Dia de Sono


     Hoje acordei cedo, contra a minha vontade. Havia muito a ser feito. Tantos desenhos, tantos trabalhos, tantos textos. Apressei-me em terminar o que de imediato era necessário, para que pudesse deitar-me novamente.
    
     Dormi sem nem perceber.
    
     Sonhei que, sentada em uma sala, pensava sobre a vida.
    
     Está chegando novamente aquela época do ano. Aquela época em que ele se encerra, pra que outro comece.
    
     Todo ano ocorre a mesma coisa. Dúzias de expectativas, centenas de ideias e planos. Doze meses se passam e nada muda. Minha vida continua basicamente a mesma coisa. Engano minha consciência com as mesmas meias verdades e descaradamente minto pro meu coração, dizendo que tudo ficará bem. Ah, vida curiosa essa. Vivemos em ciclos de doze meses. Acreditamos que neles está contida toda a magia da existência.
    
     2012 talvez esteja sendo, de longe, o melhor ano da minha vida (desde 1995). Amadureci a níveis que nunca julguei possíveis. Conheci mais pessoas que jamais havia conhecido dentro de um só ciclo. Algumas terríveis. A maioria incrível, por sorte.
    
     Apesar de tanta positividade, duvido que em um só ano meu coração tenha dado tantas voltas dentro do meu peito, ou tenha corrido tanto atrás do próprio rabo. O maior ensinamento do ano? Pro inferno com a superficialidade e as aparências. Você mesma esconde tanto por trás da sua casca (um pouco mais gordinha que no ano anterior). Dezessete anos depois, finalmente entendeu o quão pouco ela representa.
    
     Fiz uma amiga imaginária também. Mais uma, na verdade.
    
     Estou noiva da Arquitetura. Caso-me em breve.
      
      (Nesse momento, a sala, até então vazia, começou a encher-se de sons. Aos poucos, tomava forma ao meu redor um jantar de Natal de filme estadunidense. Várias pessoas passavam por mim. Algumas me atravessavam. Um senhor de barba branca foi o único a me notar, e a perguntar se eu tinha fome. Disse que sim. Ele sumiu. Todo o resto sumiu também.).
    
     Continuei pensando.
    
     Passeei por lojas decoradas pro Natal enquanto mal havia terminado o primeiro período da faculdade. A maioria acharia isso um saco. Talvez um paradoxo sobre nossa existência atrasada. Eu sento e me agradeço pela greve.
    
     A greve foi bondosa em haver nos escolhido, em haver escolhido 2012. Meu 2012 não estaria sendo tão bom não fosse por ela.
      
      (O vazio da sala começou a tomar formas de uma construção quase medieval. Parecia uma taverna. Vários brasileiros vestidos como vikings passaram por mim. Um japonês magrelo e uma linda de olhos grandes vieram até mim e disseram que já havia passado da minha hora de dormir. Cochilei em sonho. Acordei na vida real).
    
     Sentei-me na cama e enrolei-me nas cobertas – apesar de não estar tão frio assim; estava com fome. Eram 18h. Estava dormindo desde as 11h30. Olhei ao meu redor, procurando os contornos da taverna, e qualquer rosto familiar. Apenas paredes brancas e os móveis do meu quarto. Não gosto de bebidas alcoólicas, mas naquele momento aceitaria qualquer coisa que viesse de lá. Sentia falta.
    
     Tentei pegar no sono mais uma vez, mas já não estava mais tão cansada. Escutei o barulho da televisão ligada na sala. Uma propaganda de Natal, com músicas típicas ao fundo.
    
     A época mais bonita do ano.
    
     Filosofei sobre as renas e até fingi que era um elfo. Convidei meus amigos imaginários a se sentarem comigo na cama. Contei pra eles sobre meu sonho. E sobre meu coração. Falei de todas as pessoas que haviam ido e voltado na minha vida. Abraçaram-me. Disse-lhes que estava encantada. Perguntaram-me o que havia me encantado. Tive medo de admitir para mim mesma, então não quis contar para eles. Mas eles sabiam. Eram parte de mim.
    
     Brincamos de cantar músicas de The Rocky Horror Picture Show, até que caíram no sono. Eu permanecia acordada. Ao fundo, a canção natalina continuava tocando.
    
     Foi quando percebi que ainda estava sonhando.
    
     Um sonho dentro de outro sonho.
    
     Fiquei presa lá por várias horas ainda.
    
     Teria ficado por ainda mais tempo. Porém, tinha um compromisso importante às 8h, no dia seguinte. Não podia perdê-lo.    
    
     Não podia perdê-lo.

Alegoria da Taverna – Capítulo IV

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     Seguiram-se momentos pandemônicos. Alguns gritavam por seus nomes. Komatsu colocou as mãos sobre o rosto, e suspirava de forma tão alta que parecia uma máquina. Ana queria sair correndo procurando pelos dois, mas tropeçou em uma pedra e caiu em cima de Marcelo. No clima tenso, começaram a discutir energicamente. Ele gritava, ela gesticulava e mexia a boca de forma nervosa. Sendo de alturas parecidas, tentavam se impor um sobre o outro. Não soubemos se deveríamos ou não interferir até que Ana fez menção a pegar uma pedra que havia no chão, e usá-la para substituir os chinelos que costumava usar para atacar pessoas imbecis. Nasser tentou segurá-la, mas o movimento já havia quase se finalizado. Por pouco, não atingiu o Marcelo. Bateu em uma árvore e foi parar sobre um tufo de grama. O tronco, aparentemente oco, fez um som ecoar por toda a área.
      
     – Isso já está ficando ridículo! Ridículo! – Paulino estava perdendo a paciência, ainda tão cedo na jornada. – Se eu tivesse meu arco-e-flecha aqui agora, estariam todos mortos. TODOS VOCÊS.
     
     – Ei, não fui eu quem saí caindo em cima das pessoas! – Marcelo falou de forma gritada, encarando Ana. Gabriel e Komatsu os puxaram e seguraram, impedindo que brigassem.
     
     – Vocês parem todos com essa bagunça! Já deu de discussão! Nós não vamos encerrar nada disso aqui se não nos organizarmos, e pararmos com as briguinhas bestas! Já não estamos com problemas demais? Não vamos sair do lugar nunca assim! – Komatsu ainda segurava Marcelo pelo braço. Estava com a expressão bastante franzida, e seus olhos puxados pareciam ser ainda menores.
     
     Ficamos em silêncio mais uma vez. Aquilo era um jogo. Devíamos jogá-lo da forma correta. Nasser estava sentado em uma pedra próxima a mim, lendo o mapa. Observei-o discretamente por trás.
     
     – Luísa, quer olhar o mapa? – Ele se virou de repente. Meus olhos se esbugalharam ligeiramente.
     
     – Ah, é, não, não, não precisa. Não precisa. Eu só queria saber das… Das… Sabe, das… Perspectivas. Das perspectivas do caminho.
     
     – Bom, já que é assim – Virou o mapa pra que eu pudesse enxerga-lo melhor – Isso é que é estranho. Antes do clarão, o mapa indicava claramente que deveria haver um descampado em 20 metros, mas – Ele se levantou, e apontou o caminho – Nem dentro de uns 100 metros encontramos um. – Estava certo. O corredor de árvores sumia de vista, tão longo.
     
     Tomei o mapa em minhas mãos e tentei entende-lo. Talvez houvessem interpretado incorretamente as direções, pensei eu. No entanto, algo parecia estranho. Não conseguia nos identificar ali. De forma nenhuma.
     Uma pedra me atingiu por trás. Virei-me soltando alguns xingamentos deselegantes, mas era apenas uma forma de Ana me avisar que tinha algo a dizer. Aproximei-me dela que, usando um graveto, havia escrito numa pequena área arenosa do solo “Não estamos no mesmo lugar”.
     
     – “Não estamos no mesmo lugar”???? – Falei em voz bem alta. Todos se viraram para nós. Ela confirmou com a cabeça.
     
     – Claro que estamos no mesmo lugar. Como poderíamos ter saído da floresta? – Gabriel parecia confuso. – Olhe ao nosso redor, estamos em uma floresta! O que poderia ter acontecido? Uma eversão?
     
     – Isso mesmo. – Johnny surgiu em meio às árvores, e nos deu um baita susto. Segurava um livro nas mãos. – Ocorreu uma eversão de cenário. Estamos na mesma floresta ainda, mas em um patamar diferente. 
     
     – E como você sabe disso? – Marcelo permanecia preguiçosamente sentado sobre uma pedra.
     
     – Peguei esse livro na biblioteca do Burgo há uns anos. – Ergueu-o, mostrando a capa. “Bosques do Oés-Sudoeste – A Terra dos Magos” – Por algum motivo, veio comigo. Reconheci alguns cenários descritos aqui, e resolvi procurar por algo de útil. Há um capítulo inteiro sobre magos como o Damian. São descritos como “Lagostas mágicas”. As garras são grandes e aparentes, e você sabe que vão te fazer mal. Mas insiste em acha-los inofensivos. – Todos trocaram olhares. Desconhecendo a história da chegada de Damian à taverna, não desviei o olhar. 
     
     – Então esses são os Bosques do Oés-Sudoeste? – Marcelo continuava indagando Johnny.
     
     – Não, Marcelo, não exatamente. Estamos na área mágica particular do Afetadíssimo. Fica localizada… Dentro da magia dele. E é de uma energia altamente poderosa. Nem mesmo o poder do Mestre dos Magos consegue alcança-la. – Correu os olhos rapidamente pela área, depois voltou-se para Marcelo. – Se eu fosse você, não se sentaria sobre as pedras. Nenhuma delas.
     
     Àquela altura, quase todos haviam se sentado sobre pedras. Levantaram-se imediatamente. A pedra sobre onde Paulino estava desapareceu.
     
     – O quê exatamente acabou de acontecer? – Seus olhos estavam arregalados, e seu corpo estava tenso. Estávamos todos confusos.
     
     – As pedras são os portais. Até mesmo as menores. Um dos dois, Willians ou Ariane, deve ter pisado em alguma. Agora, alguma coisa aconteceu para que nós passássemos para o próximo cenário também, e para que houvesse uma separação. Ainda não consegui descobrir.
      
     Observando melhor, as mudanças na floresta eram notáveis. As árvores eram mais altas e de copas menos fartas. O céu era mais escuro, e o tempo parecia mais nublado. Até os sons dos pássaros soavam mais assustadores e macabros. Ana pegou em uma das minhas mãos, segurando-a fortemente. Antes que eu percebesse, Gabriel segurava a outra. 
     
     – E onde conseguimos um mapa desse novo cenário? Não dá pra atravessar sem isso. – Komatsu estava ao lado de Johnny, inspecionando o livro.
     
     – Aí é que está. O mapa de cada cenário é protegido pelo Guardião da Floresta.
     – Guardião? Tipo os outros guardiões, grande e malvado? Era só isso que nos faltava! – Gabriel apertou ainda mais minha mão.
     
     – O livro diz que ele se chama “Massacote”, e que sua maior característica é aparecer quando não é convidado. Diz também que essa é a chave para encontra-lo. – Enquanto Johnny falava, Nasser quebrava galhos de algumas árvores mais baixas. – Eu sinceramente não sei o que isso significa.
     
     – Talvez seja algo relacionado à não estarmos pensando nele. Temos que ignorá-lo, talvez? – Marcelo procurava alguma árvore que não tivesse espinhos, em cuja superfície ele pudesse recostar. 
     
     – Duvido. Damian não colocaria um desafio tão complexo assim bem no início do jogo. Ele quer nos ver atingir os níveis mais profundos que conseguirmos. Faz parte de sua personalidade doentia. – Um relâmpago inesperado surgiu. – DOENTIO! – Johnny gritou para os céus. Choveu abundantemente por uns oito segundos.
     
     – Johnny, mais alguma coisa de útil desse livro? – Tentávamos nos secar, ensopados como estávamos. Sentia meu nariz coçar.
     
     – Muita, muita coisa. Pode ser nossa salvação. – Ele falava enquanto apertava os cabelos, tirando o excesso de água. – Na verdade, acho que poderíamos atrasar mais um pouco nossa caminhada, para que eu possa falar de outras coisas. – Pausou e olhou para os céus. Escureciam rapidamente.
     
     – Bom, se realmente vamos começar a levar isso a sério, e jogar no modo hard – Nasser se aproximava, pingando, carregando madeira. Tropeçou em uma pedra. Conseguiu equilibrar-se, mas estávamos todos observamos a situação de forma tensa. Ela se movimentou levemente, até encostar-se a uma outra pedra próxima. Ambas desapareceram.
     
     Um minuto de silêncio.
     
     – Bem… – Nasser mantinha olhos ligeiramente esbugalhados. – Como eu dizia. – Pigarreou. – Precisamos de alguns instrumentos de sobrevivência. Podemos usar essa madeira como cajados, para espantar as pedras, ou armas letais, pra perfurar e matar os inimigos. Cada um escolhe a melhor maneira. – Jogou tudo no chão. Fomos nos aproximando da pilha.
     
     – Galera, eu queria pedir desculpas. – Komatsu começou a falar de repente. Estava distante, não mexia nos materiais conosco. – Eu devia ter impedido que Damian entrasse na Taverna. Achei que ele nos faria bem, afinal, é isso que eu pensei que os magos faziam. Perdi o controle da situação. E perdi minha força.
     
     A expressão em seu rosto era realmente muito desanimada e arrependida. Eu ainda me recordava de, no primeiro dia – ainda que em clima de descontração – jurar lealdade aos nossos Taberneiros. Aproximei-me dele e coloquei uma das mãos sobre seus ombros, em gesto de apoio.
     
     – Você impõe respeito naturalmente, não precisava ter o corpo de um viking. – Ele sorriu em retribuição. – Na verdade, era mais complicado te respeitar. Era quase cômico. – Nasser soltou uma gargalhada. – Todo mundo te perdoa. – Virei-me para o grupo, e todos balançaram suas cabeças, em confirmação. – Vamos lá, temos uma taverna pra salvar.
     
     Todos demonstraram apoio à causa, e disseram algumas palavras ao Taberneiro. Por um momento, tudo ficou em paz. Usávamos algum cipó para improvisar espadas com a madeira, e fazíamos o som de sabres de luz enquanto “treinávamos” nossas habilidades. Quando se tornou noite completa, Johnny usou seu isqueiro e papel que arrancara das beiradas não ilustradas do mapa para acender uma fogueira. Não sentíamos fome, e era difícil de explicar. 
     
     Eu e Marcelo simulávamos uma luta quando vi duas formas se aproximando na escuridão, em meio às árvores, meio cambaleantes. Soltei um grito. Conforme se aproximavam, a pouca luz mostrava que estavam vestidos de vermelho. Não sabíamos o que fazer. As espadas estavam empunhadas (e foi uma cena consideravelmente engraçada, se não trágica, diário). 
     
     Estávamos prestes a atacar quando os rostos foram iluminados e vimos que se tratavam de Jaime e João Pedro.
[To be continued]

Alegoria da Taverna – Capítulo II

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– Não aguentei e voltei pra vocês! – Irrompi pela porta. 
     

Silêncio.
      
Por parte de todos.
     
Até de mim.
     
O lugar estava limpo. Limpo. Brilhando, parecia novo. Não fossem as caras familiares, diário, eu com certeza pensaria que havia entrado no lugar errado (apesar dos rostos lavados e dos cabelos desinfetados). Ana, Pedro, Marcelo, Johnny, Caio, Ariane, Guilherme, Gabriel, Matheus, João, Jaime… 
     
Foi então que eu tomei um grande susto. E entendi o que havia ocorrido.
      
Atrás do balcão, sujando de gordura as beiradas de um copo, estava Lord Taberneiro. Ou pelo menos o que eu julguei que fosse, porque nunca havia visto por aqui aquele oriental pálido e bem mais magro que o viking de 150 quilos que costumava ocupar aquele lugar.
      
– Passou um mago por aqui. – Minha voz desanimada só não estava pior que a expressão no rosto dos que confirmaram minha afirmação. Eu ainda me lembrava do que havia acontecido da última vez que um mago passara por ali (um dia te dou mais detalhes, diário, porque a história é beeem longa. E grudenta. E escorregadia.).
       
– Pior que isso, passou um mago esperto por aqui. Ao contrário da última vez. – Apesar da expressão de compaixão em seu rosto, era óbvio para todos que a maior vontade do Nasser era rir da situação inteira. – Ele farejou cada encantamento do local, e deu um jeito de danar com todos.
       
– Todos. – Eu não podia culpa-lo. Afinal de contas, devia ser bastante legal ter 2,5 metros de altura e barba ruiva. – Mas isso não tira o peso de você ter ido embora por seis semanas.
        
– Bom, sobre isso… – Coloquei as mãos na cabeça, pronta para responder, quando escutei uma voz imeditamente atrás de mim, provavelmente entrando pela porta que havia esquecido aberta.
               
– Nossa, mas está cada vez mais difícil encontrar suor frio desidratado por esse burgo, viu? Depois não querem que os magos entrem em grev… – Me virei, e acabei me deparando com uma figura estranhíssima, diário. Era baixinho, de bochechas e nariz vermelhos, e trajava uma veste comprida e brilhante, incrivelmente afetada. – Mas o que temos aqui, pra quê tanto silêncio? – Me encarou por um instante, olhando por cima dos óculos – E você, quem seria? Mais uma novata?
                 
– Sou novata coisa nenhuma, me respeite, Merlin do Paraguai. Só estava de férias. – Um segundo de arrependimento. Estava lidando com um mago esperto dessa vez. – Digo, acho que não nos conhecemos ainda.
                     
Todos ao meu redor seguravam a respiração. Alguns mais engraçadinhos já estavam fazendo sinais de morte e outras indelicadezas. Alguém me apontou a placa de boas-vindas da taverna, que havia sido reformada/limpa e atualizada: “número de membros mortos: 35”. Quando saí, eram 12 só.
                       
(E só uns 5 ou 6 eram culpa minha. Diretamente.)
                   
O silêncio constrangedor permanecia, e eu procurava uma máscara de Trooper onde pudesse enfiar a cara. O mago não fazia qualquer menção a falar ou se movimentar. Entrei em pânico.
                    
– Pois bem então, prazer querida. Sou Damian. E você, quem seria?
              
– Luisa, senhor. Prazer em conhece-lo. Estavam me contando coisas ótimas sobre o senhor. 
          
– Ah, claro que teriam coisas ótimas sobre mim! – Suspirou – Ouvi coisas sobre a senhorita  
       
– Ah. – Virei meus olhos em direção ao canto onde se amontoavam meus companheiros mais chegados. Uns desviaram o olhar. Desgraçados.
            
– De qualquer forma, sinto lhe informar que, por mais agradável que seja para mim sua companhia, você não pode mais entrar e-barra-ou permanecer nesta Taverna, pois agora está sob meu poder, literalmente, e não me sinto confortável com a presença de uma pessoa como você. Passar bem, queridinha.
                      
Arregalei os olhos. Sem ver, minhas mãos pegaram fogo.
                          
– THOR DO CÉU, que é isso menina? – O mago se arregaçou todo, e pulou no colo do bêbado mais próximo.
                          
– Desculpa, vossa Magia, me irritei um pouquinho – Caio e Gabriel sussurraram “Do mal!” ao longe. – Apesar de tudo, preciso lhe informar que não sairei daqui. Não mais.
                        
Sua sobrancelha esquerda se ergueu, e ele voou dos braços tremeliquentos que o seguravam. Parou em frente a mim e começou a crescer. E crescia, diário. Cresceu muito, e me olhava fundo nos olhos. Tremi as bases. Olhei pros lados, em busca de amigos, mas não achei nenhum. Nem o meu companheiro de garrafa. Traidores. 
                                 
Meus olhos incrivelmente arregalados não são nem passíveis de descrição. No entanto, após aquela demonstração de grandeza, voltou ao seu tamanho normal. Mas ainda me encarava friamente.
                         
– OK então, senhorita. Parece que entramos em um empecilho aqui. Porque, há cinco semanas atrás, isso aqui era só um lugar barulhento e fedorento, comandado por um taberneiro sob um encantamento mais fraco que guaraná Dolly. Eu renovei esse lugar. E decidi que não quero você aqui.
                           
– Opa, opa, opa. Isso não te dá o direito de mandar e desmandar aqui. A Irlanda do Noroeste é um país imaginário livre e reconhecido por todos os outros, e não estamos sob as leis dos magos. – Finalmente alguém havia sido homem o suficiente para enfrentar aquele baixinho xiliquento. E não, não foi um homem de verdade. Foi a Ana.
                         
– Ah, então temos duas mocinhas destemidas aqui? Ótimo! Se aparecer mais uma, a gente inventa um jogo! – Batia palmas e dava pulinhos.
                          
– Jogo? Que tipo de jogo? – Já éramos três na linha de frente. Ariane havia se juntado a nós. Aos poucos, alguns garotos davam alguns passos tímidos. Uns, mais ávidos, acabaram chegando mais rápido. A palavra “jogo” havia movimentado a taverna.
                                   
– Nossa, mas é só falar em jogo que to-do mundo resolve brincar? Mua-há-há-há! Devia ter pensado nisso antes! 
                        
A essa altura, diário, todos os bêbados e não-tão-bêbados haviam se aglomerado ao nosso redor. Eu quase podia sentir o cheiro de mofo que emanava dos nossos corações em sintonia. E sim, isso é tão meloso quanto… Mel. Mas foi bem isso que ocorreu.
                                 
– OK então, se é jogo que vocês querem, é jogo que vocês terão. – Uma nuvem de fumaça branca começou a emanar de seus olhos, e encheu a taverna. Ninguém conseguia enxergar qualquer coisa. Lord Komatsu gritou que fôssemos dando as mãos, e foi bem a tempo. Antes que conseguíssemos piscar, o chão sob nossos pés sumiu, e caímos livremente por uns 200 metros. Parecia que não pararíamos, até que uma Força muito densa nos segurou, boiando no ar. Estava tudo escuro, mas era possível ainda sentir a presença da fumaça.
                                
– Idoso, o quê que aconteceu? Luiç, é na sua cabeça que eu estou pisando? – Jaime falava com voz extremamente arrastada.                  
                         
Um burburinho se instaurou. Nossa situação não estava das melhores, e era culpa minha. Mais uma vez. Fiquei angustiada, diário, porque daquela vez as coisas podiam dar errado de verdade. Ia começar a chorar, mas minhas pretensões foram interrompidas por uma luz vermelha piscante, que iluminou o ambiente e nos fez perceber melhor o lugar em que estávamos. 
                          
– Isso é uma… Floresta? – Antes que pudesse me virar pra ver a quem pertencia a voz confusa, fomos todos silenciados por um som superior.
                               
– SILÊNCIO, FEDORENTOS DE ALMA. – Damian surgiu em meio à luz vermelha enevoada de branco, em sua forma gigantesca. Segurava um cogumelo vermelho meio comido nas mãos. – Se querem um jogo, terão um jogo. Mas é meu jogo, minhas regras. Se ganharem, podem voltar em paz pra sua taverna. E eu ficarei aqui no meu inferno colorido.
                          
– E se nós perdermos? – Lord Komatsu retomava o controle da situação.
                  
– Aí vocês morrem! Divertido, não?
                         
Cobri meu rosto com as mãos, fugindo dos olhares atravessados. Mas, mesmo boiando sobre uma floresta esquisita, senti algumas mãos e pés amigos tentando me consolar. Agora já não havia mais jeito.
                                 
– Bom, agora às regras do jogo. Olhem pra baixo e contemplem minha floresta. RÁPIDO TODOS! – Nos viramos como podíamos para obedecê-lo. – Ótimo. Então, vou dividi-los em grupos. Basicamente, o que devem fazer é atravessar a floresta, chegando vivos até o meu castelo – Ele apontava com o dedo branquelo um construção ao longe. Muito longe. – Serei um pouco justo e darei pra vocês mapa e mochila. Agora, não me responsabilizo por qualquer dano que a floresta possa lhes causar no meio do caminho.
                                 
– Como assim?? – Antes mesmo que ele pudesse responder, soltou uma risada maligna. A força que nos segurava se dissipou, e estávamos todos em queda novamente. Porém, estando prestes a alcançar o chão, um portal invisível nos engoliu. Reaparecemos em chão firme, e separados. Olhei ao meu redor: Ana, Willians, Nasser, Ariane, Johnny, Gabriel, Marcelo, Paulino e Lord Komatsu. Usávamos umas roupas feias, verde musgo, que quase nos misturavam à grama. Não sabíamos bem o que fazer.
                            
– ANDEM, GENTINHA MEDIEVAL, NÃO TENHO O DIA INTEIRO! – Podíamos ver mago Damian em meio às nuvens, sentado em um trono de ferro. – Se enrolarem assim, boto a Terra Média Aritmética inteira pra assisti-los, hein!
                         
Suspiramos profundamente. Concordamos em começar dando uma olhada no mapa, mas era tão difícil de compreender que deixamos a tarefa para os líderes do grupo – e da taverna. Uns trinta minutos após muito drama, obtiveram algum entendimento.
                         
– E então? Pra que lado vamos? – Ariane parecia ser a mais impaciente.
                        
– Bem, parece que temos que começar por ali – Nasser apontava para a direita. – Vamos, seus feios. – Invariavelmente, começamos a segui-lo. Ana, porém, havia ficado pra trás.
                         
– Que foi, Ana? Tá tudo bem? – Ela gesticulava de forma nervosa, e piscava incessantemente. Após algum esforço, no entanto, compreendi o que queria dizer.
                   
– Pessoal… Temos um problema. – O resto do grupo, ligeiramente à nossa frente, se virou.
                 
– O quê aconteceu?
             
– A Ana não consegue falar.

Alegoria da Taverna

Irlanda do Noroeste, 30 de Fevereiro de 2012,5i.
  
Nunca, em hipótese alguma, diário, se pode esperar muito de um lugar que não existe.
   
Apesar de tudo, o fato que circula de boca em boca pela Terra Média Aritmética é que, nesse pequeno burgo, de apenas quatro bilhões de habitantes, havia, no mais badalado e exposto dos centros comerciais, uma taverna. De Stormtroopers.
      
Apesar da localização privilegiada, o local era muito mal frequentado. Só gente feia e desajustada, uns metidos a gostosões e inteligentes que passavam ali cada hora de seu dia, parando ocasionalmente para comer, dormir, ou levantar alguns pesos. Havia até um bobão que vivia se casando, depois de umas doses de whisky. Não duravam muito os relacionamentos, não além dos minutos seguintes. Uma ou outra dividia a garrafa de bebida por um dia ou dois.
    
Aquele prédio mal cuidado e encardido era comandado por um ruivo alto, metido a viking, que pesava mais de 150 quilos (apesar de as más línguas garantirem que era na verdade um oriental pálido sob um encantamento de Narciso). Estava sempre atrás do balcão, à espreita. Vez ou outra sentava-se em uma mesa, trocava algumas palavras, e, só quando semeava alguma contenda, saía, e se escondia de volta sob sua máscara branca.
     
Diariamente, outros infelizes se juntavam à eles. Alguns nunca falavam palavra alguma, permanecendo sentados e solitários com suas bebidas. Outros jamais tomavam um gole do néctar envenenado que circulava pela taverna. Mas, independente de tudo, sempre havia algum bobo pra, em meio à qualquer quase silêncio, levantar seu copo e propor um brinde. O local inteiro vinha abaixo em meio aos gritos.
      
E como você bem sabe, diário, um desses bobos vem a ser essa que vos fala.
     
“Eu nem me lembro da última vez que acordei em casa!” Mais uma série de vozes, masculinas, femininas, grossas e finas, disparavam suas falas em línguas tão esdrúxulas que nem mesmo o mais viajado dos irlandeses do Noroeste entenderia.
     
Pelas janelas permanentemente semicerradas entrava pouca luz, e a iluminação interior era das mais precárias. Depois de tanto tempo no escuro, no entanto, já havíamos nos acostumado àquele ambiente nada convidativo. 
     
Pra ser sincera, eu também não me lembro da última vez que pisei fora daquele salão mal cheiroso.
Eu observava, às vezes, algumas sombras discretas nas paredes sujas de lama (fiz alguns desenhos delas até). Pareciam-se com árvores, prédios, carros e pessoas. Eram a ideia mais concreta que eu ainda tinha do que ocorria no exterior, mas não passavam disso – uma impressão. Formavam o skyline do mundo externo dentro da nossa bolha de sabão suja. Algumas vezes – algumas vezes só – eu me pegava querendo saber como estariam as coisas fora dali.
     
“FINISH HIM!”, alguém gritava. Sempre, sempre havia alguém para gritar alto o suficiente para me tirar dos meus pensamentos.
     
– Você é muito maldosa por ficar pensando nessas coisas! um gole de bebida Pura maldade o seu coração!
      
– Me respeitem, ok. Amo cada um de vocês, por mais feios que sejam. É só que, bem, o mundo não é só o que temos aqui!
     
– Claro que é! –Era bom contar com a certeza de uma (ou várias) garota por perto – E, caso um dia deixe de ser, a gente simplesmente se muda pra uma taverna maior.
     
– EI, EU OUVI ISSO, OK – De trás do balcão, Taberneiro Sensei limpava alguns copos – Eu abandonei três outras tavernas pra cuidar exclusivamente de vocês, me abandonem e sintam a fúria irlandesa!
      
Nesse exato momento, uma mesa especialmente longa discutia os últimos resultados das lutas dos encanadores italianos para conquistarem o direito de resgatarem suas princesas mensalmente. Algum novato, um garotinho, soltou uma besteira. Claro que não foi perdoado.
      
– Então você acha que eles não têm direito ao décimo terceiro resgate? É isso mesmo? – Um pirata magrelo se levantou – Você está realmente indo contra nossas ideias?
      
– B-bom, eu achei que i-isso e-era uma… Discussão. – o garotinho se encolheu na cadeira.
     
– É uma discussão, mas essa opinião não é válida. – Deu dois passos pra trás – KAMEHAMEHA! – um jato de energia saiu do magricela e atingiu o novato em cheio. O garoto voou pela sala, até atravessar e arrancar a porta da taverna.
    
     
Um minuto de silêncio, enquanto a luz do dia entrava por aquele enorme buraco recém-aberto. Ninguém sabia muito bem o que dizer.
    
     
Mais silêncio. Ninguém nem se preocupou com o garoto.
      
Senti que meus amigos me observavam, questionando-me com os olhos. Os ares se renovavam, e cheiravam à chuva, não à mofo. Minhas mãos começaram a tremer. Lord Taverneiro me observava. Era agora, agora ou nunca. Podia me arrepender, mas precisava ser corajosa. Sempre poderia voltar mais tarde. Ou não. Ou sim, claro. Eles me amam. Mas taverneiros não amam, já dizia minha mãe. Espera, por quê estou descrevendo todos esses pensamentos?
         
Apenas fechei os olhos e saí correndo.
     
Escutei alguns bobões gritando “NÃO, NÃO VÁ! FIQUE!”, mas segui em frente. E, quando caí em mim, já estava do lado de fora. Olhei pra trás. Dúzias de cabeças ruivas se amontoavam nas janelas. Fui e dei uma volta, como era bom esticar as pernas! Passeei por umas ruas, provei comida fresca, conversei com gente limpa e até tomei eu mesma um banho. Vesti roupas confortáveis e bonitas, parecia até outra pessoa.
        
Fiquei assim por algum tempo. Reencontrei-me com os amigos que havia deixado para trás. Perguntei sobre as famílias, o colégio, o que andavam fazendo de mais legal. Dormia às 23h todos os dias, para acordar pontualmente às 9h. Trocava os caminhos que fazia pelo burgo para evitar os que me conduziriam de volta àquela taverna suja, mal amada e caótica. Queria uma vida normal. Uma vida que não fosse regada à whisky e conversas interessantes sobre coisas pouco ou nada úteis nessa vida altamente fútil.
       
     
Mas você sabe, diário, que não é tão legal assim ser normal. Era óbvio que isso iria acontecer, me pergunto como não previ esse resultado desgracento.
        
      
Caminhava e me perguntava como quatro bilhões de pessoas conseguiam viver vidas tão sem emoção, sem diversão. Qual era mesmo a graça das roupas limpas? Elas se sujavam novamente, ora essa! E qual o problema em defender os direitos dos ouriços azuis? Nem era tão divertido assim ver as árvores e os prédios de perto. As sombras que eles produziam eram infinitamente mais bonitas, mesmo que as paredes fossem sujas. E aquelas pessoas bem arrumadas e belas, que tomavam banhos diários, não eram, juntas, mais legais que algum daqueles feios de cabelo mofado, individualmente.
         
Voltei correndo para a taverna. A entrada havia sido consertada. Parei em frente à sua placa – “Feios & Chatos”. Respirei fundo duas vezes e olhei pra trás mais uma vez.
       
Dane-se esse mundo exterior, eu queria voltar pra lá.
        
Suspirei e então, abri a porta.