Os Planos [6 dias de Tempo]

[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever todos os dias, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]
    

      
Três pontos quaisquer que marquei
No ar, no vazio de mim;
Três retas marcadas, conectadas,
Flutuando, balançando.
      
Um plano.
Uma pose não colinear.
Um sucesso desenhado, explanado,
Espalhado, espelhado,
Colorido, enfeitado, emplumado,
Multiplicado, alinhado,
Preparado e posicionado
Na linha do tempo deste mundo
Analítico e Cartesiano.
      
Uma pena ninguém ter me contado que,
Planos, por planos, não valem de nada,
Na vida corrida de um mundo em 3D.
      
Pisei-os.
Ultrapassei-os.
      
Planos eram só o chão, afinal;
Não havia sólido ali.

Memória [6 dias de Tempo]


[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]
     Foi numa quinta-feira, acho, mas bem pode ter sido numa quarta, ou numa segunda. O tempo perde o sentido quando estamos tão mais preocupados com o que há de vir a se do que com o que tem sido. Um grande dia chega, e há já tanta preocupação com o próximo, que as coisas esvaziam-se de sua real importância.
     
     Em algum dia destas últimas semanas, parei por um segundo e notei alguém que por mim passava. Ergui os olhos dos quadrinhos que lia, e observei seus passos lentos até seu carro. Alto, costas encurvadas. Mal erguia os olhos do chão. Movimentou a cabeça pra despedir-se de mim, com um sorriso simples.
     
     Há algo de muito sombrio sobre a Memória. Ela nos prende ao passado, mas transforma a saudade e a nostalgia em pesos insustentáveis. Passamos a viver em função de preservar a lembrança do que já passou. O Tempo congela dentro de nós. Ao nosso redor, ele continua correndo.
     
     O brilho de um substantivo é dar substância àquilo que mal existiria. Tenho um nome que é só meu. Ele também, mas não de todo. Assumiu o nome daquilo que se tornou mais importante, superior a si mesmo. Penso em seu nome, mas como o nome de alguém que esvaziou-se de quem é. Manteve a gentileza e a disposição. Vive a vida que o trabalho lhe deu.
     
     Ninguém sabe bem que ele é. Só onde ele está.
     
     Responsabilizou-se por todos nós. Fez daquilo o máximo que tem. Não sei se está feliz. Talvez tenha só aceitado. Vive num passado que se tornou presente, e futuro. Toda sua memória se repete. Quase nada muda de novo. A mesma rotina. Os mesmos passos. As mesmas funções. A mesma maleta, a mesma postura recurvada, o mesmo molho de chaves no bolso. Ontem, hoje e amanhã.
     
     Meu minuto de observação acabou quando entrou em seu carro e foi embora. Foi embora, sozinho. Já era minha hora de ir também, mas não quis. Estava presa àquele lugar. Ele também. Eu, por uns poucos tempos só; ele, pra sempre, talvez. Morreria indo e vindo, quem poderia dizer que não.
     
     Sua memória, e a memória de si, estariam sempre encrustadas nas paredes daquela sala. Para além de enquanto estivesse ali. Ele era o lugar. O lugar o era.
     
     Aquele Passado se encerra quando ele sair dali.

Hoje

     O amanhecer de um novo dia já devia nos avisar o quão ruim ele seria.     
     Hoje foi um desses dias. Que deviam ter me avisado que não deveria ter saído da cama.
     
     Ontem também foi. Todos os dias têm sido. Todos os dias são Hoje.
     
     Hoje eu parti meu próprio coração.
     
     Não o fiz sozinha, claro. Ninguém é tão forte que possa partir o próprio coração – principalmente alguém como eu, cujas forças já se esgotam, cedo assim. Falta-me o ar. Desaprendi a respirar.
     
     Parti meu próprio coração hoje. Mas não só hoje. Há tempos ele tem sido cortado.
     
     A primeira apunhalada ocorreu quando perdi as palavras pela primeira vez. Não mais soube dizer o que sentia. Meu coração havia sido partido uma vez, não podia coloca-lo mais em jogo. Transformei-me em um grande buraco negro, cuja primeira fenda começava a se engolir. Lentamente. A fenda crescia mais rapidamente.
     
     Sem que percebesse o que vinha fazendo a mim, construí um muro ao redor do meu coração.
     
     Talvez meu inconsciente quisesse impedir danos colaterais. Não adiantou.
     
     Hoje eu parti meu próprio coração. Parti também o coração de outro.
     
     Mas não o parti assim, de uma vez só. Venho partindo-o há muito tempo, lentamente.
     
     A primeira apunhalada ocorreu quando perdi as palavras pela primeira vez, e não soube dizer-lhe o que sentia.
     
     Nunca mais soube. Tantas semanas sem que eu conseguisse dizer-lhe o que sinto.
     
     Tentei algumas vezes, várias semanas atrás. Não consegui.
     
     Brigamos.
     Tentei mais uma vez, hoje. Não consegui novamente.
     Brigamos.
     Partimos.
     Fugi de mim. Ele também fugiu. De si, e de mim.
     Nosso verão está acabando já.
     A verdade é que os dias sempre nos avisam quando devemos ficar na cama.
     Chovia. O Sol mal aparecia.
     Está frio aqui. Está frio aqui, dentro de mim.
     Porque, Hoje, meu Sol foi embora.
     
     Todos os dias são Hoje, agora.

Casa


     Não existe sentimento melhor que o de voltar pra casa. 
     
     Viajei por tantos dias que havia até me esquecido; o cheiro familiar, os sons que caracterizam, os objetos que nos fazem lembrar, em qualquer lugar, da nossa morada. Viajar, passear, conhecer, reconhecer, descobrir, e enfim redescobrir aquilo que nos foi primário. Casa, acima de tudo, é sentimento. Sensação.
     
     Tenho várias casas. Aquela dos meus pais, e a da minha avó. Algumas casas são visíveis, tocáveis; outras são como um abraço – tão material e imaterial simultaneamente. Um de meus tipos favoritos de casa são pessoas. Pessoas que nos dão a sensação de que o mundo é, magicamente, bom e justo. Mesmo que por um instante. Algumas casas são especiais por terem aquele cheiro emocional de café. Trazem um aconchego e uma nostalgia que confortam, como um cobertor felpudo em noite de frio.
     
     Tenho uma Casa que cheira a orvalho de uma manhã que chega após noite chuvosa. Acho que isso se deve ao fato de minhas estadias temporárias ali sempre terem sido muito atribuladas, cheias de tempestades. Hoje, tudo isso já passou. Já retorno bem menos àquela Casa – justamente agora, que há paz. Mas talvez seja melhor assim.
     
     É bom saber que existe alguém que faz lembrar confusão, mas traz calmaria. Que pode ser tão ou mais negativa quando se está pra baixo – e esse mesmo negativismo pode fazer tão melhor. Casa boa é assim. A melhor Casa é aquela que nos deixa melhor pra voltar a explorar o mundo, e descobrir nossa vida.
     
     Se seu coração fosse uma casa à parte, seria um casarão – maior que já vi. Grande e fortificado – difícil de acessar, difícil de entrar, de ser abraçado pelas suas paredes. Nada de muito estranho. É preciso um cofre que proteja os tesouros que se guardam ali. Acho que amo tanto essa Casa porque ela sempre vem comigo. Há muito tempo. Mesmo em silêncio, mesmo que eu não perceba. A memória de que, em algum momento, irei voltar, me conforta.
     
     Não há porquê em viajar, se não puder voltar pra Casa.
[Feliz Aniversário, Camila ♥]


Ao infinito, e além!

     Ora, ora, vejam se não é a garota de um pequeno blog em uma tímida tentativa de expandir seus escritos.

     Impressão absolutamente correta.

Até emblema temos agora!

  
     A vocês, que leem este blog, leem os textos desta que vos fala, é direcionado meu convite.

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Primeiro de Janeiro


     Existe uma sensação generalizada de depressão/animação – que chamarei de “Síndrome do Primeiro de Janeiro” –, carregada de falsos moralismos e vontades impossíveis, que costuma aparecer justamente no tal dia que a nomeia. Após uma noite consideravelmente divertida, alguma (ou muita) bagunça, e fogos de artifício, retornamos pra casa ao amanhecer, na esperança de dormir e magicamente acordar com uma vida totalmente nova.
     
     Meus Primeiros de Janeiro costumam ser psicologicamente deprimentes. Contra minha própria vontade (posso provar isso), começa a lotar minha mente de pensamentos aleatórios. Talvez fosse uma forma de evitar que considerasse demais sobre os erros que cometi. Nunca adiantou. Aumenta minha consciência de que o tempo está realmente passando. Já não sou mais criança. Estou morrendo.
     
     Em seis dias estou de volta à universidade. Passarei cinco desses dias cuidando de trabalhos. Além disso, ganhei peso nos últimos meses. E sinto que minha avó materna pode não passar desse ano. Farei 18 – e isso me deixa igualmente ansiosa e preocupada. A vida real, que desde 2011 vem me dando alguns tapas na cara, deixa bem claro que, a partir de agora, começará a me dar pontapés. 
     
     Apaixonada por números como sou, sempre fico deprimida ao saber que a contagem dos meses jamais ultrapassará o doze. Desse ponto de vista, sinto que, a cada novo ano, voltamos à estaca um. Uma progressão infinita. Assusta, um pouco. Sempre me assustou. Tenho medo de coisas sem fim. Daí começo a questionar os motivos de eu, finita, continuar vivendo nesta linha de tempo sem fim. Se, num minuto, me sinto no lugar certo, no seguinte já sinto que está tudo errado nessa vida. Coisa de adolescente mesmo. 
     
     Já chegou o momento em que nada mais faz sentido. Esqueci-me do dia da semana em que estou. Principalmente nesse calor. É aquele limbo do quase sono. Tiro minha primeira soneca do ano. Tenho odiado dormir ultimamente. Acordo como houvesse passado toda uma noite lutando. Lutando contra o quê? Não tenho inimigos. Só minha própria consciência. Inimiga o suficiente.
     
     Li tantos livros essa semana, quero mais. Pra ver se descanso minha mente de tantos pensamentos confusos. Tenho pensado muito sobre coisas que jamais ocorrerão, nesse e em qualquer outro ano. Pensava que, a essa altura, já estaria melhor. Seria melhor. Mas isso me faz pensar no passado. Não quero. Porém, ainda me sinto patética. Engraçado, achei que já estaria dormindo. Não estava no limbo? Acho que o próprio calor me acordou.
     
     Ano Novo, e não choveu. Ainda estou pensando no que isso pode significar.
     
     Aqui vamos nós de novo. Página 1 de 365. Lembro-me de 2012 como se fosse ontem. Não janto desde o ano passado. Não vejo meus amigos desde o ano passado. 2013, surpreenda-me. Feliz Ano Novo. Feliz Hoje. Feliz. Feliz.
     
     I’m just skin and bones.

Não gosto de andar de ônibus

      Fui uma daquelas meninas mimadas que eram carregadas de carro pelos pais pra cima e pra baixo até os doze apenas. Aos onze comecei a me aventurar a pegar ônibus sem uma tia ou prima por perto – só aos treze que mamãe deixou que eu começasse a andar sozinha por mais que quatro ou cinco quarteirões. Lembro-me de, na oitava série, aos treze, ir e voltar do colégio utilizando transporte público. Aquilo, pra mim, era um sinal de maturidade. Eu estava crescendo.
    
      Hoje, cerca de quatro anos depois, já saí do ensino regular e entrei na universidade. Uma das entradas para o campus da UFU – por sorte, o mais próximo dos blocos em que tenho aulas – fica a cerca de dezoito quarteirões da casa em que moro, na mesma avenida até. São apenas três ou quatro paradas do ônibus, sem muitos esforços.
    
      Apesar de mamãe me levar na maioria das vezes (quase dezoito anos na cara e ela ainda sente pena de mim ao pensar que estou andando sob o Sol), sempre que não estou atrasada – raras situações – e ela está ocupada o suficiente para me deixar ir sozinha, eu opto por descer a pé a avenida. Fico alternando entre as calçadas, me descabelo completamente e acabo com aquele cheiro de vento de cidade. A volta é uma subida consideravelmente mais pesada (e geralmente já estou mais cansada do que gostaria, nessas horas de retornar), mas, ainda assim, gosto do trajeto.
   
      No ônibus, as pessoas me observam o tempo inteiro. Puxam assunto. Questionam a música que escuto. Julgam-me louca se falo comigo mesma. Ali não posso cantar, não posso dançar – sim, eu danço no meio da rua. A velocidade é, pra mim, o único atrativo do transporte público.
    
      Existe algo maravilhoso sobre andar, sozinha. Descobri isso em uma ocasião em que calculei incorretamente meu dinheiro e, entre muitas impressões de trabalhos da escola, não havia sobrado o suficiente para pegar um ônibus. Estava no Terminal Central, a uma distância considerável da minha casa – cerca de quatro quilômetros. Não vou mentir, havia vários meios de conseguir uma carona de volta. Mas, no fundo, eu não queria. Queria descobrir o que aquela distância representava.
    
      Foram cinquenta minutos interessantíssimos. Cantei, conversei com meus amigos imaginários, criei infinitos diálogos que jamais ocorreriam, fui educada e sorri aos vários estranhos que passaram por mim, e pensei tanto na minha vida que nem consegui me lembrar depois das decisões que tomei. Ao chegar a casa, meus músculos se contraíam involuntariamente, e eu sentia muita fome – um senhor muito gentil deixou que eu levasse uma garrafa d’água por metade do preço, na metade do caminho.    
    
      Na semana seguinte, mesmo tendo dinheiro suficiente para ir e voltar várias vezes, escolhi repetir a experiência. Igualmente interessante. Tenho alguns flashes de lembrança mais nítidos.
    
      Semana passada, em um dia em que seria totalmente desnecessário e imprudente ir à UFU, insisti em fazer o caminho. A ameaça de chuva não me assustava. De fato, na metade do caminho, ela começou a cair. Valeu a pena, de uma forma ou outra. É uma forma de estar comigo mesma, e só. Estou sempre tão cercada de gente – em casa, na faculdade, na cidade. É bom aproveitar esses nichos de solidão.
    
      Ano que vem completo os tais dezoito e, alguns meses depois, espero já estar com minha habilitação e meu carro. Em breve me mudo pra uma casa vinte quarteirões mais distante da UFU que a em que moro atualmente. As coisas certamente mudarão, no que concerne esse trajeto até a universidade.
    
      Mas há tantos outros caminhos a se descobrir.

Dia de Sono


     Hoje acordei cedo, contra a minha vontade. Havia muito a ser feito. Tantos desenhos, tantos trabalhos, tantos textos. Apressei-me em terminar o que de imediato era necessário, para que pudesse deitar-me novamente.
    
     Dormi sem nem perceber.
    
     Sonhei que, sentada em uma sala, pensava sobre a vida.
    
     Está chegando novamente aquela época do ano. Aquela época em que ele se encerra, pra que outro comece.
    
     Todo ano ocorre a mesma coisa. Dúzias de expectativas, centenas de ideias e planos. Doze meses se passam e nada muda. Minha vida continua basicamente a mesma coisa. Engano minha consciência com as mesmas meias verdades e descaradamente minto pro meu coração, dizendo que tudo ficará bem. Ah, vida curiosa essa. Vivemos em ciclos de doze meses. Acreditamos que neles está contida toda a magia da existência.
    
     2012 talvez esteja sendo, de longe, o melhor ano da minha vida (desde 1995). Amadureci a níveis que nunca julguei possíveis. Conheci mais pessoas que jamais havia conhecido dentro de um só ciclo. Algumas terríveis. A maioria incrível, por sorte.
    
     Apesar de tanta positividade, duvido que em um só ano meu coração tenha dado tantas voltas dentro do meu peito, ou tenha corrido tanto atrás do próprio rabo. O maior ensinamento do ano? Pro inferno com a superficialidade e as aparências. Você mesma esconde tanto por trás da sua casca (um pouco mais gordinha que no ano anterior). Dezessete anos depois, finalmente entendeu o quão pouco ela representa.
    
     Fiz uma amiga imaginária também. Mais uma, na verdade.
    
     Estou noiva da Arquitetura. Caso-me em breve.
      
      (Nesse momento, a sala, até então vazia, começou a encher-se de sons. Aos poucos, tomava forma ao meu redor um jantar de Natal de filme estadunidense. Várias pessoas passavam por mim. Algumas me atravessavam. Um senhor de barba branca foi o único a me notar, e a perguntar se eu tinha fome. Disse que sim. Ele sumiu. Todo o resto sumiu também.).
    
     Continuei pensando.
    
     Passeei por lojas decoradas pro Natal enquanto mal havia terminado o primeiro período da faculdade. A maioria acharia isso um saco. Talvez um paradoxo sobre nossa existência atrasada. Eu sento e me agradeço pela greve.
    
     A greve foi bondosa em haver nos escolhido, em haver escolhido 2012. Meu 2012 não estaria sendo tão bom não fosse por ela.
      
      (O vazio da sala começou a tomar formas de uma construção quase medieval. Parecia uma taverna. Vários brasileiros vestidos como vikings passaram por mim. Um japonês magrelo e uma linda de olhos grandes vieram até mim e disseram que já havia passado da minha hora de dormir. Cochilei em sonho. Acordei na vida real).
    
     Sentei-me na cama e enrolei-me nas cobertas – apesar de não estar tão frio assim; estava com fome. Eram 18h. Estava dormindo desde as 11h30. Olhei ao meu redor, procurando os contornos da taverna, e qualquer rosto familiar. Apenas paredes brancas e os móveis do meu quarto. Não gosto de bebidas alcoólicas, mas naquele momento aceitaria qualquer coisa que viesse de lá. Sentia falta.
    
     Tentei pegar no sono mais uma vez, mas já não estava mais tão cansada. Escutei o barulho da televisão ligada na sala. Uma propaganda de Natal, com músicas típicas ao fundo.
    
     A época mais bonita do ano.
    
     Filosofei sobre as renas e até fingi que era um elfo. Convidei meus amigos imaginários a se sentarem comigo na cama. Contei pra eles sobre meu sonho. E sobre meu coração. Falei de todas as pessoas que haviam ido e voltado na minha vida. Abraçaram-me. Disse-lhes que estava encantada. Perguntaram-me o que havia me encantado. Tive medo de admitir para mim mesma, então não quis contar para eles. Mas eles sabiam. Eram parte de mim.
    
     Brincamos de cantar músicas de The Rocky Horror Picture Show, até que caíram no sono. Eu permanecia acordada. Ao fundo, a canção natalina continuava tocando.
    
     Foi quando percebi que ainda estava sonhando.
    
     Um sonho dentro de outro sonho.
    
     Fiquei presa lá por várias horas ainda.
    
     Teria ficado por ainda mais tempo. Porém, tinha um compromisso importante às 8h, no dia seguinte. Não podia perdê-lo.    
    
     Não podia perdê-lo.

O Banco.

Sentei-me pra ler um livro num banco.
     
Era um banco de madeira, comprido, e só eu me sentava nele. O tempo estava nublado, e a luz solar se espalhava de forma difusa através das nuvens pesadas. A brisa que soprava era leve e fresca, apenas o suficiente para que eu a sentisse na pele, e não movimentasse involuntariamente as páginas daquele livro que eu estava prestes a abrir.
     
O banco estava entre os pilotis de um bloco de salas de aula, na universidade. Aproximava-se a metade do turno da tarde – a maioria dos estudantes se amontoava nas filas enormes de lanchonetes. Torravam seu dinheiro em cremes de açaí e croissants de chocolate, para depois se sentarem nas mesinhas engorduradas, enquanto reclamavam dos projetos e dos professores. Estudantes de Arquitetura, principalmente.
     
Um garoto passou entre aquelas muitas mesas perguntando se alguém se interessaria em comprar brigadeiro. Ofereceu-me um, mas recusei de forma educada – prefiro ler com estômago vazio. Ele agradeceu e seguiu em frente, passando por uma garota que, aguardando sua vez na fila para comprar uma latinha de Coca Cola, arrebitava o bumbum e tomava fôlego para que os seios parecessem maiores. Garotos a observavam, e discutiam sobre ela. A vontade que sentia de acertá-la com o livro que tinha em mãos era enorme, porém fui capaz de me controlar. Além do que, ainda nem havia começado a lê-lo – sequer estava aberto. 
     
O relógio marcava 16h, e aos poucos o lugar foi se esvaziando. Restavam apenas as moças que trabalhavam na lanchonete, e um ou outro estudante atrasado (além dos vagabundos que, como eu, recusavam-se a ir para suas salas de aula). Duas garotas, com camisetas do curso de Design, sentaram-se no banco ao lado do meu. Desejei expulsá-las a pontapés, mas acabei me dando conta de que fofocavam sobre uma festa que havia ocorrido no fim de semana passado – na qual havia pessoas que eu conhecia. Me interessei nas possibilidades e me concentrei no que falavam.
     
Lá pelas 17h30 elas se cansaram de falar, e resolveram sair dali. Após tantas informações novas – apesar de muito irrelevantes – resolvi me levantar e tomar um copo d’água. Quando voltei pra me sentar, havia uma pessoa sentada no meu banco. No meu banco. Eu até aceitaria dividi-lo, dependendo das circunstâncias, mas seu traseiro repousava exatamente no mesmo lugar no qual eu antes confortavelmente estava. E ele sabia disso. Ainda que tentasse disfarçar, era evidente que em tudo havia um propósito. 
     
Éramos íntimos o suficiente para que eu chegasse reclamando daquela usurpação. Uma pequena discussão seguiu-se por cerca de trinta minutos. Lutei pelo lugar que havia conquistado utilizando tantas piadas e criancices quanto pudesse. Quando finalmente desisti  e aceitei dividir o banco, ele costumeiramente se levantou. Disse tchau e se virou para ir embora, mas não sem, antes, voltar-se novamente para mim.
     
– Você é bem estranha, sabe.
      
Então seguiu seu caminho. Mamãe me ligou quase que imediatamente, avisando que estava me esperando no ponto de ônibus mais próximo. Guardei o livro na mochila e segui lentamente até onde estava o carro, ainda que já estivesse atrasada para a aula de alemão. 
     
     
Acabei não lendo o livro.