Sobre o vencido de Augusto dos Anjos

“Este ambiente me causa repugnância…” – Augusto dos Anjos
 
O vento afastado e dobrado,
a terra molhada e pesada,
as tumbas vazias e frias,
as pedras escuras e nudas.
 
Nem líquens, nem musgos.
 
Como se a chuva passada
trouxesse a luz e a vida,
e revirasse a terra maldita,
de morte eterna manchada.
 
Vermes e múmias aguardam.
 
E, quando reflete o luar,
acordam, esticam e salgam;
os filhos bastardos e sujos
do Carbono e do Amoníaco.
 
Tão Hipocondríacos e Cardíacos.
 
Os nervos tão paralisados
já não sentem mais qualquer dor,
e as juntas travadas, sem fluidos,
rangem como mármore a quebrar.
 
Sem olhos enxergam, sem orelhas escutam.
 
E segue-se enfim madrugada
de corpos putrefos e peitos abertos,
corações sem pulso, aflitos,
recordam amor e feridas.
 
Antes que acabe a noite dos vencidos.

Soneto de um peito sem coração

Um sopro de vento que atravessa meu peito
Não é tão gelado que congele a alma
Que, já fria, desprezada, em morte de leito,
Relaxa suas armas e enfim repousa, calma.
E tal qual corpo atordoado de inconstância
Que reprime, mas revela olhos de verdade,
Não há, para o peito vazio, a esperança
De sentir, sem um coração ou realidade.
Mas quem procuraria um coração perdido,
Tão machucado, desprezado e deprimido,
E jogado ao relento, e por ti perfurado,
Repleto de dor e feridas, maltratado?…
Tua é a culpa, quem dera não me rejeitasse
Cada vez que te olho; queria que me amasse!
[Imagem: Tumblr]

Poslúdio

“Que tudo, até a Morte, nos mente.”
                     O Esqueleto Lavrador – Charles Baudelaire

 

Ah, tu que usurpa meu sentido,
E repele-me o coração;
Que joga dados com meus olhos,
Meus tristes olhos calejados.
Ah, se tu, que mentes,
Que mentes só por teu prazer,
Que faria eu, enganado,
De luto eterno e justificado?
Ah, falsária, falsária,
Que diz com os lábios verdades escuras,
Que me penetra as vísceras em silêncio.
Diga-o! Diga-o!
Ah, se as horas se vão, porque não eu?
Se o amor se acaba, porque não o meu?
Se as dúvidas cessam, porque não as tuas?
Vinte anos se passariam e eu ainda,
Ainda o faria por ti!
Ah, mas tu, nem que a vida te obrigasse,
Nem que meu coração clamasse,
Nem que meu corpo perecesse;
Nunca o faria por mim,
Nem que eu fosse parte de ti.

À Quinta Hora

“Tudo tem uma moral: é só encontrá-la.”
                                                             Lewis Carroll
 
À luz tremida
Que suspensa dorme, glorificada,
Em lustres pesados, de cor doirada,
Cinco rumores pairam, deslumbrados,
Tão indignamente penta versados
 
Um olho mágico e brilhante
Desliza por tantas desgraças;
Cinco negras gralhas grasnam!
Ah, jamais poderia a Morte Rubra, mascarada,
Ser devidamente acobertada
 
Um miado azulado
Flutua por ventos meridionais;
Trinta e cinco vidas
São cinco sorrisos enevoados
Em clones penta esfumaçados
 
Malditas se tornam as flores
Quando, em sangue escarlate, pintadas;
E, ao contemplar uma faustosa figura,
Passante tão aveludada,
Tão bela e penta glorificada!
 
Então, à quinta hora,
Penta escorridas e penta apressadas,
Vêm percorrendo cinco estradas;
E, nessas ruas, cheias de glória passada
Que foram, em menos de cinco minutos, atravessadas.

Carta a um amigo que não é visto há muito tempo – Parte I

Querido Augusto,

Ainda me parece estranho falar de você, que já esteve tão perto, mas que agora está tão longe. O estranhamento vem nos pequenos hábitos, coisas tão rotineiras que parecem naturais, até que algo aconteça, que reconcilie nossa imaginação com a realidade dos fatos. Passei muito tempo falando para os outros sobre um amigo que eu tinha, que eu costumava ter, como se ainda fosse fácil passar na sua casa depois do trabalho, para jogar conversa fora até a hora de dormir. Sei que você não gosta da ideia de que falem de você pelas suas costas, e talvez menos ainda que seja eu falando, então peço desculpas se em algum momento dos últimos anos você ouviu falar que eu ainda falava de você. Foi muito difícil deixar a memória da nossa amizade em paz. Tão difícil, que resolvi arriscar contato, mais uma vez, e com uma carta — que vai com um selo especial, que comprei especialmente para sua coleção (espero que não tenha desistido da filatelia).

Desde que nos falamos pela última vez, muita coisa mudou. Talvez você também tenha ouvido falar do que aconteceu na minha vida, sem querer, assim como eu ouço falar de você. Eu e meu pai tiramos do papel nosso plano de ter um negócio juntos. Deu muito certo, mas depois de um tempo preferi deixar que ele tocasse sozinho, e parti para buscar outras coisas. Mudei de cidade, depois de país. Acho que descobri que não gosto da pessoa que sou quando estou perto de casa; me dou melhor com o desafio de construir minha suficiência. Talvez isso seja algo que te deixe feliz, porque sei que você também não gostava da pessoa que eu me tornava perto dos ambientes que me machucaram e rejeitaram quando era criança. Pensei que já havia crescido o bastante para não me preocupar mais com o ímpeto de ser validada por quem me descartou em outros tempos. Mas talvez seja algo com o qual eu tenha que lidar para sempre.

Eu sempre escuto conversas sobre as coisas que você tem feito, mesmo que eu não procure. Algumas pessoas, pelo costume de achar que eu ainda queira saber (e, muitas vezes, quis saber), outras vezes por puro acidente dos fatos e das conversas que tenho por aí. Quase entrei em contato há dois anos, quando ouvi falar que estava de mudança para o Alemanha. Eu, que te acusei tantas vezes de ser um covarde, queria admitir que sempre te achei muito corajoso, e sabia que era uma questão de tempo até que corresse os riscos dos quais tinha mais medo. Tenho curiosidade de saber como se sentiu quando viveu as experiências das quais só ouvia falar, de mim e de outros. Mas você sempre teve uma grande facilidade em ressignificar as coisas. Talvez por isso tenha sido fácil colocar um ponto final na nossa amizade, quando se tornou impossível reconciliar nossas diferenças.

Talvez você nem se lembre, mas hoje são oito anos da nossa viagem para Brasília. Naquela época, eu às vezes já sentia que você não queria mais tanto ser meu amigo, como era antes. Mas aquela semana desorganizada me fez pensar que talvez eu estivesse enganada. Você cuidou de todo mundo, quando o pneu do nosso carro furou no meio de uma tempestade, nossas roupas ficaram encharcadas, os telefones ficaram sem bateria, e ninguém se lembrava do nome do hotel que reservamos. Às vezes me vem à memória a imagem de você correndo na chuva, parando nas lojas de beira de estrada para carregar seu celular, o sufoco para acessar o email da Luana. Eu sentada no banco da frente, brigando com todos no banco de trás, a cabeça explodindo. Os dois litros de chá que tomamos quando finalmente chegamos, e como fizemos uma cabana de cobertores, com o secador de cabelo ligado, esquentando os lençóis.

Pra ser sincera, nem me lembro tanto das coisas turísticas que fizemos, só do quanto estava cheia admiração por você, e por nossos amigos, e a sorte que tínhamos de fazer memórias juntos. Doeu muito como fomos nos afastando aos poucos depois disso, sem que houvesse muito a se fazer, só observar acontecer. Às vezes, uso essas e outras boas memórias como justificativa para continuar apegada, e continuar desejando que as coisas voltem a ser mais como antes, mesmo depois de tantos anos. E às vezes consigo só contemplar o que passou e ficar grata por ter acontecido, por ter estado lá. Mas isso não acontece com tanta frequência. Você sabe que eu não tenho uma grande facilidade em ressignificar as coisas.

Espero de coração que você tenha pelo menos chegado até o fim desta carta, e isso já significaria muito para mim. Mas também, que seja o tempo certo para que eu possa ouvir de você, receber uma resposta. Não precisamos falar sobre o que passou, não precisamos discutir as coisas mal-explicadas e as meias-palavras que ficaram no ar. Muita coisa que parecia ser muito importante naquela época, hoje em dia significa muito pouco. Me importa mais você. Espero que eu também te importe, um pouco.

Estou ansiosa para ouvir de você.

Um grande abraço,

Amélia.

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Os Corvos

“Eu quero sair!”. A garotinha gritaria assim por horas, e então, por dias… Era como se seus gritos desesperados pudessem leva-la pra fora naqueles momentos em que ela mais precisava manter-se dentro.

Sua esquizofrenia costumava assustá-la, mas já não era mais assim. Seus delírios, suas visões, tudo aquilo começava a maravilhá-la. Enxergar um mundo totalmente diferente, novo – totalmente pessoal – parecia incrível. “E o melhor de tudo”, ela dizia às paredes, entre dentes sorridentes, “é que eu não sou capaz de distinguir o real e o imaginário.”.
Ela havia passado a maior parte da vida naquele manicômio. A família, muita conservadora, abstinha-se do dever de cria-la. “Talvez, se seus sintomas fossem positivos… Mas, esquizofrenia residual? Perdoe-me, Doutor, mas nossa família já possui prioridades demais”. E assim ela lá foi jogada, no Manicômio Applefield, apenas para crianças abandonadas.
Quando conseguia vencer as enfermeiras pelo cansaço, era então levada para a campina que não muito se estendia, acabando em uma floresta densa e verdemente viva. Vez ou outra guardava nos bolsos do vestido de cetim preto alguns grãos que encontrava no chão próximo à cozinha, e então se sentava à sombra de uma árvore e, grãos nas mãos, esperava a chegada de seus grandes amigos, os corvos.
Eles chegavam primeiramente de forma discreta, mas logo vinham tantos que às vezes até o Sol parecia sumir. Comiam das mãos da menina, batiam suas asas próximas à pele dela e, quando iam embora, deixavam um enorme rastro de penas negras e brilhantes. Ela então as guardava no bolso onde outrora escondera os petiscos daquelas aves, e às vezes enrolava umas numa mecha de cabelo, achando graça da forma como penas e cabelo pareciam uma coisa só, naquela cabeça cor de noite.
Pra ninguém contava os segredos de sua amizade. Fugia de todos que se aproximavam, achando que a indagariam acerca de seus pássaros. Assim que o último deles sumia no céu, corria para seu quarto, não dando tempo nem às enfermeiras de a perceberem, refugiando-se daquele mundo colorido.
E assim seguiam os dias. Ela acordava, chorava, ia para fora, voltava fugida, olhava catatonicamente para as janelas de vidro emolduradas por cortinas cheias de maçãs, jantava, e então dormia, ansiosamente, só esperando tudo começar outra vez. Pouco aproveitava de lâmpadas ou velas. A luz do Sol a atraía pela impossibilidade de ser apagada, apenas.
Um dia, enquanto alimentava seus pássaros, ouviu que por detrás da árvore alguém lhe chamava. “Lena… Lena…”. Virou-se antes que pudesse perceber a voz, e viu o mais magnífico corvo de sua vida. Ele era grande, grande como uma casa, e parecia abraçar o mundo com suas espetaculares e negras asas. Seu bico comprido abria-se e fechava-se, e continuava a falar. “Lena… Venha… Lena… Venha…”, ele a chamava, em direção à floresta de frente ao manicômio. Seus olhos fechavam-se e abriam-se em deleite, enquanto ela caminhava, guiada pelo próprio êxtase. Nem foi capaz de escutar as enfermeiras desesperadas, “Helena, volte! Helena, a rua!”.
Quando ela sentia-se entrando na floresta, o corvo gralhou horrível e agudamente. Começou a partir-se em linhas vermelhas, até desaparecer em uma explosão de fumaça densa e negra, fazendo-a acordar. Um caminhão buzinava freneticamente, e antes mesmo que ela tivesse chance de agir, foi atingida em cheio.

Os Tristes Tigres na Grande Terra de Populi

Era uma vez quatro tristes tigres. Eles caminhavam pela Grande Terra de Populi, cabisbaixos, procurando um lugar onde pudessem se encaixar. Passaram pela Campina de Esopo, mas tropeçaram em uvas verdes e foram expulsos por uma raposa de olhos insanos. Andaram pela Terra de Grimm, mas não foram bem recebidos nos castelos: os guardas temiam que sua melancolia arruinasse o “Felizes para Sempre” que levaram tanto tempo para instituir como regra geral.
Atravessaram ainda, sem sucesso, a Cidade de Dita-Lex, mas as corujas que se postavam na entrada da cidade os espantaram com azeite e fogo. Então tentaram, sem sorte, atravessar os altos muros de pedra do Castelo de Margarida, bem na entrada Sul do Estado de Cantare. Mas os cavaleiros que se ocupavam em abri-lo pedra por pedra não permitiram sua passagem. Por fim, se detiveram numa estrada comprida, indicada como Caminho de Travas.
Não havia qualquer guarda, cavaleiro, animal, parede ou calabouço que pudesse impedi-los de seguirem por ali. Andaram por algum tempo quando, enfim, se detiveram numa encruzilhada que indicava duas opções de caminho: para a direita, “O Trigo de Travas”; para a esquerda, “Os Pássaros de Travas”. Os tigres menores, que eram três, aguardaram que o tigre maior indicasse o caminho que seria mais conveniente.
– Vamos para o Trigo – O tigre maior começou a caminhar para a direita, mas apenas dois dos tigres menores o seguiram. O terceiro pequeno e triste tigre continuou parado.
– Eu quero ir para os pássaros – Ele fazia um choro infantilizado, forçadamente felinizado.
– Tem certeza? – O tigre maior interrogou-o. Ele via nos olhos dele um mesmo desejo de desafio que acabara deixando-os quatro tristes, famintos e separados de sua terra-mãe. O pequenino meneou positivamente com a cabeça. – Pois bem, boa sorte.
Assim, três dos tigres tristes seguiram pela direita. Um, um só, triste tigre solitário, para a esquerda.
O caminho dos três tigres foi longo, mas eles finalmente chegaram a uma extensa plantação de trigo, com uma pequena casinha de madeira posta no meio do caminho, e uma pequena e tristonha menina sentada em degraus de madeira. Aos seus pés, quatro pratos cheios de trigo, gordo e dourado trigo. Os tigres tristes se aproximaram lentamente. O menorzinho de todos falou, pois sua vozinha era mais felina que a dos outros.
– Com licença, senhorita. Para quem são os pratos de trigo? – A garota parecia tão triste e faminta quanto os tristes tigres.
– Não sei. Mamãe mandou que eu esperasse para ver se alguém passava. Ela disse que eu só posso comer do meu depois de alimentar alguém com os outros três. – Ela levantou os olhos do chão e abriu-os inteiros, mostrando-os totalmente gigantes e brilhantes – Vocês aceitam?
Dessa forma, os três famintos e tristes tigres comeram, cada um, um prato de trigo, e assim fez também a triste e faminta menina.
O tigre solitário que seguiu para onde ficavam os pássaros de Travas andou bem pouco antes de alcançar o lugar. A área era enorme, rodeada por árvores, formando uma pequena praça social dos pássaros ao centro. Eles voavam livremente, e alguns até arriscaram brincar com o tigre – que não ficou nem um pouco menos triste com isso.
Caminhando mais um pouco, ele chegou até uma árvore onde havia um animal marrom, felpudo, com olhos pretos pequenos e uma boca enorme, com dentes serrados. Ele gritava com voz de locutor, e não se parecia nada com um pássaro.
– Ei, você, senhor tigre! Parece tão tristonho, mas vejo que é um animal muito distinto, inteligente… Aceitaria um pequeno desafio? – O tigrezinho se aproximou, ávido pela pergunta, quando esse animal esquisito deu um passo para o lado e deixou à mostra um ninho cheio de pássaros estranho, de pernas compridas e finíssimas. – Você vê, senhor, que eu aqui tenho um ninho com sete mafagafos. Será que poderias, como sua inteligência felina, desmafagafizá-los e tornar-se um Supremo Desmafagafizador?
O tigrezinho nem hesitou, subiu num só pulo ao galho do ninho. Tão logo estava no alto, o esquisito animal desceu da árvore.
– Ei, aonde você vai? Você nem me disse como se desmafagafiza um mafagafo!
– Ora, meu distinto felino, isso faz parte do desafio! – Assim, o animal, chapéu na cabeça, seguiu caminhando até desaparecer de vista. O tigrezinho, seduzido pelo desafio, foi incapaz de fazer o mesmo.
O tigrezinho olhava, tocava, sacudia os mafagafos, mas não fazia nem ideia de como desmafagafiza-los. Depois de inúmeras tentativas, ele continuava lá, olhando-os, tocando-os e sacudindo-os. E, conforme os anos seguiram, do galho ele não descia e, de triste tigre, acabou tornando-se um louco.
Quem hoje em dia tem a sorte de passar pela Terra que outrora fora Populi, jura que escuta, próximo às plantações de trigo, uma voz melodiosa e brilhante cantando, junto ao vento “Três pratos de trigo para três tristes tigres…”. Outros ainda juram que, próximos às árvores frondosa, dispostas em círculo, uma voz lamuriosa, melancólica e insana clama “Num ninho de mafagafos, sete mafagafinhos há… Que melhor os desmafagafizar, bom desmafagafizador será…”.

Reflexões acerca da vida em um parágrafo.

Eu não vou fingir espanto, porque seria muita hipocrisia, mas como os dias se tornaram diferentes. O Sol brilha verdadeiramente, as flores perfumam escandalosamente, as cores saltam alegremente e a vida realmente respira e pulsa. E ainda existem pessoas que reclamam quando você acorda de “bom humor”, “exageradamente feliz”, “com três pés direitos”, “sorrindo pras paredes”. É culpa desse planeta onde o normal é sentir-se mal e insatisfeito. Mas não é assim comigo, não mais. Um dia, quando você acorda e decide verdadeiramente fazer da sua vida uma alegria real, você acaba descobrindo que [longe de uma estratégia de marketing de empresas de cosméticos] “o natural é sentir-se bem”.
Imagem: Tumblr

Ei, você.

“Ei, você.

É, você mesmo.

Você acha que eu não sei, né? Acha que é tão bom assim em esconder as coisas de mim? Saiba você que eu sou muito mais inteligente e capaz do que pareço. Podem me chamar de “burro” e outras coisas do tipo, mas no final eu sempre acabo por cima. E não há forma de resisitir a isso. Você pode bater o pé, gritar, falar todas as barbaridades que desejar, desmentir suas próprias palavras, e tudo continuará da mesma forma. Você é pequeno, inútil, insignificante e, acima de tudo, cheio de uma prepotência que só não é mais ridícula do que sua própria existência.

Você acha mesmo que eu não sei das suas histórias, das mentiras que você conta, das bagunças que você apronta, dos planos que você maquina com sua mente maldosa todas as noites? Mas, antes mesmo de te acusar de qualquer coisa, acho bom você saber que nada do que você faz me atinge de verdade. Não, sério, acaba comigo te ver acreditando em todo o sofrimento que eu finjo tão bem sentir, cada uma das lágrimas falsas que eu derramo e o júbilo que elas te causam. Talvez, ciente disso, você queria repensar esse seu escândalo ensaiado na frente do espelho – acha que eu também não sei sobre ele? Ah, e só pra constar, você é tão horrível na atuação que nem um cachorro acreditaria em cada uma das palavras que saem da sua boca. Mesmo ele, que nunca as entenderia.

Não vou me estender, estou cansado e gastar mais tempo com esse aviso é mais desperdício existencial do que eu estou disposto a jogar fora. Se você quiser ignorar isso tudo e seguir em frente, eu não tenho nada mais a dizer do que “Ajoelhou, vai ter que rezar”. Somente te peço que seja rápido, estou me enfadando facilmente nos últimos tempo, e esperar não seria nenhuma contribuição.

Um beijo ácido e um abraço cheio de peçonha;

Sua alma.”

[Texto produzido em um momento de reflexão acerca de como as pessoas encaram a própria alma. Eu, como uma pessoa sensata, não me encaixo nisso porque trato minha alma com muito carinho. Aos que assim não fazem… Boa sorte ;D]
Imagem: Daniel Handler/Lemony Snicket e Stephin Merritt