Ovo


Eu e meus amigos sempre dizemos que Uberlândia é um ovo. Com cerca de 700 mil habitantes, uma universidade federal, e pouquíssimas opções à vida noturna (quase todas concentradas numa mesma área), o pessoal numa mesma faixa etária acaba sempre se conhecendo, ainda que a maioria só “de vista”. Pois bem, numa manifestação que reuniria cerca de 35 mil pessoas desta cidade – cerca de 5% da população – , essa característica de cidade pequena se mostrou presente. Conforme seguíamos pelo nosso percurso, eu via conhecidos do Ensino Fundamental, pessoas que sempre vejo perto do meu bloco, e nos eventos que meu curso promove, amigos passando ao longe, colegas de infância que não via havia tempos, até aquela pessoal legal que, mesmo vivendo na mesma cidade, eu acabo conhecendo mais só pela internet.
     
Porém, mais importante do que as coisas habituais que eu vi no Grande Ato Pacífico pela Redução das Tarifas de ônibus em Uberlândia, são as coisas que eu nunca havia visto, ou via raramente – só, talvez, em fotos, vídeos, e sonhos. Vi amigos e inimigos acreditando juntos. Vi gente que não fazia ideia do motivo de estar ali, acreditando. Aturei e até aproveitei a música da mal-dita Charanga, bateria das Engenharias da UFU. Gritei e repeti, com sinceridade, apenas as coisas nas quais eu acreditava. Vi mais gente de verde e amarelo que em dias de jogo da Copa. Presenciei a maior reunião de coxinhas da história dos estereótipos irritantes. Catraca livre – andei de ônibus, e não paguei por isso. Vi minha mãe reviver seus dias de estudante ativista, pedindo aos quatro ventos pela educação, e por melhorias à sua classe de professores. Subi no viaduto que atrasou minhas idas à escola por quase um ano, e, de lá, vislumbrei o mar de gente que vinha atrás de nós. Muita gente. Bem mais que eu achei que apareceria. Bem mais que minha cidade ovo costuma transparecer que possui. Bem mais que meu coração emotivo estaria preparado para ver.
     
Vi também gente defendendo causa torta, desejando coisas erradas, lutando de uma forma infrutífera. Nossa cultura da ofensa demonstrou-se presente mais uma vez. E quanta gente sem graça copiando texto de outros cartazes!… Caramba, pessoal. Outra grande reunião de máscaras do Guy Fawkes, pedindo que não houvesse violência, ou que não invadissem/depredassem a prefeitura. Ah, e os pequenos anarcodoidos, carregando um A gigante na testa e nas costas, explodindo bombinhas em meio à muvucas, e dentro do túnel sob nossos pés. Psicologia das massas – você sequer sabe o que está ocorrendo, mas, de repente, começam a correr desesperadamente, gritando, até que um som altíssimo, abafado, e muito próximo, irrompe pelos ares. Um susto percorre o corpo, seguido por um momento de extrema raiva. Faz parte, certo? Discutir com a mãe cansada, pedindo pra ficar mais um pouquinho. Perder-se dos amigos. Parar e refletir enquanto lê alguns cartazes com mensagens realmente pertinentes. Recitar trechos de literatura da decadência enquanto passantes com mãos faustosas passam em meio à rua em derredor, tomada por um ruído incomum. Questionei-me tantas vezes acerca dos que sempre vejo por aí, e dos que jamais verei novamente. Qual o fundamento disso? Quais são os dados jogados para que se determine quantas vezes cruzaremos os caminhos e as ideias com as pessoas com quem dividimos este espaço urbano?
     
A verdade é que estou de volta à minha casa. Meus pés, pernas, lombar e braços doem. Não paro de pensar nas consequências de tudo isto que tem ocorrido no meu país, país do qual eu constantemente desejo fugir.  Faço a advogada do diabo às vezes, quando defendo o uso de violência em revoluções. Mas isto não é ainda a Revolução. Talvez um ensaio, uma preparação, uma introdução ao processo. Porém, ao mesmo tempo, será que estaria pronta pra uma verdadeira revolução? Um país de 200 milhões pegando fogo, símbolos do poder sendo destruídos, patrimônio do qual aprendo a cuidar na faculdade sendo posto ao chão, governantes sendo arrastados de suas cadeiras, arrancados de suas posições. Mais pessoas morrendo, todas nessa mesma causa. Na verdade, qual causa? Eu quero uma para mim. No momento, o foco está nas tarifas. Mas então, o que mudar primeiro? PEC 37? Bolsas-tudo? Feliciano? Um golpe de estado? Socialismo, Anarquismo? Ou o genérico “lutar contra a corrupção”, o grande monstro que jamais destruiremos sendo pacíficos e tão complacentes com mentiras e manipulações como somos. 
     
Somos, antes de tudo, 200 milhões. Quantos destes foram às ruas? Quantos iriam, caso fosse necessário? Eu iria, quando tudo estivesse mesmo caindo? Quantas perguntas, quantas perguntas. Eu tento me distrair de todas elas, ou fingir que não existem. Eu gosto de momentos de emoção. Gosto dos pequenos atos, ainda que hipócritas, que fazem o coração ferver. Senhoras, debruçadas sobre as janelas de seus apartamentos, sacudindo lençóis brancos, bandeiras, e dançando ao som do nosso som. Cantar nosso belíssimo hino nacional. Verde e amarelo – ah, como eu amo verde e amarelo. Rimas bobas e insistentes. Música pop nacional grudenta – PRE-PARA, QUE AGORA É HORA DE MUDAR A HISTÓRIA não, calma. 
     
No final, somos todos ovelhas sem pastor que não sabem ficar sozinhas. Que não sabem viver sem um ideal, uma ideologia pela qual viver. Ainda estou procurando a verdadeira causa pela qual lutar, a causa que vai iniciar nossa tão sonhada Revolução Brasileira. Por enquanto, manter-me-ei adepta à grande causa da cidade ovo. De qualquer forma, é muito divertido comentar de todas as pessoas lindas que vi ao longo das últimas 8 horas. Eu sinto que, em breve, esse ovo vai se partir, e saberemos se está choco, não fecundado, ou se há um filhote de pássaro pra sair dali. Talvez Uberlândia seja só um pintinho, destinado a tornar-se uma galinha e jamais alçar voo. Ou, talvez, torne-se um grande pássaro, aguardado pelas alturas, voando sobre os montes, por entre as nuvens, junto com o resto do Brasil. E talvez eu me torne também um pássaro, e voe pra longe daqui. Ou fique só em círculos pra sempre no espaço aéreo da cidade em que nasci.
     
   

[só]

No fundo, todo mundo é igualmente solitário. Quando a noite cai, quando os outros morrem, resta um ser, e só. Só o Ser. Só umas lembranças do que as outras pessoas já foram. Só um borrão do que existe à luz do Sol e da Lua. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem pra nós quando fechamos nossos olhos.
     
Dá pra contar com a companhia dos amigos ou de uma música. Da família, ou de um animal irracional. Mas acompanhar não vinga. Dois em um não vinga. Viajar. Grandes grupos. Cidade, estado, país, continente. Nada disso floresce, ou espera pra que veja a Vida passar. Valorizamos tanto a individualidade, o individualismo, o único ser. Qual o sentido em ser, se a morte está à espreita e quase nada do que fomos resta depois que deixamos a superfície, e vamos ser esquecidos no subsolo?  No fundo, todo mundo é igualmente desnecessário.
     
Nunca tive razões pra sofrer pela solidão em um Dia dos Namorados. Mas sempre tive razões pra sofrer pela solidão de todos os outros dias. De todos os anos que vivi até agora. De todo esse buraco que me consome, ainda que eu agora tenha gentes com quem dividir as frustrações. Mesmo assim. Quando a noite cai, conforme os outros morram, restarei eu, só. Só eu. Só umas lembranças do que as pessoas ao meu redor são, e já foram. Só um borrão de memória das coisas que eu vejo enquanto há luz. Só aquelas estrelas meio psicodélicas que aparecem quando fechamos os olhos, e encaramos o mais íntimo do vazio da nossa solidão.
   
      

"30 de 18", ou "Por que estou decepcionada comigo mesma"

     Na próxima segunda-feira, dia 1 de Abril de 2013, completam-se 30 dias desde que eu fiz 18 anos. Essa idade mítica, que nos retira bruscamente da infância e nos joga oficialmente pra fase adulta, pertence a mim há um mês comercial. A maioria aguarda ansiosamente pela data; eu oscilei ao longo dos últimos meses. Sinto uma imensa falta de ser criança.

     Como era adiantada no colégio, vivia sob a pressão de “amigos” tratando-me negativamente por “ser criança”, e cobrando de mim comportamentos que não pertenciam a minha idade (e nem à deles). Minha necessidade de estar sempre de acordo com todas as opiniões que as pessoas emitiam acerca do que eu era vs. o que eu devia ser fez com que eu estivesse sempre tentando me adequar à qualquer coisa que parecesse mais legal do que aquilo que eu era. Ironicamente, as pessoas sempre me rejeitaram, mais do que gostaram de mim.

     Aos 2 anos, eu já sabia ler e escrever; escrevia pequenas histórias sobre princesas que salvavam seus príncipes, e as ilustrava com garotinhas de vestido cor de rosa. Meu pai trabalhava com moda, e eu possuía minha própria grife imaginária. Comecei a ler sobre Matemática e Lógica aos sete anos; estudei a Relatividade Especial, pela primeira vez, aos dez. Escutei, desde pequena, que eu poderia ser qualquer coisa que eu quisesse. Que meu futuro seria brilhante; antes dos 18, eu teria alcançado coisas que muitos adultos jamais sonhariam em alcançar. Eu era uma criança prodígio, como diziam. Poderia falar cerca de 5 línguas, poderia ter adiantado mais anos no colégio, poderia ter publicado livros…

     Bem, aqui estou eu, aos 18. Nada disso ocorreu.

     Entrei na universidade aos 16, mas, isso, por si só, não é grande coisa. Permiti que o mundo ao meu redor me freasse, me dissesse que crianças não devem se importar com as coisas que eu amava; permiti-me acreditar que estava numa idade em que nada realmente acontecia, e que a chave era ir em busca da futilidade adolescente das revistas. A culpa não era bem dos outros – cada um exprimia as ideias e valores que lhe eram convenientes. O erro foi meu, ao aceitar, na minha vida, esse desespero por aceitação.

     Desde que me comprometi, em 2011, a postar, neste blog, os textos que escrevia, sempre senti uma vontade muito grande de poder falar sobre minhas frustrações; demorei a fazê-lo por medo da opinião dos outros. Essa vida online que levamos é extremamente medíocre; essa mania de criticar tudo aquilo que o outro faz, apenas pela diversão de vê-los mal, é algo que eu nunca entenderei. Neste momento, publicando este desabafo, estou ciente de que serei julgada, da mesma forma que fui na infância, quando mudei de colégio, e quando entrei na faculdade. Mas a verdade é que ninguém tem nada a ver com isso. Não devemos nos tornar arrogantes e estúpidos apenas pela autenticidade – a boa convivência deve ser priorizada –, mas não faz sentido preocupar-se tanto com o que todos dizem. Às vezes nossos amigos mais próximos nem sempre sabem lidar com nossas ações, por conta dos próprios (pré)conceitos que carregam.

     Hoje, quando me encaro no espelho, vejo apenas coisas que me chateiam – física, emocional e intelectualmente. Mas, talvez, o pior de tudo, seja que eu insista em querer adequar-me à ideia que os outros fazem do que eu deveria ser; mais magra, mais estável, menos frustrada, de cabelo mais comprido, usando roupas diferentes, lendo livros diferentes, falando sobre assuntos que interessam aos outros, e não a mim. De certa forma, é isso que mais me frustra. Entre tudo de bom que já aprendi com as outras pessoas, foram tantas coisas ruins que eu aceitei. A escolha sempre é nossa; a escolha sempre foi minha.  

     Mas não é isso que importa agora. Importa agora que eu queria poder voltar à minha infância, à infância de verdade; não para brincar mais, ou pela alegria de não precisar passar noites em claro projetando, mas para fazer o que eu realmente desejava, o que realmente pulsava no meu coração. As potências não duraram para sempre, como eu sempre pensei que durariam.

     Porém, de nada adianta choramingar agora, já que o tempo não volta, e tudo aquilo que eu poderia ter feito/sido/aprendido antes, será. Convém que eu passe adiante o que a vida me ensinou. Por mais que eu deseje poder voltar, não voltarei; só seguirei em frente agora. Minhas avós morrerão, meus tios e tias morrerão, meus pais morrerão também; um dia, eu também vou morrer. E eu espero muito não ter que, ao 40, aos 60, e aos 80, não sentir a mesma decepção que sinto neste momento.

     Eu espero que eu consiga vencer essa força do Tempo que me faz querer, cada vez menos, mudar alguma coisa nesse mundo.

  (E, aos amigos que certamente pensam em chamar-me, em privado, para censurar meu comportamento por pensarem que me expus demais/fui muito pedante/fui muito orgulhosa/sou muito bobinha: hoje, não).

Photo by Steve Johnson on Unsplash

Cavei um buraco


     Cavei um buraco. Foi de forma discreta, silenciosa. Fiz algum alarde, mas na verdade não deixei claro o que vinha fazendo. Por algum motivo, as pessoas ainda pensam que há muito mais que se possa fazer em um campo vazio, com uma pá em mãos, e qualquer fresta de tempo livre.
      
    A verdade é que nós não somos tão criativos assim sob Sol escaldante, com tão poucas ferramentas e opções disponíveis. Antes que nos demos conta, o buraco está cavado, e já estamos lá dentro, confortavelmente acomodados em posição fetal. Choramos. Faz parte, não é.
     
    Pode demorar um pouco até que encontremos motivação ou meios para escalar as paredes mais ou menos longas do buraco em que estamos. Talvez, no fundo daquele buraco quentinho e aconchegante, haja um tesouro. Ou qualquer coisa do tipo. Talvez lá esteja um recomeço, uma nova oportunidade, uma vontade de sorrir, ou só uma corda, muito simples, mas útil para que saiamos dali. 
     
    Talvez, no fundo, não desejemos abandoná-lo. É confortável se esconder de tudo. Mas a vida continua, e podemos perder mais tempo que necessário remoendo coisas em processo de serem deixadas pra trás.
     
     
     Cavei um buraco, e entrei nele; não pretendo sair tão cedo. Só saio quando encontrar meu tesouro;
       
    
     só saio quando me reencontrar.

    
    

Memória [6 dias de Tempo]


[nesta semana que antecede minha 18ª data natalícia, comprometi-me a escrever, desta Segunda, até o Sábado fatídico, um texto sobre o Tempo]
     Foi numa quinta-feira, acho, mas bem pode ter sido numa quarta, ou numa segunda. O tempo perde o sentido quando estamos tão mais preocupados com o que há de vir a se do que com o que tem sido. Um grande dia chega, e há já tanta preocupação com o próximo, que as coisas esvaziam-se de sua real importância.
     
     Em algum dia destas últimas semanas, parei por um segundo e notei alguém que por mim passava. Ergui os olhos dos quadrinhos que lia, e observei seus passos lentos até seu carro. Alto, costas encurvadas. Mal erguia os olhos do chão. Movimentou a cabeça pra despedir-se de mim, com um sorriso simples.
     
     Há algo de muito sombrio sobre a Memória. Ela nos prende ao passado, mas transforma a saudade e a nostalgia em pesos insustentáveis. Passamos a viver em função de preservar a lembrança do que já passou. O Tempo congela dentro de nós. Ao nosso redor, ele continua correndo.
     
     O brilho de um substantivo é dar substância àquilo que mal existiria. Tenho um nome que é só meu. Ele também, mas não de todo. Assumiu o nome daquilo que se tornou mais importante, superior a si mesmo. Penso em seu nome, mas como o nome de alguém que esvaziou-se de quem é. Manteve a gentileza e a disposição. Vive a vida que o trabalho lhe deu.
     
     Ninguém sabe bem que ele é. Só onde ele está.
     
     Responsabilizou-se por todos nós. Fez daquilo o máximo que tem. Não sei se está feliz. Talvez tenha só aceitado. Vive num passado que se tornou presente, e futuro. Toda sua memória se repete. Quase nada muda de novo. A mesma rotina. Os mesmos passos. As mesmas funções. A mesma maleta, a mesma postura recurvada, o mesmo molho de chaves no bolso. Ontem, hoje e amanhã.
     
     Meu minuto de observação acabou quando entrou em seu carro e foi embora. Foi embora, sozinho. Já era minha hora de ir também, mas não quis. Estava presa àquele lugar. Ele também. Eu, por uns poucos tempos só; ele, pra sempre, talvez. Morreria indo e vindo, quem poderia dizer que não.
     
     Sua memória, e a memória de si, estariam sempre encrustadas nas paredes daquela sala. Para além de enquanto estivesse ali. Ele era o lugar. O lugar o era.
     
     Aquele Passado se encerra quando ele sair dali.

Hoje

     O amanhecer de um novo dia já devia nos avisar o quão ruim ele seria.     
     Hoje foi um desses dias. Que deviam ter me avisado que não deveria ter saído da cama.
     
     Ontem também foi. Todos os dias têm sido. Todos os dias são Hoje.
     
     Hoje eu parti meu próprio coração.
     
     Não o fiz sozinha, claro. Ninguém é tão forte que possa partir o próprio coração – principalmente alguém como eu, cujas forças já se esgotam, cedo assim. Falta-me o ar. Desaprendi a respirar.
     
     Parti meu próprio coração hoje. Mas não só hoje. Há tempos ele tem sido cortado.
     
     A primeira apunhalada ocorreu quando perdi as palavras pela primeira vez. Não mais soube dizer o que sentia. Meu coração havia sido partido uma vez, não podia coloca-lo mais em jogo. Transformei-me em um grande buraco negro, cuja primeira fenda começava a se engolir. Lentamente. A fenda crescia mais rapidamente.
     
     Sem que percebesse o que vinha fazendo a mim, construí um muro ao redor do meu coração.
     
     Talvez meu inconsciente quisesse impedir danos colaterais. Não adiantou.
     
     Hoje eu parti meu próprio coração. Parti também o coração de outro.
     
     Mas não o parti assim, de uma vez só. Venho partindo-o há muito tempo, lentamente.
     
     A primeira apunhalada ocorreu quando perdi as palavras pela primeira vez, e não soube dizer-lhe o que sentia.
     
     Nunca mais soube. Tantas semanas sem que eu conseguisse dizer-lhe o que sinto.
     
     Tentei algumas vezes, várias semanas atrás. Não consegui.
     
     Brigamos.
     Tentei mais uma vez, hoje. Não consegui novamente.
     Brigamos.
     Partimos.
     Fugi de mim. Ele também fugiu. De si, e de mim.
     Nosso verão está acabando já.
     A verdade é que os dias sempre nos avisam quando devemos ficar na cama.
     Chovia. O Sol mal aparecia.
     Está frio aqui. Está frio aqui, dentro de mim.
     Porque, Hoje, meu Sol foi embora.
     
     Todos os dias são Hoje, agora.

Casa


     Não existe sentimento melhor que o de voltar pra casa. 
     
     Viajei por tantos dias que havia até me esquecido; o cheiro familiar, os sons que caracterizam, os objetos que nos fazem lembrar, em qualquer lugar, da nossa morada. Viajar, passear, conhecer, reconhecer, descobrir, e enfim redescobrir aquilo que nos foi primário. Casa, acima de tudo, é sentimento. Sensação.
     
     Tenho várias casas. Aquela dos meus pais, e a da minha avó. Algumas casas são visíveis, tocáveis; outras são como um abraço – tão material e imaterial simultaneamente. Um de meus tipos favoritos de casa são pessoas. Pessoas que nos dão a sensação de que o mundo é, magicamente, bom e justo. Mesmo que por um instante. Algumas casas são especiais por terem aquele cheiro emocional de café. Trazem um aconchego e uma nostalgia que confortam, como um cobertor felpudo em noite de frio.
     
     Tenho uma Casa que cheira a orvalho de uma manhã que chega após noite chuvosa. Acho que isso se deve ao fato de minhas estadias temporárias ali sempre terem sido muito atribuladas, cheias de tempestades. Hoje, tudo isso já passou. Já retorno bem menos àquela Casa – justamente agora, que há paz. Mas talvez seja melhor assim.
     
     É bom saber que existe alguém que faz lembrar confusão, mas traz calmaria. Que pode ser tão ou mais negativa quando se está pra baixo – e esse mesmo negativismo pode fazer tão melhor. Casa boa é assim. A melhor Casa é aquela que nos deixa melhor pra voltar a explorar o mundo, e descobrir nossa vida.
     
     Se seu coração fosse uma casa à parte, seria um casarão – maior que já vi. Grande e fortificado – difícil de acessar, difícil de entrar, de ser abraçado pelas suas paredes. Nada de muito estranho. É preciso um cofre que proteja os tesouros que se guardam ali. Acho que amo tanto essa Casa porque ela sempre vem comigo. Há muito tempo. Mesmo em silêncio, mesmo que eu não perceba. A memória de que, em algum momento, irei voltar, me conforta.
     
     Não há porquê em viajar, se não puder voltar pra Casa.
[Feliz Aniversário, Camila ♥]


Primeiro de Janeiro


     Existe uma sensação generalizada de depressão/animação – que chamarei de “Síndrome do Primeiro de Janeiro” –, carregada de falsos moralismos e vontades impossíveis, que costuma aparecer justamente no tal dia que a nomeia. Após uma noite consideravelmente divertida, alguma (ou muita) bagunça, e fogos de artifício, retornamos pra casa ao amanhecer, na esperança de dormir e magicamente acordar com uma vida totalmente nova.
     
     Meus Primeiros de Janeiro costumam ser psicologicamente deprimentes. Contra minha própria vontade (posso provar isso), começa a lotar minha mente de pensamentos aleatórios. Talvez fosse uma forma de evitar que considerasse demais sobre os erros que cometi. Nunca adiantou. Aumenta minha consciência de que o tempo está realmente passando. Já não sou mais criança. Estou morrendo.
     
     Em seis dias estou de volta à universidade. Passarei cinco desses dias cuidando de trabalhos. Além disso, ganhei peso nos últimos meses. E sinto que minha avó materna pode não passar desse ano. Farei 18 – e isso me deixa igualmente ansiosa e preocupada. A vida real, que desde 2011 vem me dando alguns tapas na cara, deixa bem claro que, a partir de agora, começará a me dar pontapés. 
     
     Apaixonada por números como sou, sempre fico deprimida ao saber que a contagem dos meses jamais ultrapassará o doze. Desse ponto de vista, sinto que, a cada novo ano, voltamos à estaca um. Uma progressão infinita. Assusta, um pouco. Sempre me assustou. Tenho medo de coisas sem fim. Daí começo a questionar os motivos de eu, finita, continuar vivendo nesta linha de tempo sem fim. Se, num minuto, me sinto no lugar certo, no seguinte já sinto que está tudo errado nessa vida. Coisa de adolescente mesmo. 
     
     Já chegou o momento em que nada mais faz sentido. Esqueci-me do dia da semana em que estou. Principalmente nesse calor. É aquele limbo do quase sono. Tiro minha primeira soneca do ano. Tenho odiado dormir ultimamente. Acordo como houvesse passado toda uma noite lutando. Lutando contra o quê? Não tenho inimigos. Só minha própria consciência. Inimiga o suficiente.
     
     Li tantos livros essa semana, quero mais. Pra ver se descanso minha mente de tantos pensamentos confusos. Tenho pensado muito sobre coisas que jamais ocorrerão, nesse e em qualquer outro ano. Pensava que, a essa altura, já estaria melhor. Seria melhor. Mas isso me faz pensar no passado. Não quero. Porém, ainda me sinto patética. Engraçado, achei que já estaria dormindo. Não estava no limbo? Acho que o próprio calor me acordou.
     
     Ano Novo, e não choveu. Ainda estou pensando no que isso pode significar.
     
     Aqui vamos nós de novo. Página 1 de 365. Lembro-me de 2012 como se fosse ontem. Não janto desde o ano passado. Não vejo meus amigos desde o ano passado. 2013, surpreenda-me. Feliz Ano Novo. Feliz Hoje. Feliz. Feliz.
     
     I’m just skin and bones.

Não gosto de andar de ônibus

      Fui uma daquelas meninas mimadas que eram carregadas de carro pelos pais pra cima e pra baixo até os doze apenas. Aos onze comecei a me aventurar a pegar ônibus sem uma tia ou prima por perto – só aos treze que mamãe deixou que eu começasse a andar sozinha por mais que quatro ou cinco quarteirões. Lembro-me de, na oitava série, aos treze, ir e voltar do colégio utilizando transporte público. Aquilo, pra mim, era um sinal de maturidade. Eu estava crescendo.
    
      Hoje, cerca de quatro anos depois, já saí do ensino regular e entrei na universidade. Uma das entradas para o campus da UFU – por sorte, o mais próximo dos blocos em que tenho aulas – fica a cerca de dezoito quarteirões da casa em que moro, na mesma avenida até. São apenas três ou quatro paradas do ônibus, sem muitos esforços.
    
      Apesar de mamãe me levar na maioria das vezes (quase dezoito anos na cara e ela ainda sente pena de mim ao pensar que estou andando sob o Sol), sempre que não estou atrasada – raras situações – e ela está ocupada o suficiente para me deixar ir sozinha, eu opto por descer a pé a avenida. Fico alternando entre as calçadas, me descabelo completamente e acabo com aquele cheiro de vento de cidade. A volta é uma subida consideravelmente mais pesada (e geralmente já estou mais cansada do que gostaria, nessas horas de retornar), mas, ainda assim, gosto do trajeto.
   
      No ônibus, as pessoas me observam o tempo inteiro. Puxam assunto. Questionam a música que escuto. Julgam-me louca se falo comigo mesma. Ali não posso cantar, não posso dançar – sim, eu danço no meio da rua. A velocidade é, pra mim, o único atrativo do transporte público.
    
      Existe algo maravilhoso sobre andar, sozinha. Descobri isso em uma ocasião em que calculei incorretamente meu dinheiro e, entre muitas impressões de trabalhos da escola, não havia sobrado o suficiente para pegar um ônibus. Estava no Terminal Central, a uma distância considerável da minha casa – cerca de quatro quilômetros. Não vou mentir, havia vários meios de conseguir uma carona de volta. Mas, no fundo, eu não queria. Queria descobrir o que aquela distância representava.
    
      Foram cinquenta minutos interessantíssimos. Cantei, conversei com meus amigos imaginários, criei infinitos diálogos que jamais ocorreriam, fui educada e sorri aos vários estranhos que passaram por mim, e pensei tanto na minha vida que nem consegui me lembrar depois das decisões que tomei. Ao chegar a casa, meus músculos se contraíam involuntariamente, e eu sentia muita fome – um senhor muito gentil deixou que eu levasse uma garrafa d’água por metade do preço, na metade do caminho.    
    
      Na semana seguinte, mesmo tendo dinheiro suficiente para ir e voltar várias vezes, escolhi repetir a experiência. Igualmente interessante. Tenho alguns flashes de lembrança mais nítidos.
    
      Semana passada, em um dia em que seria totalmente desnecessário e imprudente ir à UFU, insisti em fazer o caminho. A ameaça de chuva não me assustava. De fato, na metade do caminho, ela começou a cair. Valeu a pena, de uma forma ou outra. É uma forma de estar comigo mesma, e só. Estou sempre tão cercada de gente – em casa, na faculdade, na cidade. É bom aproveitar esses nichos de solidão.
    
      Ano que vem completo os tais dezoito e, alguns meses depois, espero já estar com minha habilitação e meu carro. Em breve me mudo pra uma casa vinte quarteirões mais distante da UFU que a em que moro atualmente. As coisas certamente mudarão, no que concerne esse trajeto até a universidade.
    
      Mas há tantos outros caminhos a se descobrir.