katarzyna – Cobriu os olhos com as mãos.
– Você se prende demais a umas idealizações tão ridículas, Felicia. E acho que é por isso que você está sempre tão infeliz, reclamando de tudo.
Nenhuma resposta.
– Nada a declarar? Ótimo, vou continuar falando. “Quais idealizações?”, você poderia pensar. Bem, um bom exemplo seria essa mania de acreditar que amigos são aqueles que você vê todos os dias, quase moram na sua casa, se envolvem em altas confusões ao seu lado o tempo todo, te entendem completamente e, ainda por cima, completam suas frases. Por tal coisa, eu culpo a sessão da tarde.
Um grunhido.
– Amigos não são isso, sabe. Não apenas. Cada pessoa tem suas dificuldades na vida e todo mundo vem e vai, nem todos ficam sempre ao nosso lado. Mas existe um sentimento que permanece, que causa aquela sensação nostálgica e prazerosa de reencontrar uma pessoa querida depois de muito tempo e muita distância. Não precisa sentir no ar, a quatro mil quilômetros de distância, que você está mal, e pegar o telefone no exato momento. A confiança ao se abrir e a sinceridade ao escutar e falar são as coisas que realmente importam.
– Mas eles saíram sem me convidar. Nem a Peggy me ligou.
– E agora, por causa disso, você vai parar de falar com ela? Deixa desses tipos de drama, Felicia, pelo amor de Deus, que você já está velha demais pra isso. Você sabe muito bem que não iria, nem que eles te convidassem. E antes que você diga qualquer outra coisa – Felicia permanecia em silêncio, mas seu olhar rodeava pelo quarto – não, eles não deveriam te convidar por educação. Não depois de sete anos de convivência, né.
Silêncio.
Mais silêncio.
– Talvez você esteja certa, Katarzyna.
– Bem, na verdade eu apenas repeti tudo que sua mãe te disse hoje mais cedo. Mas como Vossa Senhoria nunca dá razão a ninguém além de si própria…
– Mentira.
– Desculpa clássica que apenas confirma minhas palavras.
– Vá incomodar outra cabeça, vá.
– Ah, cale-se. E vamos, desfaça esse bico que você fica feia pra caramba assim, e vá ligar pra Peggy.
A porta de seu quarto se abriu e sua mãe entrou.
– Conversando sozinha, Felicia?
– Mais ou menos, mãe, mais ou menos. O jantar já está pronto?
– Não, filha, ainda não. É que tem alguém te esperando no telefone.
– Quem?
– Peggy.
[Pros meus amigos queridos que sempre aturaram (e aturam!) minhas crises de carência ]

Heterônimo

Três e meia da manhã. Ainda estava acordada.

Decidir começar aquele livro havia sido, de longe, minha ideia mais cansativa. Seis meses e trezentas páginas depois, ainda me sentia em um beco sem saída e percebia que, aos poucos, a bomba do branco acabaria explodindo em minhas mãos.
A essa altura, estava presa num mesmo capítulo. O 14º, dos 17 que pretendia escrever. E realmente não sabia como encerrá-lo. Perecia nessa dúvida havia oito noites. Minhas olheiras chegavam ao nariz, e eu poderia jurar que durante a madrugada ouvia gritos vindos da minha cafeteira, tão sobrecarregada e maltratada.
Cansada do processo, cansada. Cansada da minha família. Cansada dos meus amigos. Cansada daquele maldito livro. Cansada do computador. Desliguei tudo – nada havia a ser salvo, já que nada vinha sendo escrito. Afoguei meu rosto na água gelada que saía da torneira. Sentia uma ressaca literária das piores.
Vestindo um pijama e, calçando um par de sapatilhas, com um casaco e chaves de casa presas no sutiã, saí de casa. Em plena madrugada. Sozinha. Talvez minha mãe acordasse e entrasse em desespero. Talvez fosse melhor voltar e pegar meu carro. Mas quem se importaria com detalhes quando sua mente trabalha tão lentamente – já havia caminhado mais de onze quarteirões quando consegui alcançar esse raciocínio.
Depois de muito, muito andar, acabei sentada num banco de praça. Praça muito feia, por sinal. Mal cuidada, de dar vergonha. Dei uma risada interna. Não havia qualquer espelho, mas com certeza meus cabelos se pareciam com aquela grama que havia crescido demais e padecia bagunçada e embaraçada. Observei um cão desolado passando, enquanto eu me fazia perguntas inúteis. Ele, por sua vez, devia se perguntar o motivo de um cão ser obrigado a viver desabrigado, em uma noite fria como aquela, sem qualquer comida, mas não tenho certeza. Se eu soubesse ler mentes, creio que não seria muito mais feliz.
Pode ser incrível como podemos alcançar o fundo do poço usando diferentes caminhos. Eu com certeza não imaginava a miséria psicológica que me aguardava quando, feliz, decidi que amava metalinguagem. Uma decisão altamente normal, se não comum. Isso, claro, em situações que envolvem pessoas lúcidas, equilibradas e emocionalmente estáveis, cheias de uma “força interior”. Desnecessário acrescentar que nada disso amo/sou.
Metalinguagem deveria vir com um aviso, “pensar duas vezes antes de utilizar em autobiografia não declarada”. Porque foi esse o meu erro.
Modificar alguns nomes, personalidades e situações não tornava aquela história que escrevia menos minha. E, talvez, a grande questão de todas essas noites mal dormidas não seja “o que fazer dessa história?”, mas “o que fazer da minha vida?”. Vinte anos mal vividos, à sombra da covardia. Amando qualquer coisa que porventura me olhasse duas vezes. Reclamando de tudo aquilo que pudesse movimentar minha existência a um sentido mais verdadeiro. De alguma forma, eu acreditei que escrever sobre isso esclareceria o meu destino. Só que não.
Cansei de escrever sobre ser infeliz e procurar uma felicidade de papel maché.
Sempre acreditei que estava apenas pairando sobre o abismo, na segurança de uma nuvem permanentemente tempestiva que nunca choveria pra qualquer lugar. Mas foi apenas uma crença ingênua. O escuro do abismo já me iludia os olhos havia mais tempo que eu era capaz de conceber. E a chuva já me havia enchido e afogado, entre essas quatro paredes da alienação de mim mesma.
Coloquei as mãos nos bolsos do casaco. Minha cabeça doía, e minha garganta apertava a ânsia de chorar. Olhei para os lados, e não havia uma alma, sequer uma perigosa, pra me fazer companhia. Escutei ao longe a torre da igreja badalar seis da manhã. O frio não cessava, e fazia com que eu esboçasse caretas a cada rajada de vento que atravessava aquela praça. Suspirei. Sempre gostei de suspirar.
Panfletos baratos de lojas de esquina se acumulavam próximos aos meus pés. Fiz algum esforço para alcançar um, enquanto tentavam dançar ao sabor de uma brisa. No verso de seu papel sulfite verde, um vazio. Todo um vazio. Esperando para ser preenchido pelas palavras de um poeta ou contista idealista, ou pelos esboços de um ilustrador de cartazes desempregado. Talvez os rabiscos de um matemático professor mal remunerado, que sonhava ser laureado com um Nobel.
Tudo começava por um vazio.
Esvaziei minha mente. Ou pelo menos prefiro assim pensar, já que seria impossível, por um só segundo, cessar o movimento inconstante da minha cabeça ainda muito cansada e dolorida. Mesmo assim, parecia que nada poderia me tocar, naquele momento. Éramos eu e Deus apenas. Como se esvaziar-se fosse tal qual uma elevação espiritual.
Quando abri os olhos que não havia percebido fechar, uma senhora, muito simples, estava parada a alguns passos de distância. Carregava uma bolsa puída na alça, e tinha olhos gentilmente cansados. O Sol já brilhava intensamente, atravessando as árvores de copas irregulares e magrelas, parando sobre meu olhar. A luz fê-la perceber que eu também a observava, mesmo estando com a cabeça abaixada. Não se intimidou pela minha aparência estranha.
“Com licença, querida, você está perdida, ou fugida?”
Levantei a cabeça lentamente. Há três horas, ou três horas depois de ter saído de casa? Não saberia por onde começar a respondê-la, não fosse um insight que me surgiu, tão mais rápido do que me fugira uma ideia oito noites atrás.
“Encontrada”. Um ponto de interrogação passeou por seu rosto, antes de sorrir naturalmente e, após um leve aceno de cabeça, seguir seu caminho. Depois dela, vários outros passaram, falaram, viveram… Acabei cochilando lá pelas onze daquela manhã. Fui despertada às 18 horas, pela mesma senhora; repetiu-me a pergunta. Repeti-lhe a resposta.
Já anoitecia. Ofereceu-se para acompanhar-me até em casa. Recusei, mas depois me arrependi. Caminhei solitária por várias ruas de um caminho mal memorizado, até finalmente chegar ao meu lar. O carro de polícia parado do lado de fora me deu vislumbre do que teria que enfrentar quando entrasse, mas não importava. Não agora. Finalmente terminaria aquele livro. E em paz.