Alegoria da Taverna – Capítulo II

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– Não aguentei e voltei pra vocês! – Irrompi pela porta. 
     

Silêncio.
      
Por parte de todos.
     
Até de mim.
     
O lugar estava limpo. Limpo. Brilhando, parecia novo. Não fossem as caras familiares, diário, eu com certeza pensaria que havia entrado no lugar errado (apesar dos rostos lavados e dos cabelos desinfetados). Ana, Pedro, Marcelo, Johnny, Caio, Ariane, Guilherme, Gabriel, Matheus, João, Jaime… 
     
Foi então que eu tomei um grande susto. E entendi o que havia ocorrido.
      
Atrás do balcão, sujando de gordura as beiradas de um copo, estava Lord Taberneiro. Ou pelo menos o que eu julguei que fosse, porque nunca havia visto por aqui aquele oriental pálido e bem mais magro que o viking de 150 quilos que costumava ocupar aquele lugar.
      
– Passou um mago por aqui. – Minha voz desanimada só não estava pior que a expressão no rosto dos que confirmaram minha afirmação. Eu ainda me lembrava do que havia acontecido da última vez que um mago passara por ali (um dia te dou mais detalhes, diário, porque a história é beeem longa. E grudenta. E escorregadia.).
       
– Pior que isso, passou um mago esperto por aqui. Ao contrário da última vez. – Apesar da expressão de compaixão em seu rosto, era óbvio para todos que a maior vontade do Nasser era rir da situação inteira. – Ele farejou cada encantamento do local, e deu um jeito de danar com todos.
       
– Todos. – Eu não podia culpa-lo. Afinal de contas, devia ser bastante legal ter 2,5 metros de altura e barba ruiva. – Mas isso não tira o peso de você ter ido embora por seis semanas.
        
– Bom, sobre isso… – Coloquei as mãos na cabeça, pronta para responder, quando escutei uma voz imeditamente atrás de mim, provavelmente entrando pela porta que havia esquecido aberta.
               
– Nossa, mas está cada vez mais difícil encontrar suor frio desidratado por esse burgo, viu? Depois não querem que os magos entrem em grev… – Me virei, e acabei me deparando com uma figura estranhíssima, diário. Era baixinho, de bochechas e nariz vermelhos, e trajava uma veste comprida e brilhante, incrivelmente afetada. – Mas o que temos aqui, pra quê tanto silêncio? – Me encarou por um instante, olhando por cima dos óculos – E você, quem seria? Mais uma novata?
                 
– Sou novata coisa nenhuma, me respeite, Merlin do Paraguai. Só estava de férias. – Um segundo de arrependimento. Estava lidando com um mago esperto dessa vez. – Digo, acho que não nos conhecemos ainda.
                     
Todos ao meu redor seguravam a respiração. Alguns mais engraçadinhos já estavam fazendo sinais de morte e outras indelicadezas. Alguém me apontou a placa de boas-vindas da taverna, que havia sido reformada/limpa e atualizada: “número de membros mortos: 35”. Quando saí, eram 12 só.
                       
(E só uns 5 ou 6 eram culpa minha. Diretamente.)
                   
O silêncio constrangedor permanecia, e eu procurava uma máscara de Trooper onde pudesse enfiar a cara. O mago não fazia qualquer menção a falar ou se movimentar. Entrei em pânico.
                    
– Pois bem então, prazer querida. Sou Damian. E você, quem seria?
              
– Luisa, senhor. Prazer em conhece-lo. Estavam me contando coisas ótimas sobre o senhor. 
          
– Ah, claro que teriam coisas ótimas sobre mim! – Suspirou – Ouvi coisas sobre a senhorita  
       
– Ah. – Virei meus olhos em direção ao canto onde se amontoavam meus companheiros mais chegados. Uns desviaram o olhar. Desgraçados.
            
– De qualquer forma, sinto lhe informar que, por mais agradável que seja para mim sua companhia, você não pode mais entrar e-barra-ou permanecer nesta Taverna, pois agora está sob meu poder, literalmente, e não me sinto confortável com a presença de uma pessoa como você. Passar bem, queridinha.
                      
Arregalei os olhos. Sem ver, minhas mãos pegaram fogo.
                          
– THOR DO CÉU, que é isso menina? – O mago se arregaçou todo, e pulou no colo do bêbado mais próximo.
                          
– Desculpa, vossa Magia, me irritei um pouquinho – Caio e Gabriel sussurraram “Do mal!” ao longe. – Apesar de tudo, preciso lhe informar que não sairei daqui. Não mais.
                        
Sua sobrancelha esquerda se ergueu, e ele voou dos braços tremeliquentos que o seguravam. Parou em frente a mim e começou a crescer. E crescia, diário. Cresceu muito, e me olhava fundo nos olhos. Tremi as bases. Olhei pros lados, em busca de amigos, mas não achei nenhum. Nem o meu companheiro de garrafa. Traidores. 
                                 
Meus olhos incrivelmente arregalados não são nem passíveis de descrição. No entanto, após aquela demonstração de grandeza, voltou ao seu tamanho normal. Mas ainda me encarava friamente.
                         
– OK então, senhorita. Parece que entramos em um empecilho aqui. Porque, há cinco semanas atrás, isso aqui era só um lugar barulhento e fedorento, comandado por um taberneiro sob um encantamento mais fraco que guaraná Dolly. Eu renovei esse lugar. E decidi que não quero você aqui.
                           
– Opa, opa, opa. Isso não te dá o direito de mandar e desmandar aqui. A Irlanda do Noroeste é um país imaginário livre e reconhecido por todos os outros, e não estamos sob as leis dos magos. – Finalmente alguém havia sido homem o suficiente para enfrentar aquele baixinho xiliquento. E não, não foi um homem de verdade. Foi a Ana.
                         
– Ah, então temos duas mocinhas destemidas aqui? Ótimo! Se aparecer mais uma, a gente inventa um jogo! – Batia palmas e dava pulinhos.
                          
– Jogo? Que tipo de jogo? – Já éramos três na linha de frente. Ariane havia se juntado a nós. Aos poucos, alguns garotos davam alguns passos tímidos. Uns, mais ávidos, acabaram chegando mais rápido. A palavra “jogo” havia movimentado a taverna.
                                   
– Nossa, mas é só falar em jogo que to-do mundo resolve brincar? Mua-há-há-há! Devia ter pensado nisso antes! 
                        
A essa altura, diário, todos os bêbados e não-tão-bêbados haviam se aglomerado ao nosso redor. Eu quase podia sentir o cheiro de mofo que emanava dos nossos corações em sintonia. E sim, isso é tão meloso quanto… Mel. Mas foi bem isso que ocorreu.
                                 
– OK então, se é jogo que vocês querem, é jogo que vocês terão. – Uma nuvem de fumaça branca começou a emanar de seus olhos, e encheu a taverna. Ninguém conseguia enxergar qualquer coisa. Lord Komatsu gritou que fôssemos dando as mãos, e foi bem a tempo. Antes que conseguíssemos piscar, o chão sob nossos pés sumiu, e caímos livremente por uns 200 metros. Parecia que não pararíamos, até que uma Força muito densa nos segurou, boiando no ar. Estava tudo escuro, mas era possível ainda sentir a presença da fumaça.
                                
– Idoso, o quê que aconteceu? Luiç, é na sua cabeça que eu estou pisando? – Jaime falava com voz extremamente arrastada.                  
                         
Um burburinho se instaurou. Nossa situação não estava das melhores, e era culpa minha. Mais uma vez. Fiquei angustiada, diário, porque daquela vez as coisas podiam dar errado de verdade. Ia começar a chorar, mas minhas pretensões foram interrompidas por uma luz vermelha piscante, que iluminou o ambiente e nos fez perceber melhor o lugar em que estávamos. 
                          
– Isso é uma… Floresta? – Antes que pudesse me virar pra ver a quem pertencia a voz confusa, fomos todos silenciados por um som superior.
                               
– SILÊNCIO, FEDORENTOS DE ALMA. – Damian surgiu em meio à luz vermelha enevoada de branco, em sua forma gigantesca. Segurava um cogumelo vermelho meio comido nas mãos. – Se querem um jogo, terão um jogo. Mas é meu jogo, minhas regras. Se ganharem, podem voltar em paz pra sua taverna. E eu ficarei aqui no meu inferno colorido.
                          
– E se nós perdermos? – Lord Komatsu retomava o controle da situação.
                  
– Aí vocês morrem! Divertido, não?
                         
Cobri meu rosto com as mãos, fugindo dos olhares atravessados. Mas, mesmo boiando sobre uma floresta esquisita, senti algumas mãos e pés amigos tentando me consolar. Agora já não havia mais jeito.
                                 
– Bom, agora às regras do jogo. Olhem pra baixo e contemplem minha floresta. RÁPIDO TODOS! – Nos viramos como podíamos para obedecê-lo. – Ótimo. Então, vou dividi-los em grupos. Basicamente, o que devem fazer é atravessar a floresta, chegando vivos até o meu castelo – Ele apontava com o dedo branquelo um construção ao longe. Muito longe. – Serei um pouco justo e darei pra vocês mapa e mochila. Agora, não me responsabilizo por qualquer dano que a floresta possa lhes causar no meio do caminho.
                                 
– Como assim?? – Antes mesmo que ele pudesse responder, soltou uma risada maligna. A força que nos segurava se dissipou, e estávamos todos em queda novamente. Porém, estando prestes a alcançar o chão, um portal invisível nos engoliu. Reaparecemos em chão firme, e separados. Olhei ao meu redor: Ana, Willians, Nasser, Ariane, Johnny, Gabriel, Marcelo, Paulino e Lord Komatsu. Usávamos umas roupas feias, verde musgo, que quase nos misturavam à grama. Não sabíamos bem o que fazer.
                            
– ANDEM, GENTINHA MEDIEVAL, NÃO TENHO O DIA INTEIRO! – Podíamos ver mago Damian em meio às nuvens, sentado em um trono de ferro. – Se enrolarem assim, boto a Terra Média Aritmética inteira pra assisti-los, hein!
                         
Suspiramos profundamente. Concordamos em começar dando uma olhada no mapa, mas era tão difícil de compreender que deixamos a tarefa para os líderes do grupo – e da taverna. Uns trinta minutos após muito drama, obtiveram algum entendimento.
                         
– E então? Pra que lado vamos? – Ariane parecia ser a mais impaciente.
                        
– Bem, parece que temos que começar por ali – Nasser apontava para a direita. – Vamos, seus feios. – Invariavelmente, começamos a segui-lo. Ana, porém, havia ficado pra trás.
                         
– Que foi, Ana? Tá tudo bem? – Ela gesticulava de forma nervosa, e piscava incessantemente. Após algum esforço, no entanto, compreendi o que queria dizer.
                   
– Pessoal… Temos um problema. – O resto do grupo, ligeiramente à nossa frente, se virou.
                 
– O quê aconteceu?
             
– A Ana não consegue falar.

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