"O Patinho Feio" não é sobre Beleza

      For the English version, click here.

Talvez sejam os filtros, a maquiagem e a academia, mas a maioria de nós parece carregar dentro de si o sentimento de ter sido um patinho muito, muito feio, que cresceu e se tornou um belíssimo cisne de pescoço longo e elegante. Sinceramente, um pouco de auto estima não faz mal a ninguém, e longe de mim questionar o quanto uma pessoa consegue se amar mais hoje do que ontem.

     No entanto, crescer e entender como a percepção de beleza das pessoas é nociva me fez rejeitar fortemente a importância disso na minha vida. Pode ter sido um excesso de exposição à Funny Girl, mas a última coisa que eu quero que se destaque sobre mim é o quão bonita eu sou ou não. Eu gosto de ter e manifestar uma personalidade que fale mais alto que todas as coisas – sem necessariamente gritar sempre, mas na maioria das vezes.
     Neste pensamento, eu observava as dúzias de cisnes que moram no rio logo em frente à minha casa.
     Uma coisa interessante que o estudo da arte me proporciona é pensar demais sobre as coisas a ponto de extrair dela significados ocultos e até então (pra mim) inexistentes, mas suficientemente reais para que meu subconsciente aprenda com eles. Provavelmente Hans Christian Andersen estivesse realmente apenas se lamentando por ter sido uma criança tão feia e desengonçada e se regozijando pela beleza e glória que os anos lhe trouxeram, mas eu prefiro entender O Patinho Feio como uma história sobre identidade.
     Se você nunca viu cisnes, saiba que eles são aves enormes, que limpam suas penas brancas cuidadosamente, e espirram água nas pessoas que não jogam pão na água pra eles (mas isso deve ser mal dos meus vizinhos mal acostumados). Seus filhotes são cinzentos e devem ser as criaturas mais desengonçadas e felpudas que nadam em águas doces. Quando os patos se misturam com os cisnes no rio, é bem fácil entender que um grupo não se encaixa com o outro.
     Depois de ser rejeitado pela mãe, irmãos, e basicamente todas as outras figuras que encontrou em sua vida, o patinho, até então, acreditava piamente ser apenas muito azarado na vida. Mesmo já conhecendo os cisnes, de ver e ouvir falar, ele não conseguia se enxergar como um deles porque não passava pela sua cabeça que ele fosse qualquer coisa além daquilo que ele havia escutado sua vida inteira. Sua identidade era deturpada, como um espelho embaçado no qual ele se olhava e enxergava apenas decepção.
     A vida é meio ingrata mesmo com quem não se encaixa de primeira, porque existe pressa; o mundo nunca para de girar pra que você desça e pegue o bonde em outro planeta. Nisso, a gente entende com dor no coração as desventuras do pobre patinho perdido. Há quem diga que o conto valoriza uma ideia de que exista uma superioridade entre os diferentes tipos de pessoas. Eu entendo que a maior alegria do patinho não foi descobrir que ele era belo como as aves que ele admirava – nem ter se tornado o mais belo de todos – , mas ter encontrado seu lugar, onde ele finalmente seria bem recebido, bem cuidado, compreendido – e não congelaria solitário durante o inverno.
     Uma das maiores alegrias na minha vida é, depois de muita dor e sofrimento, ter descoberto quem eu sou, e ter encontrado um lugar, ou vários, em que minha presença seja desejada, em que eu cresça e faça as pessoas crescerem. Eu diria que sou um cisne hoje cercado por vários outros, mas poderíamos ser patos também, ou gaivotas, ursos, joaninhas, corvos. Posso não estar feliz todos os dias, mas eu sou feliz só por saber que eu sei quem sou e pra onde vou. O patinho feio abriu suas asas enormes e voou, e eu estou indo atrás. Espero que você um dia possa vir também.

Nada escapa aos Teus olhos.

     For the English version, click here.

     Existe um mistério por trás dos olhos do Pai.

     Pra ser sincera, existe um mistério por trás de todos os olhos que estão por aí, já que fomos feitos à imagem e semelhança dEle. Como são incríveis as muitas visões que podemos ter uns sobre os outros, e como eu gostaria de me enxergar pelos olhos de outros, e como eu gostaria de emprestar meus olhos para que outros vissem valor naquilo que é precioso para mim.
     Mas os olhos do Senhor passam por toda a Terra. Somos 7 bilhões hoje, mas nosso Deus Forte conhece cada pessoa que já andou por este planeta. Cada pessoa que já morreu já esteve sob o olhar do Pai uma, duas, tantas vezes. Ele vê tudo, aleluia. Ele conhece tudo, glorifiquem Seu nome. Não há onde possamos nos esconder, que Seu Amor não nos encontre – pois o Senhor não é um que nos vigia como um cão de guarda, porém um que cuida de nós.
     Deitada aqui na minha cama, muito depois da minha hora de dormir, enquanto penso sobre quem sou, ainda acho incrível que o Senhor tenha me visto, e me escolhido. Não posso culpar aqueles que acham difícil acreditar que Deus os ama e tem um plano para eles – apesar da nossa geração acreditar que o mundo gira em torno de nossos umbigos, os números de depressão e baixa auto-estima crescem. O mundo é tóxico à nós – às nossas identidades, à cada uma das nossas características e peculiaridades. Tudo nos é roubado, tudo é uniformizado. Eu já estive assim – não sabia quem eu era, pra onde ir, sem propósito. Só medo, e dúvida.
     Mas, nessa multidão de 7 bilhões, nada escapa aos olhos dEle.
     Pra ser sincera, eu não acho que seja grande coisa. Nenhum de nós é, não podemos fazer nada sozinhos. Somos limitados, mas Ele faz por nós tudo aqui que não poderíamos fazer. Quando caímos, quando nos perdemos, quando nos calamos, quando toda esperança se esvai, Ele está lá, esperando que clamemos Seu nome. Ele é a luz que queima mais que o Sol, e eu sou só uma coisinha de nada, me gloriando no Senhor. Eu celebro minha vida, os anos que se passaram, os que virão, o que estou vivendo. Celebro cada dia difícil, celebro as dores de ir e vir, porque o Senhor vai adiante de mim cada vez que dou um novo passo.
     Eu acredito que o mistério da piedade se basta em como o Deus Glorificado nos mantém seguros em Seus braços, e, apesar da nossa pequenice, tem um propósito para nós. E Ele só nos diz a verdade, e Sua verdade nos liberta – quando o mundo nos diz que somos fracos, e pequenos, e nos sufoca com suas perfeições inalcançáveis, o Senhor é misericordioso, e Suas misericórdias se renovam a cada manhã, e nós nos alegramos nas nossas fraquezas, pois é nelas que o Poder dEle se aperfeiçoa a nos faz forte.
     Os anos podem passar, mas meu coração permanecerá maravilhado por esse Amor que me salvou, e que me salva todos os dias, do qual eu nunca serei merecedora. Eu nasci para a glória do Senhor! Meu Pai cuida de mim. E que o mundo inteiro saiba que eu sou amada, todos os bullies, todos os senhores, todos saibam que o Senhor é meu escudo, o meu melhor Amigo, que levanta minha cabeça e me toma pela mão direita quando o mundo cai ao meu redor. Havia, sim, um mistério por trás dos olhos do Pai, e eu olhei através deles, e eu descobri – eu sou dEle, e Ele é meu.
    
    

You don’t miss a thing.

     Para ler em Português, clique aqui.

     There is a mystery behind His eyes.

    
     To be fair, there’s a mystery behind every pair of eyes, once we were made in His own image. How we amazingly see each other through so many different lenses, how I wish I could see myself through other people’s eyes, and how I wish I could lend my own eyes to others, for them to see as much value as I see in such simple things. 
    
     But the eyes of the Lord – they run back and forth throughout the whole Earth. We’re 7 billion now, but our Mighty God has seen every single person that ever walked on this planet. Every now dead being got caught in the eyes of the Father once, twice, so many times. He sees it all, praise His name. He knows it all, glorify His name. There’s nowhere to hide that His Love wouldn’t find us – for the Lord is no Big Brother watching us, but He watches over us. 
    
     As I lay here awaken, way past my bedtime, and wonder about who I am, I still find it amazing that the Lord has seen me, and chosen me. I can’t blame those who find it hard to believe that God loves them and has a plan for them – although plenty of milleniuns believe the world revolves around them, depression and low self-esteem are getting higher every year. The world is toxic to us – to our identities, to every single special trait of ours. Everything is taken away. I have been there – hopeless, weakened, no direction, no purpose, so many fears, so many doubts.
    
     But, in this crowd of seven billion, He never misses a thing. 
    
     To be fair, I am not much of a big deal. None of us is, we can’t do a single thing on our own. We are limited, but He does for us everything we couldn’t do. When we fall, when we don’t know, when we can’t say, when there is no other hope, He is always there, waiting for us to to cry to Him with our voices. He is the Light that burns brighter than the Sun. And I am just a tiny little thing, making my boast in the Lord. I celebrate my life, celebrate the years behind me, the years ahead of me, the year I’m living now. I celebrate the hard days, I celebrate the pain of coming and going, because He goes before me every step that I take.
    
     I believe that the mystery of godliness lays in how the glorified God places us safe in His arms, and has a plan for us. He speaks only the truth, and His truth sets us free – for when the world tells us we are weak, and small, and buries us under fake notions of unattainable perfection, the Lord is merciful, and His mercies are new every morning, and we rejoice in being weak, for His power is made perfect in weakness.
    
     Years may go by, but my heart is permanently amazed by this unstoppable Love that saved me, and saves me every day, and that I will never be deserving of. I was born for the glory of the Lord! My Father loves me. Let the whole world hear that I am loved, let all the bullies, the highest, the lowest know that I have a shield around me, a best Friend who lifts up my head and takes me by the hand when everything falls apart. There was a mystery behind His eyes, and I have solved it, as I looked into them – I am His, and He is mine.
     

 
     

When words fail

     It’s hard for me not to think about the time I’ve been abroad whenever I try to write down my feelings and ideas, because that’s basically the most important thing going on in my life. 81 days now. Trying to explain how fast it’s going is pointless and hurtful, because I’ve caught myself thinking of how I could just stay here and never return to the mess that my homeland has become a lot more times than I wish I had.
     
     Anyone in this same position of not only leaving home, but moving to a whole different country, will definitely waste a lot of time complaining about all the comfortable things one has lost when deciding to go on this life-changing jouney. Luckily, I’m not anyone to complain on how I miss my car and my warm weather without speaking first of all these new things I’ve figured out about myself. That’s why I think that most of us eventually end up with some huge text posted online. Internet has made it easier for anyone to catch up with our latest experience. That’s phenomenal. We just love to tell the world how we are.
     
     I ocasionally end up talking a little bit about my experiences here on my snapchat, not just because it’s a fantastic social network (yes, it is) because of how quick you share things and they disappear forever shortly after, but also because I know that there’s a lot of people who care about me and that expect me to tell them what’s going on with my life on a daily basis (hi, mom), and snapchat just makes it a lot easier, closer, more human. I could actually be doing this on snapchat, recording my words and the weird yet funny faces that I effortlessly do.
     
     But this is a reflection about writing. And writing demands words to be typed, read, felt together. God bless those who made it possible for blind people to read with their own hands. The inner feeling we get with our eyes is surprisingly comparable.
     
     I’ve tried to understand what writing actually means to me a bunch of times. I believe that I may have finally and inadvertently assembled a rather satisfactory answer to that question, while renewing this blog’s layout. “Escrever é meu mapa pessoal do tesouro de ser feliz” (“Writing is my personal map of the treasure of being happy”), and I am the land to be explored.
     
     The truth behind that may be the key to this wonderful self-awareness I have developed over the past years. As complicated as I may be, as uncontrollable, unstable and emotional as I may get, I would have never been able to acknowledge that through any other way than literature. I may have abandone my tales and poems for a while, but I still see myself in each one of the characters I created, and I ocasionally think of them and wonder how their lives would be now if they were alive somewhere else than inside my head. But, still, I can’t help but write all the time.
     
     I haven’t been exposing myself lately in a desperate attempt to protect my own heart from my own stupidity, but I must say that I am most certainly tired of covering my feelings up. I have too many, and they just don’t fit inside this body of mine (even with all the weight I’ve gained since moving out). I live in a constant overflow of feelings. Even if my words never reach the paper, never get typed, I write all the time inside of my head, as if my gray matter demanded imaginary words written on its surface. My passion for the Arts and the Sciences may be high, but I am a writer, after all. I may be writing at you right now, actually, on the lines of this beautiful colorful iris of yours that I’ve been staring at for so long.
     
     A picture may be worth a thousand words, but I only know of music speaking whenever words fail. But that’s something for a different moment. For now, words are enough for me.

Welcome to the New

     Já foram 44 dias de Reino Unido e, apesar do layout estar pronto já há vários meses, não havia arriscado escrever nada ainda. 2015, na verdade, foi um ano muito parado, apesar de todos os planos que eu havia feito. Ninguém mais usa blogs hoje em dia, alguns diriam, mas eu continuo mantendo o meu, mesmo que às vezes fique tão abandonado. Casa é casa, e, no fim, a gente sempre volta. 
    
     Engraçado porque, no momento, tudo aquilo que eu chamo de “casa” é novo, diferente do que era 45 dias atrás. Agora, já estou bem estabelecida, correndo pra viver meus sonhos mas, acima de tudo, os sonhos de Deus pra mim aqui. E, mesmo sabendo que eventualmente a vida vai me levar de volta pra casa, o tal do choque cultural não me pegou. Nenhuma dificuldade me fez chorar e sentir tanto a falta do lar que eu quisesse largar tudo e ir embora correndo.
    
     Se você é alguém que já me leu em outros momentos, sabe que sempre fui muito apegada à dor, em parte por acreditar que ela constrói, muito mais que destrói. E isso é bíblico, na verdade – “melhor estar na casa em que há luto que na casa em que há riso”. Não que eu não ria aqui; rio muito, o tempo todo, pelos bons amigos brasileiros que vieram comigo, e pelos bons amigos que estou fazendo no ambiente um tanto hostil da universidade e na igreja tão aquecida pelo amor do Senhor que encontrei. Mas, para alguém que sempre ponderou tanto sobre solidão, nunca deixa de faltar a ponta de dor no coração quando se lembra de que tudo que já conheceu até hoje na vida está muito, muito distante.
     
     Tudo ainda é lindo, até a neblina que cegava a vista da minha janela hoje de manhã, os ternos e gravatas dos rapazes se preparando para apresentar trabalhos de arquitetura, as árvores despidas de outono, a mistura de sotaques de todos os dias. Poderia ser deslumbramento, mas é um pouco mais que isso. É gratidão.
    
     Uma gratidão bem mais funda, que consegue se regozijar no domingo perdido lavando roupa, no quarto bagunçado, na falta de família no Natal, na ausência de caronas num dia de chuva inesperada, na falta de colos e mimos quando algum mal ataca o corpo ou, tão fortemente, o coração. Muito mais que feliz por morar na Europa, no Reino Unido, em Leicester – essa cidadezinha tão mal compreendida – , estou feliz por estar construindo minha história e poder contar com esse ano tão privilegiado.
     

     Por trás de toda compra feita com dinheiro trocado hoje pra não faltar amanhã, existe um propósito muito maior, que foi orquestrado com amor pelo Autor da minha Fé. Estou cumprindo meu destino. Nada pode ser mais gostoso que isso.
   
   
     

Da minha consciência.

     De tempos em tempos, eu creio que precise renascer nas minhas percepções de mim mesma. Há algumas semanas, constatei, com horror, que a pessoa que eu vinha me tornando estava sendo sufocada, dentro da minha mente, pela pessoa que eu era – recusando-se a morrer, sozinha, como sempre temeu estar. Hoje, acordei em meio a um surto psicótico de um eu que eu cria haver matado há muito tempo já. Enquanto a chuva caía lá fora, insistente, há tantos dias, suas mãos me prendiam a garganta e o ar me faltava.
    
     Eu queria mentir para todos ao meu redor e dizer que tudo estava tão bem quanto deveria, mas eu sempre fui muito carente de atenções. Na minha busca por discrição e silêncio, calei um pedaço de mim que agora chora, quase morrendo, mas recusando-se a sair. Por 20 minutos, parecia uma grande sombra negra que encobria não só os céus de bronze, mas os céus de mim, e já não havia qualquer luz. Meu chão foi embora e a leveza que vinha sentindo há alguns dias não foi suficiente para me fazer gravitar. Caí em queda livre.
    
     Ainda não paramos. Nem eu, nem a chuva.
    

     

Eu só sei amar em alto e bom som

     Eu me lembro que comecei a escrever compulsivamente aos 14 porque queria muito dar vazão às coisas que eu não conseguia dizer. Com o tempo, a necessidade de escrever apenas foi passando, e eu passei a querer que as pessoas lessem as ideias e sentimentos que eu colocava no papel (foi bem quando surgiu o Corvo Correio). O passo seguinte foi levar isso pras redes sociais, e garantir que o máximo possível de pessoas tivesse acesso. 
     
     Se desnudar em público, através da literatura, é um vício. Você se acostuma a compartilhar tudo que sente com gente indefinida, e elas sabem o que tá dentro de você, e quem sabe até sintam o mesmo. Tem quem diga que é perigoso e nocivo, e eu não deixo de concordar – se fosse pra gente se expôr em praça pública dessa forma, o coração não vinha guardado dentro do peito, com tanto osso, carne, sangue e pele cobrindo.
     
     Acontece é que, quando o coração entra em combustão, explode e sai voando por conta própria, não dá pra fingir que tá tudo bem, tudo normal.  Faz até mal, eu acho, não abrir uma janela pelo menos pra que a fumaça escape e não sufoque de dentro pra fora. Deixo meus parabéns aos que sabem amar em silêncio, acho que o mundo recompensa melhor vocês que aprendem a guardar para si. Eu só sei amar em alto e bom som.

   
   

Do Amor

     Eu me encantei com a ideia de amar muito jovem ainda. Conheci o Perfeito Amor criança, aos 8, e carreguei comigo até que, aos 16, eu compreendi o que significava. E, ainda assim, mesmo conhecendo e conquistando o maior Amor do mundo, eu não entendia como eu poderia senti-lo. Parecia tão grande pro meu pequeno coração humano, tão inseguro e simples.
    
     Nesse meu pouco tempo de vida, eu achei que amei muitas pessoas. Hoje, eu vejo como não passavam de sentimentos rasos e incompletos, egoístas, até meio bobos. Amor é uma decisão bonita demais pra ser reduzida a uns quereres mal quistos, mal compreendidos, cheios de poréns. E amor não acaba, também. Você só pode desistir. Uma pena, mas existe quem cujo coração não suporte o peso deum mundo que matou o Perfeito Amor.
    
     Meu esclarecimento chegou, ao mesmo tempo, ao coração e ao conhecimento. Papai, numa sintonia dessas que só pais sabem proporcionar, foi quem me trouxe as palavras que descreviam aquilo que vinha crescendo dentro de mim. A olhos totalmente nus, eu vi que te amo mais em seu estado mais inútil, mais despojado de belezas, de encantamentos, atrativos, charmes, finos tratos.
    
     Na plenitude da sua feiúra e da sua pobreza, o amor é tão maior que aí, enfim, é amor de verdade. Sem potências, só a essência daquilo que você é, do seu coração. Sem vigor, sem juventude, sem perspectivas, sobra tanto quanto ou mais dentro de mim, pra que metade de mim seja Amor, e a outra metade seja aquilo que te faz sobreviver.
    

     

Nós ainda temos tanto pra viver, M.

Então é isso, M., é isso aí. Não era pra ser agora. Não era pra funcionar, pra ser perfeito e ideal como eu sonhava. Pode ser que seja depois, e pode ser que não seja nunca mais. Quem sabe, M.? Só Deus mesmo. Pudera eu entender as coisas que nos acontecem nessa vida complicada. Por enquanto, é mais dor que conforto; mais pesar que alegria; mais doença que saúde; mais veneno que cura.

Eu não queria ter que deixar pra lá, M., eu não queria. Eu desejava poder insistir mais um pouquinho, em vez de só deixar que o tempo engula. Eu sei que deixar a cargo do tempo é permitir que a dor ainda corroa as superfícies do meu coração enquanto ela permaneça.

Eu achava, M., que seria eu e você por muito tempo. Você insiste que será, que será, mas nós sabemos que não é a mesma coisa. Eu esperei compartilhar muitas coisas com você ainda, porque foi bom o tempo e os pequenos momentos que foram meus e seus, que só nós conhecemos e lembraremos. Era gostosa a sensação de te procurar em meio à todo mundo, e, encontrando os seus olhos, receber carinho de volta. Eu permiti que você apagasse minhas luzes, e que visse tudo isso que eu escondi dentro de mim, pra que outros não vissem; eu te deixei ser luz onde eu não queria abrir os olhos.

E, agora, M., acabou. Acabou assim, já não vai mais continuar como era. Não vai, M., não vai. Nós já não somos como um do outro, mas somos comuns um pro outro. E, por mais que me doa, eu sei que comum é o melhor que nós seremos, agora ou pra sempre. É por isso que eu te escrevo agora, M. Nunca me faltou coragem pra falar de tudo de bom que eu sentia. Agora me falta alguma vergonha pra conter esse ímpeto de me desnudar em público. Está tudo claro e simples, apesar de que não pareça muito, agora. Você sabe que eu sou só aquilo que você vê.

Nós ainda temos tanto pra viver, M., que seria egoísmo meu não te deixar viver as coisas tão grandes que te esperam. Pode ser que o tempo te faça tão melhor que seja bom demais pra mim. E, pode ser que o Tempo te leve pra tão longe, que eu nunca mais te veja. Podia ser que, um dia, nós estivéssemos bons o bastante um para o outro, e prontos pra levar adiante. Mas, por ora, eu vou só deixar pra lá, M. Só deixar pra lá.

Uma em um bilhão

Eu nem sempre tive 100% de certeza de onde eu vim. E eu sei que você também não. Acontece que, às vezes, a gente olha pra esse mundão e não consegue nem imaginar o tamanho que tem, e quantas pessoas diferentes existem, e quanta fauna, flora, e todos os outros planetas e corpos celestes que existem nesse universo. E, voando pelo espaço, procurando uma resposta, a gente perde altura de voo e vai caindo aos poucos de volta pra atmosfera, pro nosso país, pra nossa cidade, até que volta pro nosso umbigo, e não sabe mais sequer qual o valor que se tem.
     
Eu gosto de pensar que sou o fruto de uma máquina de improbabilidade infinita. Não só pensando em tudo que fez parte do surgimento do planeta, do universo, e das espécies todas, mas pensando em tudo que me torna quem eu sou. Todos os meus atributos, minha personalidade, as pessoas que conheci, os lugares por onde andei. É lindo imaginar que nada aconteça por acaso.
     
Eu não sou só filha dos meus pais. Sou filha dos meus avós, bisavós, tataravós, e dos tataravós deles, e dos tataravós seguintes. Eu não seria quem sou se outro dos espermatozoides do meu pai tivesse fecundado o óvulo da minha mãe. Eu poderia nunca ter existido sem alguém a centenas de anos atrás tivesse tomado um caminho diferente num dia quente, ou não tivesse se mudado de cidade. Se, em vez de olhar pra esquerda, e visto a pessoa por quem se apaixonou, tivesse olhado pra esquerda.
     
Isso parece pequeno, mas é grande, poderoso, precioso. Eu não sou um acidente, nem milhares de acidentes. Eu sou como uma canção da orquestra do Universo. E toda pedra no caminho é uma nova história em potencial para que surja na minha vida. Todo bem, e todo mal que vem, faz parte da minha vida, e estará sempre contido na história de quem vier depois.
     
Eu poderia ter sido várias, mas fui eu quem venci nessa máquina de possibilidades. Eu sou uma em um bilhão, mas também sou só uma parte dessa rede que relações sobre a qual nós construímos a vida. Muitas outras pessoas ainda virão. Pessoas que eu conhecerei, pessoas cujas vidas começarão através de mim. E eu fico feliz em saber que farei parte da improvável preciosidade da vida delas.