Eu não me lembro mais.

     Era uma vez no futuro, e ela não se lembra de quase nada. Não se lembra do dia do seu casamento, não se lembra das viagens que fez ou dos lugares em que foi. Não se lembra de quando seus filhos nasceram, nem seus primeiros dias na escola, ou quando se formaram e saíram de casa. Mas se lembra dos seus rostos, não se esquece de seus nomes. Guardou as pessoas, mas me esqueceu de todos os fatos.
     Nada em si vale tanto quanto a história que carrega, mas ela não tem mais história sua. Todos os dias, ela se apega àquilo que outros lhe contam sobre as aventuras que viveu, mas algo lhe diz que nem tudo que dizem é verdade. Não consegue adivinhar se escalaria uma montanha, mas também não se lembra se já teve medo de altura. Algumas histórias parecem tão simples que ela se questiona como conseguiu esquecer de coisas tão corriqueiras. Mas foi isso que a vida lhe reservou – dormiu e, no outro dia, acordou, e tudo havia sumido.
     “Será que vivi uma vida que valeu a pena ser vivida?”
     Com amor, sentava-se, aos fins de semana, com seu marido, filhos, netos, irmãos, amigos, diante das fotos e lembranças que acumulou ao longo dos anos. E falavam sobre seus vestidos de formatura, o primeiro beijo dos namorados, as viagens que fizeram em família, as festas às quais foram convidados. As fotos eram muitas, os artefatos também. Sorte sua que adorava contar histórias. Seus filhos e netos sabiam todos como ela havia comprado cada um dos globos de neve de sua coleção. E repetiam as histórias da mesma forma que ela as havia contado muitas e muitas vezes, antes que se esquecesse de tudo. Sabiam o que ela havia tomado primeiro em cada caneca e copo que guardou, e por que as capas de alguns livros eram mais amassadas que as de outros. E ela sorria, escutando casos da sua vida como se fosse de outra pessoa. Amanhã ela talvez não se lembrasse disso também.
     “Vovó”, sua terceira neta mais velha , quase adulta, perguntou, um dia, “você lembra quem são as pessoas nessa foto?”
     Era uma foto pequena, meio embaçada, mas ninguém ali naquela sala saberia dizer muita coisa sobre ela. “Eram meus bons amigos, querida. Mas não sei bem o porquê.”. A paisagem era fria e bucólica, mas eles sorriam. Pedras, campos amarelados de inverno, e um céu cinza. Uma pessoa esperta imaginaria que eles estavam no interior da Inglaterra. “Acho que é no interior da Inglaterra, mãe”, sua filha mais esperta falou, “mas, infelizmente, acho que todos nessa foto já faleceram. Eu me lembro de te acompanhar em pelo menos um funeral.”
     Ela examinou a foto com cuidado e tristeza. Se todos já haviam ido, e sua memória também, quem mais se lembraria daquele dia? Cinco lindos sorrisos jovens, e não havia quem pudesse contar o que viveu quando as lentes de uma câmera capturaram o momento. Eternizado, porém esquecido. Houve silêncio por muito mais tempo que era habitual naquela família.
     “Vovó”, seu único bisneto, já um mocinho que costumava sonhar junto com ela em ser o Peter Pan, “Eu posso inventar uma história pra sua foto, e daí você não fica triste mais! Você deixa?”
     Ele rapidamente se sentou ao lado dela. O rapazinho era bastante esperto. Sua mamãe lhe explicou que a vovó não iria mais lembrar que eles liam o livro do Peter Pan sempre que ele ia passar um fim de semana com ela. Ele continuou levando o livro todas as noites, mas agora era ele quem lia as histórias da Terra do Nunca. E, agora, leria na foto uma história que ninguém mais se lembrava.
     “Vocês estão sorrindo, vovó, porque vocês acabaram de almoçar comidas mágicas e deliciosas que te fazem sorrir muito! Você e suas duas amigas estão sentadas porque vocês correram muito pra chegar ali, porque se distraíam o tempo todo com os bichinhos no caminho! Seus amigos que estão em pé ficavam o tempo todo ‘Meninas, venham, antes que fique mais frio!’, mas vocês não queriam só subir, vocês queriam se divertir! A grama tá meio verde no fundo porque o inverno veio igual uma onda, que foi destruindo aos pouquinhos, e naquele dia só a outra metade tava amarela e queimada de frio. A foto ficou embaçada por que até a pessoa que tirou estava com muito frio, mas esqueceu as luvas em casa! Aposto que vocês saíram cedo, pra se divertir antes que o Sol fosse embora. E vocês não estão abraçados, vovó, mas eu sei que vocês estavam se abraçando dentro do coração, porque eu acho que você amava muito esses seus amigos, vovó. Amava muito mesmo, igual eu amo você.”
     Ela os amava muito mesmo. Disso, ela sabia. Amava todos, os amigos das fotos, os filhos, os netos, o bisneto, o marido. Não se lembrava de nada, mas tinha certeza que quem tinha tanto amor assim, devia ter vivido uma vida e tanto. Naquele dia, inventaram histórias até tarde sobre as fotos e objetos cuja história ninguém conhecia.

[Este texto faz parte do projeto 80 Coisas. Para saber mais, clique aqui.]

“Look at this photograph!”

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