- “(…) a Discórdia infatigável,
- Companheira e irmã do homicida Ares,
- Quem a princípio se apresenta timidamente, mas que logo
- Anda pela terra enquanto a fronte toca o céu.” Homero – Ilíada

Já faz duas horas que eu estou aqui na cama, deitada, sem conseguir dormir, encarando o teto. Não, não é culpa de ninguém. É culpa minha mesmo. Os dias passam e a vida permanece igual; 24 horas por dia, sete dias por semana, a mesma babaquice, as mesmas reclamações, os mesmos atos estúpidos e o mesmo tempo desperdiçado. Rancor, mau amor, revolta, orgulho, e o mundo segue girando na mesma velocidade, sem se mover um pouco a mais ou a menos por causa do meu drama. Ficar sentada, parada, esperando o oceano criar uma onda fantástica que varrerá tudo aquilo que precisa ser destruído na minha vida é inútil. A ficção IMITA a realidade, e não o contrário. Um dia vai dar certo, mas não agora, e querer apressar as coisas é desnecessário: o ritmo delas não se altera. E no meio de tanta futilidade, ainda sobra tempo pra acusar O único que não tem culpa em nada disso. Sim, Senhor, fui eu que errei, mas cadê a força de vontade pra mudar? Suponho que foi embora na última vez em que eu virei as costas pra Ti.
Então eu tenho uma vida, um Deus, um monte de gente que amo, um monte de gente que não amo, e tanta coisa pra acontecer ainda. E eu me pergunto: quando eu vou começar a fazer mais que o mínimo para que o movimento da minha existência saia do movimento retrógrado? Claro, a mesma desculpa de sempre. “Você é tão jovem, tem tanto tempo ainda para fazer tantas coisas”. Engraçado, lembro-me de me falar essas mesmas palavras há sete anos e, então; desnecessário mencionar como nada se transformou de verdade. O fato é que cada segundo imóvel, desperdiçado com choros e lamentações é um minuto a menos do meu tempo de ação que se vai. Não que isso seja tão difícil de ser percebido, mas é que é muito difícil conseguir retirar as nádegas tão confortavelmente colocadas no sofá, principalmente quando o melhor programa do universo está passando na televisão.
Uma hora a menos.
Uma hora a menos que será repetida logo em seguida, se o próximo programa for tão bom como o anterior. A dúvida fica presa, então, e em parte presa na lerdeza emocional do sofredor em questão. É complicado entender a motivação verdadeira de toda essa necessidade de drama e enrolação que permeia não só a minha vida, mas muitas – mas vamos nos ater à desgraça da minha vida: se eu não estou fazendo nem por mim, quem dirá por outros.
Um dia, talvez, eu consiga me levantar desse sofá emocional e colocar minha vida em movimento. Deus, eu com certeza vou precisar de alguma ajuda, então neste momento de insônia e reflexões vazias e infrutíferas, eu gostaria que o Senhor atentasse para a minha voz e me fizesse mais forte. Talvez, talvez amanhã seja esse dia. Esse dia em que, acreditando em Ti e em mim, eu entenderei como a vida é simples e a complicação sou eu. Sou eu. Eu.
Eu.
Estou com sono agora.

Reescrito em 26 de Agosto de 2024.
Como escrever uma carta para um amigo que não é visto há muito tempo?
Escrever uma carta para um amigo que não vê há muito tempo pode ser uma forma maravilhosa de reconectar e compartilhar as novidades de suas vidas. Aqui estão algumas dicas sobre como estruturar essa carta:
Querido Augusto,
Ainda me parece estranho falar de você, que já esteve tão perto, mas que agora está tão longe. O estranhamento vem nos pequenos hábitos, coisas tão rotineiras que parecem naturais, até que algo aconteça, que reconcilie nossa imaginação com a realidade dos fatos. Passei muito tempo falando para os outros sobre um amigo que eu tinha, que eu costumava ter, como se ainda fosse fácil passar na sua casa depois do trabalho, para jogar conversa fora até a hora de dormir. Sei que você não gosta da ideia de que falem de você pelas suas costas, e talvez menos ainda que seja eu falando, então peço desculpas se em algum momento dos últimos anos você ouviu falar que eu ainda falava de você. Foi muito difícil deixar a memória da nossa amizade em paz. Tão difícil, que resolvi arriscar contato, mais uma vez, e com uma carta — que vai com um selo especial, que comprei especialmente para sua coleção (espero que não tenha desistido da filatelia).
Desde que nos falamos pela última vez, muita coisa mudou. Talvez você também tenha ouvido falar do que aconteceu na minha vida, sem querer, assim como eu ouço falar de você. Eu e meu pai tiramos do papel nosso plano de ter um negócio juntos. Deu muito certo, mas depois de um tempo preferi deixar que ele tocasse sozinho, e parti para buscar outras coisas. Mudei de cidade, depois de país. Acho que descobri que não gosto da pessoa que sou quando estou perto de casa; me dou melhor com o desafio de construir minha suficiência. Talvez isso seja algo que te deixe feliz, porque sei que você também não gostava da pessoa que eu me tornava perto dos ambientes que me machucaram e rejeitaram quando era criança. Pensei que já havia crescido o bastante para não me preocupar mais com o ímpeto de ser validada por quem me descartou em outros tempos. Mas talvez seja algo com o qual eu tenha que lidar para sempre.
Eu sempre escuto conversas sobre as coisas que você tem feito, mesmo que eu não procure. Algumas pessoas, pelo costume de achar que eu ainda queira saber (e, muitas vezes, quis saber), outras vezes por puro acidente dos fatos e das conversas que tenho por aí. Quase entrei em contato há dois anos, quando ouvi falar que estava de mudança para o Alemanha. Eu, que te acusei tantas vezes de ser um covarde, queria admitir que sempre te achei muito corajoso, e sabia que era uma questão de tempo até que corresse os riscos dos quais tinha mais medo. Tenho curiosidade de saber como se sentiu quando viveu as experiências das quais só ouvia falar, de mim e de outros. Mas você sempre teve uma grande facilidade em ressignificar as coisas. Talvez por isso tenha sido fácil colocar um ponto final na nossa amizade, quando se tornou impossível reconciliar nossas diferenças.
Talvez você nem se lembre, mas hoje são oito anos da nossa viagem para Brasília. Naquela época, eu às vezes já sentia que você não queria mais tanto ser meu amigo, como era antes. Mas aquela semana desorganizada me fez pensar que talvez eu estivesse enganada. Você cuidou de todo mundo, quando o pneu do nosso carro furou no meio de uma tempestade, nossas roupas ficaram encharcadas, os telefones ficaram sem bateria, e ninguém se lembrava do nome do hotel que reservamos. Às vezes me vem à memória a imagem de você correndo na chuva, parando nas lojas de beira de estrada para carregar seu celular, o sufoco para acessar o email da Luana. Eu sentada no banco da frente, brigando com todos no banco de trás, a cabeça explodindo. Os dois litros de chá que tomamos quando finalmente chegamos, e como fizemos uma cabana de cobertores, com o secador de cabelo ligado, esquentando os lençóis.
Pra ser sincera, nem me lembro tanto das coisas turísticas que fizemos, só do quanto estava cheia admiração por você, e por nossos amigos, e a sorte que tínhamos de fazer memórias juntos. Doeu muito como fomos nos afastando aos poucos depois disso, sem que houvesse muito a se fazer, só observar acontecer. Às vezes, uso essas e outras boas memórias como justificativa para continuar apegada, e continuar desejando que as coisas voltem a ser mais como antes, mesmo depois de tantos anos. E às vezes consigo só contemplar o que passou e ficar grata por ter acontecido, por ter estado lá. Mas isso não acontece com tanta frequência. Você sabe que eu não tenho uma grande facilidade em ressignificar as coisas.
Espero de coração que você tenha pelo menos chegado até o fim desta carta, e isso já significaria muito para mim. Mas também, que seja o tempo certo para que eu possa ouvir de você, receber uma resposta. Não precisamos falar sobre o que passou, não precisamos discutir as coisas mal-explicadas e as meias-palavras que ficaram no ar. Muita coisa que parecia ser muito importante naquela época, hoje em dia significa muito pouco. Me importa mais você. Espero que eu também te importe, um pouco.
Estou ansiosa para ouvir de você.
Um grande abraço,
Amélia.
O que fazer, depois de escrever e enviar?
ChatGPT
A carta que você enviou é apenas o primeiro passo para reestabelecer o contato e cultivar a amizade. O importante é ser sincero, paciente e estar disposto a manter o contato de maneira genuína e acolhedora.
“Eu quero sair!”. A garotinha gritaria assim por horas, e então, por dias… Era como se seus gritos desesperados pudessem leva-la pra fora naqueles momentos em que ela mais precisava manter-se dentro.
É, você mesmo.
Você acha que eu não sei, né? Acha que é tão bom assim em esconder as coisas de mim? Saiba você que eu sou muito mais inteligente e capaz do que pareço. Podem me chamar de “burro” e outras coisas do tipo, mas no final eu sempre acabo por cima. E não há forma de resisitir a isso. Você pode bater o pé, gritar, falar todas as barbaridades que desejar, desmentir suas próprias palavras, e tudo continuará da mesma forma. Você é pequeno, inútil, insignificante e, acima de tudo, cheio de uma prepotência que só não é mais ridícula do que sua própria existência.
Você acha mesmo que eu não sei das suas histórias, das mentiras que você conta, das bagunças que você apronta, dos planos que você maquina com sua mente maldosa todas as noites? Mas, antes mesmo de te acusar de qualquer coisa, acho bom você saber que nada do que você faz me atinge de verdade. Não, sério, acaba comigo te ver acreditando em todo o sofrimento que eu finjo tão bem sentir, cada uma das lágrimas falsas que eu derramo e o júbilo que elas te causam. Talvez, ciente disso, você queria repensar esse seu escândalo ensaiado na frente do espelho – acha que eu também não sei sobre ele? Ah, e só pra constar, você é tão horrível na atuação que nem um cachorro acreditaria em cada uma das palavras que saem da sua boca. Mesmo ele, que nunca as entenderia.
Não vou me estender, estou cansado e gastar mais tempo com esse aviso é mais desperdício existencial do que eu estou disposto a jogar fora. Se você quiser ignorar isso tudo e seguir em frente, eu não tenho nada mais a dizer do que “Ajoelhou, vai ter que rezar”. Somente te peço que seja rápido, estou me enfadando facilmente nos últimos tempo, e esperar não seria nenhuma contribuição.
Um beijo ácido e um abraço cheio de peçonha;
Sua alma.”
[Texto produzido em um momento de reflexão acerca de como as pessoas encaram a própria alma. Eu, como uma pessoa sensata, não me encaixo nisso porque trato minha alma com muito carinho. Aos que assim não fazem… Boa sorte ;D]
Imagem: Daniel Handler/Lemony Snicket e Stephin Merritt