[sem título]

   Às vezes eu só quero escrever, sabe. Não quero mudar o dia de alguém. Não quero transformar o mundo. Não quero tocar os corações. Só quero botar pra fora. Mas só botar pra fora dá trabalho.
     
   Só botar pra fora pode ser demais. As pessoas são más, as pessoas destroem vidro quando o tem em mãos. Eu posso ser de vidro, às vezes. Ou eu posso ser de aço. De pedra. Pedra quebra e se quebra. Eu não sei bem o que eu sou hoje. Mas isso não importa.
     
   Hoje eu não quero que faça sentido. Que você se identifique. Você pode até conseguir, mas não porque eu quis. Hoje eu só quero pensar que consegui escrever o bastante pra aliviar meu coração. Como uma torneira um registro global, abrindo e fechando uma tubulação com mais de cinquenta milímetros de diâmetro. Parada, acumulando. Preciso vazar, preciso jorrar.
       
   Então, hoje, não é para que outros entendam, para que outros concordem. Hoje eu escrevo pra mim. Pra que eu saiba que eu escrevi, que eu estive aqui. Que eu estou sentindo, estou mudando, estou pensando, estou sorrindo, estou sofrendo. Para que eu me lembre que hoje, neste momento, eu estive viva, e em explosão.
     
     

Eu não sei o que podemos fazer, Maria

     Eu também tô ferrada, Maria, eu também tô ferrada. Não tô sabendo pra onde eu vou, de onde eu vim, o que fazer. Eu tô desanimada, Maria, eu tô desanimada. Eu tô cansada. E eu tô precisando mudar, revolucionar minha vida. Mas eu não sei o que fazer, eu realmente não sei. Eu tô perdida, Maria, eu tô tão perdida quanto você. Pra onde a gente vai agora, Maria? Eu não tô enxergando o caminho.
     
     E eu tô apaixonada, Maria. Tô apaixonada, de otária que sou. Tô sem saber pra onde eu vou com isso. Eu não queria, Maria, eu juro que não queria. Mas daí foi maior que eu, mais forte que eu. Eu fico sem saber o que vai ser, é sempre tudo tão difícil pra mim. Pra nós, né. A gente se magoa tanto. Eu tô apaixonada, mas isso não me dá mais vontade de viver, não tanta quanto eu preciso, e queria. Eu queria fazer alguém feliz, Maria, é por isso que eu amo. Mas até os meus amados amigos estão infelizes e eu tô deixando, Maria. Você tá infeliz, e eu não consigo fazer nada. Eu não mereço nada bom, Maria.
     
     Mas eu queria merecer, sabe, Maria. Eu queria. Mas eu não sei o que eu devo fazer. Eu não sei o que você deve fazer. Eu não sei de nada, Maria. Eu só finjo que sei, e as pessoas compram a ideia. Isso é ridículo, Maria, é ridículo que eu ainda precise fingir. É só comigo que as coisas são assim, ou é com todo mundo? Por favor, diz que é com todo mundo, Maria, e me diz que todo mundo no mundo é igual. Todo mundo no mundo carrega uma cruz. Maior ou menor, sempre é a mesma cruz. As mesmas dores, as mesmas dúvidas, os mesmos problemas. Eu tenho todos esses problemas que todo mundo tem, Maria, e eu não sei o que fazer com isso. Eu não sei mesmo, Maria. Eu não sei.

Literata


     Eu queria escrever algo que fosse maior. Maior do que eu, maior que o meu drama, maior que as minhas lágrimas. Algo que fosse o bastante pra atingir as pessoas ao meu redor, e as pessoas ao redor delas, e as pessoas ao redor delas outras. Algo que criasse vida própria, vida além de mim. Que fosse mais da Vida do que meu. Que fosse tão melhor que eu.
     
     Eu queria escrever algo que fosse digno de entrar nos corações, e fazer Vida. Trazer alívio, trazer reflexão, trazer reflexo. Algo que trouxesse brilho aos olhos, ainda que brilho de lágrimas. Algo que não fosse esquecido, que não fosse apagado. Algo que trouxesse a tristeza da averiguação, mas a alegria da superação. Algo que fizesse saltar um caminho àqueles perdidos. 
     
     Eu queria escrever algo que fosse um porto seguro em meio à tempestade, ou um mirante descoberto num belo dia de Sol. Que abrisse os olhos, que abrisse os ouvidos, que abrisse os lábios e terminasse em canções de júbilo. Algo que traga o júbilo da Vida propriamente dita – a alegria puríssima do existir, do entre olhos distantes que sabem que, de uma forma ou outra, sempre hão de superar o novo dia, tão mais difícil que o anterior.
     
     Ou talvez não. Talvez isso tudo seja grande demais para que alguém queira para si a honra. Talvez toda essa escrita maravilhosa, inconcebível, esteja impregnada nas linhas sinuosas da Vida que nos envolve, como uma lufada de vento num dia de verão. Talvez não seja exprimível, nem pronunciável, ou legível por olhos humanisticamente letrados. Talvez seja só uma aspiração, uma ilusão, uma vocação, uma busca que eu não posso completar.
     
     Eu queria escrever algo que fosse tão grande que eu pensasse ter vencido e alcançado a graça de exprimir o mais sublime da grandeza da Vida. Só para que, no dia seguinte, eu descobrisse não ter conseguido. E nunca parasse de tentar encontrar, entender, conquistar.
 

Vinte e Quatro Horas


     Tudo que eu era o Tempo levou. Tudo que eu era, eu deixei que o Tempo levasse. Em tão pouco tempo deixei que o Tempo levasse uns sonhos. Tem bem pouco tempo deixei que o Tempo levasse esperanças. Não faz muito tempo, deixei que o Tempo levasse fragrâncias. Aromas familiares ainda por vir também deixei que fossem embora com o Tempo.
      
     Dez mais oito anos e eu já não quero um romance. Dez mais oito anos e eu já não creio num romance (para mim). Dez mais oito anos e eu só sei falar de tudo (ruim); dez mais oito anos e eu já frustrei meu próprio ser mais de dez mais oito vezes. Eu sozinha, eu mesma, sem ajuda de qualquer outro alguém. Em um processo masoquista que se renova todos os dias, mais de dez mais oito vezes por dia, eu me converti em meu pior inimigo desses dez mais oito anos de Vida.
     
     E eu até tento passar uma imagem de forte, de quem não tá nem aí, mas eu sei que não funciona. Sou só uma criancinha, pra quem não tão nem aí. Eu tava aqui, fui pr’aí, mas acabei o dia de hoje ali, sozinha. Embolei os poemas e joguei-os aí do seu lado do muro. Eles estão aí, agora.
     
     Perde a graça sonhar com romance quando tem tanta coisa na Vida. Não teve mais graça imaginar porque, no fundo, fiquei enjoada. Fiquei enjoada da graça das pessoas apaixonadas. Ninguém se apaixona de graça. Não tem graça se apaixonar quando tudo tem graça pra você. Tudo é lindo, belo e gracioso, mas não mais. Não há mais graça.
     
     Se eu sentasse e esperasse, ou saísse e procurasse, será se faria diferença? Se eu fosse e encontrasse, ou se buscasse e nunca achasse, será se eu seria feliz? Se eu quisesse e não gostasse, ou se gostasse e não quisesse, será se eu teria pra mim? Se eu amasse e não fosse amada, ou se eu fosse amada e não amasse, será se um dia mudaria?
     
     Eu sou carente de todas as expectativas que deixei que o Tempo levasse.
     
***
     
     O Sol veio, daí se foi, e por mais vinte mais quatro horas ninguém foi capaz de encontrar uma solução ao problema da fome e da sede na África.

Ninguém me conhece de verdade.

Meu coração é tomado pela angústia sempre que não consigo me expressar completamente. Desconheço meios-termos e vivo entre razão e emoção extremos, extremos. Sinto tudo intensamente e sofro pelas menores coisas.

Meu coração é tomado pela angústia sempre que não consigo me expressar completamente. Desconheço meios-termos e vivo entre razão e emoção extremos, extremos. Sinto tudo intensamente e sofro pelas menores coisas.

Ninguém me conhece de verdade.

A vida segue em frente e sempre me deixa pra trás. Preciso correr pra que consiga acompanha-la. Cada novo erro traz consigo o peso dos erros anteriores, e tudo cai sobre meus ombros como um grande caminhão de batatas que se abre sobre mim. 

Ninguém me conhece de verdade.

Contra todas as expectativas minhas, de meus pais e de profissionais, eu tenho amigos. Sem esforço, sem dramas. E, mesmo assim, a solidão está sempre à espreita, enganando meu coração e convencendo-me de que estarei sozinha para sempre.

Ninguém me conhece de verdade.

É difícil fazer-se entendida quando tudo parece vazio, tudo parece distração, tudo parece vaidade, e as pessoas não se importem o bastante para que lhe escutem, reclamando às repetidas, e lhe respondam às repetidas. Metalinguagens e inversões sintáticas não escondem a corrente que lhe prende em um ciclo de mesmos erros que lhe aprisionam a alma.

Ninguém me conhece de verdade.

Quem poderia me conhecer por baixo de todas as máscaras? Pessoa alguma poderia ousar dizer que nos conhece sob o suor de nosso rosto. As camadas da existência estão sempre sobrepostas e deformadas, como se a vida não passasse de uma obra cubista. Tomo minhas licenças poéticas porque elas também são máscaras para mim.

Ninguém te conhece de verdade.

Minha Vida é meu clichê particular. Todas as cenas de um musical trágico. Uma vida que anseia ser escrita, que se manifesta como urgência literária constante. Há sempre algo a ser escrito, a ser dito. Não devo estar dizendo alguma coisa. Devo estar dizendo demais e carecendo hoje de novas explicações as má-explicações do dia anterior. 

E, por mais que eu escreva todas essas vezes em que a obsessão e o desespero batam, e os dedos comecem a tecer no ar aquilo que eu tenha a dizer, ninguém me conhecerá de verdade.

Ninguém me conhece de verdade, mas eu me exponho como se fosse uma ostra sem pérola, em busca de alcançar algum valor perante uma sociedade ostraica que quebraria minha concha. E quebra, todos os dias. Não a concha que me liberta, mas a que me protege e que permite que, agarrada à um fio de sanidade, eu consiga dormir à noite.

Memórias Póstumas de Minha Vontade de Produzir


À distração que primeiro enfraqueceu nosso ritmo insano de trabalho dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.
     
     Eu me recordo de um belo tempo em que minha existência era carregada de sentido – bons tempos em que havia um corpo onde estar. Enquanto um ser abstrato, careço de seres tão-ditos-concretos que me possam alojar no coração, nos músculos, na fé. Vejam bem, senhoras e senhores, que não há existência tão miserável ou desencorajadora quanto a da Vontade de Produzir.
     
     Minha grande inimiga, a Procrastinação, ainda que de vida tão abstrata quanto a minha, e tão carente de concreto para que exista quanto eu, sofreu bem menos afrontas à sua sanidade, e permanece viva. Se rejeitada por um corpo, corre e logo encontra um novo hospedeiro – não cria laços. Eu, lamentavelmente, torno-me exclusivo do ser em que me escondo pela primeira vez. Não sou apenas uma Vontade de Produzir. Sou Sua Vontade de Produzir. Vontade esta que você tão cruelmente mata todos os dias ao passar de um besouro colorido. Quando morro, não revivo, ou retorno; sou jogado ao esquecimento, e logo, você, já assassino, trai minha lembrança, e nem mesmo acende uma vela em honra de minha dura convivência dentro de sua alma conflitante. Enquanto sou enterrado pelo Tempo, você trata de arranjar para si uma nova Vontade de Produzir para chamar de sua.
     
     A existência desta Sua Vontade de Produzir que lhe fala durou quase uma manhã inteira. Tudo parecia bem quando você, depois de um curto cochilo, decidiu levantar-se e trabalhar. Arrumou-se rapidamente, ajeitou-se com ânimo na mesa de altura ideal que encontramos convenientemente pelo caminho. Você mal havia notado, mas já estávamos trabalhando juntos desde o momento em que saiu da cama tão decididamente. Parecia um sonho, um dia perfeito. Assisti, através de seus olhos, conforme sua planta, em escala tão maior que sua paciência permitiria, tomava forma.
     
     Eu e Sua Criatividade (já bastante debilitada e envelhecida, perto da morte) unimos forças conforme maquinávamos soluções e novas ideias cromáticas, que lhe deixavam cada vez mais animada com o processo. Pessoas passaram e lhe cumprimentaram – tamanha sua concentração e empenho, mal foram notadas. Havia um futuro brilhante pela frente. Eu conseguia conceber momentos de descanso e ócio saudáveis, que apenas me alimentariam e fariam mais forte. E você, como uma assassina cruel e preguiçosa, colocou um fim em tudo. Acertou-me primeiro conforme conversava com amigas cujos assuntos satisfaziam o lado sombrio de sua bem-disposta essência.
     
     Veio então, a hora do almoço. E, com o almoço, ligou este computador (que, agora, como vingança, utilizo para trazer a público estas memórias póstumas de uma existência curta demais para que seja espontaneamente lembrada). Foi um tiro certeiro em meu coração abstrato. Faleci lentamente, e seu egoísmo sequer permitiu-se notar. Era o fim de minha vida como Sua Vontade de Produzir.
     
     Morta como estou, não ressuscito como uma Nova Vontade de Produzir. Não se turbe seu coração agora, porém, já que sabes de toda a verdade – quem sabe, em alguns dias, não consiga um passe para que retorne como Procrastinação e lhe assombre.


Conversa com um ácaro (parte 1)


     Mal havia passado das sete, mas eu já estava deitada. O corpo doía, a cabeça zunia, e a voz saía rouca. Meu nariz jazia entupido, e eu fungava constantemente. Fora um dia difícil, repleto de espirros que me incomodaram a rotina completamente, impedindo até mesmo uma decente refeição, justificando a grande fome que sentia. E era o conjunto destas cansativas circunstâncias que me colocavam na cama, sob as cobertas, tão cedo.
     
     O que relato a seguir, não sei dizer se realmente vivi. Talvez não tenha sido nada mais que um delírio, consequência do cansaço. 
     
     Apenas me recordo de, entre um espirro e um lenço de algodão, com os olhos fechados, sentir, sem razão aparente, formigamento através do corpo. Como se uma força me descolasse de minha alma. Enquanto movia-me ferozmente, em tentativas inúteis de aplacar o incômodo, sentia o cobertor, encostado em minha pele, a me engolir. Minha cabeça perdia o apoio do travesseiro e minha mente rodava, zonza. Os músculos de meu corpo travaram, buscando um alívio, mas a sensação de que era amassada como um chiclete pela gravidade apenas aumentava, e era como se alguém martelasse meu crânio repetidas vezes. Puxava o ar inutilmente através de narinas constipadas e garganta fechada. Nos ouvidos, um terrível zunido, como se a pressão fosse explodir-me o cérebro a qualquer momento.
     
     Uma corrente elétrica passava por meus vasos sanguíneos, causando-me arrepios horrorosos. No entanto, após muitos minutos de sofrimento, finalmente sentia-me ligeiramente estabilizada. Percebia-me encolhida, meu corpo ainda encontrava-se em choque. Temia descobrir o que havia ocorrido – talvez o mundo houvesse acabado. Algo que, entre os pesares, teria suas vantagens; acabar-se-ia o Sofrimento e as alergias que perseguiam-me diariamente. Porém, a julgar pela inquietação em meu coração, com certeza o mundo – algum mundo – continuava a existir, e existia ao meu redor.
     
     Uma fagulha de grande claridade irritou-me na escuridão dos olhos cerrados. Um cheiro de amônia ardia-me as narinas, e a pele coçava mais que o suportável. A tentação da coceira me fazia estremecer, mas não ousava qualquer movimento. Sentia a superfície na qual eu me apoiava tremer como um terremoto, mas um terremoto muito leve e gentil. Escutava vozes finas, milhares delas, como o cantar de muitos passarinhos em revoada livre.
     
     No entanto, o Medo permanecia em meu coração. Não havia ali, para mim, segurança. E eu teria permanecido imóvel e assustada por ainda muito tempo, não houvesse algo me cutucado as costas. Um choque percorreu-me o corpo, e esbocei uma terrível careta de susto, abrindo de supetão os olhos. A luz me cegou por um momento, até que, acostumada, enxerguei algo que deixou-me deveras assustada. Um enorme animal, apoiado em duas patas curtas e gordas, com outros três pares inclinados sobre mim, como se prestes a atacar-me. O corpo gigantesco contrastava com a cabecinha, que por sua vez era engolida por dentes enormes. A voz com que se dirigiu a mim, porém, era fina como garoa.
     
     – Com licença, você está no meu caminho.
         
    

De novo, madrugada.

     Eu sempre vi o Sol nascer. Desde pequena, mamãe gostava de madrugar, e eu a acompanhava. Também sempre vi as estrelas em seu momento mais brilhante – na madrugada mais densa, das luzes mais apagadas. O escritório de papai sempre foi em casa, e eu sempre o acompanhava em suas muitas madrugadas de trabalho.

     O começo da manhã é sempre mais solitário. Poucas pessoas acordadas, a maioria fazendo café, desligando despertadores, sob as cobertas. Trabalhadores nos ônibus, o Sol surgindo no cantinho da minha janela. Minha irmã dormindo, quase desmaiada. Mamãe vindo até mim “Já está acordada, pirulita?”. Sempre os melhores programas de tevê. A madrugada é silenciosa, calma. Só os sons do mouse. Eu desenhava o tempo inteiro, bons tempos de pixel art. Papai escutava blues e Sérgio Lopes. Às vezes me mostrava algo que estava fazendo, ou entrava no The Die Line e me convidava pra fazer uma pausa. Eu permanecia ali até que mamãe acordasse e me mandasse ir pra cama. Às vezes eu ia, às vezes não.

     Os tempos passaram e a escola se intensificou. Dormir tornou-se imprescindível. Fiquei por muitos anos vivendo uma vida de horários medíocres, sofrendo com alguma insônia por bastante tempo. Vivia das 5h até as 23h. 22h era incrivelmente tarde. Isso, claro, até que entrei na faculdade. Eu posso ser exagerada, mas existe algo de muito bonito, apesar de deprimente, em ficar tantas noites acordada, seja em casa ou na universidade. As madrugadas e o mais primitivo das manhãs são próprias de quem as presencia, em silêncio ou fazendo muito barulho. Eu soube que algo realmente havia mudado quando 23h tornou-se cedo. Significava que eu ainda tinha toda a madrugada pela frente até que meu prazo de serviço se encerrasse.

     Parei de ser acompanhante das madrugadas, tornei-me dona delas. Tornei-me dona da cadeira em que me sento, e de onde assisto o Sol se pôr e, várias horas depois, na mesma posição, seu ressurgimento. Minha sobrevivência momentânea passou a depender disso. Prazos, datas, entregas, trabalhos, maquetes, seminários, projetos, e a madrugada como a excelência do processo. Meu melhor momento. Já passou da meia noite e ainda parecem oito. Da manhã ou da noite. Sempre parece bom e certo viver meio nas sombras. Fazer acontecer quando as pessoas estão dormindo.

     Essa semana, vi três vezes o Sol nascer de uma janela que não pertencia nem a mim, nem a nenhuma das outras pessoas que estavam comigo. Minha mesa estava bagunçada, meus olhos, inchados, e meus dedos doíam do desenho. Desliguei uma das dezenas de músicas que havia escutado em todas aquelas horas e observei tudo que estava ao meu redor. Mais um amanhecer. Mais um dia da minha vida. Não sua, não nossa, não deles. Minha. Mesmo que mamãe ainda vá me buscar às 7h, na universidade. Mesmo que ela faça um lanche para que eu leve. Mesmo que, quando eu vá pra casa, encontre-a, e papai, ainda trabalhando pra que paguem minhas contas também. Estou construindo minha história, num lugar que é só meu. Com um povo que é só meu, e ideias que são só minhas, e motivos que são só meus; estou construindo minha história, um amanhecer por vez.

Uma pequena reflexão acerca do processo de apaixonar-se, em constante renovação.


     É como um raio, ou como uma doença. Demora mais ou menos para invadir e se alastrar. Vai tirando minha força de vontade, e qualquer outra coisa que pudesse posicionar-se contra. Como em uma folha velha e amassada, desenha-se uma história, conforme a caneta perfura os pontos mais puídos.
É um tipo de dor, de alegria, que faz falta. Surge num belo dia, numa terrível noite. Vem num flash. Numa gentileza. Numa besteira dita. Num sorriso mal calculado. Chega por pouco, por muito pouco. Por muito. Por demais. Entra por todos os buracos deste meu coração. Como uma peneira gasta, sempre pronta pra trabalhar mais uma vez.
     
     “Caí dentro de amor com você”
     
     E cansa. Cansa. Deixar-se levar, cansa. Crer, descrer. Brilhar, secar, escorrer, desfazer-se. Tanta coisa se monta e se desmonta. Se monstra. Cegueira. Tudo parece tão lindo. Tudo parece tão feio. Todas as pessoas lindas. Todas as coisas feias. Uma solidão. Encantar-se e construir paredes pra proteger a magia. Que magia? Que atravessa a alvenaria, o concreto. Ai, meu Deus. Ai, ai. Quantos ais.
     
     Está feito o estrago.
     

     Vai, bate e volta; explode no meu peito, e não me deixa mais dormir.

    
   

À Fantasia


     Eu nem sequer havia notado que hoje também era à fantasia. Havia tanto tempo que eu ia trocando entre uma e outra, que todas aquelas peles que eu tentei assumir pareciam haver se tornado minhas de fato.
     
     Eram nove da tarde e eu já estava feliz e saltitante. Às vezes, um pouco ríspida e maledicente. Vez ou outra, doce e inocente. É engraçado como, apesar de inconscientemente agindo, eu sei dizer onde adquiri cada uma dessas facetas. Finjo-me de desentendida aos amigos quando me questionam, porém, é tão grande o medo de mostrar-lhes quem eu realmente sou. O curioso é que, no fundo, nenhuma fantasia realmente esconde quem somos, não por muito tempo, não como eu talvez gostaria. Saber quem são os que realmente me conhecem pode ser reconfortante, ocasionalmente, mas não muito. Tenho medo de que meu real ser os afaste. Amigos sempre me foram tão caros, tão caros. Não posso sair gastando-os como se fossem qualquer coisa que ganhei numa esquina. É necessário manter a cautela, claro.
     
     Essas pequenas mentiras que eu me conto, diariamente, para que possa enganar minha consciência mais tranquilamente, têm me sufocado. Tenho buscado algo que me convença de que não estou errada, mas tem sido uma busca infrutífera. A verdade é muito clara, não estou satisfeita com o que sou, ou com o que tenho sido. Tento fugir da minha integridade. Quero impressionar as pessoas ao meu redor – a maldita necessidade de atenção, sempre. Piada ou não, estou escrevendo e derramando meu mais íntimo sobre este teclado, totalmente ciente de que meus textos revelam mais sobre mim do que eu talvez saiba.  Releio-os constantemente para me atualizar de algumas situações internas que me passam despercebidas, entre meus pequenos disfarces do dia-a-dia. Estou triste. Estou discordando de muitas coisas. Estou desacreditada do futuro, e frustrada. Preciso ser mais positiva, mas de verdade. Infelizmente, só a máscara tem conseguido sorrir. Tentei viver de pequena alegria em pequena alegria, mas não funcionou. Alimentou a imagem. O fundo permanece vazio, tão vazio quanto tem estado desde que fui deixada sozinha pela primeira vez.
     
     O mais curioso talvez seja que nenhuma das fantasias que eu visto sequer se aproxima da pessoa que eu realmente gostaria de ser. Meiga, discreta, silenciosa, respeitável, bondosa, calma e compreensiva. Sou barulhenta e reclamona. Tento forçar uma personalidade conquistadora, mas ela é tão repulsiva quanto um rato de esgoto seria, caso eu o soltasse entre as pessoas de minha rotina. Às vezes, me pergunto se realmente ainda me lembro do que realmente sou, já que há tanto tenho me prendido àquilo que não sou. Toda essa bagunça, por tão óbvia, comum e compreensível, é extremamente doentia. Por que razão eu sou assim? Por que razão minha personalidade não é outra? E, o pior de tudo – por que não consigo abraçar minha verdadeira essência, melhorando-a, lapidando-a, ao invés de insistir em tentar ser o que penso que seria melhor?
     
     A pior das verdades é que eu não sei a resposta pra qualquer uma dessas questões. Nem sei se jamais as descobrirei. Mas o fato é que eu espero que encontra-las não importe para que eu mude. Para que eu pare de me importar com o que todas as vozes ao meu redor, e dentro de mim, me dizem. Sei que posso ser verdadeira, boa para outros, e para mim. Sei que posso acordar, sorrir ao me olhar no espelho, e continuar sorrindo conforme saia na rua, e veja pessoas mais bonitas ou legais que eu, sem que isso faça com que eu me sinta culpada. Diamantes podem se parecer com vidro quebrado, mas eu prefiro ser o mais valioso. E, no fundo, eu acredito que seja. Só preciso encontrar a garota perdida e desnorteada dentro de mim, clamando por liberdade.