Eu também não sei, rapaz

A Vida é um eterno não saber
Não saber de ontem, hoje ou amanhã
Se você não sabe, eu também não sei
E isso é normal, rapaz, isso é normal
É que a gente se esconde sempre
Atrás de decepções tais
E nem consegue mais enxergar
Do quanto é realmente capaz
Então toma aqui um abraço, rapaz
E cesse de ter medo, agora
Cesse de temer que já não saiba
O que será de ti em outro dia, outra hora
E repara que, ao teu redor
Há um mundo muito, muito maior
Do que aquilo que os olhos veem
Quando não sabem mais no que focar
Eu também tô aqui, rapaz, eu também tô aqui
Tô aqui perdida, tô aqui sem rota
Mas é que a Vida tem tantos anos, e tantos dias, e tantas horas;
Senta aqui e aprecia a vista, agora.

Final Feliz


Dispenso o rosa, o castelo e o príncipe encantado,
As roseiras no jardim e a piscina no quintal,
A fartura, a bonança e o sorriso costurado;

A boa sorte entregue numa bandeja de cristal.

Antes seja sujo, disforme, sem brilho e sem cor
Pra que o suor do nosso braço desembace o ensebado
E que os pequenos momentos de glória e amor
Sejam melhores e maiores, e mais valorizados.

Quem


Pessoa quem?

Quem não sei quem é
Só de olhar nos olhos, e nas mãos, e no sorriso;
Quem não diz, quem não mostra, quem não faz –
Que não faz parecer o que seja, em dia algum
Pessoa quem?
Quem não sei quem foi
Só de olhar pros rastros, pras palavras, pras marcas
Deixadas no corpo da Vida;
Que me deixa sem saber o que pensar.
Pessoa quem?
Quem não sei quem será
Só de ouvir a voz, e as risadas, e os lamentos;
Que não garante, não conta, não jura;
Que é uma incógnita que incomoda.
Pessoa quem?
Quem você. É?

medo de


medo de errar
medo de cansar
medo de dizer
medo de esquecer
medo de morrer
medo de viver
medo de contar
medo de fazer
medo de escolher
medo de fugir
medo de ficar
medo de começar
medo de terminar
medo de seguir
medo de voltar
medo de existir
medo de sumir
medo de querer
medo de odiar
medo de perder
medo de amar
É tanto medo que eu nem sei mais
O que o Medo quer dizer

Um Filho de Curió Curioso


“De onde vens, para onde vais?”
“Quem perguntou, quem quer saber?”
“Um filho de Curió Curioso pediu
“Que eu perguntasse a você”
“Quem és tu, quem querias ser?”
“Por que perguntou, por que quer saber?”
“Um filho de Curió Curioso queria
“Que eu indagasse você”
“O quê que tu queres, o que não queríeis mais?”
“Que queres de mim com perguntas tais?”
“Um filho de Curió Curioso pedia
“Que eu soubesse daquilo que você queria”
“Onde vives hoje, em que casa posso bater?”
“Quem és tu que desejas a mim uma visita fazer?”
“É um filho de Curió Curioso que
“Muito lhe quer conhecer”
“Mas de onde vens, pra onde vais?”
“Estou sozinho sem um porquê”
“O filho de Curió Curioso sente
“Muito nisso saber”
“Qual é o teu nome, qual é a tua história?”
“Não sei mais de mim que se ti sei saber”
“Do filho de Curió Curioso só passo
“A mensagem; dele, pra você”
“Que fazes sozinho, sem nada a fazer?”
“Diz quem tu és que lhe digo o porquê”
“Não sou o filho de curió curioso pra
“Que me explique a você”
“Quem és tu que não diz, não responde por que?”
“Diz primeiro que digo eu depois de você”
“Já falei que não eu, mas o filho
“De Curió Curioso quer saber”
“O que queres de si, que não tens de outrem?”
“Enfada falar-lhe sem saber o motivo também”
“O filho de Curió Curioso só
“Muito lhe quer conhecer”
“Vens pro almoço e ficas pro jantar?”
“Onde seria, de quem é o lar?”
“O filho de Curió Curioso e seu pai
“Lhe convidam à noite pousar”
“Vens e descansa, sem reclamar?”
“Por que querem que eu lhes vá visitar?”
“O filho de Curió Curioso queria
“Só lhe fazer descansar”
“Bem, de onde vens, para onde vais?”
“Eu venho do escuro e vou pro silêncio”
“Um filho de Curió Curioso diz
“Que lhe canta pra espantar o tormento”
“Vens e repousa num ninho de seda?”
“Assim, sem saber quem me chama pra ir?”
“Venha sem medo, vem sem demora,
“Que o filho de Curió Curioso já vai partir”
“Vens e depois, segue em viagem?”
“Não tenho dinheiro pra que saia tão tarde”
“O filho de Curió Curioso tem fundos
“E asas, e linho, e sonhos”
“Vamos depressa, que a Lua se esconde à Aurora ”
“Seria seguro seguir-te incógnita?”
“O filho de Curió Curioso diz
“Que venhas sem medo, agora”
“Vamos depressa, que os pássaros cantam sem demora”
“Já não sei quem sou, quem somos, quem és”
“O filho de Curió Curioso também
“Não sabe mais do que cabeça ou pés”
“Vamos depressa, que o Sol brilha em Zênite agora”
“Sem malas, sem roupas, respostas ou chapéu?”
“O filho de Curió Curioso promete
“Que nada lhe falte no céu”
“Vamos depressa, que o Sol já se vai novamente”
“Vamos com ele, vamos correndo!”
“O filho de Curió Curioso já chega
“Voando por cima do vento”
“Venha depressa, que Ele já chega voando por cá”
“Tenho medo que mate-me só de me olhar”
“O filho de Curió Curioso só vai
“Não volta, não mata”
“Vamos depressa, seguindo o caminho do ar”
“Não vejo-o refletido nas ondas do mar”
“Não vês que o filho de Curió Curioso
“Jamais vai chegar?”
“Olhe pra si e repare no bico, nas penas, na voz en-cantada,
“No jeito que pensa, no jeito que fala,
“Nas perguntas que fazes, nas questões que repara,
“Nas dúvidas que tens, sobre si, sobre nada”
“Tu és o filho de um Curió Curioso, e não sabes
“Quem tu és, quem tu querias saber
“E eu sou-te a ti mesmo também
“Que não sabe pra onde vais, de onde vem”
“Agora vem, vem depressa
“Que vamos saber quem seríeis
“Que vamos voar onde podíeis
“E onde não podíeis também”
   
   
     

Vinte e Quatro Horas


     Tudo que eu era o Tempo levou. Tudo que eu era, eu deixei que o Tempo levasse. Em tão pouco tempo deixei que o Tempo levasse uns sonhos. Tem bem pouco tempo deixei que o Tempo levasse esperanças. Não faz muito tempo, deixei que o Tempo levasse fragrâncias. Aromas familiares ainda por vir também deixei que fossem embora com o Tempo.
      
     Dez mais oito anos e eu já não quero um romance. Dez mais oito anos e eu já não creio num romance (para mim). Dez mais oito anos e eu só sei falar de tudo (ruim); dez mais oito anos e eu já frustrei meu próprio ser mais de dez mais oito vezes. Eu sozinha, eu mesma, sem ajuda de qualquer outro alguém. Em um processo masoquista que se renova todos os dias, mais de dez mais oito vezes por dia, eu me converti em meu pior inimigo desses dez mais oito anos de Vida.
     
     E eu até tento passar uma imagem de forte, de quem não tá nem aí, mas eu sei que não funciona. Sou só uma criancinha, pra quem não tão nem aí. Eu tava aqui, fui pr’aí, mas acabei o dia de hoje ali, sozinha. Embolei os poemas e joguei-os aí do seu lado do muro. Eles estão aí, agora.
     
     Perde a graça sonhar com romance quando tem tanta coisa na Vida. Não teve mais graça imaginar porque, no fundo, fiquei enjoada. Fiquei enjoada da graça das pessoas apaixonadas. Ninguém se apaixona de graça. Não tem graça se apaixonar quando tudo tem graça pra você. Tudo é lindo, belo e gracioso, mas não mais. Não há mais graça.
     
     Se eu sentasse e esperasse, ou saísse e procurasse, será se faria diferença? Se eu fosse e encontrasse, ou se buscasse e nunca achasse, será se eu seria feliz? Se eu quisesse e não gostasse, ou se gostasse e não quisesse, será se eu teria pra mim? Se eu amasse e não fosse amada, ou se eu fosse amada e não amasse, será se um dia mudaria?
     
     Eu sou carente de todas as expectativas que deixei que o Tempo levasse.
     
***
     
     O Sol veio, daí se foi, e por mais vinte mais quatro horas ninguém foi capaz de encontrar uma solução ao problema da fome e da sede na África.

Ninguém me conhece de verdade.

Meu coração é tomado pela angústia sempre que não consigo me expressar completamente. Desconheço meios-termos e vivo entre razão e emoção extremos, extremos. Sinto tudo intensamente e sofro pelas menores coisas.

Meu coração é tomado pela angústia sempre que não consigo me expressar completamente. Desconheço meios-termos e vivo entre razão e emoção extremos, extremos. Sinto tudo intensamente e sofro pelas menores coisas.

Ninguém me conhece de verdade.

A vida segue em frente e sempre me deixa pra trás. Preciso correr pra que consiga acompanha-la. Cada novo erro traz consigo o peso dos erros anteriores, e tudo cai sobre meus ombros como um grande caminhão de batatas que se abre sobre mim. 

Ninguém me conhece de verdade.

Contra todas as expectativas minhas, de meus pais e de profissionais, eu tenho amigos. Sem esforço, sem dramas. E, mesmo assim, a solidão está sempre à espreita, enganando meu coração e convencendo-me de que estarei sozinha para sempre.

Ninguém me conhece de verdade.

É difícil fazer-se entendida quando tudo parece vazio, tudo parece distração, tudo parece vaidade, e as pessoas não se importem o bastante para que lhe escutem, reclamando às repetidas, e lhe respondam às repetidas. Metalinguagens e inversões sintáticas não escondem a corrente que lhe prende em um ciclo de mesmos erros que lhe aprisionam a alma.

Ninguém me conhece de verdade.

Quem poderia me conhecer por baixo de todas as máscaras? Pessoa alguma poderia ousar dizer que nos conhece sob o suor de nosso rosto. As camadas da existência estão sempre sobrepostas e deformadas, como se a vida não passasse de uma obra cubista. Tomo minhas licenças poéticas porque elas também são máscaras para mim.

Ninguém te conhece de verdade.

Minha Vida é meu clichê particular. Todas as cenas de um musical trágico. Uma vida que anseia ser escrita, que se manifesta como urgência literária constante. Há sempre algo a ser escrito, a ser dito. Não devo estar dizendo alguma coisa. Devo estar dizendo demais e carecendo hoje de novas explicações as má-explicações do dia anterior. 

E, por mais que eu escreva todas essas vezes em que a obsessão e o desespero batam, e os dedos comecem a tecer no ar aquilo que eu tenha a dizer, ninguém me conhecerá de verdade.

Ninguém me conhece de verdade, mas eu me exponho como se fosse uma ostra sem pérola, em busca de alcançar algum valor perante uma sociedade ostraica que quebraria minha concha. E quebra, todos os dias. Não a concha que me liberta, mas a que me protege e que permite que, agarrada à um fio de sanidade, eu consiga dormir à noite.

Memórias Póstumas de Minha Vontade de Produzir


À distração que primeiro enfraqueceu nosso ritmo insano de trabalho dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.
     
     Eu me recordo de um belo tempo em que minha existência era carregada de sentido – bons tempos em que havia um corpo onde estar. Enquanto um ser abstrato, careço de seres tão-ditos-concretos que me possam alojar no coração, nos músculos, na fé. Vejam bem, senhoras e senhores, que não há existência tão miserável ou desencorajadora quanto a da Vontade de Produzir.
     
     Minha grande inimiga, a Procrastinação, ainda que de vida tão abstrata quanto a minha, e tão carente de concreto para que exista quanto eu, sofreu bem menos afrontas à sua sanidade, e permanece viva. Se rejeitada por um corpo, corre e logo encontra um novo hospedeiro – não cria laços. Eu, lamentavelmente, torno-me exclusivo do ser em que me escondo pela primeira vez. Não sou apenas uma Vontade de Produzir. Sou Sua Vontade de Produzir. Vontade esta que você tão cruelmente mata todos os dias ao passar de um besouro colorido. Quando morro, não revivo, ou retorno; sou jogado ao esquecimento, e logo, você, já assassino, trai minha lembrança, e nem mesmo acende uma vela em honra de minha dura convivência dentro de sua alma conflitante. Enquanto sou enterrado pelo Tempo, você trata de arranjar para si uma nova Vontade de Produzir para chamar de sua.
     
     A existência desta Sua Vontade de Produzir que lhe fala durou quase uma manhã inteira. Tudo parecia bem quando você, depois de um curto cochilo, decidiu levantar-se e trabalhar. Arrumou-se rapidamente, ajeitou-se com ânimo na mesa de altura ideal que encontramos convenientemente pelo caminho. Você mal havia notado, mas já estávamos trabalhando juntos desde o momento em que saiu da cama tão decididamente. Parecia um sonho, um dia perfeito. Assisti, através de seus olhos, conforme sua planta, em escala tão maior que sua paciência permitiria, tomava forma.
     
     Eu e Sua Criatividade (já bastante debilitada e envelhecida, perto da morte) unimos forças conforme maquinávamos soluções e novas ideias cromáticas, que lhe deixavam cada vez mais animada com o processo. Pessoas passaram e lhe cumprimentaram – tamanha sua concentração e empenho, mal foram notadas. Havia um futuro brilhante pela frente. Eu conseguia conceber momentos de descanso e ócio saudáveis, que apenas me alimentariam e fariam mais forte. E você, como uma assassina cruel e preguiçosa, colocou um fim em tudo. Acertou-me primeiro conforme conversava com amigas cujos assuntos satisfaziam o lado sombrio de sua bem-disposta essência.
     
     Veio então, a hora do almoço. E, com o almoço, ligou este computador (que, agora, como vingança, utilizo para trazer a público estas memórias póstumas de uma existência curta demais para que seja espontaneamente lembrada). Foi um tiro certeiro em meu coração abstrato. Faleci lentamente, e seu egoísmo sequer permitiu-se notar. Era o fim de minha vida como Sua Vontade de Produzir.
     
     Morta como estou, não ressuscito como uma Nova Vontade de Produzir. Não se turbe seu coração agora, porém, já que sabes de toda a verdade – quem sabe, em alguns dias, não consiga um passe para que retorne como Procrastinação e lhe assombre.


Conversa com um ácaro (parte 1)


     Mal havia passado das sete, mas eu já estava deitada. O corpo doía, a cabeça zunia, e a voz saía rouca. Meu nariz jazia entupido, e eu fungava constantemente. Fora um dia difícil, repleto de espirros que me incomodaram a rotina completamente, impedindo até mesmo uma decente refeição, justificando a grande fome que sentia. E era o conjunto destas cansativas circunstâncias que me colocavam na cama, sob as cobertas, tão cedo.
     
     O que relato a seguir, não sei dizer se realmente vivi. Talvez não tenha sido nada mais que um delírio, consequência do cansaço. 
     
     Apenas me recordo de, entre um espirro e um lenço de algodão, com os olhos fechados, sentir, sem razão aparente, formigamento através do corpo. Como se uma força me descolasse de minha alma. Enquanto movia-me ferozmente, em tentativas inúteis de aplacar o incômodo, sentia o cobertor, encostado em minha pele, a me engolir. Minha cabeça perdia o apoio do travesseiro e minha mente rodava, zonza. Os músculos de meu corpo travaram, buscando um alívio, mas a sensação de que era amassada como um chiclete pela gravidade apenas aumentava, e era como se alguém martelasse meu crânio repetidas vezes. Puxava o ar inutilmente através de narinas constipadas e garganta fechada. Nos ouvidos, um terrível zunido, como se a pressão fosse explodir-me o cérebro a qualquer momento.
     
     Uma corrente elétrica passava por meus vasos sanguíneos, causando-me arrepios horrorosos. No entanto, após muitos minutos de sofrimento, finalmente sentia-me ligeiramente estabilizada. Percebia-me encolhida, meu corpo ainda encontrava-se em choque. Temia descobrir o que havia ocorrido – talvez o mundo houvesse acabado. Algo que, entre os pesares, teria suas vantagens; acabar-se-ia o Sofrimento e as alergias que perseguiam-me diariamente. Porém, a julgar pela inquietação em meu coração, com certeza o mundo – algum mundo – continuava a existir, e existia ao meu redor.
     
     Uma fagulha de grande claridade irritou-me na escuridão dos olhos cerrados. Um cheiro de amônia ardia-me as narinas, e a pele coçava mais que o suportável. A tentação da coceira me fazia estremecer, mas não ousava qualquer movimento. Sentia a superfície na qual eu me apoiava tremer como um terremoto, mas um terremoto muito leve e gentil. Escutava vozes finas, milhares delas, como o cantar de muitos passarinhos em revoada livre.
     
     No entanto, o Medo permanecia em meu coração. Não havia ali, para mim, segurança. E eu teria permanecido imóvel e assustada por ainda muito tempo, não houvesse algo me cutucado as costas. Um choque percorreu-me o corpo, e esbocei uma terrível careta de susto, abrindo de supetão os olhos. A luz me cegou por um momento, até que, acostumada, enxerguei algo que deixou-me deveras assustada. Um enorme animal, apoiado em duas patas curtas e gordas, com outros três pares inclinados sobre mim, como se prestes a atacar-me. O corpo gigantesco contrastava com a cabecinha, que por sua vez era engolida por dentes enormes. A voz com que se dirigiu a mim, porém, era fina como garoa.
     
     – Com licença, você está no meu caminho.
         
    

Clair de Lune


E essa Lua sorridente
Já não sei se tá zombando
Se só é indiferente
Ou se só está gozando
Da alegria que é viver
Mudando.
[Dedicado à Lua Minguante, à Vênus Insinuante, e à Arquitetura Torturante que me força passar meu Domingo labutando, ainda que ao ar livre, sob o céu Brilhante]