Funeral

Não há lamento por quem já vai tarde, além das horas marcadas para que permanecesse aqui
Ainda que por você eu me permita chorar um verso, ou dois,
Colocados numa estrofe bem escrita, bem completada, bem acertada
No meio dessa sua testa suada, escorrendo dos seus hormônios e venenos,
Queimada nas cinzas do meu último cigarro.
   
Hoje, pra mim, você morre; e morrem os poemas que pra você escrevi,
E todos os choros sofridos que me permiti chorar, e aqueles que tão prontamente engoli.
Faço funeral para que você se vá, e qualquer lembrança vá também.
Todas as canções que te cantei são agora trilha sonora de um cortejo fúnebre
Que será sua última pisada sobre as terras de mim.
   
Que você saia debaixo de minha pele e que, pelos buracos que você deixa,
Saiam os restos de tristeza e pesar que me entupiam a aorta;
E que eu seja cheia de contentamento e do bom amor que me foi roubado,
E que eu sorria mais do que sorria antes de saber que você existia,
E que eu nunca mais aceite suas migalhas, mas me farte do Pão da Vida.
   
E que, conforme seu caixão desça, e você desapareça, eu nem me lembre que um dia já sofri.
   
   

Ilusão

Não sei cantar
Meus dedos não deslizam tão graciosa e facilmente pelas cordas
De um violão bem afinado
Para que elas digam por mim mais que as palavras que me saiam;
Palavras ritmadas, bem rimadas,
Harmoniosas,
Contando uma história que eu ainda nem sei dizer
Se é pra valer.
Pudera eu estar tão esclarecida
Que entendesse exatamente o que a Vida
Quer me ensinar com toda essa confusão,
Toda essa bagunça, toda essa corrida
Que meu coração faz tão naturalmente em sua direção;
E eu não sei cantar, não sei dizer de forma musicada,
Porque é tão mais fácil de entender e explicar
Quando tem ritmo, melodia, e batida marcada.

Lamentação de Poetisa

Eu me desfaço em cada verso,
E logo me refaço no seguinte,
Mas a estrofe nunca é tão completa ou tão bela
Quanto o parágrafo que construo,
O parágrafo de cada dia da vida –
Sou melhor na prosa que na poesia.
Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque a frase contínua é vida minha;
Mas estão mortas autora e narrativa,
E não há como vivê-las de novo,
Não há como contá-las, por ora;
Só restam minhas entonações falhas de poetisa.
Sou melhor na prosa que na poesia,
Porque o meu lirismo cheira à Covardia
De quem precisa de linhas partidas, e rimas,
E figuras de linguagem e alegorias
Pra que se faça escutada, contemplada,
Para que se faça ouvida.

Promessa

Eu tenho promessa a cumprir, meu bem.
Promessa comigo, promessa contigo.
Promessa de Amor e Cuidado.
Mas eu não consigo cumpri-las duas, meu bem,
Já que estamos tão separados.
Pois eu quero ser feliz, quero muito,
Mas, acima, quero-te feliz.
A tua felicidade e a tua tristeza me doem o peito em todo tempo.
Pois teu sorriso, tão grande e bonito, não é meu.
E tuas lágrimas, tão secas e salgadas, se acumulam dentro de ti.
Mas não há como que eu encontre felicidade aqui
Sem que eu sacrifique minhas promessas para contigo;
Essas promessas pequenas.
(Tão pequenas que cabem na palma da minha mão)
Eu não sei qual promessa manter, meu bem.
Eu não sei o melhor a fazer, eu não sei qual caminho tomar.
Eu não sei se é egoísmo se te deixo pra trás.
Mesmo que sempre exista alguém para ocupar o meu lugar.
E eu não sei o que fazer do altruísmo dessa vez.
Eu não sei se quero tanto ser feliz;
Eu não sei se quero tanto ser feliz, assim.

Luto


Eu não me sentarei aqui, senhor,

Só porque você acha que eu deva me sentar
Enquanto estou de luto,
Só porque estou de preto;
Pois eu não choro, senhor, não mais; repare
Nesses braços nervosos,
Nesses olhos ansiosos
Por definirem um novo caminho a seguir.
Eu não me calarei de vez, senhor,
Só porque você acha que eu deva me calar
Se a minha voz já não sai de cima, como antes;
Pois eu não sou de morte, não sou desânimo,
Não farei da perda minha morte certeira,
E não estou de luto pela vida inteira;
Mas eu luto, e a luta não para,
E a Vida não para, ainda que nos escorra pelos dedos frios.
Mesmo sendo tão menor que o [mundo] todo,
Somos nós todos um mundo só,
E não nos deixamos sentar por mais que um minuto;
Eu não me deixo descansar enquanto exista AR.
E eu também não permito, senhor,
Que você, ou outros, digam que tudo acabou;
A minha estrada só começou,
E a nossa luta não terminou.

Tu és o Sol que ilumina minha janela


Se eu sou uma casa, um templo, uma edificação,
Tu és a Luz, és o Sol, que me traz calor e iluminação,
Mas só fica de fora, nunca entra, não passa da porta,
E pelas janelas fechadas te vejo sorrindo, sorrio de volta.
É bom que tu venhas, e dance na grama do jardim
Teus raios encontram as esquadrias cerradas de mim
E formam sombras dançantes nas paredes de dentro
E eu me sinto segura, feliz e aquecida, no momento.
Tu és tão mais brilhante que aquilo que eu possa tocar
Por isso te deixo de fora, distante, fácil de olhar
Fácil de olhar sem que percebas, e é assim que precisa ser:
Deixa que eu fique aqui, sozinha; só me faça aquecer.
Mas, por favor, não se esqueça de que, mesmo escondida, estou aqui.  

Eu não sei o que podemos fazer, Maria

     Eu também tô ferrada, Maria, eu também tô ferrada. Não tô sabendo pra onde eu vou, de onde eu vim, o que fazer. Eu tô desanimada, Maria, eu tô desanimada. Eu tô cansada. E eu tô precisando mudar, revolucionar minha vida. Mas eu não sei o que fazer, eu realmente não sei. Eu tô perdida, Maria, eu tô tão perdida quanto você. Pra onde a gente vai agora, Maria? Eu não tô enxergando o caminho.
     
     E eu tô apaixonada, Maria. Tô apaixonada, de otária que sou. Tô sem saber pra onde eu vou com isso. Eu não queria, Maria, eu juro que não queria. Mas daí foi maior que eu, mais forte que eu. Eu fico sem saber o que vai ser, é sempre tudo tão difícil pra mim. Pra nós, né. A gente se magoa tanto. Eu tô apaixonada, mas isso não me dá mais vontade de viver, não tanta quanto eu preciso, e queria. Eu queria fazer alguém feliz, Maria, é por isso que eu amo. Mas até os meus amados amigos estão infelizes e eu tô deixando, Maria. Você tá infeliz, e eu não consigo fazer nada. Eu não mereço nada bom, Maria.
     
     Mas eu queria merecer, sabe, Maria. Eu queria. Mas eu não sei o que eu devo fazer. Eu não sei o que você deve fazer. Eu não sei de nada, Maria. Eu só finjo que sei, e as pessoas compram a ideia. Isso é ridículo, Maria, é ridículo que eu ainda precise fingir. É só comigo que as coisas são assim, ou é com todo mundo? Por favor, diz que é com todo mundo, Maria, e me diz que todo mundo no mundo é igual. Todo mundo no mundo carrega uma cruz. Maior ou menor, sempre é a mesma cruz. As mesmas dores, as mesmas dúvidas, os mesmos problemas. Eu tenho todos esses problemas que todo mundo tem, Maria, e eu não sei o que fazer com isso. Eu não sei mesmo, Maria. Eu não sei.

Do clichê dos corações viajantes

Das melhores viagens, não se volta totalmente;
Fica o coração, um pedaço da alma, um sorriso travado,
Preso entre as pedras da rua –
Da última rua em que pisei, antes que fosse embora.
Das melhores viagens, não se esquece totalmente;
O tempo e o vento transformam as boas e más lembranças
Em um só sopro de memória, revigorante e fresca
Como a brisa do nascer do Sol depois de uma noite virada
As melhores viagens não são superadas totalmente;
E qualquer forma de retorno causa a insegurança
De não experimentar da mesma intensidade, da mesma alegria,
E preservar a beleza dos momentos únicos experimentados.

Literata


     Eu queria escrever algo que fosse maior. Maior do que eu, maior que o meu drama, maior que as minhas lágrimas. Algo que fosse o bastante pra atingir as pessoas ao meu redor, e as pessoas ao redor delas, e as pessoas ao redor delas outras. Algo que criasse vida própria, vida além de mim. Que fosse mais da Vida do que meu. Que fosse tão melhor que eu.
     
     Eu queria escrever algo que fosse digno de entrar nos corações, e fazer Vida. Trazer alívio, trazer reflexão, trazer reflexo. Algo que trouxesse brilho aos olhos, ainda que brilho de lágrimas. Algo que não fosse esquecido, que não fosse apagado. Algo que trouxesse a tristeza da averiguação, mas a alegria da superação. Algo que fizesse saltar um caminho àqueles perdidos. 
     
     Eu queria escrever algo que fosse um porto seguro em meio à tempestade, ou um mirante descoberto num belo dia de Sol. Que abrisse os olhos, que abrisse os ouvidos, que abrisse os lábios e terminasse em canções de júbilo. Algo que traga o júbilo da Vida propriamente dita – a alegria puríssima do existir, do entre olhos distantes que sabem que, de uma forma ou outra, sempre hão de superar o novo dia, tão mais difícil que o anterior.
     
     Ou talvez não. Talvez isso tudo seja grande demais para que alguém queira para si a honra. Talvez toda essa escrita maravilhosa, inconcebível, esteja impregnada nas linhas sinuosas da Vida que nos envolve, como uma lufada de vento num dia de verão. Talvez não seja exprimível, nem pronunciável, ou legível por olhos humanisticamente letrados. Talvez seja só uma aspiração, uma ilusão, uma vocação, uma busca que eu não posso completar.
     
     Eu queria escrever algo que fosse tão grande que eu pensasse ter vencido e alcançado a graça de exprimir o mais sublime da grandeza da Vida. Só para que, no dia seguinte, eu descobrisse não ter conseguido. E nunca parasse de tentar encontrar, entender, conquistar.
 

MIXTAPE


Eu queria poder gravar em fita
Todas as músicas bonitas que tocam
Na minha cabeça quando você passa;
E que me lembram você, de alguma forma.
E eu queria gravar e não botar o meu nome,
Guardar escondida na sua mochila,
Pra que você encontre e não saiba quem fez,
Quem pensa em ti escutando essas melodias.
Então, talvez, entre uma faixa e outra
Você se lembre que, um dia
Discutindo e falando sobre a Vida
Fui eu quem lhe cantei a tal canção
Que estava tocando no seu toca-fitas.

Este post originalmente continha uma playlist (secreta) feita no grooveshark. Como o grooveshark não existe mais, eu substituí o link por outra playlist, no Spotify. Eu ia simplesmente colocar uma playlist antiga qualquer, mas decidi que precisava fazer uma nova. Ela não está pública, então fica como um segredinho de todo mundo que encontrar esse post. Não são nem de longe as mesmas músicas que eu escutava quando escrevi este poema – são as músicas que me faziam pensar na última pessoa por quem eu tive sentimentos. Nunca compartilhei essa coleção com outros, então fica só entre nós 🙂