Madalena

     O dias eram ensolarados, mas o humor, tempestivo. Era quase possível observar as faíscas voando das cabeças doloridas, enquanto olhos coléricos reviravam aquela sala de aula maldita. Nada de muito novo, na verdade. Todo dia na escola era assim.
     
     Madalena costumava se sentar imediatamente à minha frente, mas com o tempo fui chegando mais pra trás. Conversávamos durante quase todas aquelas cinco horas e quarenta minutos que permanecíamos enclausuradas naquele lugar, enquanto nos sentamos bem próximas uma à outra. Talvez tivéssemos ganhado mais se houvéssemos passado mais tempo prestando atenção nas aulas, mas hoje já não importa mais. O tempo, o Tempo já passou.
   
     Tic tac, tic tac, tic tac.
    
     O nome era, na verdade, Maria Madalena, mas falar Madalena só era muito mais divertido. Toda sua expressão recendia a Madalena. Rosto, ânimo. Sempre reclamava de tudo. Quando era menor, chamava-a Madalena Arrependida, mas perdeu a graça com o tempo. A maior parte das coisas perde a graça com o Tempo.
    
     Mais tempo.
    
     Tic tac, tic tac, tic tac. Tic tac.
     
     Às vezes o vento batia nas árvores daquele pátio e sentíamos vontade de dançar. Mas eu não dançava. Não dançava, não porque não quisesse, mas porque não conhecia aquela batida. Porém, meu coração pulava, porque não há som mais convidativo que o da amizade. Sabia que, em alguma dimensão espiritual paralela, girávamos até que caíssemos no chão, tontos, apenas para nos levantarmos e rodarmos novamente logo em seguida. Era assim que funcionava nossa vida.
     
     Uma vez lhe perguntei se não amava alguém. Disse que não amava as pessoas porque não tinha coração. Perguntei onde guardava tanto rancor. Apenas rimos. Já fazia tanto tempo que apenas brincávamos com as palavras que muito pouco consegui ser sério. Tempo, tempo, sempre muito tempo passando e repassando nessa vida.
    
     Escutava o “tic tac” em todos os momentos.
    
     Eu gostaria de entender, hoje, o que mais o tempo nos faria; e, no futuro, a distância. Quantas daquelas promessas serão mantidas de verdade, sabe? Quantos de nós ficarão, e quantos irão embora antes mesmo que a vida comece. São coisas que só o tempo diz. E ele sempre nos dá as notícias em cima da hora.
      
     Uma coisa, no entanto, o Tempo me contou.
     
     Viesse estação após estação, Madalena sempre será Madalena.
      
     Maria Madalena.
        
     O “tic tac” do Tempo sempre seria a melhor batida pra nossa dança.

[Feliz Aniversário, Mariahzinha ♥]

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