Dia da Consciência Solteira

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     Uma das datas comerciais mais irritantes de todas deve ser o Dia dos Namorados. A piadinha do Dia da Consciência Solteira vem bem a calhar nesse ambiente de imersão na cultura do amor e da paixão que ocupa os shoppings e as mídias na proximidade da data. Este ano, morando em outro país, passei pela experiência de duas celebrações num espaço de tempo de oito meses, entre o 12 de Junho brasileiro e o presente 14 de Fevereiro. Acredito que curta distância e o fato de ter passado a última data acompanhada tenham me deixado mais pensativa que de costume.
     
     Observar tudo que já vivi até agora, do ponto de vista da experiência, me faz perceber como eu permiti que a famosa CARÊNCIA direcionasse minhas escolhas de vida. Relacionamentos que não terminam bem não necessariamente significam que tenham sido experiências ruins, e tudo sempre traz muito aprendizado. Mas, talvez, com um pouco mais de reflexão, muita gente não iria adiante quando fosse o momento de avaliar se era hora ou não de dar um próximo passo. No entanto, situações ideais aos nossos olhos humanos costumam nos convencer de que a vontade de ter alguém com quem viver coisas lindas seja suficiente, sem avaliar o quão sólidas são as bases em que o amor deveria ser construído.
    
     É essa mesma carência que cria tristeza nos corações que estão solitários no dia de hoje. É difícil não se pegar olhando pra janela em silêncio diante das fotos e textos que enchem o feed do instagram e do facebook, ou questionando se a pessoa certa vai chegar, algum dia. E isso é algo realmente muito sério, porque muitas pessoas estão se magoando por aí em troca de ganhar um presente ou ter pra quem falar “Eu te amo!” antes de dormir – e isso não é problema de adolescente. 
    
     Vejo muita gente falando sobre como é bom e importante que os solteiros curtam seu tempo sozinhos, mas vejo pouca gente na verdade entendendo isso na essência. Eu acredito que o ser humano tenha sido criado para estar sempre em pares, em grupos, mas nós somos indivíduos, acima de tudo. Dentro da sua cabeça, ficam só você e Deus. E se você não aprender a se virar do avesso, e se conhecer, e se apreciar, você não pode esperar saber fazer isso pelos outros. Nossa convivência coletiva é aperfeiçoada em nós mesmos, mais do que no coletivo, porque a base dos bons relacionamentos é tratar o outro como você gostaria de ser tratado. 
    
     E do que você gosta mesmo?
     
    

[só]

No fundo, todo mundo é igualmente solitário. Quando a noite cai, quando os outros morrem, resta um ser, e só. Só o Ser. Só umas lembranças do que as outras pessoas já foram. Só um borrão do que existe à luz do Sol e da Lua. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem pra nós quando fechamos nossos olhos.
     
Dá pra contar com a companhia dos amigos ou de uma música. Da família, ou de um animal irracional. Mas acompanhar não vinga. Dois em um não vinga. Viajar. Grandes grupos. Cidade, estado, país, continente. Nada disso floresce, ou espera pra que veja a Vida passar. Valorizamos tanto a individualidade, o individualismo, o único ser. Qual o sentido em ser, se a morte está à espreita e quase nada do que fomos resta depois que deixamos a superfície, e vamos ser esquecidos no subsolo?  No fundo, todo mundo é igualmente desnecessário.
     
Nunca tive razões pra sofrer pela solidão em um Dia dos Namorados. Mas sempre tive razões pra sofrer pela solidão de todos os outros dias. De todos os anos que vivi até agora. De todo esse buraco que me consome, ainda que eu agora tenha gentes com quem dividir as frustrações. Mesmo assim. Quando a noite cai, conforme os outros morram, restarei eu, só. Só eu. Só umas lembranças do que as pessoas ao meu redor são, e já foram. Só um borrão de memória das coisas que eu vejo enquanto há luz. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem quando fechamos os olhos, e encaramos o mais íntimo do vazio da nossa solidão.