medo de


medo de errar
medo de cansar
medo de dizer
medo de esquecer
medo de morrer
medo de viver
medo de contar
medo de fazer
medo de escolher
medo de fugir
medo de ficar
medo de começar
medo de terminar
medo de seguir
medo de voltar
medo de existir
medo de sumir
medo de querer
medo de odiar
medo de perder
medo de amar
É tanto medo que eu nem sei mais
O que o Medo quer dizer

Ninguém me conhece de verdade.

     Meu coração é tomado pela angústia sempre que não consigo me expressar completamente. Desconheço meios-termos e vivo entre razão e emoção extremos, extremos. Sinto tudo intensamente e sofro pelas menores coisas.

     
     Ninguém me conhece de verdade.
     
     A vida segue em frente e sempre me deixa pra trás. Preciso correr pra que consiga acompanha-la. Cada novo erro traz consigo o peso dos erros anteriores, e tudo cai sobre meus ombros como um grande caminhão de batatas que se abre sobre mim. 
          
     Ninguém me conhece de verdade.
     
     Contra todas as expectativas minhas, de meus pais e de profissionais, eu tenho amigos. Sem esforço, sem dramas. E, mesmo assim, a solidão está sempre à espreita, enganando meu coração e convencendo-me de que estarei sozinha para sempre.
     
     Ninguém me conhece de verdade.
     
     É difícil fazer-se entendida quando tudo parece vazio, tudo parece distração, tudo parece vaidade, e as pessoas não se importem o bastante para que lhe escutem, reclamando às repetidas, e lhe respondam às repetidas. Metalinguagens e inversões sintáticas não escondem a corrente que lhe prende em um ciclo de mesmos erros que lhe aprisionam a alma.
     
     Ninguém me conhece de verdade.
     
     Quem poderia me conhecer por baixo de todas as máscaras? Pessoa alguma poderia ousar dizer que nos conhece sob o suor de nosso rosto. As camadas da existência estão sempre sobrepostas e deformadas, como se a vida não passasse de uma obra cubista. Tomo minhas licenças poéticas porque elas também são máscaras para mim.
     
     Ninguém te conhece de verdade.
     Minha Vida é meu clichê particular. Todas as cenas de um musical trágico. Uma vida que anseia ser escrita, que se manifesta como urgência literária constante. Há sempre algo a ser escrito, a ser dito. Não devo estar dizendo alguma coisa. Devo estar dizendo demais e carecendo hoje de novas explicações as má-explicações do dia anterior. 
     
     E, por mais que eu escreva todas essas vezes em que a obsessão e o desespero batam, e os dedos 
comecem a tecer no ar aquilo que eu tenha a dizer, ninguém me conhecerá de verdade.
     
     Ninguém me conhece de verdade, mas eu me exponho como se fosse uma ostra sem pérola, em busca de alcançar algum valor perante uma sociedade ostraica que quebraria minha concha. E quebra, todos os dias. Não a concha que me liberta, mas a que me protege e que permite que, agarrada à um fio de sanidade, eu consiga dormir à noite.

Covarde Coragem

Eu tenho medo. Medo, só. Medo de mudar demais, medo de mudar de menos; medo de agradar, medo de desagradar; medo de ser igual, medo de ser diferente; medo de ser sincera, medo de ser falsa. E, às vezes, tenho mais medo de viver do que de morrer. Viver é tão difícil que não só por poucas vezes, eu tenho medo de que tudo isso seja só um sonho. E todo esse medo é por imaginar que, se um dia eu acordasse, as coisas conseguissem ser ainda piores.
Não é como se eu fosse uma pessimista (nem uma obscurantista); Esses ainda tem a coragem de se admitirem assim. Até disso eu tenho medo, de deixar as pessoas saberem o que eu realmente penso das coisas. Tenho medo de deixa-las saberem o que eu realmente penso das coisas. Tenho medo de deixa-las saberem se meus olhos estão opacos ou brilhantes. Tenho medo de deixa-las revirarem-me a alma. Mas, apesar de todo esse medo de viver, o medo de morrer não deixa de existir. Então, acho que prefiro continuar nesse sonho covarde. E, se possível, entrar em outro sonho, dentro deste, onde as coisas pudessem ser menos assustadoras e meu medo pudesse fingir alguma coragem mais sincera.
Mas não vou me permitir tentar esperanças. Eu bem sei que o medo me impede o sono, e que ele próprio me acordaria de qualquer pequeno deleite onírico. Talvez essa certeza de que eu nunca acordarei da realidade me faça mais corajosa. Prefiro ignorar o medo das circunstâncias e seguir com a cabeça erguida, escondendo tudo aquilo que demonstra minha real covardia. É melhor assim.
Dedicado à minha amiga Isabella, a primeira a ler este texto e a quem eu o dei de presente.