Alegoria da Taverna – Capítulo IV

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     Seguiram-se momentos pandemônicos. Alguns gritavam por seus nomes. Komatsu colocou as mãos sobre o rosto, e suspirava de forma tão alta que parecia uma máquina. Ana queria sair correndo procurando pelos dois, mas tropeçou em uma pedra e caiu em cima de Marcelo. No clima tenso, começaram a discutir energicamente. Ele gritava, ela gesticulava e mexia a boca de forma nervosa. Sendo de alturas parecidas, tentavam se impor um sobre o outro. Não soubemos se deveríamos ou não interferir até que Ana fez menção a pegar uma pedra que havia no chão, e usá-la para substituir os chinelos que costumava usar para atacar pessoas imbecis. Nasser tentou segurá-la, mas o movimento já havia quase se finalizado. Por pouco, não atingiu o Marcelo. Bateu em uma árvore e foi parar sobre um tufo de grama. O tronco, aparentemente oco, fez um som ecoar por toda a área.
      
     – Isso já está ficando ridículo! Ridículo! – Paulino estava perdendo a paciência, ainda tão cedo na jornada. – Se eu tivesse meu arco-e-flecha aqui agora, estariam todos mortos. TODOS VOCÊS.
     
     – Ei, não fui eu quem saí caindo em cima das pessoas! – Marcelo falou de forma gritada, encarando Ana. Gabriel e Komatsu os puxaram e seguraram, impedindo que brigassem.
     
     – Vocês parem todos com essa bagunça! Já deu de discussão! Nós não vamos encerrar nada disso aqui se não nos organizarmos, e pararmos com as briguinhas bestas! Já não estamos com problemas demais? Não vamos sair do lugar nunca assim! – Komatsu ainda segurava Marcelo pelo braço. Estava com a expressão bastante franzida, e seus olhos puxados pareciam ser ainda menores.
     
     Ficamos em silêncio mais uma vez. Aquilo era um jogo. Devíamos jogá-lo da forma correta. Nasser estava sentado em uma pedra próxima a mim, lendo o mapa. Observei-o discretamente por trás.
     
     – Luísa, quer olhar o mapa? – Ele se virou de repente. Meus olhos se esbugalharam ligeiramente.
     
     – Ah, é, não, não, não precisa. Não precisa. Eu só queria saber das… Das… Sabe, das… Perspectivas. Das perspectivas do caminho.
     
     – Bom, já que é assim – Virou o mapa pra que eu pudesse enxerga-lo melhor – Isso é que é estranho. Antes do clarão, o mapa indicava claramente que deveria haver um descampado em 20 metros, mas – Ele se levantou, e apontou o caminho – Nem dentro de uns 100 metros encontramos um. – Estava certo. O corredor de árvores sumia de vista, tão longo.
     
     Tomei o mapa em minhas mãos e tentei entende-lo. Talvez houvessem interpretado incorretamente as direções, pensei eu. No entanto, algo parecia estranho. Não conseguia nos identificar ali. De forma nenhuma.
     Uma pedra me atingiu por trás. Virei-me soltando alguns xingamentos deselegantes, mas era apenas uma forma de Ana me avisar que tinha algo a dizer. Aproximei-me dela que, usando um graveto, havia escrito numa pequena área arenosa do solo “Não estamos no mesmo lugar”.
     
     – “Não estamos no mesmo lugar”???? – Falei em voz bem alta. Todos se viraram para nós. Ela confirmou com a cabeça.
     
     – Claro que estamos no mesmo lugar. Como poderíamos ter saído da floresta? – Gabriel parecia confuso. – Olhe ao nosso redor, estamos em uma floresta! O que poderia ter acontecido? Uma eversão?
     
     – Isso mesmo. – Johnny surgiu em meio às árvores, e nos deu um baita susto. Segurava um livro nas mãos. – Ocorreu uma eversão de cenário. Estamos na mesma floresta ainda, mas em um patamar diferente. 
     
     – E como você sabe disso? – Marcelo permanecia preguiçosamente sentado sobre uma pedra.
     
     – Peguei esse livro na biblioteca do Burgo há uns anos. – Ergueu-o, mostrando a capa. “Bosques do Oés-Sudoeste – A Terra dos Magos” – Por algum motivo, veio comigo. Reconheci alguns cenários descritos aqui, e resolvi procurar por algo de útil. Há um capítulo inteiro sobre magos como o Damian. São descritos como “Lagostas mágicas”. As garras são grandes e aparentes, e você sabe que vão te fazer mal. Mas insiste em acha-los inofensivos. – Todos trocaram olhares. Desconhecendo a história da chegada de Damian à taverna, não desviei o olhar. 
     
     – Então esses são os Bosques do Oés-Sudoeste? – Marcelo continuava indagando Johnny.
     
     – Não, Marcelo, não exatamente. Estamos na área mágica particular do Afetadíssimo. Fica localizada… Dentro da magia dele. E é de uma energia altamente poderosa. Nem mesmo o poder do Mestre dos Magos consegue alcança-la. – Correu os olhos rapidamente pela área, depois voltou-se para Marcelo. – Se eu fosse você, não se sentaria sobre as pedras. Nenhuma delas.
     
     Àquela altura, quase todos haviam se sentado sobre pedras. Levantaram-se imediatamente. A pedra sobre onde Paulino estava desapareceu.
     
     – O quê exatamente acabou de acontecer? – Seus olhos estavam arregalados, e seu corpo estava tenso. Estávamos todos confusos.
     
     – As pedras são os portais. Até mesmo as menores. Um dos dois, Willians ou Ariane, deve ter pisado em alguma. Agora, alguma coisa aconteceu para que nós passássemos para o próximo cenário também, e para que houvesse uma separação. Ainda não consegui descobrir.
      
     Observando melhor, as mudanças na floresta eram notáveis. As árvores eram mais altas e de copas menos fartas. O céu era mais escuro, e o tempo parecia mais nublado. Até os sons dos pássaros soavam mais assustadores e macabros. Ana pegou em uma das minhas mãos, segurando-a fortemente. Antes que eu percebesse, Gabriel segurava a outra. 
     
     – E onde conseguimos um mapa desse novo cenário? Não dá pra atravessar sem isso. – Komatsu estava ao lado de Johnny, inspecionando o livro.
     
     – Aí é que está. O mapa de cada cenário é protegido pelo Guardião da Floresta.
     – Guardião? Tipo os outros guardiões, grande e malvado? Era só isso que nos faltava! – Gabriel apertou ainda mais minha mão.
     
     – O livro diz que ele se chama “Massacote”, e que sua maior característica é aparecer quando não é convidado. Diz também que essa é a chave para encontra-lo. – Enquanto Johnny falava, Nasser quebrava galhos de algumas árvores mais baixas. – Eu sinceramente não sei o que isso significa.
     
     – Talvez seja algo relacionado à não estarmos pensando nele. Temos que ignorá-lo, talvez? – Marcelo procurava alguma árvore que não tivesse espinhos, em cuja superfície ele pudesse recostar. 
     
     – Duvido. Damian não colocaria um desafio tão complexo assim bem no início do jogo. Ele quer nos ver atingir os níveis mais profundos que conseguirmos. Faz parte de sua personalidade doentia. – Um relâmpago inesperado surgiu. – DOENTIO! – Johnny gritou para os céus. Choveu abundantemente por uns oito segundos.
     
     – Johnny, mais alguma coisa de útil desse livro? – Tentávamos nos secar, ensopados como estávamos. Sentia meu nariz coçar.
     
     – Muita, muita coisa. Pode ser nossa salvação. – Ele falava enquanto apertava os cabelos, tirando o excesso de água. – Na verdade, acho que poderíamos atrasar mais um pouco nossa caminhada, para que eu possa falar de outras coisas. – Pausou e olhou para os céus. Escureciam rapidamente.
     
     – Bom, se realmente vamos começar a levar isso a sério, e jogar no modo hard – Nasser se aproximava, pingando, carregando madeira. Tropeçou em uma pedra. Conseguiu equilibrar-se, mas estávamos todos observamos a situação de forma tensa. Ela se movimentou levemente, até encostar-se a uma outra pedra próxima. Ambas desapareceram.
     
     Um minuto de silêncio.
     
     – Bem… – Nasser mantinha olhos ligeiramente esbugalhados. – Como eu dizia. – Pigarreou. – Precisamos de alguns instrumentos de sobrevivência. Podemos usar essa madeira como cajados, para espantar as pedras, ou armas letais, pra perfurar e matar os inimigos. Cada um escolhe a melhor maneira. – Jogou tudo no chão. Fomos nos aproximando da pilha.
     
     – Galera, eu queria pedir desculpas. – Komatsu começou a falar de repente. Estava distante, não mexia nos materiais conosco. – Eu devia ter impedido que Damian entrasse na Taverna. Achei que ele nos faria bem, afinal, é isso que eu pensei que os magos faziam. Perdi o controle da situação. E perdi minha força.
     
     A expressão em seu rosto era realmente muito desanimada e arrependida. Eu ainda me recordava de, no primeiro dia – ainda que em clima de descontração – jurar lealdade aos nossos Taberneiros. Aproximei-me dele e coloquei uma das mãos sobre seus ombros, em gesto de apoio.
     
     – Você impõe respeito naturalmente, não precisava ter o corpo de um viking. – Ele sorriu em retribuição. – Na verdade, era mais complicado te respeitar. Era quase cômico. – Nasser soltou uma gargalhada. – Todo mundo te perdoa. – Virei-me para o grupo, e todos balançaram suas cabeças, em confirmação. – Vamos lá, temos uma taverna pra salvar.
     
     Todos demonstraram apoio à causa, e disseram algumas palavras ao Taberneiro. Por um momento, tudo ficou em paz. Usávamos algum cipó para improvisar espadas com a madeira, e fazíamos o som de sabres de luz enquanto “treinávamos” nossas habilidades. Quando se tornou noite completa, Johnny usou seu isqueiro e papel que arrancara das beiradas não ilustradas do mapa para acender uma fogueira. Não sentíamos fome, e era difícil de explicar. 
     
     Eu e Marcelo simulávamos uma luta quando vi duas formas se aproximando na escuridão, em meio às árvores, meio cambaleantes. Soltei um grito. Conforme se aproximavam, a pouca luz mostrava que estavam vestidos de vermelho. Não sabíamos o que fazer. As espadas estavam empunhadas (e foi uma cena consideravelmente engraçada, se não trágica, diário). 
     
     Estávamos prestes a atacar quando os rostos foram iluminados e vimos que se tratavam de Jaime e João Pedro.
[To be continued]

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