O que encontramos do outro lado das ondas

English version here.

Anos depois de lançar Rubber Soul (1965) com os Beatles, John Lennon contou que a faixa “In My Life” foi a primeira que ele “conscientemente” escreveu a respeito da própria vida. Até aquele momento, as letras das músicas que escrevia eram apenas peças secundárias do processo de construção pop, ainda que ele fosse pessoalmente fascinado, desde a infância, pelas riquezas e potenciais de jogos de palavras – que ele lia nos trabalhos de Lewis Carroll – e guardava o hábito de escrever poemas e contos que recontavam episódios da sua vida através das lentes do absurdo, para entreter-se e aqueles à sua volta. Em 1964, Lennon chegou a publicar uma coletânea desses trabalhos, intitulada “In His Own Write”, o que levou à situação em que um jornalista, chamado Kenneth Allsop, perguntou por qual razão suas canções não tinham aquelas mesmas qualidades literárias, ou porque ele nunca fazia referências à memórias e experiências pessoais.

Trecho da página 319 do livro “The Beatles as musicians : the Quarry Men through Rubber soul” de Walter Everett (2001). Do Internet Archive. “In My Life” John Lennon: “Eu acho que ‘In My Life’ foi a primeira canção que eu escrevi que era realmente, conscientemente sobre minha vida, e foi motivada por um comentário que um jornalista e escritor na Inglaterra [Kenneth Alsopf] fez depois do lançamento de In His Own Write… Ele me disse “Por que você não coloca um pouco da forma que escreve no livro, daquele jeito, nas músicas? Ou por que você não coloca algo sobre sua infância nas músicas?” Castigado, Lennon se pôs a trabalhar, descrevendo a vista ao longo do trajeto de ônibus que ia de sua casa em Menlove Avenue até o centro da cidade:” [Tradução livre]

A situação foi o suficiente para impulsioná-lo a tentar; o tempo acabou se revelando muito oportuno porque, a despeito do fato de que, em si, Lennon já possuía as sensibilidades líricas necessárias, os anos vindouros acabariam honrando Rubber Soul como o álbum que representou uma transição fundamental na história da banda, passando do frenesi da Beatlemania para o processo de redefinição dos limites dos sons do pop que ocupava o topo das paradas. Os temas por trás de “In My Life” são bastante simples – nostalgia e saudade, as coisas que ficam porque vale a pena guardá-las, mesmo quando o resto já se reduziu a nada. Mesmo que não fosse, de fato, um dos singles promocionais do álbum, acabou se estabelecendo como uma das músicas mais amadas da cultura pop; o imperativo do tempo, nossa absoluta falta de controle sobre ele, é um dos maiores, senão o maior, tema recorrente da história criativa da humanidade, dos que desperta nossas qualidades mais elevadas, e nossas dores mais profundas. São músicas como “In My Life” que dão às coisas mais assustadoras uma dimensão manejável; elas dão escala à passagem dos dias e anos, articulando a sensação esmagadora de não poder voltar atrás até que ela pareça pequena o bastante para caber num verso. 

De certa forma, este é o maior triunfo que a música pop poderia almejar – a força que sustenta gerações sobre o cruzamento entre letra e música, porque a forma como algo soa faz soar algo dentro de nós também. Claro, estou sendo poética agora porque, neste momento, também sinto algo esmagador dentro de mim, e não quero pensar muito nas camadas sócio-políticas econômicas e culturais das coisas. Eu sei que o tempo não é o mesmo para todos, e que sequer vivemos todos a mesma dimensão das 24 horas de cada dia. Mas, mesmo assim, conforme os anos vão, e paramos para contemplar o que já foi, o peso da passagem só faz com que certos clássicos fiquem ainda mais fortes, continuando tão significativos e relevantes como nunca, ainda viajando pelo imaginário de novas gerações, e trazendo à existência novas realidades. Por exemplo, quando o rapper Coreano B.I escolheu nomear os Beatles, especificamente Rubber Soul e “In My Life”, quando foi perguntado sobre sua primeira inspiração musical, numa entrevista promocional com o Buzzfeed para seu primeiro álbum como solista, em 2021. 

Kim Hanbin, 25 anos de idade. 131Label.

No decorrer de sua carreira que, aos 25 anos de idade, já cobre um período de quase 13, B.I (nascido Kim Hanbin) falou várias vezes sobre a importância de filmes e poesia em suas composições. Ainda jovem, ele descobriu que, através de outras obras, particularmente cinematográficas, ele podia experimentar e descobrir como articular coisas que não havia vivenciado por conta própria, de formas que ainda poderiam produzir imagens vívidas, e suscitar sentimentos fortes de seus ouvidos – sua maior aspiração como artista. Em suas próprias palavras, o trabalho dos Beatles, especificamente suas melodias mais tranquilas, e a carga de significado em suas letras, eram uma grande fonte de inspiração. Quando ele escolhe citar uma música como “In My Life” como fundamental no processo de se tornar o artista que ele busca ser, eu posso imaginar que talvez ele esteja se referindo à forma como a canção traz à tona uma linha de pensamento da saudade de uma forma tranquila, quase jubilosa, sem diminuir a carga dos baixos, mas fazendo com que os altos pareçam uma realidade possível. Mais que qualquer outra coisa, não é sobre um anseio que te deixa emperrado no que passou, mas sobre a liberdade de seguir em frente com confiança, carregando consigo as memórias mais valiosas, como um tesouro. 

Apesar de já atuar como rapper desde 2009, sua carreira como solista não começou oficialmente até o lançamento da música “illa illa”, dia 1º de Junho de 2021, carro-chefe de seu primeiro álbum WATERFALL, lançado sob seu próprio selo. Antes disso, ele já tinha reconhecimento como líder e principal liricista do grupo iKON, entre 2015-2019. Seu trabalho lhe rendeu um prêmio de “Compositor do Ano”, em 2018, depois que a canção do grupo “Love Scenario” se tornou um mega hit na Coreia. Inspirada pelos dez minutos finais do filme La La Land (2017), é uma música que não soa particularmente feliz, nem triste. Ela se move em círculos, sem a força motor de uma estrutura que conduz a um grande clímax, optando por dar voltas em torno do refrão, tal qual a mente de uma pessoa que está se preparando para virar a página e deixar pra trás o que precisa ser deixado, mas fazendo o possível para carregar consigo as memórias que mais valiosas, como um tesouro.

Kim Hanbin aos 13 anos, já usando o nome “B.I”, em 2009, em um dos palcos para a música “Indian Boy” de MC Mong, da qual ele participou. MBC’s Show! Music Core, MBCKpop.

Existe uma divisa entre B.I, o líder de grupo e compositor por trás de “Love Scenario”, que vemos rodopiando em torno de memórias, com seus companheiros de grupo, no clipe da música, e B.I, o solista, emergindo do mar, sozinho, no começo do clipe cinematográfico de “illa illa”; esta, assim como aquela, também é uma música que não soa particularmente feliz, nem triste. O título em Inglês é uma palavra inventada, que muito se assemelha aos ideofones coreanos que representam o movimento ondulado das ondas. Em Coreano, se chama “해변” [haebyeon], que significa “praia”. Os primeiros versos, que, no clipe, crescem progressivamente como os sons de quando tiramos a cabeça da água, foram incorporados do poema “O Sabor de Doces e Praia” [사탕과 해변의 맛] do poeta Seo Yun-hoo – “existe uma praia na ponta das minhas mangas / por ter enxugado as águas que estavam escorrendo pelas minhas bochechas.” A escolha dessa metáfora bem específica dá estrutura à uma canção que é sobre ser engolido pelas ondas de um oceano feito das próprias lágrimas pesadas, salgadas e quentes.   

Eu passei alguns dos meus melhores anos escolares me dedicando a ler e dissecar poetas e sua poesia, mas algo sobre a natureza da música pop me faz preferir abordar composição de uma forma diferente. Separar minhas canções favoritas das pessoas que as escreveram com certeza me dá mais espaço para que eu me aproprie delas. Mas, como escritora, preciso admitir que fico feliz em poupar artistas de falar sobre coisas que eles talvez prefiram guardar. Para mim, a decisão de publicar ou não algo que escrevi depende muito de quão vulnerável eu me sinta – eu posso decidir guardar coisas pra mim na eventualidade de sentir que é fácil para que outros entendam do que eu estou falando, se for algo cujos detalhes eu prefira deixar no ar. Escolher se abrir diante das pessoas de uma forma que dê à elas a chance de especular é um ato de bravura. Nesse sentido, acho que o B.I é corajoso; quando “illa illa” foi lançada, ele ainda aguardava sentença num julgamento por acusações de tentativa de compra de drogas ilícitas em 2019. A política nacional sobre drogas da Coreia é bastante rígida. O processo foi a causa de sua saída de seu antigo grupo e agência.

Não se esqueça de ativar as legendas.

De forma semelhante à “In My Life”, “illa illa” descreve sentimentos e memórias vívidos que parecem específicos e detalhados o suficiente para serem fruto de experiências pessoais – a escolha de palavras tem aquele tipo de pungência que resulta de pensamentos que só passam pela mente de quem vivenciou certas coisas em primeira mão. Por conta disso, ambas as canções têm sua dose de subjetividade, mas ainda são conscientemente feitas generalizadas para que se encaixem com facilidade na vida de qualquer um. A visão original de Lennon era uma descrição de um trajeto de ônibus que ele fazia do seu bairro ao centro da cidade, mas ele preferiu descrever a trajetória dos seus próprios pensamentos através das memórias que ele tinha do lugar em sua mente. Ao escolher abrir a canção com a metáfora do poema de Seo Yun-hoo, que também funciona como o pré-refrão da música, B.I diz aos ouvintes exatamente onde ele se encontra no momento – e não é especificamente sob nem fora das águas, mas também não é à beira-mar. 

Talvez essa seja a razão pela qual o tema do oceano passa uma impressão revigorada aqui, mesmo que afogar-se numa piscina de lágrimas seja tão antigo quanto as aventuras de Alice no País das Maravilhas. Kat Moon (2021), para a TIME, escreveu que B.I foi além da “[tentação] de focar na natureza ilimitada do oceano na praia”; a reflexão é pessoal e, assim como a faixa segue em círculos em torno do pré-refrão e refrão, as metáforas são muito mais centradas no próprio corpo como início e fim de todas as coisas. O mar se encontra dentro, por dentro e pra fora da suas extremidades, até mesmo as ondas de memória que o atingem, indo e vindo e arrastando para longe tanto as coisas boas quanto as coisas más. Existe um sentido de antecipação, mas o clímax não é alto e estrondoso como uma tempestade, mas apropriado para os primeiros passos de alguém se ajustando para um recomeço. O ritmo caminha a passos firmes, gentis, e seguros. 

O resto do álbum WATERFALL é imperdível, na sua forma de contar uma história, ou várias. Logo antes de “illa illa” vem a primeira faixa, também chamada “Waterfall”. Esta parece uma abordagem muito mais violenta, e íntima, dos mesmos tópicos – dor, raiva, vergonha, perda, escrutínio e a dimensão das consequências de uma queda. Diferente do oceano, que é, em si, grande o bastante para recolher e abrigar as mais calmas e mais violentas correntes, uma queda d’água se move em apenas uma direção. Mesmo assim, sabendo que todos os rios correm para o mar, o fim de uma cachoeira pode ser a razão pela qual, independente do quanto ele cante sobre ser varrido pelas próprias lágrimas, “illa illa” também não soa particularmente, nem intensamente, triste; no ondular das ondas, na mesma medida em que ela fala sobre afundar, ela fala sobre emergir. E é justamente por isso que é tão difícil separar essa letra da pessoa que a escreveu – no fim das contas, é um retorno; é uma declaração. Das 12 canções que compõem o álbum, a última faixa é chamada “Próxima Vida” em Coreano, mas “Re-Birth”, “renascimento” em Inglês. É uma música doce sobre amor e destino, mas eu não consigo deixar de pensar em como se torna um termo apropriado para alguém que parece decidido a emergir das águas, tantas vezes quanto for necessário.

“Waterfall” Performance Film. B.I é muito bom e eu preciso que você saia desse post com plena convicção disso.

Uma das minhas descrições favoritas do mar está no Livro de Apocalipse, quando o apóstolo João fala da cidade celestial, a menciona que, diante do Trono de Deus, repousava um Mar de Vidro. Existe uma pequena promessa escondida ali; águas que são tão calmas que se tornam como cristal, um sinal do que vem no final dos sofrimentos, depois do fim dos altos e baixos do mar bravo – paz. Quanto mais eu penso sobre isso, mais percebo que a razão pela qual eu gosto tanto de “illa illa” é porque esperança, mesmo a mais fraca chama, é uma característica que só se encontra em quem passou pelo inferno, mas sobreviveu. Mesmo que a paz de agora seja só a calmaria antes de outra tempestade, se elas ficarem imóveis só por tempo suficiente, e se estivermos dispostos a olhar com atenção por tempo suficiente, elas podem se tornar como um espelho que reflita nossa própria imagem transformada. Um pouco depois de quando nadou em uma piscina das próprias lágrimas, a pequena Alice se encontrou do outro lado do Espelho; ela estava contemplando as profundidades do próprio reflexo e considerando as extensões das distâncias literais e imaginárias que ela podia conceber, para além dos limites das imagens virtuais refletidas em seus olhinhos naquele momento. É exatamente isso que encontramos, se pudéssemos recuperar algo enterrado das profundezas do oceano, ou chegar ao outro lado do espelho – a versão de nós que virá à tona quando as superfícies forem agitadas e despedaçadas, e nós, finalmente, engolidos.

Mas não me entenda mal; na verdade, eu ainda insisto na minha escolha de não pensar demais sobre as músicas das quais eu mais gosto. Eu sempre trabalho duro para resistir à tendência aos solipsismos que a internet imprime em nós sem que a gente sequer se dê conta, então este não é um desses casos, tanto quanto é simplesmente, como mencionei antes, uma forma de ajudar a liberar a música pop da obrigação de fazer muito sentido. Se eu pensar bem, pelo menos desde o parágrafo anterior, estou falando exclusivamente sobre mim, mas, como também mencionei antes, não é possível simplesmente apagar o fato de que WATERFALL contém declarações que podem ser ouvidas com clareza de uma certa distância. Não sou do tipo que gosta de romantizar a dor, muito menos a dor dos outros, mas estou sempre procurando formas novas de dar novas formas à minha, e me desprender até me soltar completamente das razões pelas quais ainda acordo com um pouco de desgosto, e saudade, todos os dias. Minha parte favorita de “illa illa” é a ponte – a promessa de construir outro castelo de areia, mesmo que simplesmente se desmanche de novo; eu não faço ideia do que a areia significa, mas eu creio que é a minha própria matéria-prima que define do que é a feita a praia no canto dos meus olhos. Mesmo assim, não acho que entender isso importe tanto quanto a decisão de continuar recomeçando. Como Arquiteta, sei que, independente do que esteja fazendo no momento, meu chamado na vida ainda é construir alguma coisa. 

“Penny Lane”, the accomplishment of Lennon’s original vision for “In My Life”. 1967.

Depois de lançar “In My Life” em 1965, levou mais cerca de um ano e pouco para que Lennon entendesse como articular os detalhes específicos de seus sentimentos e memórias de uma forma que fizesse sentido como uma música para que outros escutassem, com “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” (cuja letra, na verdade, é mais creditada ao McCartney). Já passou tempo suficiente para que várias, ou todas, as camadas escondidas na sua música tenham sido trazidas para fora, bem como suas implicações, e multiplicações, mas B.I ainda é um caso em curso, escrevendo a própria história. Talvez no futuro ele também encontre em si a disposição, as palavras e o momento oportuno de falar de formas diferentes sobre sua caminhada, e pode ser que disso saia algo radicalmente diferente daquilo que parece ter sido expresso até agora, porque temos tão pouco controle sobre o futuro quanto temos sobre o passado. E não tem absolutamente nada que possa ser feito a respeito, exceto talvez imaginar, e escrever sobre isso. 

Visualizador de uma das minhas favoritas do álbum, “Daydream”, com participação da cantora Lee Hi.
Minha música favorita dos últimos meses, “Vela Azul” [푸른 돛], Towner & Town Chief (1986). “Mas aquela onda é tão alta, amigo, que acho que deveríamos içar as velas”

Through the Crashing Waves, and what there is to be found there

Versão em Português aqui.

This text is an extended version of the review of “illa illa” that I wrote for KPK: Kpop Kollective‘s monthly music review project, WWLT (What We’re Listening To), Vol. 2, No. 2 (March 1, 2022). You can find the review here: WWLT, Vol.2 , No. 2

Years after releasing the generation-defining album Rubber Soul (1965) with the Beatles, John Lennon recalled that Side 2 track “In My Life” was the first one he “consciously” wrote about his life. Up until that point, lyrics were merely side players in the process of crafting a pop sound, even though he had, from a young age, been puzzled by the potentials of wordplay – such as that found in the works of Lewis Carroll – and keen on writing poems and short stories that reframed episodes of life through the lenses of literary nonsense, to amuse himself and people around him. In 1964, he got to publish some of these anecdotes in the compilation book “In His Own Write”, which eventually led to a remark, made by journalist Kenneth Allsop, who wondered why his songwriting did not have the same literary qualities, or why he never seemed to borrow much from memories and personal experience to write lyrics. 

Excerpt from page 319 of Walter Everett’s “The Beatles as musicians : the Quarry Men through Rubber soul” (2001). Retrieved from Internet Archive.

That remark was enough to prompt him to give it a try; the timing was just right because, even though Lennon himself already had the necessary lyrical sensibilities, the years would end up crowning Rubber Soul as a representative of a key transition in the band’s career, from the media sensation of the Beatlemania into actively expanding the possibilities of what chart-topping pop would sound like. “In My Life”’s themes are rather simple – nostalgia and longing, the things that remain because they are worth keeping, even after everything else has faded, or gone away. Although not exactly one of the promotional singles of the album, it remains as one of the most cherished songs in pop culture; the imperative of time, and our absolute lack of control over it, is one of the greatest, if not the greatest, motif that has prompted the finest and highest sensibilities, and deepest dreads and sorrows, in humanity’s creative imagination. It’s songs like “In My Life” that give the scariest things an approachable dimension; they scale the passing of days and years through words that articulate the overwhelming sense of not being able to turn the clock back until it seems small enough to fit within a bunch of simple verses. 

In a way, that’s the greatest triumph to which pop music can aspire – to have generations of people standing at the intersection between music and lyrics, because the way something sounds makes something sound within them, too. Of course, I’m waxing poetic because I, too, feel overwhelmed right now, and completely willing to ignore every other social, political, economic and cultural layer that can be considered about this topic. Not just because the imperative of time doesn’t unravel the same to everyone – the same way we aren’t all given the exact same 24 hours every day. Still, even as the years go by, and we stop to look back, the weight of time only seems to make these classics stronger, staying as significant and impactful as ever, still finding their ways into bringing about other artists and their new realities. Such as when Korean rapper B.I chose to name the Beatles, specifically Rubber Soul and “In My Life” upon being asked by Buzzfeed about his first musical inspiration, while promoting his first album as a solo artist, in 2021. 

25-year-old Kim Hanbin. 131Label.

Across his career that, at 25 years old, already spans a period of almost 13 years, B.I (born Kim Hanbin) often spoke about the importance of movies and poetry in his songwriting. From a young age, he found that, through other works, particularly cinema, he could experience and figure out how to articulate things he hadn’t experienced for himself, in a way that would still result in vivid images, and evoke strong feelings from listeners – his greatest aspiration as an artist. In his own words, the work of the Beatles, specifically the soothing qualities of some of their melodies, as well as the meanings embedded into their lyrics, have been a great source of inspiration. When he chooses to mention a song like “In My Life” as a fundamental source of inspiration in becoming the artist he aspires to be, I can suppose he’s probably referring to how the song brings to life the train of thought of longing in a very laid-back manner, almost jolly, never belittling the lows, but making the highs a tangible possibility. More than anything, it’s not about longing that leaves you stuck, but about the freedom of moving on with confidence, bringing along the memories that matter the most, like a treasure. 

Even though he’s been working his way as a rapper since 2009, his solo career didn’t officially start until the release of the song “illa illa”, on 1 June, 2021 as lead single of album WATERFALL, under his own label. Prior to that, he had achieved recognition as the leader and main songwriter of 7-member boy group iKON between 2015-2019. His work got him an accolade of “Songwriter of the Year”, in 2018, after the group’s song “Love Scenario” became a megahit in Korea. Said to have been inspired by the ending of musical movie La La Land (2017), it’s a song that’s neither particularly happy nor sad. The track moves cyclically, without the driving power of a structure that leads to a big climax, instead choosing to take turns around the chorus like the mind of a person who’s getting ready to turn the page for good and leave behind what should be left behind, but making sure to bring along the memories that matter the most, the things that should be treasured.

13-year-old Kim Hanbin, already going by the name of “B.I”, in 2009, in one of the stages for MC Mong’s “Indian Boy”, in which he features as a collaborator. MBC’s Show! Music Core, retrieved from MBCKpop.

There’s a divide between B.I, the boy group leader and songwriter behind “Love Scenario” – who is seen spinning around memories in the song’s music video, along his bandmates and the soft, repetitive melody – and B.I, the solo artist, coming out of the ocean on his own at the beginning of “illa illa”’s cinematic music video. This, too, is a song that’s neither particularly happy nor sad; the English title is a nonexistent word that bears close resemblance to the Korean ideophones that represent the undulating movement of waves. In Korean, it’s called “해변[haebyeon], which means “beach”. The opening lines are played in the music video as if they were slowly coming through as someone lifts their head from under the water; they were incorporated from the poem “The Taste Of Candy And Beach” [사탕과 해변의 맛] by poet Seo Yun-hoo – “at the end of my sleeves there’s a beach/ because of the tears that I wiped from my cheeks.” This very specific choice of a metaphor structures a song which is about being swallowed by the waves of an ocean made of one’s own warm, salty tears. 

I spent some of my best school years learning how to read and dissect poets and their poetry, but something about the nature of pop music made me change my approach to songwriting over the years. Detaching my favourite lyrics from their writers does make it easier for me to make them my own. Moreso, as a writer myself, I must admit I’m happy to spare artists the burden of elaborating on things that they might not even want to talk about. To me, the choice of publishing or not something I wrote is highly informed by how vulnerable it makes me feel – I might prefer to keep certain writings to myself if I fear people would be able to figure out the details of struggles I would rather be vague about. Choosing to open up before others in a way that gives them the chance to speculate requires courage. In that sense, I think B.I is very brave; by the time “illa illa” was released, he still awaited the final sentencing on a trial after accusations of an illegal drug purchase attempt, in 2019, which resulted in his withdrawal from his former group and agency.  

Make sure to turn captions on.

Much like “In My Life”, “illa illa” describes vivid feelings and recollections that seem specific and detailed enough to come from personal experience – the wording has the type of pungency that stems from individual thoughts that can only have gone through one’s mind as they experienced something first-hand. Because of that, both songs manage to come out subjective, but still consciously made to be general enough to be about anyone. Lennon’s own original vision was a description of a bus trip he used to take from his neighbourhood into the city centre, but he chose rather to describe the way his thoughts travelled through the memories he had of the place and time he had in mind. By choosing to start out with the metaphor from Seo Yun-hoo’s poem, which also functions as the song’s pre-chorus, B.I tells listeners where he stands at the moment – and that’s not specifically under nor out of the water, but neither at the seashore. 

That’s perhaps the reason why the motif of the ocean sounds somehow fresh here, even though drowning in a pool of tears is at least as old as Alice’s Adventures in Wonderland. Kat Moon (2021), writing for TIME, wrote that B.I went beyond the “[temptation] to focus on the limitless nature of the ocean at beaches”; the reflection is personal and, just as the track circles around its pre-chorus and chorus, the metaphors are much more centred around his own body as the beginning and end of things. All over and through and out of his ends, there lies the sea, and the sand, and even the waves of memories that hit him, coming and going and washing away both the good and the bad. There’s a sense of a buildup, but it isn’t loud and thunderous like a storm, but fitting for the first steps of someone gearing up for a new start. The pace makes it sound steady, somehow gentle, and sufficiently safe. 

Not to be missed is the rest of the WATERFALL album, and the ways it tells a story, or multiple ones. Right before “illa illa” comes the album’s intro, also titled “Waterfall”. It comes across as a much more violent, and personal, approach to similar topics – pain, rage, shame, loss, scrutiny and the full implications of fall. Unlike the ocean, which is, in itself, big enough to collect and hold both the calmest and the most violent waters, a waterfall goes only one way, which is down. Even so, just as we know that all rivers run to the sea, the end of a waterfall might be the reason why, regardless of how he keeps singing about being swept away by his own tears, “illa illa” doesn’t come across as being particularly nor intensely sad; in the swirling of waves, as much as it is about the sinking, the song is about the emerging. And that’s why it’s so hard to separate the lyrics from the person who wrote it – all in all, it’s a comeback; it’s a statement. The last of the 12 tracks is called “Next Life” in Korean, but “Re-Birth” in English; it’s a sweet song about fateful lovers, but I can’t help but feel that the word choice is so appropriate for someone who seems resolved to emerge out of the waters, time and time again. 

“Waterfall” Performance Film. B.I is very good and I need you to leave this post completely aware of this fact.

One of my favourite descriptions of the sea is in the Book of Revelation, when John the Apostle describes the Heavenly City, and mentions that, before the Throne of God, there laid a Sea of Glass. There’s a little promise hidden in there; waters that are still enough to become like crystal are a sign of what comes at the end of suffering, after the end of the ups and downs of rough waves – peace. The harder I think about it, the more I realise the reason I love “illa illa” so much is because true hope, however faint a flicker it is, is a trait that can only be found in those who went through hell, but survived. Even if these waters are just the calm before another storm, if they stand still for long enough, and if we’re willing to stare for long enough, they become like a mirror where we can see our changed self reflected. Some time after she swam in a pool of her own tears, when little Alice found herself wondering about the world on the other side of the Looking-glass, she was looking at the depths of her own reflection and pondering the extent of the literal and imaginary distances she could conceive beyond the limits of the virtual images her little eyes could see. That’s what is buried deep in the ocean, or on the other side of the mirror – the version of us that will come out once the surface is shaken and shattered, and us, swallowed. 

But don’t get me wrong; I still stand by my choice not to think too hard about songs I love so much. I always work hard to resist the social-media-fueled tendency to solipsisms, so this is not such a case, as much as it is, like I said, a way to free the unthinkably thick streams of pop music from the constraints of making too much sense. I’ve been talking about myself since at least the previous paragraph, but, like something else I said before, I cannot erase the fact that WATERFALL holds statements that can be heard clearly from a certain distance. I’m not one to romanticise pain, let alone other’s, but I’m always trying to find new ways to give new meanings to my own, and rise above and out of the reasons why I still wake up with a hint of regret, and longing, every single day. My favourite lyrics in “illa illa” are on the bridge, with the promise to “build another sandcastle“, even though “it will probably just crumble again”; I have no idea what the sand is supposed to be here, but I guess it’s my own raw material that defines what the beach at the corner of my eyes is made of. I don’t think it matters as much as the decision to keep starting over. As an Architect, I’ve been aware that, regardless of what sort of practice I’m pursuing, my greatest calling in life is to build something. 

“Penny Lane”, the accomplishment of Lennon’s original vision for “In My Life”. 1967.

After putting out “In My Life” in 1965, it took Lennon another year or so to figure out how to articulate the specifics of his feelings and memories in a way that made sense as a song for others to listen to, with “Strawberry Fields Forever” and “Penny Lane” (whose lyrics are actually accredited to McCartney). Enough time has passed for many of the layers hidden in his music to have mostly, or fully come out, as well as the implications, and multiplications, but B.I is still an ongoing case, writing his own story. Perhaps in the future he, too, will find the willingness, the words and the opportunity to talk in different ways about how his journey changed him, and it might sound radically different from where he seems to stand right now, because we hold as little control over the future as we hold over the past.  And there’s literally nothing to be done about it except perhaps wonder, and write about it. 

Visualiser video for one of my personal favourite tracks in the album, “Daydream”, feat. singer Lee Hi.
My favourite song of the last couple of months, “Blue Sail” [푸른 돛], Towner & Town Chief (1986). “But that wave is so high, friend, that I think we should raise the blue sail.”

minha música (esquecida) favorita

Você é do tipo que gosta mais das músicas que são esquecidas no churrasco da discografia do seu artista favorito? Eu também.

For an English version, click here.

Eu sou uma grande fã de K-pop. Não tem tanto tempo assim, mas ao longo dos últimos anos eu me tornei realmente apaixonada pelo mercado de idols, ao ponto de estar ativamente envolvida em produzir conteúdo, e até material acadêmico, a respeito. A razão pela qual eu gosto tanto? Bom, é mais difícil de explicar do que o que cabe em um parágrafo [mas você pode ler sobre isso em outros textos meus], mas, do meio de todos os diferentes conceitos, performances, coreografias, vlogs e programas de rádio feitos por rostinhos bonitos vestindo roupas bonitas, eu recebo música. E eu amo música, e, por aqui, eu sempre encontro música nova pra aproveitar. 

Já que você está aqui, já escutou a melhor música do ano de 2021?

Um dos meus grupos favoritos se chama NCT 127. Eles são um grupo de 9 membros, que debutou em 2016 sob a SM Entertainment, uma das gigantes da indústria. Eles fazem parte de um grupo maior, chamado apenas “NCT”, que tem 23 membros divididos entre grupos diferentes – e um deles é o 127. O NCT tem um conceito rotacional, que pode ser difícil de explicar pra quem é completamente novo (mas que é a forma mais simples de explicar as fotos com dúzias de rapazes que o Google te mostra quando você pesquisa o nome deles). De qualquer forma, a coisa importante é que o  NCT 127 é um grupo com música excelente. Eles são conhecidos por testar os limites e as tendências do mercado – o que significa que seus lançamentos nem sempre são unanimidade, mas tudo que eles lançaram nos últimos seis anos resultou em uma discografia bastante interessante. 

Os 23 membros do NCT, durante as promoções do projeto “NCT 2020”.

Minha música favorita do NCT 127 se chama “100”. É parte do primeiro álbum single em Japonês do grupo, Chain, lançado em 2018. Os créditos são do cantor-compositor Andrew Choi, que também faz parte da SM Entertainment, e do compositor Yunsu (SOULTRiii), que já trabalhou com outros artistas da SM (como o trabalho solo do cantor Baekhyun, membro do grupo EXO, e meu grupo favorito de todos, SHINee, sendo creditado pela excelente “Chemistry” no álbum The Story of Light pt. 2 (2018)). O álbum single em si é incrível, com cinco músicas fortes que falam muito do potencial do grupo, do primeiro ao último dos seus 18 minutos de duração. “100” é a última faixa, a cereja do bolo; é excepcional, com um instrumental que é tão pernicioso quanto é previsível, mas sem deixar de ser interessante, e uma ponte que prepara o terreno perfeito para uma das minhas codas preferidas em uma música pop. Eu já escutei “100” dezenas de vezes, e em nenhuma dessas vezes eu cheguei até o fim da música sem sentir um arrepio que fosse. 

Tem uma outra coisa muito importante a ser dita sobre essa música, que é o fato de que ela nunca foi tocada ao vivo. Nunca. 

A maioria dos grupos de K-pop tem atividades bem sérias no Japão – o segundo maior mercado fonográfico do mundo é a opção mais próxima e vantajosa para uma expansão além do público doméstico. Até o momento, o NCT 127 só completou uma turnê (em parte por conta da pandemia), mas, mesmo assim, dos 44 shows que eles fizeram pela Ásia, Europa, América do Norte e Latina, 14 foram no Japão. E, mesmo assim, nessas 14 datas, para uma audiência total de 74,000 pessoas, em nenhum momento eles apresentaram “100”. Eles apresentaram, sim, outras músicas da sua discografia Japonesa que estão entre minhas favoritas, como “Dreaming” (também do álbum single Chain), e “Kitchen Beat” (do seu excelente primeiro álbum em Japonês, Awaken (2019)). Mas, nada de “100”.

Eu sou um pouco dramática quando falo de canções que amo muito escutar; existem aquelas que são para se consumir às garfadas, sendo repetidas infinitas vezes, e existem aquelas que são para se consumir com moderação, porque elas causam uma euforia muito intensa, e deixam um gosto persistente na boca. “100” está mais perto do segundo tipo; eu não gosto de ouvi-la quando não tenho condições de estar completamente presente, porque faço questão de experimentar tudo que ela me oferece, ainda que seja só uma vez. Aliás, é por isso que eu sou fã de K-pop; eu aprecio as performances, as personalidades, mas, em última análise, eu preciso da minha porção sônica todos os dias, e meus grupos favoritos me mantém feliz e bem alimentada, nesse sentido. E a analogia com comida é muito boa, não é? Porque nós tomamos café da manhã, almoçamos, fazemos um lanchinho da tarde, jantamos, e sabemos que nem toda comida cabe em toda refeição. “100” se parece mais com a sobremesa do almoço. A porção é menor do que aquela que eu comi imediatamente antes, mas pode ter certeza de que tudo que eu fiz primeiro foi antecipando aquela boquinha de 3 minutos e 42 segundos. 

Como eu disse, eu sou um pouco dramática falando das músicas que eu realmente amo ouvir. Então, sim, “100” é sempre uma experiência para mim. E, toda vez que eu a escuto inteira mais uma vez, e chego ao final de novo, e me lembro que nunca houve uma performance ao vivo, e que o 127 talvez nem se lembre dela, pra começo de conversa… Eu não consigo não pensar sobre como a experiência da música existe apenas entre os alto-falantes e eu. Os produtores, compositores, distribuidores, e o 127, claro, providenciaram o serviço, mas eles não me conhecem, e sequer precisam se ocupar do fato de que eu gosto tanto dessa música, porque, sejam 10 ou 1000 as vezes que eu aperto o replay, eles podem receber um pouquinho a mais ou menos por stream, mas absolutamente zero feedback sobre essa pobre Brasileira de 26 anos que sempre precisa explicar que ela está falando do NCT 127, e não do SuperM, quando diz que ama “100”.

Este é apenas um exemplo de vários outros que eu poderia tirar da minha carreira de amar B-sides mais ou menos esquecidas, como “Live-in-Skin” do Foo Fighters, “Paradise” do BTS, ou “Signal” do f(x). Não é de propósito, tanto quanto não é minha culpa que eu me apegue à músicas que quase nunca vão parar em setlists. É uma pena, porque eu amo performances ao vivo, e a maioria das músicas soa melhor fora do estúdio, flutuando sobre e através das cabeças do povo, o verdadeiro lugar ao qual elas pertencem. Do meu lado do mundo, eu raramente, ou nunca, tenho chances de ver meus artistas favoritos, então esses vídeos de performances são a melhor forma (ou a única) para que eu experimente uma fração da sensação de estar sob as nuvens sônicas que eu mais desejo provar. Não quer dizer que eu nunca tenha tido um pouquinho de sorte – uma vez, em 2018, quando minha banda favorita de todos os tempos, Foster the People, trouxe de volta aos palcos uma música de 2011, “Broken Jaw”, uma faixa bônus que sequer estava em plataformas de streaming, e que eu amava, mas que não havia sido incluída em setlists havia vários anos (e bem à tempo da minha primeira vez os vendo ao vivo). E, sim, eu chorei um pouquinho, exatamente o que você esperaria de alguém que é um pouco dramática sobre as músicas que realmente ama escutar, mas que, mesmo assim, sabe bem que a experiência emocional intensa que ela associa à ouvir essas músicas é quase totalmente separada das pessoas que trouxeram a música à existência. 

Foster the People apresentando “Broken Jaw” ao vivo no SXSW, em 2011. Assisti essa performance incontáveis vezes desejando viver a mesma experiência.

Claro, isso não é uma discussão sobre as formas como essas músicas só existem devido às pessoas que as escrevem, produzem, cantam e distribuem, mas sobre a distância intransponível que existe entre nós e essas pessoas, que se manifesta em como nos sentimos sobre as coisas que apreciamos, como as consumimos, e quão livremente elas transitam pelas nossas vidas e dispositivos sem grandes conexões com o outro lado além de uma foto na capa, ou créditos impressos em papel. Eu já dei replays infinitos em músicas de cantores sobre quem eu não sei nada além do nome artístico. De certa forma, pelos álbuns, vídeos e tracklists em serviços de streaming, os alto-falantes e telas são muito menos como links, e mais como espelhos, me refletindo para mim mesma. Mesmo que sua superfície se tornasse macia como gaze, mesmo que eu pudesse chegar ao outro lado, eu não encontraria cantores e compositores esperando por mim, mas só eu mesma, sozinha com todas as coisas que tornam aquela experiência minha, todas as coisas que cobrem a distância entre eu e meu reflexo. 

E isso é ótimo! É o que torna isso válido e apreciável, porque, se eu apertar o play, posso ouvir a voz do Doyoung quantas vezes eu quiser, ainda que ele esteja doze fuso horários à minha frente, em algum lugar de Seul. Não é uma performance ao vivo, mas eu ainda assim posso voltar para “100”, “Live-in-Skin” e “Signal”, para “Knock on Wood”, de Red Velvet, e até para “Broken Jaw” – que agora, finalmente, está nas plataformas de streaming, e posso curti-la com facilidade em todas as versões que eu gosto. Por outro lado, minha favorita absoluta do FTP, “Tabloid Super Junkie”, uma faixa exclusiva de pré-venda do Supermodel (2014), segue sendo parte do time de B-sides esquecidas. Mas, pra ser muito franca, eu nem me importo tanto assim. Entre eu e os alto-falantes, eu já fiz a música tão minha que não sei se preciso de mais alguma coisa para torná-la melhor do que ela já é. E talvez seja por isso que seja dela que eu goste tanto. 

Photo by Yannis Papanastasopoulos on Unsplash

My Favourite (Forgotten) B-side

Are you the type of person who enjoys songs that never make it to setlists? Me too!

Para uma versão em Português, clique aqui.

I’m a huge K-pop fan. I haven’t been one for a very long time, but, over the last three years or so, I became really passionate about the industry of idol music, to the extent of being actively involved in producing content and even academic material about it. The reason why I love it so much is… Well, it’s harder to explain than how long I want this paragraph to turn out [so you might have to check other writings], but, in the midst of all the performances, dance routines, variety shows, different concepts and fan service delivered by pretty faces wearing pretty outfits, I get music. And I love music, and I always seem to find new music to enjoy there. 

Since you’re here anyway, are you familiar with the 2021’s actual Song of the Year?

One of my favourite groups is called NCT 127. They’re a 9-member group, which debuted in 2016 under the K-pop giant SM Entertainment. They’re part of a larger group called NCT, which has 23 members split into different units, one of which is 127. NCT has a rotational concept, which is something that can be a little tricky to explain if you’re completely new but that’s the simplest way to explain the pictures with dozens of men you get when you google them. Anyway, the important thing is that NCT 127 is a group with amazing music. They’re famous for pushing sonic boundaries and trends – which means that their songs aren’t always unanimous, but their output over the last six years makes up for a very interesting discography.

All of NCT’s 23 members brought together during promotions of the NCT 2020 project.

My favourite NCT 127 song is called “100”. It’s part of their first Japanese single album, Chain, released in 2018. The music is credited to singer-songwriter Andrew Choi, who’s also signed under SM Ent., and to composer Yunsu (SOULTRiii), who’s also worked with other SM artists (such as soloist Baekhyun and my ultimate favourite group SHINee, being credited for the excellent “Chemistry” from The Story of Light pt. 2 (2018)). The lyrics are credited to Japanese Hip-Hop and R&B musician AKIRA. The single album in itself is amazing, with five special, solid songs that speak volumes of 127’s potential, from the first to the last of its 18 minutes. “100” is the last one, the cherry on top; it’s an outstanding track, with a delightful drop and a bridge that builds up to one of my favourite codas in a song. I’ve listened to “100” countless times, and not even once have I gotten to the end of the song without shivering at least a little bit. That’s how powerful it is.

There’s also something else that’s very important about this song, which is the fact that it’s never been performed live. Not even once. 

Most K-pop groups have very serious ventures into Japan – being the world’s second biggest recorded music market, it’s their best option to expand beyond the domestic audience. So far in their career, NCT127 have only headlined one solo concert tour (partially due to the pandemic), but, even so, out of the 44 dates they played across Asia, Europe, North and Latin America, 14 were in Japan. And yet, across these dates, to a reported audience of 74,000 people, not even once did they perform “100”. They did, indeed, do other Japanese songs that are some of my all-time favourites from them, such as “Dreaming” (also from the Chain single album) and “Kitchen Beat” (from their excellent first Japanese full-album, Awaken (2019)). But not “100”. 

I’m a bit dramatic when it comes to songs I really love listening to; there are favourite ones that are meant for big-bite, spoonful consumption, through endless repetition, and there are the ones that must be eaten up in moderation, because they cause a rush so strong, and leave such a lingering taste. “100” is somewhere in the middle. I’d hate to give it an unfulfilling listen, even once. That’s exactly why I’m a K-pop fan; I enjoy the performances, the fan content, the personalities, but, ultimately, I need to get my sonic fill and my favourite groups keep me happy and well-fed in that sense. And the food analogy is actually very good, right? Because we have breakfast, lunch, coffee break, dinner, supper, and not every food fits nicely into every meal. “100” is more like dessert. The portion is smaller than what I had for lunch, but you can be sure everything I did before was anticipating that small bite of 3 minutes and 42 seconds. 

Like I said, I’m a bit dramatic when it comes to songs I really love listening to. So, yes, “100” is always an experience to me. In that sense, whenever I give it a full listen, and I get to the end once again, and I remember there’s never been a live performance, and 127 probably don’t even remember they recorded it to begin with… I can’t help but think about how the experience stands from the speakers to my end alone. The producers, songwriters, distributors, and 127, of course, provided the service, but they don’t know me and they don’t even have to care that I love this song so much, because, whether I replay it 10 or 1000 times, they might get more or less cash, but absolutely no feedback about this poor Brazilian 26-year-old who always has to clarify that she means NCT 127’s song, and not SuperM’s, when she says she loves “100”

This is just one example of many others that I could pull from my career of loving forgotten B-sides, like Foo Fighters’ “Live-in-Skin” and “Erase/Replace”, BTS’s “Paradise”, f(x)’s “Signal”. It’s not on purpose as much as it’s not my fault that I’ve grown attached to songs that rarely or never make it to setlists. It’s a pity, because I love live music, and most songs sound better out of the studio, hanging above ad through the heads of the people, where they belong. On my end of the world, I rarely, or never, get to experience my favourite artists, so live performance clips are the best way (or else, the only one one) for me to experience a fraction of what it feels like to be under the sonic clouds I long for the most. It’s not like I’ve never had it good, though – once, when my favourite band ever, Foster the People, brought back to tour a song from 2011 that I loved dearly, “Broken Jaw”, a bonus track that wasn’t even on streaming platforms back then, and which hadn’t been performed in many years, just in time for my first ever concert of theirs. And I did cry a bit, just as you would expect from someone who’s a bit dramatic when it comes to songs she really loves listening to, but who also knows very well that the intense emotional experience she associates with listening to the music she loves the most is completely detached from the people who made it in the first place. 

Foster the People doing “Broken Jaw” live in 2011. This specific performance kept me both satiated but somehow still hungry for years before I got to see this one for myself.

Of course, this is not about how these songs exist due to the ones who wrote, produced, sang and distributed it, but in the sense that there’s an unbridgeable distance between us and them which manifests in how we feel about the stuff we enjoy, how we consume it, how freely it moves through our lives and our devices with no strings attached besides a picture on the cover, or credits printed on paper. I have endlessly replayed songs by artists that I know nothing about besides a stage name. In a way, through the albums, clips and tracklists on streaming services, the speakers and screens are a lot less like links, and a lot more like mirrors, reflecting myself right back at me. Even if they became as soft as fabric, even if I could get to the other side, I wouldn’t find singers and songwriters waiting for me, but just my own, lonely self, and all the things that make that experience mine, all the things that stand between my body and my reflection. 

And that’s great! That’s what makes it enjoyable and worthwhile, because, if I hit play, I can still hear Doyoung’s voice whenever I want, even though he’s 12 hours ahead of me, sitting somewhere in Seoul. It’s not a live clip, but I can still go back to “100” and “Live-in-skin” and “Signal”, I can go back to Red Velvet’s “Knock on Wood” (which I do on a daily basis), or even “Broken Jaw” – which, at last, has made it to streaming platforms, so I can easily enjoy it in every version that I cherish. On the other hand, my absolute favourite FTP song, “Tabloid Super Junkie”, a pre-order exclusive track from Supermodel (2014), remains as a pretty forgotten B-side. But then, if I’m being perfectly honest, I couldn’t care less. Between me and the speakers, I’ve made the song mine in such a way that nothing else is necessary to make it better than I already think it is. And that’s why I like it so much.

Photo by Yannis Papanastasopoulos on Unsplash

nos moldes de um ídolo

Que tipo de artista é um idol?

For the English version, click here.

Meu primeiro contato com idols de K-pop foi em 2009, aos 14 anos de idade, quando eu aprendi que uma das minhas músicas favoritas de uma das minhas bandas alemãs favoritas – “Forever or Never”, de Cinema Bizarre – também havia sido gravada por um grupo coreano chamado SHINee. No ano seguinte, a maioria das minhas colegas que também eram fãs de bandas alemãs haviam trocado Cinema Bizarre, Tokio Hotel e Killerpilze por Super Junior, BIGBANG, SHINee, entre outros. A maioria de nós já tinha um histórico com J-pop e J-rck; eu mesma me interessei rapidamente por Super Junior, por conta do quanto o Heechul me lembrava meu guitarrista de visual kei favorito, Miyavi. Mas esse interesse não durou muito; como uma jovem cristã, eu não conseguia lidar naturalmente com o termo “idol”.

Cinema Bizarre “Forever or Never” live, 2008

Coincidentemente, foi a música “IDOL” do BTS, lançada em 2018, que acabou me arrastando de vez para a indústria, me atraindo com uma sobreposição de percussão tradicional Coreana e Afrobeat que deixavam minhas manhãs de recém-formada (e recém-desempregada) menos insuportáveis. Isso foi há cerca de dois anos e meio. Minha mente adulta, mais educada e esclarecida, foi capaz de se importar menos com as conotações negativas que o termo “idol” me comunicava no passado – ainda que de vez em quando eu ainda tenha que me explicar um pouquinho quando sou questionada dentro dos meus círculos religiosos. Chamar jovens popstars de um nome desses é uma forma bem pouco sutil de deixar claro para qual propósito eles foram criados, mas, mesmo assim, há mais por trás disso que uma escolha de palavras.

Isso é algo que eu digo com frequência – eu sempre fui fã de alguma coisa, desde pelo menos minha pré-adolescência. Ser fã é parte da minha identidade, e parte de como eu interajo com o mundo. Isso é relevante porque, depois que me tornei fã de K-pop, o processo de aprender mais sobre o que o rótulo “idol” significava e o quanto era importante na formação de algumas das coisas que eu mais gostava nesses artistas deu uma forma nova à como eu percebia minha própria vivência como fã. Este texto é uma peça bastante pessoal, e uma primeira tentativa, bastante subjetiva, de colocar em palavras como minha noção de gosto mudou ao longo dos últimos anos, bem como de prestar uma pequena homenagem à um dos idols que eu mais estimo – Hoshi, do grupo Seventeen – , não apenas porque hoje, 16 de Junho, é aniversário dele, mas também porque gostar dele tanto quanto gosto hoje em dia tem muito a ver com meu processo de descobrir o que idols eram de verdade.

BTS, o maior grupo de K-pop do mundo, afirmando que eles são, de fato, idols. Agosto, 2018.

Eu vim para o K-pop direto de uma carreira longa em diversos tipos diferentes de rock, de power pop a pop punk, punk e stoner rock, e todo tipo de sonoridade rotulada “alternativa”. Minhas primeiras percepções como fã eram naturalmente altamente definidas por essa experiência que eu já possuía, mas, ao mesmo tempo, porque havia uma transição bastante evidente em jogo, eu precisei admitir para mim mesma que deveria haver algo específico, potencialmente novo, me atraindo para esse tipo de artista muito diferente (ainda que houvesse alguns paralelos importantes, tantos que até foi escrito um artigo analisando o porquê de tantos antigos fãs de emo e pop punk foram para no K-pop). Eu tinha em mim um sentimento de querer muito ser capaz de apreciar as diferenças tanto quanto as semelhanças. Como eu mencionei antes, eu havia acabado de me formar, então minha cabeça ainda estava cheia do processo de estudar para & escrever meu TCC, e eu tinha tempo suficiente para fazer minha coisa favorita: continuar estudado (btw, esta é a versão resumida de como eu acabei estudando fandoms). Eu tive a sorte de fazer amigos que me apontaram na direção certa, me mostrando as músicas, vídeos, performances ao vivo, artigos e livros que me ajudaram a estabelecer uma boa base pra começar a visualizar o cenário de idols na Ásia de forma mais ampla, colocando em contexto o produto final que eu gostava tanto de consumir.

Bem no começo de 2020, em uma conversa com uma das amizades mais experientes que eu arranjei, eu ouvi que todo fã em algum momento poderia ser confrontado com a situação de não ter mais tempo (ou energia) para continuar apoiando a carreira de tanta gente ao mesmo tempo, então deveria haver 1 idol com o qual nós estamos dispostas a seguir, deixando os outros para trás. Eu me lembro de dizer que não sabia dizer quem eu escolheria; mas então, não muito tempo depois, um pouco depois do 24º aniversário do Hoshi, eu percebi que ele havia se tornado minha resposta àquele questionamento. Quando eu comecei a gostar de Seventeen, ele não foi um dos primeiros membros a chamar minha atenção, mas, quanto mais eu aprendia sobre o grupo, mais ele me intrigava. A princípio, eu acreditava que havia algo de incomum por trás desse interesse, porque todos os meus idols favoritos até aquele momento tinham algumas características em comum que não eram as coisas mais marcantes sobre ele. Essa percepção me fez pensar bastante sobre o que havia gerado esse interesse. Eu acabei concluindo que minha nova simpatia era o resultado de um processo maior de transição pelo qual eu estava passando, que era resultado dos pensamentos e ideias que eu havia assimilado depois de ter buscado educar minha mente para perceber idols como idols.

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Hoshi, em fotos do behind the scenes da gravação do clipe da música que marcou seu debut como artista solo, “Spider”, lançada em Abril deste ano. Em suas próprias palavras, ele é “o menino que vai quando você diz que ele não deve ir // o menino que tenta até o final quando você me diz para não fazer alguma coisa” (trecho da sua música “Horanghae”, não lançada). Foto retirada da plataforma Weverse.

QUAIS OS MOLDES DE UM IDOL?

Ser um idol é, em si, uma performance. Idols são um gênero especial de artista pop, cujas personas são especialmente desenvolvidas para maximizar a chance do estrelato. Tal performance é, de fato, um trabalho artístico – um fato que pode ser facilmente ignorado de acordo com a definição de “arte” do observador. Como é uma performance em tempo integral, o papel dos jovens que dão duro para trazer à tona uma imagem de si que seja digna do título é com frequência ofuscado pelo papel dos agentes e produtores no processo. Trainees em empresas de K-pop gastam toda sua juventude treinando em busca do sonho de receber a chance de debutar em um grupo[1], e depois gastam os anos subsequentes trabalhando para construir relevância e estabilidade, no grupo, e individualmente. A partir do momento em que um novo trainee é aceito em uma agência, e sua jornada começa, o objetivo final é o palco; é o lugar em que todos os elementos do processo se juntam, e eles apresentam a excelência que desenvolveram em música e dança, para mostrar que são dignos do nome, e do apoio de seus fãs. Mas a soberania do palco é apenas um dos aspectos dessa performance.

Idols foram projetados para que se tornassem uma fonte de segurança, além de um objeto de desejo, através dos quais os fãs pudessem viver a fantasia de realizar sonhos, em forma de apoio incondicional. Para alcançar essa fantasia, tornar-se fã de idols é uma experiência como a de adentrar uma realidade alternativa transmidiática, um domínio no qual todas as partes da narrativa eventualmente referenciam e apontam umas para as outras[2], criando a ilusão de um mundo de intimidade entre um idol e seus fãs. Neste mundo, uma estética utópica de juventude coletiva é efetivada; para muito além de desejar seus corpos e seus estilos de vida, fãs são encorajados a se perceber como sendo parte da jornada. Da mesma forma que idols crescem desde seus dias como trainees até que se tornem artistas maduros, todos os seus fãs também irão, em suas próprias existências, crescer, e trabalhar duro em busca das próprias aspirações e sonhos.

Esses processos de crescimento do artista e de seus fãs são percebidos como sendo um só, de acordo com a arquitetura dessa relação parasocial; nesse sentido, a experiência de ser fã de um idol é o trabalho de uma vida[3] – conforme empresas e idols trabalham juntos para trazer as imagens e textos através dos quais o apoio dos fãs será captado, fãs entram na equação não apenas como apoiadores, mas com sua própria performance de fandom. Essa performance é expressa através de práticas diárias, como comprar produtos, votar para premiações, escutar músicas e assistir vídeos, organizar eventos, produzir fanart, apoiar marcas patrocinadoras. Mas, da mesma forma que o palco é o momento em que o idol se apresenta em toda sua majestade, fãs também tem um papel próprio no show, sacudindo seus lightsticks (bastões de luz), cantando coros especiais que acompanham cada música, e apresentando as performances coordenadas com slogans que carregam frases especiais para os artistas.[4] Todo esse sistema de idols é construído sobre esse pacto de vínculo entre idols e fãs; e, nisso, como aponta Joanna Elfving-Hwang (2018), qualquer seja o papel que as partes constituintes devem exercer, a base desse pacto é nunca sair do personagem[5].

Se ser um idol é um processo de produzir uma expressão de si que seja digna do título, o talento mais desejável à um jovem aspirante seria a habilidade de articular uma performance cativante e consistente dentro e fora do palco. Nesse sentido, quando elaborando suas personas, a genialidade de exercer esse papel é saber como usar o que se tem em si para construir uma ponte entre quem eles já são, e quem eles devem ser. Já que todo idol que consegue debutar teve que passar ao menos pelo mesmo processo duro de preparação antes de ter a chance de se apresentar num palco, a carreira duradoura que eles tanto desejam depende muito da sua habilidade de fazer com que outras pessoas se apaixonem pelos sonhos deles, e queiram sonhar junto com eles. É por isso que uma história pessoal impactante é tão importante para dar credibilidade à uma personalidade atraente, como uma bússola que indica a direção da narrativa e dá à performance tons mais realistas, e cronologicamente sustentáveis.

Hoshi aparecendo de surpresa para dançar com fãs esperando na fila do show do Seventeen em Newark, nos EUA. Janeiro, 2020.

HOSHI, O IDOL 

Hoshi, meu idol favorito, é uma força da natureza. Seu nome artístico é uma combinação das palavras “horangi” [호랑이, tigre] and “siseon” [시선, olhar]. Sua persona divertida e falante faz uso abundante de uma estética de fofura barulhenta para mostrar um lado cativante, que é um grande contraponto à postura de tigre feroz que ele assume no palco. Nascido em 1996 como Kwon Soonyoung, ele debutou oficialmente em Maio de 2015, como o dançarino principal entre os 13 garotos do Seventeen, depois de treinar por quatro anos. Por conta do grande número de membros, o grupo é dividido internamente em times de acordo com especialização; existe o Vocal Team, o Hip Hop Team, e o Performance Team, do qual o Hoshi é líder. Ele é reconhecido como um artista apaixonado, um coreógrafo talentoso, e o metrônomo do grupo, obcecado tanto com a sala de ensaios quanto é obcecado pelo palco. Seu amor por trabalhar duro e enfrentar os processos é uma de suas maiores vantagens – sua paixão dá conta de cada um dos degraus da escada que leva do compromisso com a preparação até o lugar sob os holofotes.

Pensando em retrocesso, eu acredito que a habilidade que ele tem de tremer de tanta paixão por tudo que faz, em tudo que faz, tenha me feito começar a gostar tanto de assisti-lo. Conforme eu avançava na minha jornada extensa pelo conteúdo do Seventeen em diversas mídias, ele me contava uma história bem consistente de um artista que trabalhava muito duro, que havia desafiado todas probabilidades para se construir do zero. Quando ele era apenas um garoto com um sonho de se tornar um artista, e um histórico sólido em taekwondo, ele percebeu que suas habilidades físicas eram o suficiente para que ele tivesse uma chance. Seus pais não apoiaram seu sonho, mas ele já tinha em si fome e sede que o levaram a tentar provar que era capaz. Ele começou praticando sozinho, em casa, e foi criando as próprias oportunidades, fundando o próprio clube de dança na escola, e entrando em diversas competições, e saindo de campeão de algumas. Em uma dessas, ele alcançou o desejo de ser recrutado por uma agência. Decidido a não deixar passar a chance que havia recebido, ele construiu para si desde o dia 1 a reputação de ser o trainee que dava mais duro e se entregava mais que todos; essa reputação o tem seguido desde então, e continua sendo reafirmada toda vez que ele dá um passo adiante para se apresentar de novo.

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O jeito leve e bobo com o qual Hoshi se apresenta diante dos fãs vem para contrabalancear seu performance intensa e feroz nos palcos. Seventeen “Ode to You” Turnê em Seul, foto de Eyes on You. Agosto, 2019.

Quando ele dança, ele é intocável e intrigante; diante das câmeras, é uma figura confortante e confiável, com uma aura acessível que faz com que seus fãs o considerem quase como parte da própria família. Esses lados diferentes dão forma à complexidade do seu “tiger power”, a marca que resume e iconifica o gênio da sua performance de ídolo. Kwon Soonyoung, o jovem, diz que é um introvertido, mas, como artista, dá preferência ao barulhento e cheio de energia e quase insano como um impulsionador, e parece decidido a transformar qualquer pedaço de chão num palco, independente de qual seja o papel que ele deve cumprir. Eu até diria que essas diferenças entre sua performance e aquilo que ele às vezes descreve como seu “verdadeiro eu” tornam o show mais interessante. Ele pode sempre contar com o suporte da credibilidade da sua trajetória, que torna o pacote completo sendo apresentado mais crível, e mais agradável de ver – quase como se nós pudéssemos ver a estrada inteira pela qual ele caminhou toda vez que os holofotes se projetam sobre ele. Há um senso geral de coerência que ele consegue comunicar através de diferentes formas de mídia que é difícil de descrever mas, em última análise, se traduz para mim como um senso de comprometimento e segurança de que ele está tão fascinado pelos próprios sonhos quanto seus fãs estão fascinados por ele.

Essa habilidade de se comunicar de forma coerente ao longo dos anos talvez seja uma das razões pelas quais é tão fácil se apaixonar por ele por seus sonhos, a ponto de desejar muito vê-lo alcançar todos. Isso foi muito evidente durante “Spider”, seu excepcional debut como artista solo, lançada em Abril. O lançamento é um excelente display de tudo que ele construiu desde que decidiu que queria estar em um palco; a canção sutilmente voluptuosa foi escrita e produzida pelo seu amigo de longa data e companheiro de banda, Woozi, e permitiu que ele se mostrasse como um artista completo além do Seventeen, destacando seus movimentos pungentes, sua voz encantadora, e seus ângulos e formas belos e viciantes. A canção é fácil de ouvir e implora pelo replay, e tanto o clipe oficial quanto as múltiplas performances, incluindo o dance practice, são um banquete visual, conforme ele se movimenta entre os bailarinos e bailarinas e os caixilhos que constituem a performance. Seus altíssimos padrões de qualidade estão presentes em cada aspecto, desde a concepção, como ele mesmo descreve nas entrevistas e no registro do processo lançado no canal do Seventeen. Não é muito diferente do Hoshi, membro do grupo e líder do Performance team, mas é um pouco maior, e vai além, como a sensação de que você tem que andar mais alguns passos para ter uma visão melhor do todo.

Se você é meu amigo, eu provavelmente te obriguei a assistir isso aqui pelo menos uma vez.

A TRANSIÇÃO

Gosto é um assunto difícil de navegar, porque existem múltiplas camadas coletivas e individuais, externas e internas, por trás do que nos enviesa e nos vincula às coisas; existem diversos aspectos da subjetividades que são inexprimíveis, mas que são como peneiras e filtros que definem com nós digerimos tudo aquilo que ingerimos. Mais difícil ainda quando consideramos nos diversos tipos de discursos de fã que existem, não apenas por causa das qualidades emocionais que fazem parte, mas também o aspecto comunitário que caracteriza a percepção geral de ser fã como ser parte de uma ideia de um arranjo extenso de pessoas que compartilham o mesmo gosto, o mesmo viés, o mesmo vínculo. É discutível até que ponto o gosto de um fã deve ser analisado, principalmente porque, conforme o tempo passa, se torna cada vez mais difícil diferenciar a identidade e a reação pessoal do indivíduo das construções coletivas de discurso com as quais o fã pode entrar em contato. Por isso, desde o começo, eu deixei claro que este era um relato pessoal, porque, no fim das contas, aquilo que me enverga diz respeito à mim.

Mesmo assim, mesmo que o processo de me tornar uma grande fã do Hoshi tenha sido um processo individual, pessoal e subjetivo, existe um processo mais amplo em questão – que é a coisa que eu estou chamando de uma transição ocasionada pela minha experiência de adquirir conhecimento – que foi o processo de me tornar mais fã de um dançarino que de outros. Isso pode soar estupidamente simples, e provavelmente indigno de um texto tão longo assim, mas a verdade é que na verdade é bem duro desconstruir percepções de uma vida toda sobre o valor das muitas mídias através das quais a expressão pessoal se articula. Na faculdade de Arquitetura, minha melhor vantagem era a capacidade de traduzir imagens e espacialidades em palavras, e vice-versa. Mesmo como professora de Inglês, minhas habilidades devem muito ao meu talento de pensar demais sobre como usamos a língua para expressão. A coisa que eu sempre mais admirei foi a capacidade de usar bem as palavras – o tipo de percepção que eu cultivei enquanto crescia sendo fã de coisas, e que carreguei comigo quando virei fã de idols.

A princípio, todos os meus idols favoritos eram os compositores, aqueles que carregavam em si uma poética que era articulada verbalmente, alguns que até haviam lançado livros. Mesmo que eu fosse tão fissurada pelo pacote completo do show, no frigir dos ovos, eu ainda atribuía mais valor subconscientemente àqueles que conseguiam se expressar com palavras. O processo de me aprofundar nos conteúdos não-verbais do K-pop, e entender como cada aspecto adicionava valor ao produto final, me fez mais capaz de apreciar as várias camadas do espetáculo como sendo igualmente importantes; a essência daquilo que eu chamei de perceber idols como idols seria um consenso geral de disposição a ver cada um pelo papel que desempenha em pé de igualdade – desde aqueles que escrevem canções e cantam a maior parte delas àqueles que deixam o grupo mais bonito mas não necessariamente tomam a frente de performances. Uma das razões pelas quais idol groups tem uma diversidade de visuais, personalidades, talentos e tipos é justamente para maximizar o seu apelo; quanto mais amplo o espectro de apelo, maiores as chances de que alguma história toque o coração de alguma pessoa que está assistindo – porque, no fim das contas, o que está sendo comunicado ainda depende em grande medida da habilidade da outra parte de entender.

Uma fancam do Hoshi dançando ao mega hit do Seventeen em 2016 VERY NICE. Outrora os inimigos de Estado #1 do Twitter, fancams foram uma das coisas que eu demorei a entender quando virei fã de K-pop, mas que se tornaram parte constituinte da minha jornada quanto mais eu aprendi a apreciar dançarinos e performance. Julho, 2016.

Uma vez que eu havia me colocado à disposição para celebrar as várias facetas de como idols se articulavam, eu pude colocar minha admiração de longa-data pela habilidade de construir uma narrativa artística coerente à serviço de apreciar a performance de idols de forma mais inteira, o que eventualmente se desenvolveu na direção do Hoshi, o idol e artista. Tornar-me sua fã foi como descobrir o quanto eu desejava encontrar novos pontos de contato no tecido da realidade em que a sensibilidade do meu corpo e da minha alma pudessem se encontrar com as ordens superiores do cosmos – a janela de possibilidade que nos leva ao numinoso, se tivermos sorte. É tão simples quanto uma profunda ânsia por beleza. Existem incontáveis camadas coletivas e individuais, externas e internas, por trás do que nos enviesa e nos vincula às coisas, conforme nós abrimos caminho pela mata virgem que é viver e existir no mundo, e as únicas constantes são de que o tempo vai continuar passando, e que vamos continuar mudando ao longo do caminho. É aí que a performance de um idol em cima de um palco te leva de volta à estrada que ele trilhou para chegar até ali, a interseção entre se apaixonar por assistir, se apaixonar por sonhar, e transformar essa paixão em uma prática. É daí que nasce um fã.

Mesmo assim, a despeito das minhas palavras emocionadas, em última análise, a relação artista-fãs não deixa de ser uma transação financeira. A razão pela estrutura emocional complexa que sustenta o pacto de vínculo entre idols e seus fãs é a necessidade de uma estrutura resistente de apoio que viabilize o emprego de todas as partes envolvidas na montagem do show. E o que fãs tiram disso? São muitas as razões pelas quais nós damos espaço para que nossos sentimentos e percepções virem uma moeda nessa troca do que oferecemos aos artistas dos quais gostamos e que decidimos apoiar. Talvez eu também anseie pelo sentimento de seguir vida juntos à distância, como linhas paralelas nesse mundo imenso, caminhando em direção ao lugar para onde vão as almas. Eu tenho certeza que isso soa emotivo e otimista demais, mas talvez seja só minha mente pândemica, cansada demais, necessitando de distração com mais frequência que o normal, e falando mais alto que meu bom senso, mas eu já li que a beleza do mundo é realmente como a boca de um labirinto. O fato é que eu amo escrever sobre minhas coisas favoritas, porque elas sempre me ajudam a pensar sobre mim mesma. E eu amo escrever sobre o Hoshi também, mas eu gosto de assisti-lo ainda mais. Como café forte e amargo, toda vez que ele aparece, deixa pra trás um sabor que perdura na ponta da língua, que me dá energia extra pelas manhãs, ou me mantém acordada à noite quando é necessário. E esta é minha opinião orgulhosamente, totalmente, completamente, apaixonadamente tendenciosa sobre o que faz dele um grande idol.

A dona aranha subiu pela parede
Veio a chuva forte e a derrubou
Já passou a chuva o sol já vai surgindo
E a dona aranha continua a subir
Ela é teimosa e desobediente
Sobe, sobe, sobe e nunca está contente



OUTRAS LEITURAS (em Inglês)

Filmi Girl. “Why an Idol Group isn’t a Boy Band.” The Idol Cast and Other Writings. Mar 4, 2021.

Musikosmos. In the Spider’s Web.” Musikal Kosmos. Mar 29, 2021.

Sara Delgado. SEVENTEEN’s HOSHI Talks First Solo Mixtape “Spider”.” TEEN VOGUE. Apr 2, 2021.

[INSIDE SEVENTEEN] HOSHI Mixtape ‘Spider’ Behind. SEVENTEEN Official Youtube Channel. 14:07. Apr 12, 2021.



NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Muitos idols que começam a treinar muito jovens e/ou debutam na adolescência podem interromper os estudos devido às demandas do treinar/se apresentar. (Saeji et al. 2018: 12)

[2] Em “Idols: The Image of Desire in Japanese Consumer Capitalism”, Galbraith (2012: 186) descreve isso usando o termo “intertextualidade inescapável” [tradução livre]: 

“Constantly present and exposed, the idol becomes “real,” the basis of feelings of intimacy among viewers, though this is independent of “reality.” John Fiske (1987, 116) describes the situation as “inescapable intertextuality,” where all texts refer to one another and not to any external reality. This is not to say that reality does not exist, but rather that what is accessible in cultural products is a construction of reality, which must be understood on its own terms. “Images are made and read in relation to other images and the real is read as an image” (Ibid., 117). The meanings of images, however temporary, are made (or negotiated) in interaction with images.”

[3] Para mais a respeito disso, eu recomendo especificamente “Always Fans of Something: Fandom and Concealment of Taste in the Daily Lives of Young Koreans” de Lee Eungchel (2021). Agradeço muito à Profa. Dra. CedarBough T. Saeji que compartilhou um link para este artigo, que me inspirou a escrever este texto.

[4] Sobre práticas de fãs, existe um espaço especial no meu coração para a densíssima auto etnografia “K- Popping: Korean Women, K-Pop, and Fandom” (Kim, 2016) 

[5] Demonstrar consistência entre diversos meios de comunicação com fãs, com a mídia e outros espectadores é um aspecto chave na formação do vínculo duradouro com fãs, assim como a apresentação de uma imagem confiável e digna como celebridade perante a sociedade. (Elfving-Hwang 2018)

REFERÊNCIAS

Elfving-Hwang, Joanna. (2018) “K-Pop Idols, Artificial Beauty and Affective Fan Relationships in South Korea.” In Routledge Handbook of Celebrity Studies, edited by Anthony Elliott: 190-201. New York: Routledge. Retrieved from: https://www.academia.edu/36343905/K_pop_Idols_Artificial_Beauty_and_Affective_Fan_Relationships_in_South_Korea 

Galbraith, Patrick W. (2016) “The Labor of Love: On the Convergence of Fan and Corporate Interests in Contemporary Idol Culture in Japan”. In Media Convergence in Japan, edited by Patrick W. Galbraith and Jason G. Karlin: 232-64. Tokyo: Kinema Club. Retrieved from: https://www.academia.edu/25849863/The_Labor_of_Love_On_the_Convergence_of_Fan_and_Corporate_Interests_in_Contemporary_Idol_Culture_in_Japan 

Kim, J. (2017). K- Popping: Korean Women, K-Pop, and Fandom. UC Riverside. Retrieved from https://escholarship.org/uc/item/5pj4n52q

Lee,  Eungchel (2021). “Always Fans of Something: Fandom and Concealment of Taste in the Daily Lives of Young Koreans.” In Korean Anthropology Review 5: 53-78. Retrieved from: https://s-space.snu.ac.kr/handle/10371/174377 

Saeji et al. (2018) “Regulating the Idol: The Life and Death of a South Korean Popular Music Star.” In Asia Pacific Journal: Japan Focus 16 (13:3): 1-32. Retrieved from: https://apjjf.org/2018/13/Saeji.html 

The Shape of an Idol

What sort of artist is an idol?

Para uma versão em Português, clique aqui.

I first came into contact with K-pop idols in 2009, at 14 years of age, when I learned that one of my favourite songs by one of my favourite German bands – Cinema Bizarre’s “Forever or Never” – had also been recorded by a Korean boy group called SHINee. The following year, most of my German band-loving peers had exchanged the likes of Cinema Bizarre, Tokio Hotel and Killerpilze with Super Junior, BIGBANG, SHINee, amongst others. Most of us had a history with J-pop and J-rock; I myself was briefly hooked on Super Junior because of Heechul’s visuals, which reminded me a bit of Miyavi’s, the visual kei rockstar I adored. It didn’t last long, though; as a Christian girl, my teenage mind was repelled by the label “idol”.

Cinema Bizarre “Forever or Never” live, 2008

Funnily enough, it was BTS’s 2018 song “IDOL” that ended up dragging me back into the industry, attracting me with the layering of Korean traditional percussion music and African beats that made my mornings as a then-freshly graduated (and unemployed) person less burdensome. That was around 2 and a half years ago. My more educated adult mind was able to overlook the negative connotations that the word “idol” communicated to me in the past, but once in a while I still have to explain myself when the topic arises in my daily religious contexts. Calling young stars such a name is a very unsubtle way of stating what they are presented for but, even so, there’s more to the name than a vocabulary choice.

I have said this many times, but I have always been a fan of things, since my late childhood. Being a fan is part of my identity and shapes how I interact with the world. This is relevant because, after becoming a K-pop fan, the process of learning more about what the label “idol” meant and how it informed so much of what made me enjoy these artists completely reshaped how I perceived my own fan experience. This piece is a very personal take, and a rather subjective first attempt at putting into words how my taste ethos changed over the last few years, as well as paying what little homage I can to one of the idols I cherish the most – Hoshi, from the group Seventeen – not just because today is his 25th birthday, but also because coming to appreciate him as much as I do today has a lot to do with my process of figuring out what idols were supposed to be. 

BTS, the biggest K-pop group in the world, stating that they are, indeed, idols. Aug, 2018.

I came into K-pop straight from a long career into different kinds of rock bands, from power pop to pop punk, to punk and stoner rock, and all sorts of sounds deemed “alternative”. My perception as a new K-pop fan was naturally highly informed by this previous experience, but, at the same time, because there was a poignant transition taking place, I had to admit that there had to be something specific, potentially new, attracting me to this very different type of artist (even though there are also important parallels, which even prompted an article about why so many former emo fans crossed over to K-pop). I had in me a deep sense of wanting to be able to appreciate the differences as much as the similarities. Like I mentioned before, I had just graduated, so my head was still full of my Bachelor’s Thesis and all the studying I had done to produce it, and I had enough free time to do my favourite thing: keep studying (by the way, that’s the rough version of how I ended up studying fandoms). I was lucky to make friends that pointed me in the right direction, showing me the songs, videos, live performances, articles and books that helped me lay a foundation to start to make sense of the general landscape of idols in Asia, in a way that gave context to the finished product I was hooked on. 

In early 2020, in a conversation with one of these more experienced fandom friends, she told me that every fan might eventually have to figure out who’s the one idol they will drop all others for once they no longer have the time (and energy) to put into supporting many different people. I remember saying I had no idea who I would choose; but then, not much longer later, shortly after Hoshi’s 24th birthday, I realised he had become my answer to that matter. When I first got into Seventeen, he was not one of the first members to catch my attention, but, the more I learned about the group, the more he intrigued me. Initially, there seemed to be some unusualness to such interest, because all of my favourite idols up until that point shared some specific traits that weren’t the most striking things about him. That made me think deeply about what could have sparked my interest. I ended up realising that my new-found love was a result of a larger process of shift that I was experiencing, and this shift was a result of the thoughts and conclusions I reached after seeking to educate my mind to perceive idols as idols.

Hoshi, in behind the scenes pictures of the music video for his solo debut song “Spider”, released in April this year. In his own words, he is “the kid who goes when you say not to go // “I’m the kid who tries until the end when you tell me not to do something” (from the lyrics of his self-produced unreleased song “Horanghae). Picture retrieved from Weverse.

What makes an idol?

Idol-ness is, in itself, a performance. Idols are a special brand of pop artist, whose persona is specially crafted to maximise the chance of stardom. Such performance is truly an artistic labour – a fact that can be easily ignored according to one’s definition of art. Because it’s a full-time performance, the role of the young people that work hard to bring up their idol-worthy images to life often ends up being overshadowed by the role of agencies and producers in the process. Trainees at K-pop companies spend their youth training in pursuit of their dream of being given the chance to debut in a group[1], and then work for the subsequent years to build relevance and stability, as a group, and as individuals. From the moment a new trainee is signed, and their journey begins, the ultimate goal is the stage; it’s the place where all parts come together, and they present themselves as idol-material, excelling both in singing and dancing to show they are worthy of the support of their fans. But the sovereignty of the stage is just one aspect of their performance. 

Idols were designed to become a source of security and an object of desire, one through which fans could live out their own dreams in the shape of unconditional support. To fulfill this fantasy, becoming an idol fan is made to be like stepping into a transmedia alternate universe, a realm in which all parts of the narrative eventually point back to one another[2], creating the illusion of a world of intimacy between an idol and their fans. In this world, a collective aesthetic utopia of youth is realised; more than just desiring their bodies and their lifestyle, fans are encouraged to perceive themselves as part of the journey. Just as idols grow from their trainee days into mature artists, all of their fans, too, will grow, and work hard to pursue their own aspirations and dreams. 

These processes are perceived as one, such is the architecture of parasocial interactions; in that sense, the idol fannish experience is a labour of (life)time[3] – as companies and idols work together to bring forth the images and texts around which support will be harnessed, fans come into the equation not only through supporting, but also in performing fandom. This performance is expressed through standard, daily fan practices, such as buying goods, voting for prizes and awards, streaming songs and videos, putting together fan events, producing fanart, supporting their brand endorsements. But, as the stage is the moment in which the idol presents their idol-worthiness, fans will also play their role during live performances, as they shake their lightsticks, sing the special fanchants and perform their fan events, holding up slogans with special phrases to their idols.[4] The entire idol system is built on this pact of kinship between idols and fans; and, as such, as Joanna Elfving-Hwang (2018) points out, whatever role one is assigned, being an idol requires never to drop out of character[5].

If being an idol circles back to articulating an idol-worthy expression of the self, the most desirable talent would be the ability to put on a captivating, consistent performance on and off stage. In that sense, when crafting their personas, the genius of performing as an idol is knowing how to use what they have to build a bridge between who they are and the role they are supposed to fulfill. Since every idol that gets to debut has gone through hard prepping for the chance of stepping on a stage, the very desired life-long fan support that will enable their careers relies greatly on their ability to make people fall in love with their dreams, and dream along with them. That’s why a compelling backstory plays such an important role in boosting a successful rendition, like a compass that informs the overall direction of the narrative and makes their story of growth all the more believable, and potentially sustainable.

Hoshi’s surprise appearance to the fans waiting in line to watch Seventeen’s concert in Newark, US. Jan, 2020.

Hoshi, the idol 

Hoshi, my favourite idol, is a force of nature. His stage name choice is a combination of the words “horangi” [호랑이, tiger] and “siseon” [시선, gaze]. His playful, talkative persona makes abundant use of loud cuteness aesthetics to showcase a soft, endearing side, which makes a great counterpoint to the real awe-inspiring tiger qualities he expresses in performance mode. Born in 1996 as Kwon Soonyoung, he made his official debut in May 2015 as the main dancer amongst the 13 members of Seventeen, after training for four years. Because of the large number of members, the group is internally divided into teams according to specialisation; there’s the Vocal Team, the Hip Hop Team and the Performance Team, of which Hoshi is the leader. He’s recognised as an earnest performer, a talented choreographer, and a pacesetter deeply obsessed with both the practice room and the stage. His absolute love for hard work and enduring the processes is one of his greatest assets – his passion transcends every step of the staircase that leads from the commitment and hardships of preparations into the place under the spotlight. 

Looking back, I believe that his ability to ooze passion in everything he did was what made me enjoy watching him so much. As I made my way through more and more of Seventeen’s transmedia content, he told a consistent story of a hard-working artist, who defied all odds to build himself up from nothing. As a young boy with a dream of becoming an artist and a solid background in taekwondo, he realised that his physical abilities were enough to give him a shot. He found little support at first, but he had enough thirst in himself to do his best to prove he could make it, so he created his own opportunities. At first, he practised on his own, at home. He went on to form his own dance club in school, entering multiple dance competitions, and even winning some. It was in one of these competitions that he succeeded in being scouted into an agency. Since day one, he became known for being the trainee that worked the hardest; this reputation has followed him ever since, and has been reasserted every single time he presented himself. 

Hoshi’s playfulness makes a sweet counterbalance to his fierce performance as a dancer. Seventeen “Ode to You” Tour in Seoul, picture by Eyes on You. Aug, 2019.

When he’s dancing, he’s untouchable and enticing; on camera he’s a reliable and active figure of comfort, with an approachable aura that makes his fans regard him as one like a friend. These many sides shape the complexity of his “tiger power”, the brand that summarises and iconifies the genius of his idol-ness. Kwon Soonyoung, who says that he’s actually an introvert, often chooses the energetic, loud and bordering on the insane as a booster, and seems to have his artistic mind set on putting on a show, whatever the assignment is. I would even argue that the differences between his performance and what he sometimes describes as his “true self” make the show more interesting to watch. He can count on the reliable support of his compelling backstory that makes the complete package being presented on stage easier to believe, and more enjoyable to watch – as if we could see the extent of the road that he’s walked so far every single time the lights are on him. There’s a sense of coherence that he presents across all forms of media which is hard to describe, but, ultimately, it translates to me as a sense of commitment and assurance that he’s infatuated with his own dreams as much as us fans are infatuated with him. 

His ability to communicate himself coherently over the years is perhaps the reason why it’s so easy to fall in love with his dreams and desire to watch him fulfill all of them. That was very evident during “Spider”, his remarkable solo debut this past April. The release is a great display of all that he has built ever since he decided he wanted to be on a stage; the luscious track, written and produced by his long-time friend and fellow Seventeen member Woozi, allowed him to show himself as a fully-grown artist beyond the group, highlighting his poignant moves, sultry vocals, beautiful angles and addictive visuals. The song is an easy listen that begs for a replay, and the music video, as well as the multiple stage performances and even the dance practice are a visual feast, as he makes his way through the backup dancers and the rectangular frames that are part of the choreography. His high quality standards are noticeable in every aspect of the release, since its inception, as described by him in the behind the scenes clips and interviews he gave about the song. It’s not so different from Hoshi, the SVT member, but it’s a few steps beyond, like the feeling of walking a bit further in order to get a bigger picture.

If you’re my close friend I have probably made you watch this at least once.

The shift

Taste is a very tricky topic to navigate, because there are multiple collective and individual, external and internal layers behind what biases and binds us; there are several unarticulated aspects of subjectivity which are both like a sifter and a strainer filtering and shaping how we digest everything that we ingest. Even more when it comes down to the many different kinds of fan discourse that exist, not only because of the emotional qualities, but also the communitarian aspect that entails the general perception of being a fan as being part of an extended array of people sharing the same taste. The extent to which fan taste should be discussed is highly debatable since, after a while, telling apart individual reactions to collective speech constructions can be hard. From the get-go, I stated that this was a personal account, because that’s what a person’s own bias will always come down to. 

But, even in that sense, even though coming to appreciate Hoshi, specifically, was a subjective endeavour, there’s a more general outlook in question, of my process of coming to love a dancer above all others, which is the thing I’m calling a personal shift, and the main product of my own experience of growing in knowledge. That sounds stupidly simple, and perhaps not worthy of a lengthy piece, but reshaping a lifelong perception of the worth of the multiple mediums through which expression can be articulated is quite a challenge. In Architecture school, my greatest asset was my ability to translate images and space into words, and vice-versa. Even my skills as a foreign language teacher are largely indebted to my talent to overthink verbal speech. As a result, someone’s ability with words has long been my biggest source of admiration – the sort of perception I nurtured growing up as a fan of things, and which I carried into idol fandom.

Initially, all of my favourite idols were the talented songwriters, the ones that had a poetics to them that was articulated verbally, going as far as releasing books. Even if I was so addicted to the complete package of the show, at the end of the day I still subconsciously attributed more value to those who could express their artistry in words. Getting deeper into the non-verbal contents of K-pop and how every aspect added its own value to the finished product made me more appreciative of the many layers of the show as equally important; the core of what I called appreciating idols as idols would be an overall sense of seeing each one for the role that they play on an equal footing – from the ones who write and the ones who sing most parts in songs to the ones that provide striking visuals but don’t necessarily lead performances. One of the reasons why idol groups have a diversity of looks, personalities, talents and assigned roles is to maximise appeal; the wider the possibilities, the higher the chances of someone’s story resonating with someone watching – because what is being communicated by one end still depends largely on the other end’s ability to get it.

A fancam of Hoshi dancing to Seventeen’s 2016 mega hit VERY NICE. Once Twitter’s #1 public enemy, fancams were one of the things that I struggled the get the point of when I first became a fan of K-pop but that became a natural part of my experience the more I enjoyed the performance aspects. I have watched this one countless times. Jul, 2016.

Once I had opened myself to cherish the various facets of how idols articulated themselves, I could channel my long-standing enjoyment of the ability to build up a coherent artistic narrative into appreciating an idol’s overall performance more wholly, which eventually developed into love for Hoshi, the idol and artist. Becoming his fan was a bit like figuring out how much I earnestly desired to find new points in the fabric of reality in which the sensibility of bodies and souls seemed to connect with the higher orders of the world – the window of possibility which leads into a taste of the numinous, if we’re lucky. It’s as simple as a deep craving for beauty. There are countless collective and individual, external and internal layers behind what biases and binds us as we make our separate and communitarian ways into the world, but, as such, it is a constant that time will keep going, and we will keep changing along the way. That’s when an idol’s performance points back to their successful journey to the stage, the intersection between falling in love with watching someone, and falling in love with their dreams, and wishing to turn that passion into support. That’s how a fan is born.

Even so, regardless of my big words, ultimately, the artist-fan exchange is a transaction. The reason for the complex structure that makes up the pact of kinship between idols and their fans is the need for steady, life-long support that will enable the careers of all the people involved in putting the show together. And what do fans get out of it? Various are the reasons why we give way to the emotional currency we have to offer in choosing to keep supporting and enjoying something we are fans of. Perhaps I also crave the feeling of doing life together, as distant parallel lines in a huge world, that will meet somewhere in the distant future, in the place where souls gather to look back on the journey. Even if that comes across as overly optimistic… Maybe it’s just my pandemic-struck mind in need of distraction speaking louder than my best senses, but it’s been said that the beauty of the world is like the mouth of a labyrinth. I love writing about my favourite artists, because they help me think about myself too. And I love writing about Hoshi, but I love watching him the most. Like strong, bitter coffee, every single time he steps forward I’m left with a taste that lingers on my tongue, gives me extra energy in the early mornings and might keep me up at night if it’s convenient. And that’s my proudly, fully, completely, passionately biased opinion on what makes him a great idol.

Itsy bitsy spider
Climbed up the waterspout;
Down came the rain
And washed the spider out;
Out came the sun
And dried up all the rain;
And the itsy bitsy spider
Climbed up the spout again.

OTHER Readings:

Filmi Girl. “Why an Idol Group isn’t a Boy Band.” The Idol Cast and Other Writings. Mar 4, 2021.

Musikosmos. In the Spider’s Web.” Musikal Kosmos. Mar 29, 2021.

Sara Delgado. SEVENTEEN’s HOSHI Talks First Solo Mixtape “Spider”.” TEEN VOGUE. Apr 2, 2021.

[INSIDE SEVENTEEN] HOSHI Mixtape ‘Spider’ Behind. SEVENTEEN Official Youtube Channel. 14:07. Apr 12, 2021.

Footnotes:

[1] Many idols who begin training at a very young age and/or who debut as teenagers might interrupt their education due to the demands of training/performing (Saeji et al. 2018: 12)

[2] In “Idols: The Image of Desire in Japanese Consumer Capitalism”, Galbraith (2012: 186) describes this using the term “inescapable intertextuality”: 

“Constantly present and exposed, the idol becomes “real,” the basis of feelings of intimacy among viewers, though this is independent of “reality.” John Fiske (1987, 116) describes the situation as “inescapable intertextuality,” where all texts refer to one another and not to any external reality. This is not to say that reality does not exist, but rather that what is accessible in cultural products is a construction of reality, which must be understood on its own terms. “Images are made and read in relation to other images and the real is read as an image” (Ibid., 117). The meanings of images, however temporary, are made (or negotiated) in interaction with images.”

[3] for more on this, I’d recommend specifically Lee Eungchel’s “Always Fans of Something: Fandom and Concealment of Taste in the Daily Lives of Young Koreans” (2021). Huge thanks to Prof. CedarBough T. Saeji who shared a link to this paper which sparked in me the desire to write this piece. 

[4] About fan practices, there’s a special place in my heart for the dense autoethnography “K- Popping: Korean Women, K-Pop, and Fandom” (Kim, 2016) 

[5] Showing consistency between the multiple venues of interaction with fans, media and other spectators is key to forming both the long-lasting bond with fans, as well as presenting a reliable, worthy image as a celebrity before society. (Elfving-Hwang 2018)

REFERENCES

Elfving-Hwang, Joanna. (2018) “K-Pop Idols, Artificial Beauty and Affective Fan Relationships in South Korea.” In Routledge Handbook of Celebrity Studies, edited by Anthony Elliott: 190-201. New York: Routledge. Retrieved from: https://www.academia.edu/36343905/K_pop_Idols_Artificial_Beauty_and_Affective_Fan_Relationships_in_South_Korea 

Galbraith, Patrick W. (2016) “The Labor of Love: On the Convergence of Fan and Corporate Interests in Contemporary Idol Culture in Japan”. In Media Convergence in Japan, edited by Patrick W. Galbraith and Jason G. Karlin: 232-64. Tokyo: Kinema Club. Retrieved from: https://www.academia.edu/25849863/The_Labor_of_Love_On_the_Convergence_of_Fan_and_Corporate_Interests_in_Contemporary_Idol_Culture_in_Japan 

Kim, J. (2017). K- Popping: Korean Women, K-Pop, and Fandom. UC Riverside. Retrieved from https://escholarship.org/uc/item/5pj4n52q

Lee,  Eungchel (2021). “Always Fans of Something: Fandom and Concealment of Taste in the Daily Lives of Young Koreans.” In Korean Anthropology Review 5: 53-78. Retrieved from: https://s-space.snu.ac.kr/handle/10371/174377 

Saeji et al. (2018) “Regulating the Idol: The Life and Death of a South Korean Popular Music Star.” In Asia Pacific Journal: Japan Focus 16 (13:3): 1-32. Retrieved from: https://apjjf.org/2018/13/Saeji.html 

5 de Janeiro de 2020.

A foto abaixo (tirada pela minha irmã) fez um ano hoje. Ela documenta uma experiência muito inusitada e quase surreal que eu vivi em Janeiro do ano passado, quando fui pra Inglaterra pela primeira vez desde 2016 pra apresentar uma pesquisa sobre como o fandom de BTS ocupava o Twitter, na Kingston University. Experiência sobre a qual eu, autointitulada “contadora de histórias por vocação divina”, nunca escrevi. Por falta de saco, por falta de tempo, por falta daquelas palavras que a gente só encontra depois que pensa o suficiente sobre um acontecimento. Mas hoje, 5 de Janeiro de 2021, parece que é finalmente um bom momento pra falar a respeito dela.

Eu sou Arquiteta apenas de formação, não de ocupação. Eu pago minhas contas com aulas de Inglês, a língua que eu domino o suficiente pra que a usasse para apresentar minha pesquisa independente diante de uma pequena plateia de gente que eu respeito muito de alguns países diferentes. A mesma língua cujo domínio me permitiu viver na Inglaterra por 11 meses entre 2015 e 2016, uma experiência que, em larga escala, definiu minha vida, mas, em pequena escala, tornou a viagem do ano passado mais especial, pelos sabores inconfundíveis do reencontro.

Comecei a dar aulas de Inglês em Abril de 2019, mas me comprometi de verdade com o trabalho apenas em Outubro, por conta da viagem, também, pois ela foi razoavelmente inesperada e eu precisava banca-la. Ainda bem que, em Fevereiro de 2007, meus pais conseguiram negociar um preço bacana pra que eu começasse a estudar na Cultura Inglesa de Uberlândia. Na época, eu tinha 12 anos incompletos, e, como a criança que eu era, achava que já estava “muito tarde” pra que eu finalmente realizasse o sonho de começar a aprender inglês (que inocência a minha). Nessa escola, eu conheci professores que me ensinaram a amar aprender a me expressar em uma língua diferente. Fiquei lá até o fim de 2012, quando completei meu curso CAE.

De volta a Outubro de 2019, admito que a falta de um diploma em Letras me fazia ter reservas quanto à começar a dar aulas; mas, naquele período especificamente, eu estava um pouco mais confiante que em anos anteriores, e a janela da oportunidade me parecia grande o bastante para que eu pulasse por ela. Estudando Coreano desde o começo do ano, eu havia constatado que minha mente muito analítica – afiada pela formação de Arquiteta, e combinada com minhas experiências estudando a Língua Inglesa e a Língua Alemã – tinha me ensinado a sistematizar as línguas de uma forma muito conveniente. Eu era capaz de me aprofundar nas suas estruturas, fundamentos e oportunidades de expressão usando minhas estratégias de análise de projeto, compreendendo e desconstruindo as duras e assustadoras regras, e fazendo com que meus alunos adultos finalmente entendessem como usar o “don’t” e o “doesn’t”, e como pronunciar “cycle” sem perder o sabor do L depois do C.

Essa pronúncia do L, por si só, me é muito cara – custou muitas horas de exercícios para que ensinasse minha língua presa a se mover da forma certa. Nessa mesma época, o distante ano de 2009, eu ainda estudava alemão, e alternava os esforços em L com os esforços em contornar meu freio para pronunciar os R’s em “Wir sterben niemals aus”, minha música favorita da banda que me motivou a estudar. Domar a minha língua para que se movesse de forma a reproduzir os sons que ela era naturalmente incapaz de fazer foi fundamental para que eu desenvolvesse a capacidade de reproduzir qualquer som que eu ouvisse. Essa habilidade inesperada me ajudou quando comecei a estudar canto, participou do desenvolvimento do meu sotaque que me faz soar como uma Americana que ficou tempo demais no Reino Unido, além, claro, de me ajudar no desenvolvimento da fluência e da desenvoltura com a qual eu conseguia falar uma língua que não era a minha – incluindo meu desafio mais novo, que é aprender Coreano o suficiente pra pensar numa pós-graduação na Coreia do Sul no futuro próximo.

Assim como eu estudei Alemão por causa de Tokio Hotel e Cinema Bizarre, a verdade é que comecei a estudar Coreano, sim, por causa dos meus artistas favoritos da Coreia do Sul. Eu conheci todos mais ou menos na mesma época, mas aqueles são parte da minha adolescência, enquanto estes são da minha fase adulta. Eu, adolescente, sonhava em ser designer, e estudar na Bauhaus; eu realizei o sonho de visitar o prédio da escola em 2016, durante meu intercâmbio, um dia antes do meu aniversário de 21 anos. Andando por aqueles corredores, eu tive a convicção de que os sonhos da Luisa de 14 anos, que haviam me carregado até aquele local, morriam ali mesmo. A Alemanha era, na verdade, o destino original que eu tinha em mente quando me inscrevi no programa de bolsas. Cá entre nós, eu fui para o Reino Unido a contragosto – eu sequer queria ir pra Leicester (a cidade onde conheci meus melhores amigos, que também reencontrei em Janeiro do ano passado).

Eu ainda não encontrei uma nova visão de futuro que me carregue como antes, mas eu tenho novos pequenos planos pelos quais consigo trabalhar e, com a Graça de Deus, alcançar, se for conveniente, como viajar para o Reino Unido para apresentar uma pesquisa que foi fruto de me permitir ser fã mesmo depois de crescida, de algo que eu havia rejeitado dez anos antes, quando era adolescente. Uma pesquisa que não teria nascido se eu não tivesse me formado no que me formei, se não conhecesse as coisas que conheço, se não dominasse as línguas que domino, se não tivesse passado por cada um dos minutos das horas dos dias das semanas dos meses dos anos que me levaram até o momento em que essa foto foi tirada, há 366 dias.

Em 31 de Dezembro de 2017, vivendo um inferno familiar, eu fui dormir com um cinto enrolado em uma das mãos, escondido embaixo do meu travesseiro, com a promessa de que eu acabaria com a minha vida se acordasse sentindo a mesma dor que eu sentia naquele momento. Entre eu, meus pensamentos e Deus, foi o dia mais difícil que eu já vivi. Eu gostaria de dizer que toda aquela dor já passou, mas meu coração ainda dói muito, e voz que me diz pra desistir ainda sopra no fundinho do meu ouvido. A vida é dolorida, de viver, de ver, de ouvir falar, mas a minha mente muito analítica – afiada pela formação de Arquiteta, e combinada com minhas experiências chorando de dor de tanto pensar em tudo que acontece nesse mundo – me ensinou a sistematizar a vida de uma forma que me ajuda a aguentar firme, um dia de cada vez.

Estou próxima de completar 26 anos. Eu vivi uma porção de outras coisas na minha vida além das que eu relatei aqui agora. Muitas perdas e derrotas, muitas frustrações, coisas faltando, dias estagnados, tantos momentos que eu já esqueci e que nem sei dizer se foram mais ou menos importantes pra criar quem eu sou hoje, e muitas, muitas pessoas que eu encontrei ao longo do caminho, que me ajudam a lembrar que eu não sou a personagem principal da história da humanidade, mas que eu ocupo sim um lugarzinho, um minúsculo papel que quero desempenhar com honra e gratidão ao Arquiteto do Universo, que me concedeu o fôlego que me faz estar aqui, hoje.

Não se engane, crer que existe um propósito em tudo vai muito além de racionalizar as voltas que a vida dá, pra olhar com Graça pros casos e acasos. Não é romantizar nem negar a dor, mas acreditar que, por trás das curvas e ângulos da geometria da existência, existe algo maior que minha própria vida (que é tão frágil, tão pequena, e pode acabar amanhã, ou agora mesmo). Acreditar que existe um Arquiteto infinitamente Bom, cuja mente analítica é impregnada de Amor, e que produz pensamentos muitos mais altos que os meus – não um Deus do caos, mas um Criador que cuida das suas criaturas, que as acolhe como filhas e filhos, e deixa que vivam com as consequências das suas escolhas, enquanto se movem por terra, céu e mar, e causam múltiplas, infinitas reações em cadeia, desde as primícias dos milhares de anos em que a gente é gente sobre a Terra. Sempre que bate o medo, eu me agarro a cada pequeno momento, cada pequeno encontro, cada sonho perdido, cada plano frustrado, com a certeza de que coisa alguma entre todas as dimensões e domínios do visível e do invisível, até a Eternidade, de onde tudo vem, e para onde tudo vai, é em vão.

2016 vs. 2020

The Day We Jopped

Do you remember the day we first jopped?

To those unaware, “Jopping” is the combination of “jumping” and “popping”. I’m not a dancer, so I can’t “jump” nor “pop” at the same time, but I’m under the impression that I can every single time I crack yet another joke about the verb coined by “Jopping”, SuperM’s debut title track, released in October last year.

A screenshot I took from the “Jopping” music video page, 12 minutes before it premiered. From left to right: Mark, Ten, Taemin, Taeyong, Lucas, Baekhyun and Kai.

SuperM’s debut season was one of the greatest times of my career as a fan of things. From the initial skepticism with which the project was met, and all the jokes people cracked before some of us realised exactly how huge it was to have all of these amazing artists together in one single group, seeing their separate fandoms coming together to love them or hate them, getting caught in the crossfire, but still having so much fun from getting to know new people and new music I wasn’t very invested in at the time. One mini album, one album, five music videos, a tour, numerous stages and performances of over twenty songs later, we’re still somehow jopping to all of this, as we make our individual ways in the world.

Last week, when their new music video dropped at 1am – for the title track “One”, a mash-up of two other of their songs, “Monster” + “Infinity” – I wasn’t having a particularly good day, nor night. I considered going to bed and watching everything the next morning, but, in honour of the “good old times” – read, last year – I decided to stay. As we began to go through the album, the timeline felt just like October last year all over again, and I was reminded once more of just how much I love being their fan.

SuperM “One”, a mashup of tracks “Monster” and “Infinity”, lead single for their first album

The season around SuperM’s debut was a particularly troubled time of our fan experience on Twitter – by “our” I mean us, their supporters. The aforementioned skepticism with which their debut was met came from different sides – not just their own, suspicious fans, but other fandoms as well – and it reflected badly on us that chose to support them. It might not make a lot of sense to outsiders, but, in the trenches of fandom-making, picking sides might turn into an ugly game if the parties involved are willing enough to take it seriously enough.

At the time, I was working on my essay about Fandoms on Twitter for the BTS Interdisciplinary Conference in London, as well as working double to afford the trip from Brazil to the UK. 2019 was the year I decided to interact with collective fandom again, after a couple of years of enjoying my hobbies solo. This sudden comeback gave me a lot of food for thought, which eventually led me to engaging academically with the topic. It sounded like a great idea at first, but the nights were long and filled with tears, because I felt so alone and so unable to complete what I had decided to do.

Even as I worked on my essay, I still hadn’t realised that this end-of-year journey was my own process of giving birth to the academic fan I had in me. She is the one writing this piece right now.

My own struggles around this time last year surely add to the value of just how good it was to have something that felt so fun and weightless during an especially hard time. I can’t separate how badly my personal life was going from how I perceived everything that happened at the time. But the trope of the lost girl that found herself in a community is an old, overused one, which does not provide enough answers for me – because the question that makes rounds in my head is why everyone else, even those who weren’t particularly struggling at the time, felt the same about this experience we got to share. 

My SuperM mini album – Taemin version, with a Taeyong photocard, the day it arrived. My favourite group chat on Twitter came together because we wanted to discuss which album versions we were going to buy.

Fandoms are inherently religious projects, not just for those who join them, seeking a community to belong to, but for those from whom they are born – the sources of our love, the ones from which we get content and to whom we offer our time, money and full attention in return. The desperate commitment to something so aesthetically appealing, and which can appear bigger than life if you tilt your head the right way, produces religious fanatics in droves, easily driving the most sensible out of their best senses. The digital fandom experience is filled with its own unbelievable kinds of highs and lows, and there isn’t a single reason that explains how our community problems happen. My own theory to digital fandom spaces is an attempt at understanding how artists, admirers, devotees and outsiders interact in/with specific digital social network sites over time and generate their own specific identities. This is why, in order to understand fandoms, I always turn to the sources to understand what birthed them in the first place.

As I’ve mentioned before, there was a lot of collective trouble starting when SuperM was announced, in August 2019. When Taemin, Baekhyun, Kai, Taeyong, Ten, Lucas and Mark were pulled from SHINee, EXO, NCT 127 and WayV to make the group, no one was very sure of what was going to happen – in fact, there were indeed plenty of reasons for the initial skepticism with which the project was met. None of them knew how it would turn out, but neither did any of us, on the other side of the screens. Wishful thinking wasn’t enough of a window into the future, but, as the first teasers dropped, and our collective enthusiasm grew with each new release, I guess this is where the turning point happened – the realisation of just how freaking great the line-up of this group was.

A picture that I downloaded from Twitter, taken during SuperM’s debut showcase at Capitol Records Building. From left to right, we can see the lightsticks of the fandoms that make up SuperM SHINee, EXO and NCT (minus WayV‘s lightstick).

If you know who took this picture, let me know so I can credit them.

In SuperM’s debut, all of my favourite things about being a fan came together to make an unforgettable experience. Nothing felt like a job, or a personality trait I had to hold onto for dear life. In a sense, their debut was a turning point in my fan experience as well, as I realised exactly the type of fan I wanted to be from then on. The images that inhabit my imagination and my memory from those days are filled with, among other things, countless jopping jokes, concept pictures, broken friendships and scenes from always-so-dramatic “I Can’t Stand the Rain” stages, in between dozens of papers I read and dozens of friends I gained and lost along the way. The excitement of anticipating their TV appearances and wondering if our side of the world was about to fall in love with artists we admired so much; appreciating the great interactions between the members, all of them talented beyond measure and committed to help one another as they worked to make this project successful on their end.

Fans’ attachment to the optics of the bond between members can often be their own way of satisfying their craving for stability in the existence of their fannish identities. With a temporary supergroup such as SuperM, there’s no stability besides the assurance that these members are talented and willing to make their time together count. Our network of SuperM Supporters is shaped the same – we’re all happy with the great content, but we’re the happiest that we get to come together from our individual fandoms when it’s time for SuperM to assemble again, like a special party. We’ll be here for whatever the outcome is, because these artists brought us together, and they are worth the views, the listens, and the chance*.

And all of this happened even before the pandemics arrived, and lockdown and quarantines became the norm. SuperM has been just one of the many pieces of fan experience that made the last months easier to bear – watching them on Beyond Live on the first weeks of Quarantine, waiting to see them perform “With You” on Together At Home, discussing with friends, staying up to see everything first hand, waiting for the next teaser, the next single, the next live, the next stage. There was always something to look forward to, even as the world felt out of place. But, even so, even after so much changed, and the world appeared to have become much darker, and we needed even more distraction to cope, the memories that SuperM gave us when we first jopped still feel just as special. Perhaps even more now that we were given a first full album with great songs and great music videos that remind us of just how great this group is, and how much they’re capable of, and how we all want them to succeed altogether.

This is the power of a successful parasocial interaction; both parts are inherently separate and so, so distant, but still enjoying and building something together. I can only hope that these members are having as much fun as we are. All of us deserve that little jumping and popping. 

* Read Also: Kulture Kolumn: The Polarizing Debut of SuperM Riddhi Chakraborty‘s amazing piece about SuperM for Rolling Stone India, which greatly influenced me back then, and still does.

SuperM’s first full album is out now! My personal favourites are Together at Home, Wish You Were Here and Step Up.

#3. as palavras que você deixou pra trás.

      Este texto é o terceiro de uma série. Leia o primeiro aqui, e o segundo aqui.

      Quando comecei a escrever essa série de textos, eu queria falar sobre pessoas & relacionamentos como se fossem luzes, inspirada por uma canção chamada “Mikrokosmos”. Confesso que não era assim que eu havia planejado fechar a trilogia, mas, olhando de volta pros faróis, e pro som que a estrela faz, eu percebo que estava desde o começo me preparando pra escrever isso aqui. Hoje, 17 de Setembro, fazem 4 anos que um álbum chamado “Story Op. 1” foi lançado. Eu pretendia guardar este assunto pra Dezembro, ou próximo Abril, mas achei justo publicá-lo hoje, em homenagem ao insubstituível Kim Jonghyun.

      Há uns 3 anos, eu perguntei pros céus qual era minha vocação divina na Terra; fui respondida na mesma hora – “você é uma contadora de histórias”.

      Ainda que existam palavras celestiais que chegam como uma surpresa, e trazem à existência novas realidades e novas identidades, as palavras que eu escutei apenas colocaram em ordem coisas que já existiam em mim. Eu gosto de histórias; aliás, eu gosto das pessoas que existem por trás delas, e do Deus que nos criou e que se revela através dos fragmentos da nossa rotina desorganizada – como se o plano dessa realidade fosse uma cortina, e a Eternidade estivesse a um pequeno rasgo de distância. Eu já escrevi muito sobre os motivos pelos quais eu gosto de escrever, como se eu me mantivesse como uma permanente leitora do mundo, como alguém que está sempre respondendo à outra coisa. 

      Hoje, especificamente, quero responder ao Jonghyun. Escolher publicar este texto é algo que eu faço com muito cuidado; tenho muito zelo e respeito por ele, sua família, fãs, e pelo legado que construiu. No desenrolar dos fatos, eu sou das que perderam o privilégio do seu tempo em vida, e só se apaixonaram pelo seu trabalho brilhante depois da sua morte. Falar sobre o Jjong hoje é falar sobre as palavras que ele deixou pra trás – como a luz de uma estrela que continua viajando e iluminando por muitos anos-luz, mesmo depois que ela se vai. 

      Em todo meu fascínio por estrelas, eu coleciono a luz de muitas dentro da minha mente e do meu coração. Eu me criei muito sozinha, dentro do meu próprio mundo, e os artistas cujo trabalho influenciou minha vida são como os melhores amigos que muitas vezes eu não tive, mas que estiveram ali pra mim, de uma forma ou outra. Minha vida já deu muitas voltas, mas, até hoje, conhecer o trabalho de alguém é como ganhar uma nova companhia, que chega no tempo certo, pra agregar como deve. Quando comecei a me aproximar da música coreana, mantive uma distância consciente do trabalho solo do Jonghyun, poque eu nunca quis que a tragédia falasse mais alto que qualquer outra coisa que ele tivesse pra me dizer. Pro meu deleite, com o tempo, a aproximação veio naturalmente, cuidadosamente mediada pelo aleatório do meu Spotify, e facilitada pela voz doce e cativante de alguém que, como eu, amava histórias, e era muito bom em escrevê-las e contá-las [e cantá-las]. 

Promovendo seu primeiro EP, “Base”, em 2015, cantando também “Juliette”, música que compôs para o SHINee. Das minhas performances preferidas, prestem atenção nos vocais.

      Além de membro por 9 anos de um dos maiores grupos da sua geração [o SHINee]Jonghyun também apresentou um programa de rádio, chamado “Blue Night”, entre 2014-2017. Em uma entrevista concedida em Abril de 2017, no último dia em que o programa foi ao ar, ele disse que entrar para o rádio foi o segundo maior ponto de virada da sua vida [o primeiro sendo a decisão de largar a escola no Ensino Médio]. Ele considerava ambos mais importantes que entrar pra indústria do k-pop, ou publicar o primeiro livro, pois foram decisões que transformaram e ampliaram sua visão de mundo. No Blue Night, que ia ao ar entre 00:00 e 02:00, ele se juntava aos seus ouvintes para construir e compartilhar um mesmo espaço, e fazer daquelas duas horas um lugar seguro de descanso no fim dos dias.

      O grande triunfo do programa foi ter tido sucesso como um canal de comunicação e troca, tão sinceros quanto fosse possível. Das muitas histórias que eram compartilhadas, ele começou a escrever canções, em um quadro especial intitulado “Escrito pelo Blue Night, composto por ele”, em que ouvintes enviavam seus relatos – vagos ou específicos, expressões de desejo do momento, desabafos curtos, pequenas manifestações de rotina que passariam totalmente desapercebidas até que alguém colocasse em palavras. Essas canções se tornaram eventualmente sua primeira coletânea musical – o Story Op. 1lançado em 2015, e que completa 4 anos hoje.

      Algumas músicas surgiram a partir de mensagens dos ouvintes – como a faixa “Like You”, baseada na história de um rapaz que estava em uma paixão unilateral e não-confessada, ou “I’m sorry”, sobre uma moça que havia recebido um e-mail de seu ex-namorado. “Maybe tomorrow” foi uma resposta às muitas mensagens sobre cansaço e desânimo ao fim de um expediente, enquanto “End of a Day” fala sobre ter pra quem voltar no fim de mais um dia. A excelente “Diphylleia grayi [skeleton flower]” partiu de uma proposta que ele recebeu, de descrever a vida através de flores e tempo, e foi também o título de um romance, publicado em Setembro de 2015, que combinava trechos e aspectos das canções do álbum em uma mesma história. [para saber mais sobre cada faixa – em inglês] A coletânea não foi promovida de forma convencional, nos music shows coreanos, mas com uma série de pequenos concertos, intitulados The Story by Jonghyun – momentos de convergência modestos para o vocalista de um grupo acostumado a esgotar as maiores arenas da Ásia.

      “U & I”, faixa no. 2 do álbum e música tema do Blue Night, fala sobre o encontro de todos os dias entre Jonghyun e seus ouvintes, para compartilhar um pouquinho de si uns com os outros. De dentro daquele estúdio, ele pode desconstruir partes da sua imagem de ídolo jovem, e revelar seu lado pessimista, suas indisposições, sua rotina atípica, e conhecer mais sobre a vida comum das pessoas que o acompanhavam – tanto as que viviam na mesma cidade quanto as que o escutavam de outros países, em outros fusos horários. Incontáveis pessoas que ele nunca conheceria pessoalmente, mas de cujas vidas ele fez parte – como imagem, como voz, como artista, poeta, canção – como lembrança. Todos os dias, quando se encerrava às 2 da manhã, ele deixava um convite, quase como uma declaração de missão – “Aqui fala o Jonghyun do Blue Night. Se você não tem um lugar de descanso, você é bem-vindo aqui sempre que precisar. Venha e descanse aqui amanhã, também.”

“U&I”, apresentada em um dos pequenos shows que acompanharam o lançamento do Story Op. 1.

      Hannah Ewens, em seu livro “Fangirls” [2019] chama atenção para o uso do termo “fandoms” [ou fan kingdoms] para se referir ao universo de admiradores que se organiza em torno de uma figura mais ou menos pública – um reino, algo que pressupõe a existência de um território sob o domínio de alguém. De fato, o maior poder que um artista tem é o de fundar mundos ao seu redor; abrir espaços e inaugurar novos lugares de encontro, dimensões paralelas em que pessoas diferentes se cruzam, e constroem memórias, e tocam as vidas umas das outras, movimentando a história e as redes da nossa sociedade. Na ocasião de seu último programa, no dia 02 de Abril de 2017, entre as muitas mensagens que recebeu, uma sempre me chama a atenção – “Graças ao Jjong-D, minha vida simples se tornou um pouco mais especial. Muito obrigada por sempre ter estado aqui, independente do quão bom ou ruim tivesse sido meu dia”. Assistindo às suas transmissões antigas, lendo suas entrevistas, e escutando suas músicas, ele continua fundando novos mundos e novos espaços, em mim e em outros; suas canções dão o tom de alguns dias, mudam o clima de outros, ou às vezes não encontram espaço algum. Algumas são como um abraço, outras me fazem rir e dançar, outras ficam como plano de fundo dos afazeres do dia. Já fiz amigos falando delas, já levei unfollows falando delas, e, hoje, eu escrevo um texto sobre elas, na esperança de que elas possam tocar a vida de mais alguém. O farol continua brilhando.

“Our Page”, música escrita pelos 4 membros do SHINee, a respeito da perda de seu 5º membro.

      Das muitas coisas que me fascinam sobre ele e sua música, a maior talvez seja o esforço em se manter sensível ao mundo ao seu redor, mesmo que as circunstâncias apontem na direção oposta. Todos nós enxergamos a realidade em narrativas – os pontos de vista, subjetividades, vieses, preconceitos e peculiaridades do nosso próprio olhar. Estar em constante troca é o que nos permite ver por outros olhos, reconhecer outras perspectivas e descobrir mais das facetas da vida que não se revelam quando estamos sozinhos. As histórias que guardamos e compartilhamos ficam bem sobre o limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo – como os faróis que nós construímos, e que continuam iluminando os mares, mesmo depois que ninguém mais se ocupa de tirar o pó das escadas. Nas palavras do próprio Jonghyun, “qualquer tipo de relacionamento [ou de conexão] é importante, pois você nunca sabe qual será o fim”

“1000”, minha música preferida, parte da coletânea Story Op. 2 [lançada em 2017]. A canção foi escrita em comemoração ao 1000º dia do Blue Night

      Olhar para uma pessoa como o Jonghyun me faz pensar no contraste pungente dos cheios e vazios que ficam quando uma pessoa vai embora, mas deixa muito. Os lugares que ele ocupava continuam lotados, porque as suas palavras eram muitas, eram fortes, altas, poderosas, e preenchiam todos os espaços. E é por isso que a sua ausência também fala tão alto; tudo que ele deixou pra trás faz lembrar a falta que ele faz. Fica um vazio de tudo aquilo que ele ainda poderia fazer e viver, mas não fez; a família que não construiu, as histórias que não contou, as músicas que não compôs, os livros que não escreveu, o retorno ao Blue Night que não aconteceu. As coisas que ele dizia com os olhos, com as mãos, além da própria voz, ainda ecoam, ainda se fazem presente, pra quem se importa de parar e ouvir, e pra quem não se importa, mas cuja vida toca a de outros que pararam pra escutar. São gatilhos pra lembranças, são o motivo de ficarmos acordados à noite, esbarram nos pedaços da rotina… Mas isso não é só sobre o Jonghyun, ainda que seja a respeito dele que eu fale aqui, hoje. 

      E, claro, de tudo que eu falo, falo apenas como simples fã, e uma fã póstuma – a menor e mais insignificante de todos, que nunca experimentou a expectativa presente de admirá-lo em vida, e para quem a ausência foi a primeira realidade. Mas este é o poder das histórias que compartilhamos – aquele limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo. Mesmo como fã póstuma – mesmo assim – eu sinto meu coração vazio toda vez em que, assistindo um vídeo ou escutando uma canção, eu me lembro que ele não está aqui mais. A morte é nosso problema mais antigo, mas é sempre um problema novo, porque morremos só uma vez, e quem continua em vida segue em direção à própria morte sem saber também o que isso significa. Sempre vai doer em alguém, mas isso também vai passar – mas algo também fica. Acho isso intrigante. 

      Se ele fosse uma história, seria uma grande história; é difícil explicar isto sem que pareça absurdo, então vou deixar em aberto, e confiar na imaginação dos leitores. De qualquer forma, a vida continua, e nós todos ainda temos muitas páginas para encher até o fim de todas as coisas. É assim que tudo corre, como um grande jogo de pinball, ou uma partida de futebol de botão, ou uma fissão nuclear e sua reação em cadeia; as ilustrações são muitas, mas o sentido é mais ou menos o mesmo. Nem tudo é bom, quase nada é louvável, pouca coisa é agradável, mas o mundo não parou de girar ainda por causa de nada disso. Contar histórias é uma forma de nos lembrar que, apesar de tudo, ainda pode ser um privilégio fazer parte da vida uns dos outros. Pelo menos, eu penso assim. Muito obrigada por fazer parte da minha, Jonghyun. You did well. 

      [Tem playlist também.]