Alegoria da Taverna – Capítulo III

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     – Acalme-se, Ana, por favor. Nós precisamos nos organizar. Quando você notou que não conseguia mais falar? – Nasser parecia o mais calmo no momento, e intermediava a situação. Tentávamos nos entender, mas a mudez a deixava extremamente nervosa. Alguns já haviam cedido ao cansaço, e se acomodavam em meio à grama e pedras. Outros mantinham a impaciência, e permaneciam em pé. 
     
     – Gente, nós precisamos de papel e caneta, ou carvão. Qualquer coisa que ela possa usar para escrever, ou desenhar, porque não temos tempo suficiente para combinar um código que substitua a fala. – Minha cabeça doía incessantemente. Poucos minutos se passavam, mas a atmosfera que nos envolvia fazia parecer horas. A floresta era colorida, porém ameaçadora. Uma névoa não muito densa parecia estar por todo lugar, se misturando à fumaça de cigarros. Sentíamos como se um monstro pudesse sair detrás qualquer moita.
     
     – Precisamos, no mínimo, de uma estratégia simples, para tentarmos ao menos sobreviver. – Johnny já estava fumando o sexto ou sétimo. – Parece que a lógica é bem simples, mas aquele mago afetado não permitiria que fosse simples assim.
     
     Uma opressão pairava pelo ar e nos sufocava. Ana chorava, Ariane chorava, eu chorava. E qualquer um daqueles machões de cabelo recém-cortado certamente choraria, não fosse o orgulho. Apesar de todas as piadas, nossa situação não era das melhores. Algumas corujas piavam numa árvore próxima, apesar de ainda ser dia.
     
     – E o quê a gente faz agora? – Ariane disse, entre soluços, sentada sobre uma pedra.
     
     Organizar uma tática de ação? Tentar fazer com que a Ana pudesse falar novamente? Continuar chorando? Eu realmente não sabia. Um vento não parava de soprar.
     
     – Olha, seu bando de feio, só tem uma coisa que dá pra gente fazer… – Willians irrompeu, cheio de uma energia puxada de não sabemos onde – Temos que começar a andar. Vamos lá, levantem essas bundas do chão, antes que eu mesmo faça isso. – Nos encarávamos, apoiados em muito musgo escorregadio, decidindo e pesando as consequências. – ESTOU FALANDO SÉRIO OK. Vamos lá, Maligna, me dê sua mão, levante daí.
     
     Aceitei sua ajuda, e levantar-me foi como uma injeção de ânimo. Parecíamos muito mais decididos e preparados para seguir em frente – ainda que não passasse de uma aparência, no nosso íntimo. 
     
     – Não temos escolha, galera. Por nós, e pela Taverna! – Lord Komatsu esbanjava autoridade, apesar da aparência tão mais frágil, com a qual ainda nos acostumávamos. – Willians, acompanhe a Ariane. Luísa, Gabriel, fiquem com a Ana. Nasser e Johnny cuidam desse mapa. Marcelo e Paulino vigiam as nuvens. Algo me diz que Damian não nos deixará em paz tão cedo assim.
     
     Puxei ar profundamente. Um brilho avermelhado intenso irradiou do Sol já um tanto apagado, e pressentimos que havíamos superado um primeiro desafio.
Agora só faltavam todos os outros.
     
•••
     
     Estávamos caminhando floresta adentro havia alguns minutos. A primeira parte do caminho era relativamente óbvia – as próprias árvores estavam especialmente afastadas naquele trecho, praticamente retilíneo. Suas copas eram tão fartas que coroavam nossos passos e nos impediam de observar o céu. Marcelo e Paulino não andavam diretamente conosco – estavam em meio à mata, procurando vestígios das nuvens e do Sol.
     
     Eu não saberia dizer se era um efeito direto das tantas horas passadas dentro da taverna – ainda que eu houvesse passado alguns dias fora da mesma –, mas me sentia altamente estranha caminhando por aquele lugar. Talvez fosse também consequência das árvores que pareciam nos escutar e vigiar, ou do farfalhar nada convidativo das folhas, mas é tudo relativo e circunstancial quando sua própria vida está em risco. O mais prudente era me acostumar àquela atmosfera. Até porque, pelos meus cálculos – meramente superficiais –, ainda estávamos incrivelmente longe da tal construção à qual devíamos chegar.
     
     À exceção de alguns comentários que Johnny, Nasser e Komatsu trocavam à respeito do caminho e do mapa e Marcelo e Paulino, a respeito da procura pelo céu (além de alguns sons horríveis que a floresta parecia emitir), estávamos em silêncio. Eu até suporia que se a própria Ana não estivesse muda, também estaria calada por vontade própria. 
    
     Teríamos permanecido ainda assim por algum tempo. Porém, diário, você sabe que nada fica parado e quieto por muito quando nós estamos envolvidos na situação. Sempre há algo a ser dito, ou alguma tragédia para ocorrer.
     
     Foi mais ou menos o que acabou ocorrendo.
     
     Caminhávamos sem muita cautela, concentrados em qualquer coisa à exceção do que fazíamos. Ana, vez ou outra, pigarreava, na esperança de ter sua voz de volta. Komatsu às vezes se virava para nos dar um sorriso de incentivo, e acabava por quase tropeçar em algumas pedras que estavam pelo caminho. Alguma risada leve. O som de alguns galhos sendo quebrados por Marcelo e Paulino, enquanto atravessavam o mato. Vez ou outra sentia estremecer meu corpo, pela sensação de que algo havia passado correndo, roçando-me as pernas. Outros também estremeciam. Passamos por ruínas de pequenas construções, vários tijolos espalhados. E o corredor de árvores parecia infinito.
     
     Mais tarde ficamos sabendo que o mapa indicava uma mudança de rota dentro de alguns metros. Mas nossos planos foram forçadamente modificados quando, entre uma brisa gelada e a luz poente de Sol que passava por entre as folhas das árvores, o chão sob nossos pés tremeu. Um clarão surgiu e nos cegou por alguns segundos. Quando recuperamos a visão, Ariane não estava mais lá. Nem Willians.

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