Do Amor

     Eu me encantei com a ideia de amar muito jovem ainda. Conheci o Perfeito Amor criança, aos 8, e carreguei comigo até que, aos 16, eu compreendi o que significava. E, ainda assim, mesmo conhecendo e conquistando o maior Amor do mundo, eu não entendia como eu poderia senti-lo. Parecia tão grande pro meu pequeno coração humano, tão inseguro e simples.
    
     Nesse meu pouco tempo de vida, eu achei que amei muitas pessoas. Hoje, eu vejo como não passavam de sentimentos rasos e incompletos, egoístas, até meio bobos. Amor é uma decisão bonita demais pra ser reduzida a uns quereres mal quistos, mal compreendidos, cheios de poréns. E amor não acaba, também. Você só pode desistir. Uma pena, mas existe quem cujo coração não suporte o peso deum mundo que matou o Perfeito Amor.
    
     Meu esclarecimento chegou, ao mesmo tempo, ao coração e ao conhecimento. Papai, numa sintonia dessas que só pais sabem proporcionar, foi quem me trouxe as palavras que descreviam aquilo que vinha crescendo dentro de mim. A olhos totalmente nus, eu vi que te amo mais em seu estado mais inútil, mais despojado de belezas, de encantamentos, atrativos, charmes, finos tratos.
    
     Na plenitude da sua feiúra e da sua pobreza, o amor é tão maior que aí, enfim, é amor de verdade. Sem potências, só a essência daquilo que você é, do seu coração. Sem vigor, sem juventude, sem perspectivas, sobra tanto quanto ou mais dentro de mim, pra que metade de mim seja Amor, e a outra metade seja aquilo que te faz sobreviver.
    

     

Uma pequena reflexão acerca do processo de apaixonar-se, em constante renovação.


     É como um raio, ou como uma doença. Demora mais ou menos para invadir e se alastrar. Vai tirando minha força de vontade, e qualquer outra coisa que pudesse posicionar-se contra. Como em uma folha velha e amassada, desenha-se uma história, conforme a caneta perfura os pontos mais puídos.
É um tipo de dor, de alegria, que faz falta. Surge num belo dia, numa terrível noite. Vem num flash. Numa gentileza. Numa besteira dita. Num sorriso mal calculado. Chega por pouco, por muito pouco. Por muito. Por demais. Entra por todos os buracos deste meu coração. Como uma peneira gasta, sempre pronta pra trabalhar mais uma vez.
     
     “Caí dentro de amor com você”
     
     E cansa. Cansa. Deixar-se levar, cansa. Crer, descrer. Brilhar, secar, escorrer, desfazer-se. Tanta coisa se monta e se desmonta. Se monstra. Cegueira. Tudo parece tão lindo. Tudo parece tão feio. Todas as pessoas lindas. Todas as coisas feias. Uma solidão. Encantar-se e construir paredes pra proteger a magia. Que magia? Que atravessa a alvenaria, o concreto. Ai, meu Deus. Ai, ai. Quantos ais.
     
     Está feito o estrago.
     

     Vai, bate e volta; explode no meu peito, e não me deixa mais dormir.