Cough Syrup

“If I could find a way to see this straight, I’d run away to some fortune that I should have found by now…”
Era um pátio enorme. Enorme, e muito cheio. Cheio de adolescentes idiotas se amontoando às beiradas dos pseudopopulares, dando risadas forçadas pra chamar atenção ou procurando os lugares estratégicos pra ver melhor uma gatinha bunduda. Todos se sentindo tão adultos, tão poderosos.
E lá nós duas.
Sempre havia sido nós duas. Isaura e eu. Sentadas em um canto pouco importante daquela grama bem cuidada. Ela tocava uma música qualquer em seu violão. Nunca soube pra quê exatamente ela o carregava pra todo lugar. Ninguém se importava. Nem mesmo eu, sua única amiga, me importava. Não conhecia a canção que ela tocava naquele momento.
Havia silêncio em nossos lábios, todos os dias, há muito tempo. Jamais entendi exatamente de onde surgira nossa amizade. Às vezes parecia que, num dia, nos sentamos uma próxima à outra, e simplesmente nos acostumamos a estar assim. Tantos anos e acho que nunca soube seu nome completo. Mas ainda assim, não precisávamos disso. Era essa a beleza subliminar da coisa.
– Porque esses óculos escuros, Isaura? – Vinha querendo perguntar havia alguns minutos daquele recreio. Fingia observar o céu para manter a aparência de que não me importava.
– Olhos injetados, Diana. – Esboçou uma careta sob aquele aviador espelhado, que lhe deixava com uma aparência sobremaneira bizarra, enquanto tocava uma sequência que parecia especialmente difícil. 
– Está fumando de novo? – Algumas coisas eram impossíveis de ignorar.
Encerrou a música antes de me responder. Começava a achar que conhecia aqueles acordes.
– Não sei se meu nome foi uma ironia ou uma intenção. Parecia que minha mãe sabia que iria morrer. Que iria me deixar sozinha. – Ficou com a cabeça parada por um momento, aparentando fitar o vazio. Voltou-se novamente para seu violão.
No fundo, eu sentia vontade de dizer alguma coisa, mas eu não sabia o quê. Não sabia como. Não sabia racionalizar esse sentimento.
– Não seja ridícula. Ter o nome de uma personagem que vive uma desgraça não quer dizer que você vai viver uma desgraça.
– Vem me dizer que você nunca teve um medo especial de acidentes de carro.
Fiquei calada por um momento. Ser vítima da idolatria da minha avó não me tornaria obrigatoriamente vítima da minha própria vida. Não sem que eu pudesse interferir.
– Você não respondeu minha pergunta. Está fumando de novo, Isaura?
– Estou. – Falava com tamanha calma, incomum. – E sabe, dessa vez não pretendo parar.
– Seguindo sua lógica eu deveria ser muito mais infeliz. Lady Di morre no final. Isaura se dá bem.
– Isaura é ficção, Diana. Isaura é ficção.
Recomeçou a tocar o violão. Era a mesma canção anterior.
– Parece que conheço essa música. Mas não me lembro muito bem dela.
– “Cough Syrup”. – Ela respondeu, num pigarro muito rouco.
– Ah, sim. Bonita, mas triste. Muito triste.
Ficamos em silêncio por mais tempo, em meio à canção e à gritaria do intervalo. Então, finalmente, o sinal soou. Levantei-me num pulo.
– Vem, Isaura. Que essa vida é difícil demais pra ficar vendo a banda passar – Estiquei braço e ofereci-lhe ajuda para se levantar; ela já havia parado de tocar.
– Nós não devíamos usar óculos se não fosse para vermos as coisas de forma diferente. – Minha amiga mal se movia. 
– Isaura, a Marilia já está indo pra sala. Você sabe que ela não aceita que ninguém entre depois do segundo sinal. – Balancei a mão estendida para chamar sua atenção.
– Eu estou ficando cega, Diana.
Nenhuma frieza no mundo teria me preparado para escutar aquilo.
Sentei-me novamente ao seu lado, naquela grama. Sem se importar com faltas na aula de Matemática ou se a coordenadora apareceria gritando a qualquer momento, ela retomou sua canção, tocando pelo resto de luz que seus olhos absorviam.
“… I’m waiting for this cough syrup to come down, come down”

Discórdia

“(…) a Discórdia infatigável,
Companheira e irmã do homicida Ares,
Quem a princípio se apresenta timidamente, mas que logo
Anda pela terra enquanto a fronte toca o céu.” Homero – Ilíada

– Quem dera fosse eu um passarinho. – Ele disse baixinho, entre suspiros.
– Por quê? – Ela falava entre dentes, sem movimentar a cabeça ou focalizar o olhar vazio.
– Por que o quê?
– Por que você queria ser um passarinho.
– Ah, estava apenas pensando alto. Nada demais. Só uma reflexão boba. Não vale a pena falar sobre.
– Nós estamos sentados aqui há mais de quarenta minutos sem trocar mais do que cinco palavras. Por favor, diga algo sobre essa reflexão boba, antes que o silêncio comece a fazer mais barulho que a minha circulação sanguínea.
Ambos se endireitaram sobre o tapete não muito felpudo, apoiados na parede da sala.
– Ok, vou começar a falar agora. Bem, eu gostaria de ser um passarinho.
– Certo, Batman. E essa parte eu já entendi.
(Um olhar raivoso) Precisava mesmo dessa grosseria, Anna? Também não vou desenvolver meu pensamento mais.
(Um acre tom irônico) Desculpa-me, Hulk, não intendia deixar-te zangado – (Um doce olhar sarcástico) – Não obstante, não enxergo tal grosseria. Por qual razão Vossa Mercê gostaria de ser um passarinho?
– Mais uma gracinha, e eu me calo
– Mais uma frescura, e eu não te escuto.
– Você quem pediu que eu falasse sobre minha reflexão, desgraçada. Admita, você não queria me escutar, queria era me esculachar. Seu veneno não estava aguentando ficar tanto tempo fechado dentro dessa boca enorme, sua língua de cobra já clamava por liberdade.
– Se você ia ficar se machucando com qualquer coisinha que eu falasse, por que aceitou falar sobre essa sua maldita reflexão?
– Quer saber de uma coisa, dane-se aquela reflexão, tenho uma ideia nova. Queria ser um passarinho pra poder sair voando, ficar livre de você e de brinde poder defecar na sua cabeça.
– A porta está sempre destrancada para você, Homem Pássaro. E outra coisa, aquela pasta branca é ureia, ou seja, urina, não fezes. Além disso, você já deixa tantos resquícios de urina no vaso sanitário que, na cabeça ou no banheiro, já não me faz muita diferença, actu.
Alguns poucos minutos em silêncio.
– Você não se cansa de todas as nossas melhor intencionadas conversas terminarem desse jeito?
– Não, nem tanto. Sabe, acho que foram elas que me deram a certeza de que devia me casar com você.
– Talvez. – Ele escorregou levemente as costas e encarou, pensativo, o vazio.
Mais um pouco de silêncio.
– Acho que eu só gostaria de ser um passarinho se você também pudesse ser um.
– Mas eu não tenho vontade de ser um passarinho.
– Desgraçada.

Maresia

O teu perfume me cheira a maresia.

Cheiro de praia, de mata, de mar…
Perfume que, em ti, nunca senti,
Mas que me será para sempre uma memória;
O aroma, tão salgado e bucólico,
De não saber entender-te;
A lembrança inesgotável de talvez,
De quase;
Quase tão bom,
Quase o melhor de uma noite cansada,
Ou o pior de uma semana relocada.
Poderia ter sido bem mais que algumas palavras ideais.
Mas não foi, não foi; não foi nem será!…
Mal guardas o acre nome meu,
Nem o dizes entre sons adocicados;
Nossa distância é tanta quanto o mar…
Entre nós, o cheiro dessa água, tão gelada e salgada;
Essa água que vem e vai; maresia
Carrega o perfume teu.

Insomnia

 

Já faz duas horas que eu estou aqui na cama, deitada, sem conseguir dormir, encarando o teto. Não, não é culpa de ninguém. É culpa minha mesmo. Os dias passam e a vida permanece igual; 24 horas por dia, sete dias por semana, a mesma babaquice, as mesmas reclamações, os mesmos atos estúpidos e o mesmo tempo desperdiçado. Rancor, mau amor, revolta, orgulho, e o mundo segue girando na mesma velocidade, sem se mover um pouco a mais ou a menos por causa do meu drama. Ficar sentada, parada, esperando o oceano criar uma onda fantástica que varrerá tudo aquilo que precisa ser destruído na minha vida é inútil. A ficção IMITA a realidade, e não o contrário. Um dia vai dar certo, mas não agora, e querer apressar as coisas é desnecessário: o ritmo delas não se altera. E no meio de tanta futilidade, ainda sobra tempo pra acusar O único que não tem culpa em nada disso. Sim, Senhor, fui eu que errei, mas cadê a força de vontade pra mudar? Suponho que foi embora na última vez em que eu virei as costas pra Ti.

Então eu tenho uma vida, um Deus, um monte de gente que amo, um monte de gente que não amo, e tanta coisa pra acontecer ainda. E eu me pergunto: quando eu vou começar a fazer mais que o mínimo para que o movimento da minha existência saia do movimento retrógrado? Claro, a mesma desculpa de sempre. “Você é tão jovem, tem tanto tempo ainda para fazer tantas coisas”. Engraçado, lembro-me de me falar essas mesmas palavras há sete anos e, então; desnecessário mencionar como nada se transformou de verdade. O fato é que cada segundo imóvel, desperdiçado com choros e lamentações é um minuto a menos do meu tempo de ação que se vai. Não que isso seja tão difícil de ser percebido, mas é que é muito difícil conseguir retirar as nádegas tão confortavelmente colocadas no sofá, principalmente quando o melhor programa do universo está passando na televisão.

Uma hora a menos.

Uma hora a menos que será repetida logo em seguida, se o próximo programa for tão bom como o anterior. A dúvida fica presa, então, e em parte presa na lerdeza emocional do sofredor em questão. É complicado entender a motivação verdadeira de toda essa necessidade de drama e enrolação que permeia não só a minha vida, mas muitas – mas vamos nos ater à desgraça da minha vida: se eu não estou fazendo nem por mim, quem dirá por outros.

Um dia, talvez, eu consiga me levantar desse sofá emocional e colocar minha vida em movimento. Deus, eu com certeza vou precisar de alguma ajuda, então neste momento de insônia e reflexões vazias e infrutíferas, eu gostaria que o Senhor atentasse para a minha voz e me fizesse mais forte. Talvez, talvez amanhã seja esse dia. Esse dia em que, acreditando em Ti e em mim, eu entenderei como a vida é simples e a complicação sou eu. Sou eu. Eu.

Eu.

Estou com sono agora.

Rebeca

Hoje, no dia 10 de Fevereiro de 2012, às 09h50, a coisa mais linda que esse mundo possuía foi embora. Ela tinha 11 anos, pelos brancos e cinza, uma orelha sempre abaixada e outro sempre em pé, e a personalidade canina mais indescritível do mundo. Eu a chamava de Branca, Feia, Linda, Chatinha, mas na certidão o nome dela era Rebeca. Rebeca Bubka von Heidden. Ela chegou à nossa vida em Julho de 2001, aos seis meses de idade. Eu tinha medo de cachorros, e ela nunca deixou que eu a pegasse no colo, mas foi com ela que eu aprendi a amar os cães e entendi o valor de oferecer nosso amor sem esperar nada em troca. Porque era isso que ela fazia todos os dias, quando nós a repreendíamos por ter feito xixi fora do jornal, ou por ter comido a ração da Brigitte. Ela sempre estava disposta a abanar seu rabinho, vir correndo e colocar o focinho embaixo das nossas mãos, pedindo carinho. Vê-la partir em meus braços, depois de tanto tempo assim, foi a coisa mais difícil que já me aconteceu, nesses quase 17 anos de vida. Mesmo sendo bom saber que ela não vai mais sofrer com as dores, nem vai precisar mais ficar noites internada, aquela dor de ir embora, deixando-a pra trás, sem poder vê-la subir as escadas com a dificuldade de quem já ficava velhinha, ou ver como a filhotinha dela fazia festa com a chegada dela, é algo difícil de explicar. Mas eu tenho certeza que ela deve estar linda, lá no céu, do jeitinho que eu me lembro, brincando nas ruas de ouro, com os vários outros cachorros lindos que esse mundo já conheceu. Porque o Senhor cuida com carinho de cada uma das criaturas que Ele traz à Terra. Ela sabia como eu a amava, e eu sei que nunca vou esquecê-la. Vai ser difícil, muito difícil, não chorar quando a Brigitte estiver sofrendo com a falta dela, ou quando minha mãe falar como sente a falta dela, ou quando qualquer foto ou lembrança aparecer na minha mente, mas eu preciso seguir em frente. Ela me amava. Se pudesse falar, tenho certeza que era isso que a Rebeca gostaria; E, um dia, eu também estarei correndo naquelas ruas, ao lado dela.

Frenesi

O horizonte se ergueu e as luzes foram apagadas
Cruzamos estradas fechados em carros lotados;
As horas transcorrem-se sem batalha,
E o silêncio matuta versos horrendos.
Vozes escuras corrompem os traços
Que alguém caprichosamente delineou.
Mas, vejam! Qual sábio aceitaria
Tamanha feiura perante o Sol e os Céus?
Os ventos passeiam e cruzam-se
Numa sucessão de voos majestosos e fúnebres
A chuva perpassa, os pássaros voam pesarosamente;
Engole-se a ceia sem qualquer cerimônia
E qualquer olhar mais atento saberia
Que a verdade se escondia bem ali, atrás do mundo;
O mundo torto e desajustado que construímos
Sem pensar no quanto seríamos infelizes.
[Poesia originalmente utilizada no concurso cultural “Fragmentos do Cotidiano” da EDUFU – Editora da Universidade Federal de Uberlândia]
[Imagem: Cidade do Cabo] 

Aqui

Aqui, aqui.
Aqui estou, aqui.
Mas querendo estar ali.
Eu quero estar ali.
Ou lá, estar bem lá. Lá bem longe.
Bem lá longe, longe de mim.
Bem perto, perto de tudo.
De tudo que está bem longe de mim.
Tudo que não está aqui.
Aqui, aqui.
Eu estou aqui.

[Imagem de fonte não identificável]

Sorria

 
Sorria, sorria.
Pela grande tristeza que paira sobre sua cabeça pesada, e pela nuvem de fumaça que a cega e a faz tossir.
Sorria, sorri.
Suas mãos são tão fracas que já não sustentam o peso das mágoas, feridas e desgraças.
Sorria, sorria.
Não há ódio que supere o nojo e a repulsa que passeiam pelas suas entranhas.
Sorria, sorria, sorria.
Se existisse mazela pior que ser morta, com certeza faria parte de sua existência.
Então sorria, sorria.
O seu coração amarga as palavras pestilentas e sujas que jogaram sem pena sobre sua surdez.
Sim, sorria, sorria.
Conte seus inimigos até os dedos dos pés, depois os amigos falsários, e guarde três dedos para os amigos de verdade.
É, sorria, sorria.
Enquanto as aves voam, com asas tão majestosas, suas pernas pesadas e seu pés inchados a seguram no chão.
Mas sorria, sorria, sorria.
Só sorria, sorria, sorria.
Sorria, sorria.
Simplesmente por sorrir.

 

[Imagem: Tumblr]

Infortúnio

 
  Oi. Meu nome é Confusão, mas não se preocupe, meu sobrenome é Mental. Mas, pros mais íntimos, eu posso ser chamada de Iludida, Idiota, Estúpida e, em vários casos, Mal Amada. Ah, não se acanhe em me chamar por um apelido, já sinto como se fôssemos bons amigos.
  Meu coração é muito grande, e ele possui centenas de enormes portas e janelas, sempre abertas. Com uma frequência maior do que eu desejaria, pessoas malvadas entram e fazem um estrago horroroso, sem se preocuparem em arrumar a bagunça. É doloroso me reerguer todas as vezes, e fica mais difícil conforme o tempo passa, mas, quer saber, eu parei de sofrer ainda por isso. Além do mais, fechar todas essas portas e janelas seria um risco muito grande. Quem sabe quando as pessoas amorosas, sinceras e que se importam vão chegar?
  Enquanto eu espero, há ainda muito que pode ser feito. Dizem que, se você der amor, receberá amor. Não serei uma mentirosa, é difícil oferecer às pessoas algo que você mal conhece, mas é preciso haver algo para se acreditar, não? E é assim que eu tenho vivido. Sem hipocrisias, posso ser uma pessoa muito difícil, mas acho que é um método que meu coração encontrou de se proteger, pelo menos uma frestinha.
  Não pense que eu quero que você sinta pena de mim. A vida está difícil, mas nem tanto. Eu objetivo com esse texto não sensibilizar alguns leitores com a minha situação. Mas como eu queria encontrar uma outra pessoa que sentisse pelo menos um pouquinho do que sinto. Não seria uma forma de me sentir menos injustiçada pelas circunstâncias, mas de ter uma leve faísca de certeza de que alguém espera e procura por mim, talvez até tenha sonhado comigo uma vida inteira.
  Aí eu poderia fechar algumas janelas. Mesmo as quebradas e remendadas.
 
[Imagem: Tumblr]