Madrugada(s)

     Acordamos, e inicia-se o dia, como sempre. E chega ao fim, mais uma vez. Manhã, tarde, noite, e é hora de ir dormir. Hora de deitar, descansar a cabeça pesada do estresse diário que a rotina nos causa. Deixar que nossa mente respire calmamente um ar puro de relaxar-se.
     
     Quem dera fosse fácil assim.
     
     Existem dias cansados que não se encerram ao deitar. Dias perturbados, psicologicamente balançados, que nos deixam pensando, pensando… 
     
     Coisas para fazer, preciso de coisas para fazer.
     
     Qualquer texto, desenho, vídeo, canção ou conversa que me distraia. Pelo celular, pelo computador, usando uma caneta ou um livro. Qualquer coisa. Qualquer coisa que mudasse meus pensamentos. Um bom amigo passando por problemas. Um jogo que pareça especialmente complicado. Algo que me dê sono, cansaço de pensar. Televisão sempre me faz dormir. Me dá sono, tantas banalidades, que abraço como se fossem as mais úteis dessa vida. Grande distração.
     
     Mas, uma hora, o programa tão bom acaba. Os amigos vão dormir. O livro chega ao fim. O desenho está completo. E o sono, o sono ainda não chegou. Ainda não quis chegar. O descanso foge de mim, em noites assim, como demônio foge da Cruz, sabendo que nela está o poder que o dissipa.
     
     Silêncio. Escuro. Solidão. Nenhum amigo com quem falar.
     
     Quem? Por quê? Como? Até quando?
     
     E minha mente se desfazia em perguntas.
     
     Eram sempre as mesmas perguntas, dentro dessa mesma mente. No mesmo quarto. À mesma hora. E por muitas e muitas madrugadas, consequências de dias semelhantemente cansativos. Desgastantes. Psicologicamente. 
     
     Ao contrário outras noites em claro, em que minhas filosofias acabam por me levar a alguma resposta, que me satisfazia para o sono, nessas não ocorria bem assim. Eram perguntas que ecoavam, e rebatiam nas paredes do quarto, voltando para mim. Algumas escapavam pelas janelas, e subiam até os céus. As respostas retornavam, mas eu não as conseguia escutar.
     
     E era isso.
     
     Ficava assim até que fosse tarde o suficiente da madrugada, e cedo do dia, para me levantar, e agir como se tudo houvesse ocorrido tão normalmente como deve ser. 
     
     Acordamos, e inicia-se o dia, como sempre. E chega ao fim, mais uma vez. Manhã, tarde, noite, e é hora de ir dormir. 
     
     Mais uma vez.

Alegoria da Taverna – Capítulo II

[Para o capítulo anterior, clique aqui!]– Não aguentei e voltei pra vocês! – Irrompi pela porta.
Silêncio.
Por parte de todos.
Até de mim.
O lugar estava limpo. Limpo. Brilhando, parecia novo. Não fossem as caras familiares, diário, eu com certeza pensaria que havia entrado no lugar errado (apesar dos rostos lavados e dos cabelos desinfetados). Ana, Pedro, Marcelo, Johnny, Caio, Ariane, Guilherme, Gabriel, Matheus, João, Jaime…
Foi então que eu tomei um grande susto. E entendi o que havia ocorrido.
Atrás do balcão, sujando de gordura as beiradas de um copo, estava Lord Taberneiro. Ou pelo menos o que eu julguei que fosse, porque nunca havia visto por aqui aquele oriental pálido e bem mais magro que o viking de 150 quilos que costumava ocupar aquele lugar.
– Passou um mago por aqui. – Minha voz desanimada só não estava pior que a expressão no rosto dos que confirmaram minha afirmação. Eu ainda me lembrava do que havia acontecido da última vez que um mago passara por ali (um dia te dou mais detalhes, diário, porque a história é beeem longa. E grudenta. E escorregadia.).
– Pior que isso, passou um mago esperto por aqui. Ao contrário da última vez. – Apesar da expressão de compaixão em seu rosto, era óbvio para todos que a maior vontade do Nasser era rir da situação inteira. – Ele farejou cada encantamento do local, e deu um jeito de danar com todos.
– Todos. – Eu não podia culpa-lo. Afinal de contas, devia ser bastante legal ter 2,5 metros de altura e barba ruiva. – Mas isso não tira o peso de você ter ido embora por seis semanas.
– Bom, sobre isso… – Coloquei as mãos na cabeça, pronta para responder, quando escutei uma voz imeditamente atrás de mim, provavelmente entrando pela porta que havia esquecido aberta.
– Nossa, mas está cada vez mais difícil encontrar suor frio desidratado por esse burgo, viu? Depois não querem que os magos entrem em grev… – Me virei, e acabei me deparando com uma figura estranhíssima, diário. Era baixinho, de bochechas e nariz vermelhos, e trajava uma veste comprida e brilhante, incrivelmente afetada. – Mas o que temos aqui, pra quê tanto silêncio? – Me encarou por um instante, olhando por cima dos óculos – E você, quem seria? Mais uma novata?
– Sou novata coisa nenhuma, me respeite, Merlin do Paraguai. Só estava de férias. – Um segundo de arrependimento. Estava lidando com um mago esperto dessa vez. – Digo, acho que não nos conhecemos ainda.
Todos ao meu redor seguravam a respiração. Alguns mais engraçadinhos já estavam fazendo sinais de morte e outras indelicadezas. Alguém me apontou a placa de boas-vindas da taverna, que havia sido reformada/limpa e atualizada: “número de membros mortos: 35”. Quando saí, eram 12 só.
(E só uns 5 ou 6 eram culpa minha. Diretamente.)
O silêncio constrangedor permanecia, e eu procurava uma máscara de Trooper onde pudesse enfiar a cara. O mago não fazia qualquer menção a falar ou se movimentar. Entrei em pânico.
– Pois bem então, prazer querida. Sou Damian. E você, quem seria?
– Luisa, senhor. Prazer em conhece-lo. Estavam me contando coisas ótimas sobre o senhor.
– Ah, claro que teriam coisas ótimas sobre mim! – Suspirou – Ouvi coisas sobre a senhorita
– Ah. – Virei meus olhos em direção ao canto onde se amontoavam meus companheiros mais chegados. Uns desviaram o olhar. Desgraçados.
– De qualquer forma, sinto lhe informar que, por mais agradável que seja para mim sua companhia, você não pode mais entrar e-barra-ou permanecer nesta Taverna, pois agora está sob meu poder, literalmente, e não me sinto confortável com a presença de uma pessoa como você. Passar bem, queridinha.
Arregalei os olhos. Sem ver, minhas mãos pegaram fogo.
– THOR DO CÉU, que é isso menina? – O mago se arregaçou todo, e pulou no colo do bêbado mais próximo.
– Desculpa, vossa Magia, me irritei um pouquinho – Caio e Gabriel sussurraram “Do mal!” ao longe. – Apesar de tudo, preciso lhe informar que não sairei daqui. Não mais.
Sua sobrancelha esquerda se ergueu, e ele voou dos braços tremeliquentos que o seguravam. Parou em frente a mim e começou a crescer. E crescia, diário. Cresceu muito, e me olhava fundo nos olhos. Tremi as bases. Olhei pros lados, em busca de amigos, mas não achei nenhum. Nem o meu companheiro de garrafa. Traidores.
Meus olhos incrivelmente arregalados não são nem passíveis de descrição. No entanto, após aquela demonstração de grandeza, voltou ao seu tamanho normal. Mas ainda me encarava friamente.
– OK então, senhorita. Parece que entramos em um empecilho aqui. Porque, há cinco semanas atrás, isso aqui era só um lugar barulhento e fedorento, comandado por um taberneiro sob um encantamento mais fraco que guaraná Dolly. Eu renovei esse lugar. E decidi que não quero você aqui.
– Opa, opa, opa. Isso não te dá o direito de mandar e desmandar aqui. A Irlanda do Noroeste é um país imaginário livre e reconhecido por todos os outros, e não estamos sob as leis dos magos. – Finalmente alguém havia sido homem o suficiente para enfrentar aquele baixinho xiliquento. E não, não foi um homem de verdade. Foi a Ana.
– Ah, então temos duas mocinhas destemidas aqui? Ótimo! Se aparecer mais uma, a gente inventa um jogo! – Batia palmas e dava pulinhos.
– Jogo? Que tipo de jogo? – Já éramos três na linha de frente. Ariane havia se juntado a nós. Aos poucos, alguns garotos davam alguns passos tímidos. Uns, mais ávidos, acabaram chegando mais rápido. A palavra “jogo” havia movimentado a taverna.
– Nossa, mas é só falar em jogo que to-do mundo resolve brincar? Mua-há-há-há! Devia ter pensado nisso antes!
A essa altura, diário, todos os bêbados e não-tão-bêbados haviam se aglomerado ao nosso redor. Eu quase podia sentir o cheiro de mofo que emanava dos nossos corações em sintonia. E sim, isso é tão meloso quanto… Mel. Mas foi bem isso que ocorreu.
– OK então, se é jogo que vocês querem, é jogo que vocês terão. – Uma nuvem de fumaça branca começou a emanar de seus olhos, e encheu a taverna. Ninguém conseguia enxergar qualquer coisa. Lord Komatsu gritou que fôssemos dando as mãos, e foi bem a tempo. Antes que conseguíssemos piscar, o chão sob nossos pés sumiu, e caímos livremente por uns 200 metros. Parecia que não pararíamos, até que uma Força muito densa nos segurou, boiando no ar. Estava tudo escuro, mas era possível ainda sentir a presença da fumaça.
– Idoso, o quê que aconteceu? Luiç, é na sua cabeça que eu estou pisando? – Jaime falava com voz extremamente arrastada.
Um burburinho se instaurou. Nossa situação não estava das melhores, e era culpa minha. Mais uma vez. Fiquei angustiada, diário, porque daquela vez as coisas podiam dar errado de verdade. Ia começar a chorar, mas minhas pretensões foram interrompidas por uma luz vermelha piscante, que iluminou o ambiente e nos fez perceber melhor o lugar em que estávamos.
– Isso é uma… Floresta? – Antes que pudesse me virar pra ver a quem pertencia a voz confusa, fomos todos silenciados por um som superior.
– SILÊNCIO, FEDORENTOS DE ALMA. – Damian surgiu em meio à luz vermelha enevoada de branco, em sua forma gigantesca. Segurava um cogumelo vermelho meio comido nas mãos. – Se querem um jogo, terão um jogo. Mas é meu jogo, minhas regras. Se ganharem, podem voltar em paz pra sua taverna. E eu ficarei aqui no meu inferno colorido.
– E se nós perdermos? – Lord Komatsu retomava o controle da situação.
– Aí vocês morrem! Divertido, não?
Cobri meu rosto com as mãos, fugindo dos olhares atravessados. Mas, mesmo boiando sobre uma floresta esquisita, senti algumas mãos e pés amigos tentando me consolar. Agora já não havia mais jeito.
– Bom, agora às regras do jogo. Olhem pra baixo e contemplem minha floresta. RÁPIDO TODOS! – Nos viramos como podíamos para obedecê-lo. – Ótimo. Então, vou dividi-los em grupos. Basicamente, o que devem fazer é atravessar a floresta, chegando vivos até o meu castelo – Ele apontava com o dedo branquelo um construção ao longe. Muito longe. – Serei um pouco justo e darei pra vocês mapa e mochila. Agora, não me responsabilizo por qualquer dano que a floresta possa lhes causar no meio do caminho.
– Como assim?? – Antes mesmo que ele pudesse responder, soltou uma risada maligna. A força que nos segurava se dissipou, e estávamos todos em queda novamente. Porém, estando prestes a alcançar o chão, um portal invisível nos engoliu. Reaparecemos em chão firme, e separados. Olhei ao meu redor: Ana, Willians, Nasser, Ariane, Johnny, Gabriel, Marcelo, Paulino e Lord Komatsu. Usávamos umas roupas feias, verde musgo, que quase nos misturavam à grama. Não sabíamos bem o que fazer.
– ANDEM, GENTINHA MEDIEVAL, NÃO TENHO O DIA INTEIRO! – Podíamos ver mago Damian em meio às nuvens, sentado em um trono de ferro. – Se enrolarem assim, boto a Terra Média Aritmética inteira pra assisti-los, hein!
Suspiramos profundamente. Concordamos em começar dando uma olhada no mapa, mas era tão difícil de compreender que deixamos a tarefa para os líderes do grupo – e da taverna. Uns trinta minutos após muito drama, obtiveram algum entendimento.
– E então? Pra que lado vamos? – Ariane parecia ser a mais impaciente.
– Bem, parece que temos que começar por ali – Nasser apontava para a direita. – Vamos, seus feios. – Invariavelmente, começamos a segui-lo. Ana, porém, havia ficado pra trás.
– Que foi, Ana? Tá tudo bem? – Ela gesticulava de forma nervosa, e piscava incessantemente. Após algum esforço, no entanto, compreendi o que queria dizer.
– Pessoal… Temos um problema. – O resto do grupo, ligeiramente à nossa frente, se virou.
– O quê aconteceu?
– A Ana não consegue falar.

Concórdia

– Mas você é uma criança, hein.
     
Suspiro. Sou mesmo.
     
Sem reação por um segundo.
     
– Eu acabei de te chamar de “criança”, Pedro. Você está me escutando?
   
– Sim, e em altíssimo e boníssimo som, se você quer saber. Qual o problema?
    
– Não era um elogio.
  
– Eu sei disso. Mas é a verdade, não posso negar a verdade.
    
– Você sempre nega a verdade, Pedro. Você é um excelente negador de verdades. Precisava ser diferente justo agora? Agora?
     
– O quê foi, Ana? Estava querendo causar uma briga? Mais uma, é isso mesmo?
      
– Ah, pelo amor de Deus, você sabe que eu não preciso querer forçar uma discussão aqui nessa casa. Tudo é motivo pra rusgas debaixo desse teto.
       
– E a culpa certamente não recai sobre suas implicâncias e grosserias, claro.
      
– Não sou grossa. Muito menos implicante.
      
– Claro. Exatamente por isso você implicou tanto com o fato de eu não replicar sua ofensa.
            
– Não estava implicando. Só achei de uma hipocrisia sem tamanho. E vindo logo de você, que adora falar de hipócritas.
       
– Mas mulher, você vive falando que eu preciso aceitar minhas falhas e imperfeições, e buscar me tornar uma pessoa melhor. Admitir que sou uma criança não deveria ser uma parte importante disso?
           
– Nossa, Pedro, mas você chora e lamuria pra tudo, hein?
         
– Já está me desrespeitando? Eu realmente achava que era o marido aqui, mas você me trata como se eu fosse uma das suas concubinas!
              
– Bote suas calças de volta, Pedro. Pare com o drama e limpe esse suor que está escorrendo da sua testa. Tudo pra você se resume em showzinhos, teatrinhos, estou farta disso já!
                   
– Ana Cláudia, pelo amor de Jesus Cristo morto e ressurreto, pare. Pare. Pare você com esse seu jeito mesquinho e ridículo. Pare de me tratar como se fosse um problema. Porque cargas d’água você se casou comigo, se a única coisa que eu recebo por aqui é tapa na cara atrás de tapa na cara? Não tem um pingo de respeito por mim! E nem estou falando daquele respeito mítico que a mulher sábia tem pelo marido – seria esperar demais de você –, mas um respeito do tipo normal, que se tem por qualquer, qualquer ser humano digno!
     
Uns cinco minutos de silêncio.
    
– Me desculpa, Ana. – Encarava o chão – Não que o que eu tenha dito seja cem por cento errado, mas eu não deveria ter dito dessa forma.
                 
– Não, mas você está certo. Cem por cento certo, Pedro.
     
Mais uns três minutos de silêncio, e uma expressão descrente.
     
– Por quê você decidiu que eu estou certo agora, hein?
          

Alegoria da Taverna

Irlanda do Noroeste, 30 de Fevereiro de 2012,5i.

Nunca, em hipótese alguma, diário, se pode esperar muito de um lugar que não existe.

Apesar de tudo, o fato que circula de boca em boca pela Terra Média Aritmética é que, nesse pequeno burgo, de apenas quatro bilhões de habitantes, havia, no mais badalado e exposto dos centros comerciais, uma taverna. De Stormtroopers.

Apesar da localização privilegiada, o local era muito mal frequentado. Só gente feia e desajustada, uns metidos a gostosões e inteligentes que passavam ali cada hora de seu dia, parando ocasionalmente para comer, dormir, ou levantar alguns pesos. Havia até um bobão que vivia se casando, depois de umas doses de whisky. Não duravam muito os relacionamentos, não além dos minutos seguintes. Uma ou outra dividia a garrafa de bebida por um dia ou dois.

Aquele prédio mal cuidado e encardido era comandado por um ruivo alto, metido a viking, que pesava mais de 150 quilos (apesar de as más línguas garantirem que era na verdade um oriental pálido sob um encantamento de Narciso). Estava sempre atrás do balcão, à espreita. Vez ou outra sentava-se em uma mesa, trocava algumas palavras, e, só quando semeava alguma contenda, saía, e se escondia de volta sob sua máscara branca.

Diariamente, outros infelizes se juntavam à eles. Alguns nunca falavam palavra alguma, permanecendo sentados e solitários com suas bebidas. Outros jamais tomavam um gole do néctar envenenado que circulava pela taverna. Mas, independente de tudo, sempre havia algum bobo pra, em meio à qualquer quase silêncio, levantar seu copo e propor um brinde. O local inteiro vinha abaixo em meio aos gritos.

E como você bem sabe, diário, um desses bobos vem a ser essa que vos fala.

“Eu nem me lembro da última vez que acordei em casa!” Mais uma série de vozes, masculinas, femininas, grossas e finas, disparavam suas falas em línguas tão esdrúxulas que nem mesmo o mais viajado dos irlandeses do Noroeste entenderia.

Pelas janelas permanentemente semicerradas entrava pouca luz, e a iluminação interior era das mais precárias. Depois de tanto tempo no escuro, no entanto, já havíamos nos acostumado àquele ambiente nada convidativo.

Pra ser sincera, eu também não me lembro da última vez que pisei fora daquele salão mal cheiroso.

Eu observava, às vezes, algumas sombras discretas nas paredes sujas de lama (fiz alguns desenhos delas até). Pareciam-se com árvores, prédios, carros e pessoas. Eram a ideia mais concreta que eu ainda tinha do que ocorria no exterior, mas não passavam disso – uma impressão. Formavam o skyline do mundo externo dentro da nossa bolha de sabão suja. Algumas vezes – algumas vezes só – eu me pegava querendo saber como estariam as coisas fora dali.

“FINISH HIM!”, alguém gritava. Sempre, sempre havia alguém para gritar alto o suficiente para me tirar dos meus pensamentos.

– Você é muito maldosa por ficar pensando nessas coisas! um gole de bebida Pura maldade o seu coração!

– Me respeitem, ok. Amo cada um de vocês, por mais feios que sejam. É só que, bem, o mundo não é só o que temos aqui!

– Claro que é! –Era bom contar com a certeza de uma (ou várias) garota por perto – E, caso um dia deixe de ser, a gente simplesmente se muda pra uma taverna maior.

– EI, EU OUVI ISSO, OK – De trás do balcão, Taberneiro Sensei limpava alguns copos – Eu abandonei três outras tavernas pra cuidar exclusivamente de vocês, me abandonem e sintam a fúria irlandesa!

Nesse exato momento, uma mesa especialmente longa discutia os últimos resultados das lutas dos encanadores italianos para conquistarem o direito de resgatarem suas princesas mensalmente. Algum novato, um garotinho, soltou uma besteira. Claro que não foi perdoado.

– Então você acha que eles não têm direito ao décimo terceiro resgate? É isso mesmo? – Um pirata magrelo se levantou – Você está realmente indo contra nossas ideias?

– B-bom, eu achei que i-isso e-era uma… Discussão. – o garotinho se encolheu na cadeira.

– É uma discussão, mas essa opinião não é válida. – Deu dois passos pra trás – KAMEHAMEHA! – um jato de energia saiu do magricela e atingiu o novato em cheio. O garoto voou pela sala, até atravessar e arrancar a porta da taverna.

Um minuto de silêncio, enquanto a luz do dia entrava por aquele enorme buraco recém-aberto. Ninguém sabia muito bem o que dizer.

Mais silêncio. Ninguém nem se preocupou com o garoto.

Senti que meus amigos me observavam, questionando-me com os olhos. Os ares se renovavam, e cheiravam à chuva, não à mofo. Minhas mãos começaram a tremer. Lord Taverneiro me observava. Era agora, agora ou nunca. Podia me arrepender, mas precisava ser corajosa. Sempre poderia voltar mais tarde. Ou não. Ou sim, claro. Eles me amam. Mas taverneiros não amam, já dizia minha mãe. Espera, por quê estou descrevendo todos esses pensamentos?

Apenas fechei os olhos e saí correndo.

Escutei alguns bobões gritando “NÃO, NÃO VÁ! FIQUE!”, mas segui em frente. E, quando caí em mim, já estava do lado de fora. Olhei pra trás. Dúzias de cabeças ruivas se amontoavam nas janelas. Fui e dei uma volta, como era bom esticar as pernas! Passeei por umas ruas, provei comida fresca, conversei com gente limpa e até tomei eu mesma um banho. Vesti roupas confortáveis e bonitas, parecia até outra pessoa.

Fiquei assim por algum tempo. Reencontrei-me com os amigos que havia deixado para trás. Perguntei sobre as famílias, o colégio, o que andavam fazendo de mais legal. Dormia às 23h todos os dias, para acordar pontualmente às 9h. Trocava os caminhos que fazia pelo burgo para evitar os que me conduziriam de volta àquela taverna suja, mal amada e caótica. Queria uma vida normal. Uma vida que não fosse regada à whisky e conversas interessantes sobre coisas pouco ou nada úteis nessa vida altamente fútil.

Mas você sabe, diário, que não é tão legal assim ser normal. Era óbvio que isso iria acontecer, me pergunto como não previ esse resultado desgracento.

Caminhava e me perguntava como quatro bilhões de pessoas conseguiam viver vidas tão sem emoção, sem diversão. Qual era mesmo a graça das roupas limpas? Elas se sujavam novamente, ora essa! E qual o problema em defender os direitos dos ouriços azuis? Nem era tão divertido assim ver as árvores e os prédios de perto. As sombras que eles produziam eram infinitamente mais bonitas, mesmo que as paredes fossem sujas. E aquelas pessoas bem arrumadas e belas, que tomavam banhos diários, não eram, juntas, mais legais que algum daqueles feios de cabelo mofado, individualmente.

Voltei correndo para a taverna. A entrada havia sido consertada. Parei em frente à sua placa – “Feios & Chatos”. Respirei fundo duas vezes e olhei pra trás mais uma vez.

Dane-se esse mundo exterior, eu queria voltar pra lá.

Suspirei e então, abri a porta.

[Para o capítulo seguinte, clique aqui!]

Madalena

     O dias eram ensolarados, mas o humor, tempestivo. Era quase possível observar as faíscas voando das cabeças doloridas, enquanto olhos coléricos reviravam aquela sala de aula maldita. Nada de muito novo, na verdade. Todo dia na escola era assim.
     
     Madalena costumava se sentar imediatamente à minha frente, mas com o tempo fui chegando mais pra trás. Conversávamos durante quase todas aquelas cinco horas e quarenta minutos que permanecíamos enclausuradas naquele lugar, enquanto nos sentamos bem próximas uma à outra. Talvez tivéssemos ganhado mais se houvéssemos passado mais tempo prestando atenção nas aulas, mas hoje já não importa mais. O tempo, o Tempo já passou.
   
     Tic tac, tic tac, tic tac.
    
     O nome era, na verdade, Maria Madalena, mas falar Madalena só era muito mais divertido. Toda sua expressão recendia a Madalena. Rosto, ânimo. Sempre reclamava de tudo. Quando era menor, chamava-a Madalena Arrependida, mas perdeu a graça com o tempo. A maior parte das coisas perde a graça com o Tempo.
    
     Mais tempo.
    
     Tic tac, tic tac, tic tac. Tic tac.
     
     Às vezes o vento batia nas árvores daquele pátio e sentíamos vontade de dançar. Mas eu não dançava. Não dançava, não porque não quisesse, mas porque não conhecia aquela batida. Porém, meu coração pulava, porque não há som mais convidativo que o da amizade. Sabia que, em alguma dimensão espiritual paralela, girávamos até que caíssemos no chão, tontos, apenas para nos levantarmos e rodarmos novamente logo em seguida. Era assim que funcionava nossa vida.
     
     Uma vez lhe perguntei se não amava alguém. Disse que não amava as pessoas porque não tinha coração. Perguntei onde guardava tanto rancor. Apenas rimos. Já fazia tanto tempo que apenas brincávamos com as palavras que muito pouco consegui ser sério. Tempo, tempo, sempre muito tempo passando e repassando nessa vida.
    
     Escutava o “tic tac” em todos os momentos.
    
     Eu gostaria de entender, hoje, o que mais o tempo nos faria; e, no futuro, a distância. Quantas daquelas promessas serão mantidas de verdade, sabe? Quantos de nós ficarão, e quantos irão embora antes mesmo que a vida comece. São coisas que só o tempo diz. E ele sempre nos dá as notícias em cima da hora.
      
     Uma coisa, no entanto, o Tempo me contou.
     
     Viesse estação após estação, Madalena sempre será Madalena.
      
     Maria Madalena.
        
     O “tic tac” do Tempo sempre seria a melhor batida pra nossa dança.

[Feliz Aniversário, Mariahzinha ♥]

The living sculptures of Pemberley

[Texto experimental, em busca de retratar o turbilhão de sensações e sentimentos que perpassam pelo meu corpo ao escutar esta canção, “The Living Sculptures of Pemberley”, parte da trilha sonora da versão cinematográfica de “Pride and Prejudice”. Se desejado, leia-o acompanhado pela música.]

Um som, uma nota, uma pequena clave perfumada. Um sopro, uma tecla, um toque, dois toques. Acordes se formam como pássaros que voam para o Sul.   

Está a começar, em silêncio, uma canção de renovo. Há nos ares o cheiro de que algo grande se sucederá. Eu posso sentir, posso sentir os meus nervos se regozijando, minha penugem se arrepiando, e meus lábios a suspirar o suspiro do deleite e da beleza que me tocam, profundamente, o espírito.  

Como numa brisa suave de outono, que dança por entre as árvores caducas alaranjadas, assim vou eu. A canção me carrega entre os desenhos suaves de sua natureza bondosa, antes de, num ímpeto, lançar-me ao mais sofisticado e expressivo vento, entre o assombro e o êxtase. Seus acordes gentis me tomam pelas mãos, e pulamos entre nuvens tempestivas que parecem sorrir ao nosso caminhar. Pelos altos e baixos, o Puro nos revela as palavras inexistentes da mais gloriosa musicalidade.   

Descanso o coração e me desfaço do desprazer, jogando-o através de uma janela voadora que tão logo aparece, já some. Sinto em minhas costas o peso invisível de plumas, que me coçam as emoções de forma tão brilhosa que meus olhos se fecham sem que minha consciência tome nota. E, fechados, iludem-nos todos com imagens e luzes tão belas quanto uma manhã árabe de Maio. Algo grande se sucederá. Algo grande está a se suceder. Algo grande me infla o peito, como um balão revestido do mais fino ouro, recheado pelo ar que me faz descansar e piscar tantas vezes que poderia entrar num coma de alegria eterna.   

Uma escadaria infinita e tão rebuscadamente simples, cujos degraus são como teclas de um piano cuja sinfonia é composta por anjos. E tanta luz, tanta luz cheirando a doce. Doce suave, que deixa nos olhos uma superfície limpa e um sabor latente. Minhas mãos mal se percebem a brincar com o glitter que são as lágrimas de júbilo que se deixaram escapar de meus sentidos. Maestrina de seu farfalhar, movemo-nos pela estrada de ar puro que, atrás de nós, parece executar precisos passos de bailarina. Perfeição junta à perfeição, em um beijo virginal que repousa sobre um imenso lago de cisnes. Ora mais veloz, ora menos veloz, a canção me envolve numa sequência tão macia quanto caramelo amanteigado.   

Mas, ah, tamanha ilusão. Permanecia presa à realidade, tentando voar para sempre com aquelas asas de penas partidas, enquanto o real peso do mundo me segurava e me acompanhava pelos pés, encoberto pelo som suave que tomava conta de todo o meu mundo. Mas não passara de um pequeno escape, e apenas por um breve momento. Um pequeno escape.   

Foi quando a canção se acabou.

Quinze pra uma da manhã.

Telefone toca no meio da madrugada. O primeiro pensamento: alguém morreu.
“Alô”
“Boa noite, senhor. Por gentileza, gostaria de falar com o senhor Leandro.”
“É ele quem está falando.”
“Ah sim. Boa noite, senhor Leandro. Eu falo em nome do seu banco, gostaríamos de comunicar-lhe um débito atrasado em seu nome.”
  
Pausa
   
“Como é? Você me liga à quinze pra uma da manhã, na terça feira, pra me falar de débitos atrasados no meu nome? Por favor, moça, me faça uma gentileza, vá dormir. Vá pra sua família, pro seu marido, pra sua namorada, quem seja que vive com você. Retornem a ligação amanhã.”
“Não senhor, por favor, não desligue.”
“Felizmente, não há nada que me impeça de fazer isso. Boa noite.”
“Por favor, senhor.”
“O que exatamente me daria razão pra isso? Faça-me um favor, querida. Siga meu conselho e saia dessa vida de telefonista da madrugada. Boa noite.”
“Moço, por favor, não desligue!”
“Olha, se esse for algum desses trotes em que você vai dizer que foi sequestrada e precisa que eu deposite dez mil reais em uma conta bancária senão você morre, sinto muito, ligou pra casa do idiota errado. Boa noite, senhorita.”
“Eu te imploro, não desligue, por favor.”
“Dê um bom motivo pra não ter feito isso ainda, e continuar te escutando”.
“…”
“Isso é um não. Passar bem, moça. Boa noite, mais uma vez.”
“Você acha que a vida faz sentido?”
“Olha, moça, se você ficou presa no bloco da Filosofia ou coisa parecida, não me interessa. Isso não é motivo pra eu continuar perdendo tempo de sono. Boa noite.”
“Então a vida não faz sentido pra você”
“Quem disse isso? Eu não disse se achava ou não que a vida fazia sentido”
“Eu te fiz uma pergunta e o senhor respondeu reclamando sobre não dormir. Se isso é tudo de importante que o senhor enxerga em uma madrugada como essa, sua vida não tem o menor sentido!”
“Olha, moça, se você está tentando me enrolar pra fazer alguma cobrança indevida, rastrear os dados do meu cartão ou clonar meus documentos, parabéns, já deve ter conseguido. Aguarde meu processo e deixe que eu descanse enquanto as coisas não acontecem. Boa noite.”
“Do que você tem medo, senhor?”
“Eu? Medo? Porque eu teria medo, se você nem se lembrou de bloquear o número do celular do qual você está ligando!”
“O senhor acha mesmo que isso é algum tipo de piada?”
“Mas não é, minha querida?”
“Você deve ser algum homem de negócios, que não gasta tempo com pessoas que pareçam menos importantes a você.”
“Sou sim, um homem de negócios. Um homem de negócios com o sono! Cansei dessa narrativa epifânica. Boa noite.”
“Se te afeta, deve ser verdade!”
“Minha querida, eu já passei da idade de ser afetado por esse tipo de coisa. Precisa muito mais pra me alcançar. Sua insistência, por exemplo, faz cócegas ao meu sono, nada mais. Como meu sono é muito importante neste momento, eu devo insistir que você o deixe em paz. Mas, depois de um bom tempo de descanso, ele com certeza irá pra segundo plano e você poderá falar com ele quando e o quanto quiser. Por ora, boa noite. Cansei desse joguinho.”
“NÃO DESLIGUE, POR FAVOR!”
  
Pausa.
  
“Moça, acho que já está bem claro que isso não é uma operação de telemarketing feita fora de hora. O que exatamente está acontecendo?”
  
Silêncio.
  
“Se não há nada mais a ser dito, boa noite. Pela milésima vez.”
  
Apesar disso, o telefone continuava ligado. Mais silêncio.
  
“Me perdoe o incômodo, moço, de verdade. Eu só queria alguém pra conversar. Encontrei seu cartão na rua, há uma semana, e desde então tenho vontade de te ligar. Finalmente criei coragem, hoje. É tarde, mas eu sabia que se não fizesse agora, acabaria desistindo depois.”
  
Silêncio.
  
“Me perdoe mesmo. Mas é que eu estava me sentindo muito solitária, sabe. Eu sempre fui uma pessoa solitária, mas chegou um momento em que o silêncio começou a falar alto demais pra que eu conseguisse aguentar.”
“Onde você encontrou meu cartão?”
“Estava perto de um banco, na Praça Central. Costumo me sentar por lá no meu horário de almoço. Tão solitário, jogado.”
  
Ele ri.
   
“O que eu disse de engraçado?”
“Sabe, aquele cartão foi parar no chão depois de uma discussão com minha ex-mulher. Não nos víamos há alguns anos. Abordei-a naquele banco. Como de costume, tudo correu errado. Entreguei-lhe meu cartão, pedi que me ligasse quando estivesse mais calma. Mas ela o jogou pro alto, e se afastou xingando.”
    
Silêncio, silêncio.
    
“Eu só queria ter uma outra chance, pra fazer com que as coisas funcionassem. Queria que fôssemos amigos, pelo menos. Isso é ridículo, depois de tê-la traído tantas vezes, e incrivelmente clichê, mas acabei percebendo que ela era a única que eu queria.”
     
Pausa.
     
“E eu nem sei por que te contei isso.”
“Acho que você precisava desabafar.”
 
Pausa.
  
“Nós dois precisávamos, na verdade.”
 
Mais uma pausa.
   
“Bom, acho que agora vou te deixar dormir, senhor Leandro. Boa noite. E obrigada.”
“Eu que agradeço. Você nem me disse seu nome.”
“Carolina.”
“Ah sim, bonito nome. Boa noite, Carolina. Muito obrigado.”
“Boa noite.”
    
O telefone permanecia ligado.
    
“Sabe, será que eu poderia te ligar depois, em um horário mais apropriado? Seu número vai ficar gravado no meu telefone, de qualquer forma.”
    
Pausa.
    
“Por favor, sim.”
“Bem, isso é ótimo! Então, é isso, né. Boa noite.”
“Boa noite”.
     
Tutututututututu…

Eu não tenho amigos.

– Eu não tenho amigos.
Felicia bufou, sentada em sua cama, encarando o guarda-roupa. Uma voz surgiu da porta.
– Ah, vira homem, menina. Claro que você tem amigos. Tem a mim!
– Katarzyna, você é uma voz do meu inconsciente que representa minha subjetividade e meu ódio de mim mesma. Além de não ser minha amiga por não ser real, você não possui uma opinião válida. Por favor, retorne ao meu córtex cerebral e me deixe em paz essa noite. – Felicia suspirou e deixou-se cair deitada sobre o travesseiro. Sua imaginação fez com que a voz se movesse em sua direção e parasse ao seu lado.
– Você tem amigos sim, sua resmungona.
– Se eu for realmente tão chata quanto você é, deveria ser fácil deduzir que seria impossível pra qualquer pessoa me aturar.
– Você tem a sua família.
– Família não conta.
– Jesus.
– Além dEle.
– Mas aí você está querendo demais, né?
– Suma, Katarzyna – Cobriu os olhos com as mãos.
– Você se prende demais a umas idealizações tão ridículas, Felicia. E acho que é por isso que você está sempre tão infeliz, reclamando de tudo.
Nenhuma resposta.
– Nada a declarar? Ótimo, vou continuar falando. “Quais idealizações?”, você poderia pensar. Bem, um bom exemplo seria essa mania de acreditar que amigos são aqueles que você vê todos os dias, quase moram na sua casa, se envolvem em altas confusões ao seu lado o tempo todo, te entendem completamente e, ainda por cima, completam suas frases. Por tal coisa, eu culpo a sessão da tarde.
Um grunhido.
– Amigos não são isso, sabe. Não apenas. Cada pessoa tem suas dificuldades na vida e todo mundo vem e vai, nem todos ficam sempre ao nosso lado. Mas existe um sentimento que permanece, que causa aquela sensação nostálgica e prazerosa de reencontrar uma pessoa querida depois de muito tempo e muita distância. Não precisa sentir no ar, a quatro mil quilômetros de distância, que você está mal, e pegar o telefone no exato momento. A confiança ao se abrir e a sinceridade ao escutar e falar são as coisas que realmente importam.
– Mas eles saíram sem me convidar. Nem a Peggy me ligou.
– E agora, por causa disso, você vai parar de falar com ela? Deixa desses tipos de drama, Felicia, pelo amor de Deus, que você já está velha demais pra isso. Você sabe muito bem que não iria, nem que eles te convidassem. E antes que você diga qualquer outra coisa – Felicia permanecia em silêncio, mas seu olhar rodeava pelo quarto – não, eles não deveriam te convidar por educação. Não depois de sete anos de convivência, né.
Silêncio.
Mais silêncio.
– Talvez você esteja certa, Katarzyna.
– Bem, na verdade eu apenas repeti tudo que sua mãe te disse hoje mais cedo. Mas como Vossa Senhoria nunca dá razão a ninguém além de si própria…
– Mentira.
– Desculpa clássica que apenas confirma minhas palavras.
– Vá incomodar outra cabeça, vá.
– Ah, cale-se. E vamos, desfaça esse bico que você fica feia pra caramba assim, e vá ligar pra Peggy.
A porta de seu quarto se abriu e sua mãe entrou.
– Conversando sozinha, Felicia?
– Mais ou menos, mãe, mais ou menos. O jantar já está pronto?
– Não, filha, ainda não. É que tem alguém te esperando no telefone.
– Quem?
– Peggy.
[Pros meus amigos queridos que sempre aturaram (e aturam!) minhas crises de carência ]

Heterônimo

Três e meia da manhã. Ainda estava acordada.

Decidir começar aquele livro havia sido, de longe, minha ideia mais cansativa. Seis meses e trezentas páginas depois, ainda me sentia em um beco sem saída e percebia que, aos poucos, a bomba do branco acabaria explodindo em minhas mãos.
A essa altura, estava presa num mesmo capítulo. O 14º, dos 17 que pretendia escrever. E realmente não sabia como encerrá-lo. Perecia nessa dúvida havia oito noites. Minhas olheiras chegavam ao nariz, e eu poderia jurar que durante a madrugada ouvia gritos vindos da minha cafeteira, tão sobrecarregada e maltratada.
Cansada do processo, cansada. Cansada da minha família. Cansada dos meus amigos. Cansada daquele maldito livro. Cansada do computador. Desliguei tudo – nada havia a ser salvo, já que nada vinha sendo escrito. Afoguei meu rosto na água gelada que saía da torneira. Sentia uma ressaca literária das piores.
Vestindo um pijama e, calçando um par de sapatilhas, com um casaco e chaves de casa presas no sutiã, saí de casa. Em plena madrugada. Sozinha. Talvez minha mãe acordasse e entrasse em desespero. Talvez fosse melhor voltar e pegar meu carro. Mas quem se importaria com detalhes quando sua mente trabalha tão lentamente – já havia caminhado mais de onze quarteirões quando consegui alcançar esse raciocínio.
Depois de muito, muito andar, acabei sentada num banco de praça. Praça muito feia, por sinal. Mal cuidada, de dar vergonha. Dei uma risada interna. Não havia qualquer espelho, mas com certeza meus cabelos se pareciam com aquela grama que havia crescido demais e padecia bagunçada e embaraçada. Observei um cão desolado passando, enquanto eu me fazia perguntas inúteis. Ele, por sua vez, devia se perguntar o motivo de um cão ser obrigado a viver desabrigado, em uma noite fria como aquela, sem qualquer comida, mas não tenho certeza. Se eu soubesse ler mentes, creio que não seria muito mais feliz.
Pode ser incrível como podemos alcançar o fundo do poço usando diferentes caminhos. Eu com certeza não imaginava a miséria psicológica que me aguardava quando, feliz, decidi que amava metalinguagem. Uma decisão altamente normal, se não comum. Isso, claro, em situações que envolvem pessoas lúcidas, equilibradas e emocionalmente estáveis, cheias de uma “força interior”. Desnecessário acrescentar que nada disso amo/sou.
Metalinguagem deveria vir com um aviso, “pensar duas vezes antes de utilizar em autobiografia não declarada”. Porque foi esse o meu erro.
Modificar alguns nomes, personalidades e situações não tornava aquela história que escrevia menos minha. E, talvez, a grande questão de todas essas noites mal dormidas não seja “o que fazer dessa história?”, mas “o que fazer da minha vida?”. Vinte anos mal vividos, à sombra da covardia. Amando qualquer coisa que porventura me olhasse duas vezes. Reclamando de tudo aquilo que pudesse movimentar minha existência a um sentido mais verdadeiro. De alguma forma, eu acreditei que escrever sobre isso esclareceria o meu destino. Só que não.
Cansei de escrever sobre ser infeliz e procurar uma felicidade de papel maché.
Sempre acreditei que estava apenas pairando sobre o abismo, na segurança de uma nuvem permanentemente tempestiva que nunca choveria pra qualquer lugar. Mas foi apenas uma crença ingênua. O escuro do abismo já me iludia os olhos havia mais tempo que eu era capaz de conceber. E a chuva já me havia enchido e afogado, entre essas quatro paredes da alienação de mim mesma.
Coloquei as mãos nos bolsos do casaco. Minha cabeça doía, e minha garganta apertava a ânsia de chorar. Olhei para os lados, e não havia uma alma, sequer uma perigosa, pra me fazer companhia. Escutei ao longe a torre da igreja badalar seis da manhã. O frio não cessava, e fazia com que eu esboçasse caretas a cada rajada de vento que atravessava aquela praça. Suspirei. Sempre gostei de suspirar.
Panfletos baratos de lojas de esquina se acumulavam próximos aos meus pés. Fiz algum esforço para alcançar um, enquanto tentavam dançar ao sabor de uma brisa. No verso de seu papel sulfite verde, um vazio. Todo um vazio. Esperando para ser preenchido pelas palavras de um poeta ou contista idealista, ou pelos esboços de um ilustrador de cartazes desempregado. Talvez os rabiscos de um matemático professor mal remunerado, que sonhava ser laureado com um Nobel.
Tudo começava por um vazio.
Esvaziei minha mente. Ou pelo menos prefiro assim pensar, já que seria impossível, por um só segundo, cessar o movimento inconstante da minha cabeça ainda muito cansada e dolorida. Mesmo assim, parecia que nada poderia me tocar, naquele momento. Éramos eu e Deus apenas. Como se esvaziar-se fosse tal qual uma elevação espiritual.
Quando abri os olhos que não havia percebido fechar, uma senhora, muito simples, estava parada a alguns passos de distância. Carregava uma bolsa puída na alça, e tinha olhos gentilmente cansados. O Sol já brilhava intensamente, atravessando as árvores de copas irregulares e magrelas, parando sobre meu olhar. A luz fê-la perceber que eu também a observava, mesmo estando com a cabeça abaixada. Não se intimidou pela minha aparência estranha.
“Com licença, querida, você está perdida, ou fugida?”
Levantei a cabeça lentamente. Há três horas, ou três horas depois de ter saído de casa? Não saberia por onde começar a respondê-la, não fosse um insight que me surgiu, tão mais rápido do que me fugira uma ideia oito noites atrás.
“Encontrada”. Um ponto de interrogação passeou por seu rosto, antes de sorrir naturalmente e, após um leve aceno de cabeça, seguir seu caminho. Depois dela, vários outros passaram, falaram, viveram… Acabei cochilando lá pelas onze daquela manhã. Fui despertada às 18 horas, pela mesma senhora; repetiu-me a pergunta. Repeti-lhe a resposta.
Já anoitecia. Ofereceu-se para acompanhar-me até em casa. Recusei, mas depois me arrependi. Caminhei solitária por várias ruas de um caminho mal memorizado, até finalmente chegar ao meu lar. O carro de polícia parado do lado de fora me deu vislumbre do que teria que enfrentar quando entrasse, mas não importava. Não agora. Finalmente terminaria aquele livro. E em paz.

Cough Syrup

“If I could find a way to see this straight, I’d run away to some fortune that I should have found by now…”
Era um pátio enorme. Enorme, e muito cheio. Cheio de adolescentes idiotas se amontoando às beiradas dos pseudopopulares, dando risadas forçadas pra chamar atenção ou procurando os lugares estratégicos pra ver melhor uma gatinha bunduda. Todos se sentindo tão adultos, tão poderosos.
E lá nós duas.
Sempre havia sido nós duas. Isaura e eu. Sentadas em um canto pouco importante daquela grama bem cuidada. Ela tocava uma música qualquer em seu violão. Nunca soube pra quê exatamente ela o carregava pra todo lugar. Ninguém se importava. Nem mesmo eu, sua única amiga, me importava. Não conhecia a canção que ela tocava naquele momento.
Havia silêncio em nossos lábios, todos os dias, há muito tempo. Jamais entendi exatamente de onde surgira nossa amizade. Às vezes parecia que, num dia, nos sentamos uma próxima à outra, e simplesmente nos acostumamos a estar assim. Tantos anos e acho que nunca soube seu nome completo. Mas ainda assim, não precisávamos disso. Era essa a beleza subliminar da coisa.
– Porque esses óculos escuros, Isaura? – Vinha querendo perguntar havia alguns minutos daquele recreio. Fingia observar o céu para manter a aparência de que não me importava.
– Olhos injetados, Diana. – Esboçou uma careta sob aquele aviador espelhado, que lhe deixava com uma aparência sobremaneira bizarra, enquanto tocava uma sequência que parecia especialmente difícil. 
– Está fumando de novo? – Algumas coisas eram impossíveis de ignorar.
Encerrou a música antes de me responder. Começava a achar que conhecia aqueles acordes.
– Não sei se meu nome foi uma ironia ou uma intenção. Parecia que minha mãe sabia que iria morrer. Que iria me deixar sozinha. – Ficou com a cabeça parada por um momento, aparentando fitar o vazio. Voltou-se novamente para seu violão.
No fundo, eu sentia vontade de dizer alguma coisa, mas eu não sabia o quê. Não sabia como. Não sabia racionalizar esse sentimento.
– Não seja ridícula. Ter o nome de uma personagem que vive uma desgraça não quer dizer que você vai viver uma desgraça.
– Vem me dizer que você nunca teve um medo especial de acidentes de carro.
Fiquei calada por um momento. Ser vítima da idolatria da minha avó não me tornaria obrigatoriamente vítima da minha própria vida. Não sem que eu pudesse interferir.
– Você não respondeu minha pergunta. Está fumando de novo, Isaura?
– Estou. – Falava com tamanha calma, incomum. – E sabe, dessa vez não pretendo parar.
– Seguindo sua lógica eu deveria ser muito mais infeliz. Lady Di morre no final. Isaura se dá bem.
– Isaura é ficção, Diana. Isaura é ficção.
Recomeçou a tocar o violão. Era a mesma canção anterior.
– Parece que conheço essa música. Mas não me lembro muito bem dela.
– “Cough Syrup”. – Ela respondeu, num pigarro muito rouco.
– Ah, sim. Bonita, mas triste. Muito triste.
Ficamos em silêncio por mais tempo, em meio à canção e à gritaria do intervalo. Então, finalmente, o sinal soou. Levantei-me num pulo.
– Vem, Isaura. Que essa vida é difícil demais pra ficar vendo a banda passar – Estiquei braço e ofereci-lhe ajuda para se levantar; ela já havia parado de tocar.
– Nós não devíamos usar óculos se não fosse para vermos as coisas de forma diferente. – Minha amiga mal se movia. 
– Isaura, a Marilia já está indo pra sala. Você sabe que ela não aceita que ninguém entre depois do segundo sinal. – Balancei a mão estendida para chamar sua atenção.
– Eu estou ficando cega, Diana.
Nenhuma frieza no mundo teria me preparado para escutar aquilo.
Sentei-me novamente ao seu lado, naquela grama. Sem se importar com faltas na aula de Matemática ou se a coordenadora apareceria gritando a qualquer momento, ela retomou sua canção, tocando pelo resto de luz que seus olhos absorviam.
“… I’m waiting for this cough syrup to come down, come down”