31 Devocionais #8 – Mãos limpas, coração puro

     Em Salmos 24:3-4, o salmista canta que só tem acesso ao mais íntimo da presença de Deus aquele que tem mãos limpas e coração puro. Todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus, mas aquele que reconhece seu status de pecador e é lavado pelo sangue de Jesus, se tornando participante com Ele da Cruz e de Sua vitória, pode trilhar com segurança o caminho que leva até o mais íntimo do coração do Pai.
     Na lei Mosaica, havia alimentos considerados puros e impuros, e seu consumo era um dos reguladores daqueles que estariam limpos ou não para tomar parte nas cerimônias. Em Marcos 7:18-23, Jesus derruba este preceito, e explica que mais importa o que sai da boca do homem do que aquilo que entra. Desta forma, a verdadeira impureza deixa de ser meramente física – aquilo que mais precisa ser limpo é o nosso coração.
     Provérbios 4:23 já denunciava a importância do coração. “Dele procedem as fontes da vida”, ou seja, do seu coração procedem as fontes da sua vida. Os pensamentos, atitudes e ideias que desenham o desenrolar do seu destino vem do seu coração, tanto para o bem quanto para o mal – em Jeremias 17:9, ele é chamado enganoso. Mas, se aquilo que não nos alimenta pela boca não define nossa pureza, aquilo que nos alimenta com os olhos e ouvidos sim, pois são as portas de entrada para que nossa mente e nossa alma sejam cheias.
     Em 1 Coríntios 6:12, Paulo revela um detalhe chave para nossa conduta diária enquanto Filhos do Reino – todas as coisas nos são lícitas, mas nem todas convém, e nenhuma deve nos dominar, porque a vida vai muito além do que é pecado e do que não é. Nossa vida deve ser baseada em amar e agradar ao Senhor, sobre todas as coisas. Se você deseja que seu coração seja um domínio do Reino dos Céus, você deve alimentar seu coração das coisas do Reino, e, com sabedoria, remover da sua vida tudo que lhe seja pedra de tropeço. Nem todas as coisas que estão no mundo vão te tornar impuro, mas, caso alguma o faça, seu desejo de estar perto ao Senhor e ter livre acesso ao Pai deve ser maior que seu amor pela coisa mundana. 

31 Devocionais #7 – Deus e a (sua) dor

    
     Davi, chamado na Bíblia de homem segundo o coração de Deus, assim o era não por ser santo e   perfeito, mas por ter um coração que se arrependia de seus pecados e se quebrantava aos pés do Senhor. Mesmo assim, a Bíblia nos conta de uma das maiores tragédias em sua história, quando desejou a mulher de outro e, tomando-a para si, ordenou que o marido fosse morto. A Bíblia conta que foram 16 meses até que o Senhor o confrontasse, através do profeta Natã (2Sm 12:1-14). Segundo a lei Mosaica, o homem que adulterasse deveria ser morto; o Senhor, no entanto, teve misericórdia dele, não trazendo morte sobre sua vida. Porém, Davi não poderia escapar das consequências de seu pecado ocultado, e um dos pesos que recai sobre si é a morte da criança recém-nascida que o adultério havia gerado em Bate-Seba.
     
     O texto em 2Sm 12:15-23 nos conta que, ao saber que a criança morreria, Davi lançou-se em jejum e oração intensos, buscando alcançar misericórdia. No entanto, a Palavra já estava lançada, e a criança faleceu. Para a surpresa de seus servos, ao saber que a tragédia que tanto havia tentado evitar havia se sucedido, ele abandonou sua posição de humilhação, e, restaurado, foi até o templo e louvou ao Senhor. O Todah, o sacrifício/louvor de agradecimento, oferecido no Velho Testamento (Lv 7:12; Sl 56:12) se manifesta em sua maior e melhor forma quando as circunstâncias são desfavoráveis ao nosso coração, mas escolhemos agradecer à Deus por Sua soberania. Davi estava ciente de que o fato de que Deus não havia atendido àquela sua petição, mesmo diante de seu jejum e oração, não diminuíam o poder e o domínio do Senhor.
    

     O Pai ainda é maior que nossas dores e frustrações, e o coração aflito deve se achegar a Ele com confiança e fé. O mesmo Deus que era com Davi na aflição, é com você hoje. O mesmo Deus que derramou Graça sobre Davi e Bate-Seba, os abençoando com Salomão, derrama Graça sobre você hoje. Crendo que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam, seguimos em frente, guardando a fé. O Senhor habita em meio aos louvores, e Ele habitará em meio às suas tribulações se você Lhe der acesso à elas. E Ele também será Aquele que te conduzirá à vitória por vir.

   
   
    

31 Devocionais #6 – Se tiverem Amor uns pelos outros

    
     Quando perguntado sobre qual era o maior mandamento, Jesus respondeu que toda a Lei e os profetas se resumiam em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Mas, em Jesus, o próprio Amor desceu à Terra para nos resgatar, e Ele então nos deu um novo mandamento – que amássemos uns aos outros, assim como Ele nos amou.
    
     Enquanto seguidores de Cristo, o Amor pesa sobre nós como uma regra, à qual devemos obediência. A obrigação de amar nos revela que isso não é um mero sentimento, consequência de coisas boas, mas uma decisão, que se estende até aos nossos inimigos e a todos aqueles nos fizeram e fazem mal… Exatamente como fez Jesus. E Ele nos conta que não amar não é apenas uma desobediência ao novo e vivo mandamento, mas também um desserviço ao Reino.
    
     Isso porque Ele promete que reconheceriam que somos seus discípulos se tivéssemos Amor uns pelos outros. E toda palavra que sai da boca do Senhor se cumpre. Porque o mundo pode não entender plenamente o que é Amor, mas o mundo reconhece que o que nós temos vivido não é o perfeito Amor do Senhor. Jesus era legal, mas o fã-clube que é difícil, uma frase corrente na internet, nos revela muito mais sobre nossas falhas do que qualquer perseguição. Aliás, precisamos mudar muito ainda antes que sejamos perseguidos por amor ao Senhor. 
    
     A Bíblia ainda chama mentiroso aquele que diz amar à Deus, mas odeia seu irmão (1Jo 4:20), e ela também diz que o pai da mentira é o Diabo. Não há espaço para falta de Amor se nós quisermos que o Reino venha. Não há espaço para falta de perdão, falta de humildade, falta de mansidão, falta de paciência e falta de bondade. Não há espaço para medo. Onde o Amor reina, as feridas são curadas, as faces são viradas, as mentiras se cessam e a Glória de Deus resplandece sobre nós. Aí, então, quando nos guardarmos de que seja constante no amor fraternal (Hb 13:1), nisto reconhecerão que somos Seus discípulos. E o mundo aguarda ansiosamente por isso.

   
   
     

31 Devocionais #5 – Só Deus pode me julgar

     “Só Deus pode me julgar!”, gritam muitos aos montes, teístas, até mesmo ateístas, buscando cutucar o orgulho da igreja. Não plenamente certos, mas suficientemente sensatos. Quem é você para julgar alguém?
 
     (E a pergunta é sincera)
 
     Quando Jesus explica aos discípulos que não devem julgar a ninguém, Ele os está ensinando sobre a atitude hipócrita que pode haver por trás de uma exortação. A Palavra de Deus é verdadeira e fiel, e nos ensina acerca daquilo que agrada e daquilo que não agrada o coração de Deus… Mas, antes que ela possa fazer vida através de nós, ela precisa fazer vida em nós – Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?
 
     O texto não nos isenta da responsabilidade que temos sobre aqueles que estão ao nosso redor pecando contra a Palavra de Deus. A Bíblia é inclusive bem direta em dizer, em Lucas 17:3, que Se o seu irmão pecar, repreenda-o; porém, a continuação do versículo revela a verdade por trás disso – se ele se arrepender, perdoe-lhe. O foco, como demonstra inclusive o seguinte (Lucas 17:4) é o arrependimento e o perdão. Mateus 7:15 é uma instrução que nos ensina que não há espaço para orgulho no trato com seus irmãos. Você não é melhor que alguém por estar caminhando há mais tempo com o Senhor, ou por já ter resolvido problema X ou Y na sua vida. Devemos manter em nosso coração a humildade de quem também já foi ignorante à Palavra de Deus, e fazer tudo com Amor e compaixão.
 
     Só tem poder de julgar os homens aquele que é Santo. Nenhum de nós é (e isso responde a pergunta sincera que eu fiz ali em cima). Que nós possamos anunciar o Evangelho cientes do quanto somos pequenos, revelando o Amor e a misericórdia que recebemos àqueles que ainda não O conhecem.
     

      
    

31 Devocionais #4 – Ser exatamente aquilo que a gente é

     Minhas inseguranças, somadas ao bullying que sofri em grande parte da minha vida, me tornaram uma pessoa muito dependente da opinião dos outros. Tanto em relação ao que eu devo fazer, quanto ao que devo vestir, comer, como me portar. Até pra escolher qual foto iria parar no meu Instagram eu precisava de uma opinião, porque a vida nunca me deu motivos pra confiar em mim mesma e na minha capacidade de decidir as coisas por mim.
    
     Por outro lado, eu sempre me senti pronta a opinar na vida dos outros, assim como outros também muito inseguros se sentiam confortáveis pra responder meus inquéritos quando eu precisava de uma opinião (deixando claro que não acho que pedir opiniões seja errado ou ruim – a vida é feita de muitos pontos de vista diferentes e quase todos merecem ter sua voz). O problema foi que eu, e outros – muitos outros – nos prendemos em uma cadeia de dependência da opinião e validação que o mundo pode nos oferecer.
    
     Por muito tempo, eu usei o texto de Mateus 4:4 como um incentivo ao jejum – Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor. E, no fundo, não deixa de ser – Jesus foi tentado depois de um longo período de jejum – , mas é mais. O pão alimenta nosso corpo (e isso é um assunto pra depois), mas a Palavra de Deus alimenta nossa alma e nosso espírito. E o ponto importante desta análise é: do que sua alma e seu espírito tem se alimentado?
    
     Quando você se alimenta da opinião dos outros, e alimenta os outros com suas opiniões, você nega a soberania da Palavra de Deus como aquela que realmente diz a Verdade sobre quem nós somos e devemos ser. Quando você se adequa àquilo que os outros dizem a seu respeito, em vez daquilo que o Senhor diz a seu respeito, você não só vai ser menos do que pode, mas nunca vai encontrar a alegria que tanto busca na validação do mundo. Silencie as vozes que querem te dizer quem você é. O Senhor já determinou, o Caminho já foi aberto, e nenhuma Palavra que sai da boca dEle volta vazia.
     
     “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além” Paulo Leminski.
    

31 Devocionais #3 – Uma questão de prioridades

     
     Já passa da 1h da manhã. Em teoria, já é amanhã, mas meu espírito me diz que ainda é hoje. E, mesmo que pareça ser tarde demais, eu vou crer que ainda é tempo de que haja algo a ser dito.
    
     Esse hoje (ou ontem) era feriado e prometia ser um dia tranquilo o bastante pra que eu tivesse tempo desde cedo pra gastar exclusivamente com o Senhor. Como de costume, eu estava enganada, e o sono já estava alisando meus cabelos antes mesmo que eu estacionasse na garagem da minha casa, minutos antes da meia-noite. Longe de mim ir contra os sinais de cansaço que o corpo demonstra – até porque o próprio Deus descansou no sétimo dia da Criação – , mas a verdade nua e crua é que eu arranjei tempo útil ao longo do meu dia pra todas as outras coisas que eu precisava (ou nem tanto) fazer, e joguei meu tempo com o Pai pra segundo plano. Seria muito confortável só chegar, lamentar a correria e prometer mais no dia seguinte. Mas não é esse o valor que eu quero dar pras coisas de Deus.
    
     Paulo diz, na primeira carta aos Coríntios, que devemos correr de tal forma que não somente completemos a jornada, mas ganhemos o prêmio (1Co 9:24). Isso não fala de competitividade, mas de disciplina, compromisso e prioridade (1Co 9:25). Minha falta de disciplina me fez hoje chegar ao fim de um dia sem ter feito primeiro o mais importante, mas meu compromisso precisa ser maior que o meu cansaço. Não pra que eu me vanglorie em qualquer coisa – até porque a culpa de eu estar aqui agora é minha, né? – mas pra que o Senhor possa reconhecer em mim um coração disposto a colocá-Lo em primeiro lugar em tudo, independente do preço a ser pago por isso.
    
     “Mas subjugo o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.” 1 Coríntios 9:27
    
     
     

31 Devocionais #2 – Aba, eu pertenço à Ti

     Estava hoje em um momento de oração, e a canção “Aba”, da Laura Souguellis, foi ministrada. Essa música tem falado muito comigo desde o último sábado, quando ela veio inesperadamente na playlist aleatória do Spotify, e eu senti que o Senhor tinha algo a me falar através dela. As palavras entraram no meu coração e lá permaneceram desde então.
     
         
     Enquanto a escutava novamente hoje, comecei a dissecar a letra e refletir sobre ela. “És mais real que o chão que eu piso”. Como poderia Deus, o Invisível, ser mais real que o chão no qual eu me sentava naquele momento? Eu me lembrei então de todas as vezes em que meu mundo desabou e me parecia que o chão havia sumido. E, quando meu chão sumia, eu tinha a certeza de que o Senhor estaria lá pronto pra me segurar e ser a Rocha onde eu me firmaria. “És mais real que o ar em meus pulmões” – porque às vezes me falta o ar, mas nunca me falta o Amor do Senhor. 
    
     “Estás mais perto que a pele em meus ossos” – porque a Palavra me diz que, quando o véu se rasgou, o Senhor não mais habitou em templos construídos por homens, mas escolheu fazer morada em mim, e meu coração é casa dEle (1 Co 6:19). “Estás mais perto que a canção em meus lábios” – porque houve tempos em que as angústias levaram os louvores para longe de mim, mas Ele continuou comigo, segurando minha mão, e me levando por entre as tempestades.
    
     Ah, Abba. Quer eu viva, quer eu morra, eu pertenço à Ti (Rm 14:8). Os Teus pensamentos me definem, pois o Senhor bem sabe os pensamentos que tem a meu respeito – pensamentos que são de paz, e não de mal, mesmo que eu ande pelo vale da sombra da Morta (Jr 29:11, Sl 23:4). És tudo para mim, Senhor, e És a minha realidade – assim como a Tua realidade entrou na vida de Isaías e o transformou pra sempre (Is 6), o Senhor têm me transformado todos os dias, e me aperfeiçoado em Teu perfeito Amor. 
    
    

The forgotten photograph.

         Para a versão em Português, clique aqui.

     Once upon a time in the future, and she can’t remember a single thing. Can’t remember her wedding day, the many trips she took, all the places she had been to. Can’t remember her children’s birth dates, nor their first days in school, nor the days they left home. But she does remember their faces; she kept the people, but forgot the facts.

      Nothing is as important as the story it carries within, but hers isn’t hers anymore. Everyday, she holds on to whatever others tell her about the adventures of her lifetime, even though not everything seems true or right. She can’t guess if she would really climb a mountain, but she can’t remember if she was ever scared of heights. Some stories seem so simple she can’t believe she could have forgotten them. But that’s what she got – she fell asleep, and, one day later, everything was gone.

         “Have I so far lived a life worth living?”

     With love, every weekend, she would sit down with her husband, children, grandchildren, siblings and friends and examine all of the memories she kept all those years. And they would tell her about party dresses, first kisses, family trips, parties they went. The photographs were many, the objects as well. Luckily, she had always been a storyteller. All of her children and grandchildren could tell where she had bought each of the snowglobes in her collection. And they would retell her the same stories she had first told them, so many times, before she forgot everything. They all knew the first drinks she had in every glass and mug she had kept, and why some book covers were dirtier than others. She would smile, hearing about a life that was hers, as if it was someone elses’s. Maybe tomorrow she would forget that as well.

      “Nana”, her third older granddaughter, nearly grown-up, asked her, one day, “do you remember the people in this picture?”

     It was a small photograph, slightly blurry, but no one there could tell much more about it. “I suppose these were good friends of mine. But I don’t know why.”. The landscape seemed cold and bucolic, but they were all smiles. Rocks, yellow winter fields, and a grey foggy sky. Anyone smart enough would have guessed they were in the English countryside. “I would guess this is in the English countryside, ma”, her smarter daughter spoke, “but, unfortunately, I have reasons to believe all these friends have already passed away. I can recall having been to at least one funeral with you”.

She careful and sadly examined the photograph. If they were all gone, as well as her memory, who else could remember that day? Five beautiful happy young people, but no one could tell the reason they smiled. The frozen moment would last forgotten. The whole room remained in silence, for much longer than it was usual in that family.

     “Nana”, her only great-grandson, almost gone through childhood, that dreamt of being Peter Pan just like she used to, “I can make up a story for your picture, then you can be happy like that again! Could I, please?”

     He rapidly sat down next to her. He was quite clever. His mommy had told him nana would no longer remember that they used to read Peter Pan everytime he stayed at ther place for the weekend. He kept bringing the book with him, though, but he would read her stories about Neverland. And, now, he would read a story in the subtle lines of that picture no one knew a thing about.

     “You’re all smiling, nana, because you’ve just eaten magical delicious food that makes you feel really really happy! You and your two friends are sitting down on the rocks because you ran a lot to get there! You would stop by to play with every animal on the way up! Your friends standing would shout at you all the time ‘Girls, come quickly, before it’s too cold!’, but you didn’t want just to get on the top, you wanted to have fun! The grass is only half green because winter came just like a wave, that destroyed just little by little, and that’s why only half of it has been burnt by the cold! The picture is blurry because even the person who took it was very cold, but forgot to bring gloves! And I’m sure you left home very early, to have the most fun before the Sun was gone! You may not be holding each other, nana, but I know you were holding each other in your hearts, because I think you really loved these friends, nana. I’m sure you loved them a lot, just like I love you.”

     And she really loved them. That, she could tell. She loved them all – the friends in the photographs, the children, the grandchildren, the great-grandchild, the husband. She couldn’t remember a thing, but she knew that, whoever had this much love in life, should have lived an amazing life. On that day, they stayed up later, making up new stories about the photos and objects whose real stories no one could tell.

 

     [This post is part of the 80 Somethings project. Read more about it here.]

“Look at this photograph!”

Featured Image by Jason Wong on Unsplash

Eu não me lembro mais.

     Era uma vez no futuro, e ela não se lembra de quase nada. Não se lembra do dia do seu casamento, não se lembra das viagens que fez ou dos lugares em que foi. Não se lembra de quando seus filhos nasceram, nem seus primeiros dias na escola, ou quando se formaram e saíram de casa. Mas se lembra dos seus rostos, não se esquece de seus nomes. Guardou as pessoas, mas me esqueceu de todos os fatos.
     Nada em si vale tanto quanto a história que carrega, mas ela não tem mais história sua. Todos os dias, ela se apega àquilo que outros lhe contam sobre as aventuras que viveu, mas algo lhe diz que nem tudo que dizem é verdade. Não consegue adivinhar se escalaria uma montanha, mas também não se lembra se já teve medo de altura. Algumas histórias parecem tão simples que ela se questiona como conseguiu esquecer de coisas tão corriqueiras. Mas foi isso que a vida lhe reservou – dormiu e, no outro dia, acordou, e tudo havia sumido.
     “Será que vivi uma vida que valeu a pena ser vivida?”
     Com amor, sentava-se, aos fins de semana, com seu marido, filhos, netos, irmãos, amigos, diante das fotos e lembranças que acumulou ao longo dos anos. E falavam sobre seus vestidos de formatura, o primeiro beijo dos namorados, as viagens que fizeram em família, as festas às quais foram convidados. As fotos eram muitas, os artefatos também. Sorte sua que adorava contar histórias. Seus filhos e netos sabiam todos como ela havia comprado cada um dos globos de neve de sua coleção. E repetiam as histórias da mesma forma que ela as havia contado muitas e muitas vezes, antes que se esquecesse de tudo. Sabiam o que ela havia tomado primeiro em cada caneca e copo que guardou, e por que as capas de alguns livros eram mais amassadas que as de outros. E ela sorria, escutando casos da sua vida como se fosse de outra pessoa. Amanhã ela talvez não se lembrasse disso também.
     “Vovó”, sua terceira neta mais velha , quase adulta, perguntou, um dia, “você lembra quem são as pessoas nessa foto?”
     Era uma foto pequena, meio embaçada, mas ninguém ali naquela sala saberia dizer muita coisa sobre ela. “Eram meus bons amigos, querida. Mas não sei bem o porquê.”. A paisagem era fria e bucólica, mas eles sorriam. Pedras, campos amarelados de inverno, e um céu cinza. Uma pessoa esperta imaginaria que eles estavam no interior da Inglaterra. “Acho que é no interior da Inglaterra, mãe”, sua filha mais esperta falou, “mas, infelizmente, acho que todos nessa foto já faleceram. Eu me lembro de te acompanhar em pelo menos um funeral.”
     Ela examinou a foto com cuidado e tristeza. Se todos já haviam ido, e sua memória também, quem mais se lembraria daquele dia? Cinco lindos sorrisos jovens, e não havia quem pudesse contar o que viveu quando as lentes de uma câmera capturaram o momento. Eternizado, porém esquecido. Houve silêncio por muito mais tempo que era habitual naquela família.
     “Vovó”, seu único bisneto, já um mocinho que costumava sonhar junto com ela em ser o Peter Pan, “Eu posso inventar uma história pra sua foto, e daí você não fica triste mais! Você deixa?”
     Ele rapidamente se sentou ao lado dela. O rapazinho era bastante esperto. Sua mamãe lhe explicou que a vovó não iria mais lembrar que eles liam o livro do Peter Pan sempre que ele ia passar um fim de semana com ela. Ele continuou levando o livro todas as noites, mas agora era ele quem lia as histórias da Terra do Nunca. E, agora, leria na foto uma história que ninguém mais se lembrava.
     “Vocês estão sorrindo, vovó, porque vocês acabaram de almoçar comidas mágicas e deliciosas que te fazem sorrir muito! Você e suas duas amigas estão sentadas porque vocês correram muito pra chegar ali, porque se distraíam o tempo todo com os bichinhos no caminho! Seus amigos que estão em pé ficavam o tempo todo ‘Meninas, venham, antes que fique mais frio!’, mas vocês não queriam só subir, vocês queriam se divertir! A grama tá meio verde no fundo porque o inverno veio igual uma onda, que foi destruindo aos pouquinhos, e naquele dia só a outra metade tava amarela e queimada de frio. A foto ficou embaçada por que até a pessoa que tirou estava com muito frio, mas esqueceu as luvas em casa! Aposto que vocês saíram cedo, pra se divertir antes que o Sol fosse embora. E vocês não estão abraçados, vovó, mas eu sei que vocês estavam se abraçando dentro do coração, porque eu acho que você amava muito esses seus amigos, vovó. Amava muito mesmo, igual eu amo você.”
     Ela os amava muito mesmo. Disso, ela sabia. Amava todos, os amigos das fotos, os filhos, os netos, o bisneto, o marido. Não se lembrava de nada, mas tinha certeza que quem tinha tanto amor assim, devia ter vivido uma vida e tanto. Naquele dia, inventaram histórias até tarde sobre as fotos e objetos cuja história ninguém conhecia.

[Este texto faz parte do projeto 80 Coisas. Para saber mais, clique aqui.]

“Look at this photograph!”

Brazilian Girl in the UK – some impressions.

     I left home on the 18th of September, and arrived in the UK on the 19th. It’s been six months and a half now. Six months and a half of growth, many challenges, many things learnt, many dreams come true. My life here is a blessing, for several reasons – I have good friends, get to travel a lot, feel much safer walking around the streets, and, to be honest, I love the complications of doing life on my own.
However, this is a text about one very expected reality shock.
     Leicester, in spite of being the home town of the future champions of the Premier League, is also considered to be the most diverse city in the United Kingdom, and that is by no means a lie. I suspect that, amongst the people of my acquaintance, I handle people of at least 20 different nationalities on a daily basis, from immigrants to people born british, but raised in their family heritage. I go to university with people from Pakistan to the Baltics, always chat to the owner of the Costcutter next to my student court, born and raised in India, and my british best friend, Hannah, is half chinese, half mauritian.
     Hannah herself was the one who told me with the proper words about the impressions that I had been been collecting over the past months, of how there is so much diversity around, but so little mix, in proportion. In fact, she said that mixed races couples only became an actual reality from her parents’ generation, but, still, we see the division between different people. There are very strong boundaries, like, for example, between chinese people and indian and black people; and, inside the universities, most would rather hang with other students from their own fellow country. The biggest division, though, is still between english people and non-english people.
     In this crossfire, I, one always considered white enough not to suffer with racism in my home country, have found myself caught.
     The title of this text connects my three realities – as a a girl, woman, as a brazilian citizen, and as someone who currently lives in Europe. These realities are the source of these restlessness and frustration that have convinced me to write tonight.
     As a woman, chauvinism in society paints me as an object all the time. As a brazilian woman, I carry several different heritages in my blood, amongst Portugal, Spain, Cape Verde and indigenous people. As a brazilian woman living in Europe, I am always evaluated under the specific stereotypes designed for my country, whilst still standing with the rest of the non-european foreigners as mixed-race, never good enough as those whose veins carry blood subtly called pure (I assume no one has been reading Harry Potter with the right approach).
     Working in pubs across the city, it was never that hard to understand that most of english boys would rather buy drinks from my english friends. I’ve heard the most absurd comments, such as “how brown” my eyes are, and, once, I was asked twice if I was asian. Actually, they so eagerly ask about the heritage of non-english girls, as if there was a checklist of different races to be tasted.
     The current impression is that, in their eyes, regardless of how sucessfully we could fit in their society, we would still carry the badge of foreigners. Exotics – that innocent word that turns people into objects to be appreciated. The ones who leave their countries to steal jobs and husbands from others. Samba dancers, carnival. The girlfriends their parents would not approve.
     My refuge, in this frustration, is being sure that God is the One with all the answers that I need, and this subject is not an exception. My life, my destiny, my paths, everything has been surrendered to the Almighty. And my citizenship is in Heaven, as Paul said in Philippians 3:20. As long as I’m on Earth, I will always be a foreign. Long live us pilgrims!