De novo, madrugada.

     Eu sempre vi o Sol nascer. Desde pequena, mamãe gostava de madrugar, e eu a acompanhava. Também sempre vi as estrelas em seu momento mais brilhante – na madrugada mais densa, das luzes mais apagadas. O escritório de papai sempre foi em casa, e eu sempre o acompanhava em suas muitas madrugadas de trabalho.

     O começo da manhã é sempre mais solitário. Poucas pessoas acordadas, a maioria fazendo café, desligando despertadores, sob as cobertas. Trabalhadores nos ônibus, o Sol surgindo no cantinho da minha janela. Minha irmã dormindo, quase desmaiada. Mamãe vindo até mim “Já está acordada, pirulita?”. Sempre os melhores programas de tevê. A madrugada é silenciosa, calma. Só os sons do mouse. Eu desenhava o tempo inteiro, bons tempos de pixel art. Papai escutava blues e Sérgio Lopes. Às vezes me mostrava algo que estava fazendo, ou entrava no The Die Line e me convidava pra fazer uma pausa. Eu permanecia ali até que mamãe acordasse e me mandasse ir pra cama. Às vezes eu ia, às vezes não.

     Os tempos passaram e a escola se intensificou. Dormir tornou-se imprescindível. Fiquei por muitos anos vivendo uma vida de horários medíocres, sofrendo com alguma insônia por bastante tempo. Vivia das 5h até as 23h. 22h era incrivelmente tarde. Isso, claro, até que entrei na faculdade. Eu posso ser exagerada, mas existe algo de muito bonito, apesar de deprimente, em ficar tantas noites acordada, seja em casa ou na universidade. As madrugadas e o mais primitivo das manhãs são próprias de quem as presencia, em silêncio ou fazendo muito barulho. Eu soube que algo realmente havia mudado quando 23h tornou-se cedo. Significava que eu ainda tinha toda a madrugada pela frente até que meu prazo de serviço se encerrasse.

     Parei de ser acompanhante das madrugadas, tornei-me dona delas. Tornei-me dona da cadeira em que me sento, e de onde assisto o Sol se pôr e, várias horas depois, na mesma posição, seu ressurgimento. Minha sobrevivência momentânea passou a depender disso. Prazos, datas, entregas, trabalhos, maquetes, seminários, projetos, e a madrugada como a excelência do processo. Meu melhor momento. Já passou da meia noite e ainda parecem oito. Da manhã ou da noite. Sempre parece bom e certo viver meio nas sombras. Fazer acontecer quando as pessoas estão dormindo.

     Essa semana, vi três vezes o Sol nascer de uma janela que não pertencia nem a mim, nem a nenhuma das outras pessoas que estavam comigo. Minha mesa estava bagunçada, meus olhos, inchados, e meus dedos doíam do desenho. Desliguei uma das dezenas de músicas que havia escutado em todas aquelas horas e observei tudo que estava ao meu redor. Mais um amanhecer. Mais um dia da minha vida. Não sua, não nossa, não deles. Minha. Mesmo que mamãe ainda vá me buscar às 7h, na universidade. Mesmo que ela faça um lanche para que eu leve. Mesmo que, quando eu vá pra casa, encontre-a, e papai, ainda trabalhando pra que paguem minhas contas também. Estou construindo minha história, num lugar que é só meu. Com um povo que é só meu, e ideias que são só minhas, e motivos que são só meus; estou construindo minha história, um amanhecer por vez.

Uma pequena reflexão acerca do processo de apaixonar-se, em constante renovação.


     É como um raio, ou como uma doença. Demora mais ou menos para invadir e se alastrar. Vai tirando minha força de vontade, e qualquer outra coisa que pudesse posicionar-se contra. Como em uma folha velha e amassada, desenha-se uma história, conforme a caneta perfura os pontos mais puídos.
É um tipo de dor, de alegria, que faz falta. Surge num belo dia, numa terrível noite. Vem num flash. Numa gentileza. Numa besteira dita. Num sorriso mal calculado. Chega por pouco, por muito pouco. Por muito. Por demais. Entra por todos os buracos deste meu coração. Como uma peneira gasta, sempre pronta pra trabalhar mais uma vez.
     
     “Caí dentro de amor com você”
     
     E cansa. Cansa. Deixar-se levar, cansa. Crer, descrer. Brilhar, secar, escorrer, desfazer-se. Tanta coisa se monta e se desmonta. Se monstra. Cegueira. Tudo parece tão lindo. Tudo parece tão feio. Todas as pessoas lindas. Todas as coisas feias. Uma solidão. Encantar-se e construir paredes pra proteger a magia. Que magia? Que atravessa a alvenaria, o concreto. Ai, meu Deus. Ai, ai. Quantos ais.
     
     Está feito o estrago.
     

     Vai, bate e volta; explode no meu peito, e não me deixa mais dormir.

    
   

À Fantasia


     Eu nem sequer havia notado que hoje também era à fantasia. Havia tanto tempo que eu ia trocando entre uma e outra, que todas aquelas peles que eu tentei assumir pareciam haver se tornado minhas de fato.
     
     Eram nove da tarde e eu já estava feliz e saltitante. Às vezes, um pouco ríspida e maledicente. Vez ou outra, doce e inocente. É engraçado como, apesar de inconscientemente agindo, eu sei dizer onde adquiri cada uma dessas facetas. Finjo-me de desentendida aos amigos quando me questionam, porém, é tão grande o medo de mostrar-lhes quem eu realmente sou. O curioso é que, no fundo, nenhuma fantasia realmente esconde quem somos, não por muito tempo, não como eu talvez gostaria. Saber quem são os que realmente me conhecem pode ser reconfortante, ocasionalmente, mas não muito. Tenho medo de que meu real ser os afaste. Amigos sempre me foram tão caros, tão caros. Não posso sair gastando-os como se fossem qualquer coisa que ganhei numa esquina. É necessário manter a cautela, claro.
     
     Essas pequenas mentiras que eu me conto, diariamente, para que possa enganar minha consciência mais tranquilamente, têm me sufocado. Tenho buscado algo que me convença de que não estou errada, mas tem sido uma busca infrutífera. A verdade é muito clara, não estou satisfeita com o que sou, ou com o que tenho sido. Tento fugir da minha integridade. Quero impressionar as pessoas ao meu redor – a maldita necessidade de atenção, sempre. Piada ou não, estou escrevendo e derramando meu mais íntimo sobre este teclado, totalmente ciente de que meus textos revelam mais sobre mim do que eu talvez saiba.  Releio-os constantemente para me atualizar de algumas situações internas que me passam despercebidas, entre meus pequenos disfarces do dia-a-dia. Estou triste. Estou discordando de muitas coisas. Estou desacreditada do futuro, e frustrada. Preciso ser mais positiva, mas de verdade. Infelizmente, só a máscara tem conseguido sorrir. Tentei viver de pequena alegria em pequena alegria, mas não funcionou. Alimentou a imagem. O fundo permanece vazio, tão vazio quanto tem estado desde que fui deixada sozinha pela primeira vez.
     
     O mais curioso talvez seja que nenhuma das fantasias que eu visto sequer se aproxima da pessoa que eu realmente gostaria de ser. Meiga, discreta, silenciosa, respeitável, bondosa, calma e compreensiva. Sou barulhenta e reclamona. Tento forçar uma personalidade conquistadora, mas ela é tão repulsiva quanto um rato de esgoto seria, caso eu o soltasse entre as pessoas de minha rotina. Às vezes, me pergunto se realmente ainda me lembro do que realmente sou, já que há tanto tenho me prendido àquilo que não sou. Toda essa bagunça, por tão óbvia, comum e compreensível, é extremamente doentia. Por que razão eu sou assim? Por que razão minha personalidade não é outra? E, o pior de tudo – por que não consigo abraçar minha verdadeira essência, melhorando-a, lapidando-a, ao invés de insistir em tentar ser o que penso que seria melhor?
     
     A pior das verdades é que eu não sei a resposta pra qualquer uma dessas questões. Nem sei se jamais as descobrirei. Mas o fato é que eu espero que encontra-las não importe para que eu mude. Para que eu pare de me importar com o que todas as vozes ao meu redor, e dentro de mim, me dizem. Sei que posso ser verdadeira, boa para outros, e para mim. Sei que posso acordar, sorrir ao me olhar no espelho, e continuar sorrindo conforme saia na rua, e veja pessoas mais bonitas ou legais que eu, sem que isso faça com que eu me sinta culpada. Diamantes podem se parecer com vidro quebrado, mas eu prefiro ser o mais valioso. E, no fundo, eu acredito que seja. Só preciso encontrar a garota perdida e desnorteada dentro de mim, clamando por liberdade.
     

Ovo


Eu e meus amigos sempre dizemos que Uberlândia é um ovo. Com cerca de 700 mil habitantes, uma universidade federal, e pouquíssimas opções à vida noturna (quase todas concentradas numa mesma área), o pessoal numa mesma faixa etária acaba sempre se conhecendo, ainda que a maioria só “de vista”. Pois bem, numa manifestação que reuniria cerca de 35 mil pessoas desta cidade – cerca de 5% da população – , essa característica de cidade pequena se mostrou presente. Conforme seguíamos pelo nosso percurso, eu via conhecidos do Ensino Fundamental, pessoas que sempre vejo perto do meu bloco, e nos eventos que meu curso promove, amigos passando ao longe, colegas de infância que não via havia tempos, até aquela pessoal legal que, mesmo vivendo na mesma cidade, eu acabo conhecendo mais só pela internet.
     
Porém, mais importante do que as coisas habituais que eu vi no Grande Ato Pacífico pela Redução das Tarifas de ônibus em Uberlândia, são as coisas que eu nunca havia visto, ou via raramente – só, talvez, em fotos, vídeos, e sonhos. Vi amigos e inimigos acreditando juntos. Vi gente que não fazia ideia do motivo de estar ali, acreditando. Aturei e até aproveitei a música da mal-dita Charanga, bateria das Engenharias da UFU. Gritei e repeti, com sinceridade, apenas as coisas nas quais eu acreditava. Vi mais gente de verde e amarelo que em dias de jogo da Copa. Presenciei a maior reunião de coxinhas da história dos estereótipos irritantes. Catraca livre – andei de ônibus, e não paguei por isso. Vi minha mãe reviver seus dias de estudante ativista, pedindo aos quatro ventos pela educação, e por melhorias à sua classe de professores. Subi no viaduto que atrasou minhas idas à escola por quase um ano, e, de lá, vislumbrei o mar de gente que vinha atrás de nós. Muita gente. Bem mais que eu achei que apareceria. Bem mais que minha cidade ovo costuma transparecer que possui. Bem mais que meu coração emotivo estaria preparado para ver.
     
Vi também gente defendendo causa torta, desejando coisas erradas, lutando de uma forma infrutífera. Nossa cultura da ofensa demonstrou-se presente mais uma vez. E quanta gente sem graça copiando texto de outros cartazes!… Caramba, pessoal. Outra grande reunião de máscaras do Guy Fawkes, pedindo que não houvesse violência, ou que não invadissem/depredassem a prefeitura. Ah, e os pequenos anarcodoidos, carregando um A gigante na testa e nas costas, explodindo bombinhas em meio à muvucas, e dentro do túnel sob nossos pés. Psicologia das massas – você sequer sabe o que está ocorrendo, mas, de repente, começam a correr desesperadamente, gritando, até que um som altíssimo, abafado, e muito próximo, irrompe pelos ares. Um susto percorre o corpo, seguido por um momento de extrema raiva. Faz parte, certo? Discutir com a mãe cansada, pedindo pra ficar mais um pouquinho. Perder-se dos amigos. Parar e refletir enquanto lê alguns cartazes com mensagens realmente pertinentes. Recitar trechos de literatura da decadência enquanto passantes com mãos faustosas passam em meio à rua em derredor, tomada por um ruído incomum. Questionei-me tantas vezes acerca dos que sempre vejo por aí, e dos que jamais verei novamente. Qual o fundamento disso? Quais são os dados jogados para que se determine quantas vezes cruzaremos os caminhos e as ideias com as pessoas com quem dividimos este espaço urbano?
     
A verdade é que estou de volta à minha casa. Meus pés, pernas, lombar e braços doem. Não paro de pensar nas consequências de tudo isto que tem ocorrido no meu país, país do qual eu constantemente desejo fugir.  Faço a advogada do diabo às vezes, quando defendo o uso de violência em revoluções. Mas isto não é ainda a Revolução. Talvez um ensaio, uma preparação, uma introdução ao processo. Porém, ao mesmo tempo, será que estaria pronta pra uma verdadeira revolução? Um país de 200 milhões pegando fogo, símbolos do poder sendo destruídos, patrimônio do qual aprendo a cuidar na faculdade sendo posto ao chão, governantes sendo arrastados de suas cadeiras, arrancados de suas posições. Mais pessoas morrendo, todas nessa mesma causa. Na verdade, qual causa? Eu quero uma para mim. No momento, o foco está nas tarifas. Mas então, o que mudar primeiro? PEC 37? Bolsas-tudo? Feliciano? Um golpe de estado? Socialismo, Anarquismo? Ou o genérico “lutar contra a corrupção”, o grande monstro que jamais destruiremos sendo pacíficos e tão complacentes com mentiras e manipulações como somos. 
     
Somos, antes de tudo, 200 milhões. Quantos destes foram às ruas? Quantos iriam, caso fosse necessário? Eu iria, quando tudo estivesse mesmo caindo? Quantas perguntas, quantas perguntas. Eu tento me distrair de todas elas, ou fingir que não existem. Eu gosto de momentos de emoção. Gosto dos pequenos atos, ainda que hipócritas, que fazem o coração ferver. Senhoras, debruçadas sobre as janelas de seus apartamentos, sacudindo lençóis brancos, bandeiras, e dançando ao som do nosso som. Cantar nosso belíssimo hino nacional. Verde e amarelo – ah, como eu amo verde e amarelo. Rimas bobas e insistentes. Música pop nacional grudenta – PRE-PARA, QUE AGORA É HORA DE MUDAR A HISTÓRIA não, calma. 
     
No final, somos todos ovelhas sem pastor que não sabem ficar sozinhas. Que não sabem viver sem um ideal, uma ideologia pela qual viver. Ainda estou procurando a verdadeira causa pela qual lutar, a causa que vai iniciar nossa tão sonhada Revolução Brasileira. Por enquanto, manter-me-ei adepta à grande causa da cidade ovo. De qualquer forma, é muito divertido comentar de todas as pessoas lindas que vi ao longo das últimas 8 horas. Eu sinto que, em breve, esse ovo vai se partir, e saberemos se está choco, não fecundado, ou se há um filhote de pássaro pra sair dali. Talvez Uberlândia seja só um pintinho, destinado a tornar-se uma galinha e jamais alçar voo. Ou, talvez, torne-se um grande pássaro, aguardado pelas alturas, voando sobre os montes, por entre as nuvens, junto com o resto do Brasil. E talvez eu me torne também um pássaro, e voe pra longe daqui. Ou fique só em círculos pra sempre no espaço aéreo da cidade em que nasci.
     
   

[só]

No fundo, todo mundo é igualmente solitário. Quando a noite cai, quando os outros morrem, resta um ser, e só. Só o Ser. Só umas lembranças do que as outras pessoas já foram. Só um borrão do que existe à luz do Sol e da Lua. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem pra nós quando fechamos nossos olhos.
     
Dá pra contar com a companhia dos amigos ou de uma música. Da família, ou de um animal irracional. Mas acompanhar não vinga. Dois em um não vinga. Viajar. Grandes grupos. Cidade, estado, país, continente. Nada disso floresce, ou espera pra que veja a Vida passar. Valorizamos tanto a individualidade, o individualismo, o único ser. Qual o sentido em ser, se a morte está à espreita e quase nada do que fomos resta depois que deixamos a superfície, e vamos ser esquecidos no subsolo?  No fundo, todo mundo é igualmente desnecessário.
     
Nunca tive razões pra sofrer pela solidão em um Dia dos Namorados. Mas sempre tive razões pra sofrer pela solidão de todos os outros dias. De todos os anos que vivi até agora. De todo esse buraco que me consome, ainda que eu agora tenha gentes com quem dividir as frustrações. Mesmo assim. Quando a noite cai, conforme os outros morram, restarei eu, só. Só eu. Só umas lembranças do que as pessoas ao meu redor são, e já foram. Só um borrão de memória das coisas que eu vejo enquanto há luz. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem quando fechamos os olhos, e encaramos o mais íntimo do vazio da nossa solidão.
   
      

Preterida


Pretérito, passado, deixado,
Mais-que-perfeito recado
Em sombras, sons e limões;
Já foi, não é;
Se foi, se dói.
      
Um pássaro bêbado voa entortado,
E despeja desgraça num tempo passado,
Cheirando a cigarro e açúcar salgado;
Mal veio, já foi;
Se veio, se foi.
     
Quão tarde, quão cedo,
Um frio inesperado;
Meu coração motorizado desligado.
Podia, mas não;
Doente e são.
      
Sumido, chegado, malvado,
Mentido, metido, enrolado;
A Preterida fica no passado!…
Maldita, se cala;
Não diga mais nada.
      
Good bye. Bis bald. Au revoir.
      
      
    

"30 de 18", ou "Por que estou decepcionada comigo mesma"

     Na próxima segunda-feira, dia 1 de Abril de 2013, completam-se 30 dias desde que eu fiz 18 anos. Essa idade mítica, que nos retira bruscamente da infância e nos joga oficialmente pra fase adulta, pertence a mim há um mês comercial. A maioria aguarda ansiosamente pela data; eu oscilei ao longo dos últimos meses. Sinto uma imensa falta de ser criança.

     Como era adiantada no colégio, vivia sob a pressão de “amigos” tratando-me negativamente por “ser criança”, e cobrando de mim comportamentos que não pertenciam a minha idade (e nem à deles). Minha necessidade de estar sempre de acordo com todas as opiniões que as pessoas emitiam acerca do que eu era vs. o que eu devia ser fez com que eu estivesse sempre tentando me adequar à qualquer coisa que parecesse mais legal do que aquilo que eu era. Ironicamente, as pessoas sempre me rejeitaram, mais do que gostaram de mim.

     Aos 2 anos, eu já sabia ler e escrever; escrevia pequenas histórias sobre princesas que salvavam seus príncipes, e as ilustrava com garotinhas de vestido cor de rosa. Meu pai trabalhava com moda, e eu possuía minha própria grife imaginária. Comecei a ler sobre Matemática e Lógica aos sete anos; estudei a Relatividade Especial, pela primeira vez, aos dez. Escutei, desde pequena, que eu poderia ser qualquer coisa que eu quisesse. Que meu futuro seria brilhante; antes dos 18, eu teria alcançado coisas que muitos adultos jamais sonhariam em alcançar. Eu era uma criança prodígio, como diziam. Poderia falar cerca de 5 línguas, poderia ter adiantado mais anos no colégio, poderia ter publicado livros…

     Bem, aqui estou eu, aos 18. Nada disso ocorreu.

     Entrei na universidade aos 16, mas, isso, por si só, não é grande coisa. Permiti que o mundo ao meu redor me freasse, me dissesse que crianças não devem se importar com as coisas que eu amava; permiti-me acreditar que estava numa idade em que nada realmente acontecia, e que a chave era ir em busca da futilidade adolescente das revistas. A culpa não era bem dos outros – cada um exprimia as ideias e valores que lhe eram convenientes. O erro foi meu, ao aceitar, na minha vida, esse desespero por aceitação.

     Desde que me comprometi, em 2011, a postar, neste blog, os textos que escrevia, sempre senti uma vontade muito grande de poder falar sobre minhas frustrações; demorei a fazê-lo por medo da opinião dos outros. Essa vida online que levamos é extremamente medíocre; essa mania de criticar tudo aquilo que o outro faz, apenas pela diversão de vê-los mal, é algo que eu nunca entenderei. Neste momento, publicando este desabafo, estou ciente de que serei julgada, da mesma forma que fui na infância, quando mudei de colégio, e quando entrei na faculdade. Mas a verdade é que ninguém tem nada a ver com isso. Não devemos nos tornar arrogantes e estúpidos apenas pela autenticidade – a boa convivência deve ser priorizada –, mas não faz sentido preocupar-se tanto com o que todos dizem. Às vezes nossos amigos mais próximos nem sempre sabem lidar com nossas ações, por conta dos próprios (pré)conceitos que carregam.

     Hoje, quando me encaro no espelho, vejo apenas coisas que me chateiam – física, emocional e intelectualmente. Mas, talvez, o pior de tudo, seja que eu insista em querer adequar-me à ideia que os outros fazem do que eu deveria ser; mais magra, mais estável, menos frustrada, de cabelo mais comprido, usando roupas diferentes, lendo livros diferentes, falando sobre assuntos que interessam aos outros, e não a mim. De certa forma, é isso que mais me frustra. Entre tudo de bom que já aprendi com as outras pessoas, foram tantas coisas ruins que eu aceitei. A escolha sempre é nossa; a escolha sempre foi minha.  

     Mas não é isso que importa agora. Importa agora que eu queria poder voltar à minha infância, à infância de verdade; não para brincar mais, ou pela alegria de não precisar passar noites em claro projetando, mas para fazer o que eu realmente desejava, o que realmente pulsava no meu coração. As potências não duraram para sempre, como eu sempre pensei que durariam.

     Porém, de nada adianta choramingar agora, já que o tempo não volta, e tudo aquilo que eu poderia ter feito/sido/aprendido antes, será. Convém que eu passe adiante o que a vida me ensinou. Por mais que eu deseje poder voltar, não voltarei; só seguirei em frente agora. Minhas avós morrerão, meus tios e tias morrerão, meus pais morrerão também; um dia, eu também vou morrer. E eu espero muito não ter que, ao 40, aos 60, e aos 80, não sentir a mesma decepção que sinto neste momento.

     Eu espero que eu consiga vencer essa força do Tempo que me faz querer, cada vez menos, mudar alguma coisa nesse mundo.

  (E, aos amigos que certamente pensam em chamar-me, em privado, para censurar meu comportamento por pensarem que me expus demais/fui muito pedante/fui muito orgulhosa/sou muito bobinha: hoje, não).

Photo by Steve Johnson on Unsplash

Cavei um buraco


     Cavei um buraco. Foi de forma discreta, silenciosa. Fiz algum alarde, mas na verdade não deixei claro o que vinha fazendo. Por algum motivo, as pessoas ainda pensam que há muito mais que se possa fazer em um campo vazio, com uma pá em mãos, e qualquer fresta de tempo livre.
      
    A verdade é que nós não somos tão criativos assim sob Sol escaldante, com tão poucas ferramentas e opções disponíveis. Antes que nos demos conta, o buraco está cavado, e já estamos lá dentro, confortavelmente acomodados em posição fetal. Choramos. Faz parte, não é.
     
    Pode demorar um pouco até que encontremos motivação ou meios para escalar as paredes mais ou menos longas do buraco em que estamos. Talvez, no fundo daquele buraco quentinho e aconchegante, haja um tesouro. Ou qualquer coisa do tipo. Talvez lá esteja um recomeço, uma nova oportunidade, uma vontade de sorrir, ou só uma corda, muito simples, mas útil para que saiamos dali. 
     
    Talvez, no fundo, não desejemos abandoná-lo. É confortável se esconder de tudo. Mas a vida continua, e podemos perder mais tempo que necessário remoendo coisas em processo de serem deixadas pra trás.
     
     
     Cavei um buraco, e entrei nele; não pretendo sair tão cedo. Só saio quando encontrar meu tesouro;
       
    
     só saio quando me reencontrar.

    
    

Miau


Um felino diz “miau” quando quer chorar da vida
Mas também mia “miau” pra sorrir; a gata mia
Quando sente falta de sentir carinho; ela mia,
e se enrosca, e graceja, e arrepia; lamu-ria.
Gata mia, chorava e ria; tudo igual;
Tudo igual ela fazia;
    
A felina diz “miau” em qualquer dia da vida;
    
Se na chuva, se no Sol, si dó ré, mi bemol,
Vai tecendo a canção do miado (renovado),
Vai marchando, balançando, caminhando; vai miando.
Vai-se a rua, vai-se a casa, vai caminho; vai miando
A vontade de olhar da janela que se abria,
Janela dos seus olhos de felina.
Felina, arrependida, mia, lamuria;
Pisando sobre as águas que lhe foram chão, um dia.
De pé, mia; não caía;
Mia; fogo.

SemAr


[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever todos os dias, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]
     OtempopassaeeunãovejocomopercotempodevalorfalandocoisasquenãotêmsentidoequenãofazembempramimalguémmeuDeussegureessetempoporqueeuprecisorespirartemmefaltadoartemmefaltadotempoprasentarlerumjornalepensaremquantotemporealmenteaindatenhoàminhafrenteeumerepitoefaloemcoisassemsentidoeavontadederevolucionarvaipassandocomoTempo.