31 Devocionais #22 – Sobre Jesus e Identidade, no Natal

 

O Natal é lindo na Alemanha.

     Minha avó materna está internada há alguns dias, então esse ano não tivemos celebração de Natal. A viagem de 12 dias foi cortada no 2º, todo mundo se reorganizou pra estar aqui e vê-la, cuidar como podiam. Ainda não sabemos se ela passa dessa temporada festiva. Muitas horas na recepção do hospital, ou sozinha em casa, pensando na vida e na morte. Fui tirar um tempo pra ler os evangelhos. Queria pensar em Jesus.
    
     No meu coração eu sempre comemoro Natal e Páscoa meio que do mesmo jeito. Acho impossível falar do nascimento de Jesus sem pensar na morte dEle e vice-versa. E pensar em tudo que Jesus É e fez me levou a refletir sobre Sua identidade.
    
     A passagem do menino Jesus no templo (Lucas 2:41-52) mostra que Ele já bem sabia quem era, aos 12 anos. Aliás, desde quando, será? Talvez desde os 10? 8? Uma criança, crescendo sabendo que caminhava para a morte, a morte mais importante da humanidade. Não vamos todos morrer? Mas Ele sabia o dia, a hora. Ele conhecia o cálice do qual teria que tomar, a missão que teria que cumprir. E não havia nEle medo, porque o perfeito Amor lança fora todo medo, e Ele mesmo É o Amor. Viveu uma vida impecável. Em tudo foi tentado, porém sem pecar. Amou a todos, mesmo conhecendo os corações e discernindo os pensamentos. Foi manso e humilde, mesmo sendo Ele o Verbo por cujo intermédio todas as coisas foram feitas.
    
     “NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.” (Jo 1:4-5). Jesus viveu intensamente a vida que Lhe foi proposta, e viveu plenamente quem Ele era. Seu propósito era mudar toda a história da humanidade, e estabelecer o padrão pelo qual havíamos de viver. A pessoa mais importante de todas foi chamado por Isaías de “O Servo do Senhor”. Qual é a sua identidade, mesmo?
    
     É muito fácil esquecer quem você realmente é diante da grandeza de quem É Jesus – o Amor dEle ora nos exalta, ora nos constrange. Ficamos divididos entre sermos chamados para fazer obras maiores que a dEle, mas sabendo que buscaremos pra sempre ser como Ele, e nunca conseguiremos. Envergonhamo-nos quando Ele ama as coisas que mais odiamos em nós. Somos realeza e co-herdeiros com Ele, através da Sua morte de Cruz. 
     
     A intensidade das minhas emoções faz com que minha alma fique permanentemente grudada à multidão de Sentimentos dEle por mim. Chamamos de carrossel porque subimos e descemos o tempo todo, mas o espírito busca constância. É no mais interno que fica a resposta pras nossas ansiedades e desesperos, porque a alma só se cala ante um espírito que fale mais alto. Não há 1 só dia em que meu coração não clame desesperado e procure em si algum motivo para estar aqui – mas o motivo não está em mim, está nEle.
    
     NEle vivemos, nos movemos, e existimos, porque tudo de bom que encontramos em nós é dEle, por Ele e para Ele. Por amor dEle, e com Ele, enfrentamos a morte todos os dias, para que achemos vida em abundância. Não existe nada que possa me convencer nesse mundo de que sou digna de amor, quer de Jesus, quer dos homens, mas o Amor dEle já está selado. E eu selo o meu Amor dedicando tudo que eu fizer ao Seu Nome. Ele tem meu coração, e toda a minha afeição. Toda a minha confiança. E, se algo pode me motivar a continuar, é a certeza de que eu também sou fruto do Seu trabalho, e, em mim, Ele se alegrará.
     

Dia de Sono


     Hoje acordei cedo, contra a minha vontade. Havia muito a ser feito. Tantos desenhos, tantos trabalhos, tantos textos. Apressei-me em terminar o que de imediato era necessário, para que pudesse deitar-me novamente.
    
     Dormi sem nem perceber.
    
     Sonhei que, sentada em uma sala, pensava sobre a vida.
    
     Está chegando novamente aquela época do ano. Aquela época em que ele se encerra, pra que outro comece.
    
     Todo ano ocorre a mesma coisa. Dúzias de expectativas, centenas de ideias e planos. Doze meses se passam e nada muda. Minha vida continua basicamente a mesma coisa. Engano minha consciência com as mesmas meias verdades e descaradamente minto pro meu coração, dizendo que tudo ficará bem. Ah, vida curiosa essa. Vivemos em ciclos de doze meses. Acreditamos que neles está contida toda a magia da existência.
    
     2012 talvez esteja sendo, de longe, o melhor ano da minha vida (desde 1995). Amadureci a níveis que nunca julguei possíveis. Conheci mais pessoas que jamais havia conhecido dentro de um só ciclo. Algumas terríveis. A maioria incrível, por sorte.
    
     Apesar de tanta positividade, duvido que em um só ano meu coração tenha dado tantas voltas dentro do meu peito, ou tenha corrido tanto atrás do próprio rabo. O maior ensinamento do ano? Pro inferno com a superficialidade e as aparências. Você mesma esconde tanto por trás da sua casca (um pouco mais gordinha que no ano anterior). Dezessete anos depois, finalmente entendeu o quão pouco ela representa.
    
     Fiz uma amiga imaginária também. Mais uma, na verdade.
    
     Estou noiva da Arquitetura. Caso-me em breve.
      
      (Nesse momento, a sala, até então vazia, começou a encher-se de sons. Aos poucos, tomava forma ao meu redor um jantar de Natal de filme estadunidense. Várias pessoas passavam por mim. Algumas me atravessavam. Um senhor de barba branca foi o único a me notar, e a perguntar se eu tinha fome. Disse que sim. Ele sumiu. Todo o resto sumiu também.).
    
     Continuei pensando.
    
     Passeei por lojas decoradas pro Natal enquanto mal havia terminado o primeiro período da faculdade. A maioria acharia isso um saco. Talvez um paradoxo sobre nossa existência atrasada. Eu sento e me agradeço pela greve.
    
     A greve foi bondosa em haver nos escolhido, em haver escolhido 2012. Meu 2012 não estaria sendo tão bom não fosse por ela.
      
      (O vazio da sala começou a tomar formas de uma construção quase medieval. Parecia uma taverna. Vários brasileiros vestidos como vikings passaram por mim. Um japonês magrelo e uma linda de olhos grandes vieram até mim e disseram que já havia passado da minha hora de dormir. Cochilei em sonho. Acordei na vida real).
    
     Sentei-me na cama e enrolei-me nas cobertas – apesar de não estar tão frio assim; estava com fome. Eram 18h. Estava dormindo desde as 11h30. Olhei ao meu redor, procurando os contornos da taverna, e qualquer rosto familiar. Apenas paredes brancas e os móveis do meu quarto. Não gosto de bebidas alcoólicas, mas naquele momento aceitaria qualquer coisa que viesse de lá. Sentia falta.
    
     Tentei pegar no sono mais uma vez, mas já não estava mais tão cansada. Escutei o barulho da televisão ligada na sala. Uma propaganda de Natal, com músicas típicas ao fundo.
    
     A época mais bonita do ano.
    
     Filosofei sobre as renas e até fingi que era um elfo. Convidei meus amigos imaginários a se sentarem comigo na cama. Contei pra eles sobre meu sonho. E sobre meu coração. Falei de todas as pessoas que haviam ido e voltado na minha vida. Abraçaram-me. Disse-lhes que estava encantada. Perguntaram-me o que havia me encantado. Tive medo de admitir para mim mesma, então não quis contar para eles. Mas eles sabiam. Eram parte de mim.
    
     Brincamos de cantar músicas de The Rocky Horror Picture Show, até que caíram no sono. Eu permanecia acordada. Ao fundo, a canção natalina continuava tocando.
    
     Foi quando percebi que ainda estava sonhando.
    
     Um sonho dentro de outro sonho.
    
     Fiquei presa lá por várias horas ainda.
    
     Teria ficado por ainda mais tempo. Porém, tinha um compromisso importante às 8h, no dia seguinte. Não podia perdê-lo.    
    
     Não podia perdê-lo.