Welcome to the New

     Já foram 44 dias de Reino Unido e, apesar do layout estar pronto já há vários meses, não havia arriscado escrever nada ainda. 2015, na verdade, foi um ano muito parado, apesar de todos os planos que eu havia feito. Ninguém mais usa blogs hoje em dia, alguns diriam, mas eu continuo mantendo o meu, mesmo que às vezes fique tão abandonado. Casa é casa, e, no fim, a gente sempre volta. 
    
     Engraçado porque, no momento, tudo aquilo que eu chamo de “casa” é novo, diferente do que era 45 dias atrás. Agora, já estou bem estabelecida, correndo pra viver meus sonhos mas, acima de tudo, os sonhos de Deus pra mim aqui. E, mesmo sabendo que eventualmente a vida vai me levar de volta pra casa, o tal do choque cultural não me pegou. Nenhuma dificuldade me fez chorar e sentir tanto a falta do lar que eu quisesse largar tudo e ir embora correndo.
    
     Se você é alguém que já me leu em outros momentos, sabe que sempre fui muito apegada à dor, em parte por acreditar que ela constrói, muito mais que destrói. E isso é bíblico, na verdade – “melhor estar na casa em que há luto que na casa em que há riso”. Não que eu não ria aqui; rio muito, o tempo todo, pelos bons amigos brasileiros que vieram comigo, e pelos bons amigos que estou fazendo no ambiente um tanto hostil da universidade e na igreja tão aquecida pelo amor do Senhor que encontrei. Mas, para alguém que sempre ponderou tanto sobre solidão, nunca deixa de faltar a ponta de dor no coração quando se lembra de que tudo que já conheceu até hoje na vida está muito, muito distante.
     
     Tudo ainda é lindo, até a neblina que cegava a vista da minha janela hoje de manhã, os ternos e gravatas dos rapazes se preparando para apresentar trabalhos de arquitetura, as árvores despidas de outono, a mistura de sotaques de todos os dias. Poderia ser deslumbramento, mas é um pouco mais que isso. É gratidão.
    
     Uma gratidão bem mais funda, que consegue se regozijar no domingo perdido lavando roupa, no quarto bagunçado, na falta de família no Natal, na ausência de caronas num dia de chuva inesperada, na falta de colos e mimos quando algum mal ataca o corpo ou, tão fortemente, o coração. Muito mais que feliz por morar na Europa, no Reino Unido, em Leicester – essa cidadezinha tão mal compreendida – , estou feliz por estar construindo minha história e poder contar com esse ano tão privilegiado.
     

     Por trás de toda compra feita com dinheiro trocado hoje pra não faltar amanhã, existe um propósito muito maior, que foi orquestrado com amor pelo Autor da minha Fé. Estou cumprindo meu destino. Nada pode ser mais gostoso que isso.
   
   
     

Da minha consciência.

     De tempos em tempos, eu creio que precise renascer nas minhas percepções de mim mesma. Há algumas semanas, constatei, com horror, que a pessoa que eu vinha me tornando estava sendo sufocada, dentro da minha mente, pela pessoa que eu era – recusando-se a morrer, sozinha, como sempre temeu estar. Hoje, acordei em meio a um surto psicótico de um eu que eu cria haver matado há muito tempo já. Enquanto a chuva caía lá fora, insistente, há tantos dias, suas mãos me prendiam a garganta e o ar me faltava.
    
     Eu queria mentir para todos ao meu redor e dizer que tudo estava tão bem quanto deveria, mas eu sempre fui muito carente de atenções. Na minha busca por discrição e silêncio, calei um pedaço de mim que agora chora, quase morrendo, mas recusando-se a sair. Por 20 minutos, parecia uma grande sombra negra que encobria não só os céus de bronze, mas os céus de mim, e já não havia qualquer luz. Meu chão foi embora e a leveza que vinha sentindo há alguns dias não foi suficiente para me fazer gravitar. Caí em queda livre.
    
     Ainda não paramos. Nem eu, nem a chuva.
    

     

Eu só sei amar em alto e bom som

     Eu me lembro que comecei a escrever compulsivamente aos 14 porque queria muito dar vazão às coisas que eu não conseguia dizer. Com o tempo, a necessidade de escrever apenas foi passando, e eu passei a querer que as pessoas lessem as ideias e sentimentos que eu colocava no papel (foi bem quando surgiu o Corvo Correio). O passo seguinte foi levar isso pras redes sociais, e garantir que o máximo possível de pessoas tivesse acesso. 
     
     Se desnudar em público, através da literatura, é um vício. Você se acostuma a compartilhar tudo que sente com gente indefinida, e elas sabem o que tá dentro de você, e quem sabe até sintam o mesmo. Tem quem diga que é perigoso e nocivo, e eu não deixo de concordar – se fosse pra gente se expôr em praça pública dessa forma, o coração não vinha guardado dentro do peito, com tanto osso, carne, sangue e pele cobrindo.
     
     Acontece é que, quando o coração entra em combustão, explode e sai voando por conta própria, não dá pra fingir que tá tudo bem, tudo normal.  Faz até mal, eu acho, não abrir uma janela pelo menos pra que a fumaça escape e não sufoque de dentro pra fora. Deixo meus parabéns aos que sabem amar em silêncio, acho que o mundo recompensa melhor vocês que aprendem a guardar para si. Eu só sei amar em alto e bom som.

   
   

Do Amor

     Eu me encantei com a ideia de amar muito jovem ainda. Conheci o Perfeito Amor criança, aos 8, e carreguei comigo até que, aos 16, eu compreendi o que significava. E, ainda assim, mesmo conhecendo e conquistando o maior Amor do mundo, eu não entendia como eu poderia senti-lo. Parecia tão grande pro meu pequeno coração humano, tão inseguro e simples.
    
     Nesse meu pouco tempo de vida, eu achei que amei muitas pessoas. Hoje, eu vejo como não passavam de sentimentos rasos e incompletos, egoístas, até meio bobos. Amor é uma decisão bonita demais pra ser reduzida a uns quereres mal quistos, mal compreendidos, cheios de poréns. E amor não acaba, também. Você só pode desistir. Uma pena, mas existe quem cujo coração não suporte o peso deum mundo que matou o Perfeito Amor.
    
     Meu esclarecimento chegou, ao mesmo tempo, ao coração e ao conhecimento. Papai, numa sintonia dessas que só pais sabem proporcionar, foi quem me trouxe as palavras que descreviam aquilo que vinha crescendo dentro de mim. A olhos totalmente nus, eu vi que te amo mais em seu estado mais inútil, mais despojado de belezas, de encantamentos, atrativos, charmes, finos tratos.
    
     Na plenitude da sua feiúra e da sua pobreza, o amor é tão maior que aí, enfim, é amor de verdade. Sem potências, só a essência daquilo que você é, do seu coração. Sem vigor, sem juventude, sem perspectivas, sobra tanto quanto ou mais dentro de mim, pra que metade de mim seja Amor, e a outra metade seja aquilo que te faz sobreviver.
    

     

Você não vê que é pecado? – Por que nos omitimos diante das injustiças do mundo

     Não precisa ir muito longe para que se perceba o alto grau de rejeição que o cristianismo tem experimentado diante da sociedade.  E, contrariando os egos altivos de quem garante ser odiado pelo mundo porque o mundo primeiramente odiou a Jesus (Jo 15:18), o problema está antes na posição egoísta do povo que ousa chamar-se pelo nome de seu Deus, esquecendo-se da parte em que se humilha, busca a face do Senhor, e se converte dos seus maus caminhos (2Cr 7:14).
     
     Diante de toda injustiça do mundo, levanta-se não uma geração que se ocupa em ser uma extensão de Jesus na Terra, mas um povo que carrega uma fé egoísta e interesseira, buscando “paz” e resolução da própria vida. Pulgas, que sugam todo o bem que esteja a seu alcance, e buscam uma zona de conforto a todo custo. Jesus não morreu para uns ou outros. Ele se entregou como sacrifício por todo o mundo (Jo 3:16-17).
     
     No capítulo 1 de Tiago, o apóstolo orienta o povo em seu agir perante o aprendizado da Palavra. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural. (Tg 1:23). Cumprir a palavra não se limita ao abandono do pecado, ou a alguns mandamentos, mas uma mudança de vida que deve, necessariamente, fazer com que aquele que creia em Jesus Cristo, faça obras maiores que aquelas que Ele fez. (Jo 14:12)
     
     Você não vê que é pecado ocupar-se dos seus próprios interesses, e esquecer-se daqueles em necessidade? “A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.”(Tg 1:27) Você não vê que é pecado guardar seu tesouro, sua palavra, daqueles que estão se afogando em frustrações e infelicidades? Você não vê que é pecado calar-se diante da injustiça, da mentira, do abuso, e viver uma vida cristã medíocre, de quem não crê em, nem opera milagres?
     
     Ousar chamar-se pelo nome do Cristo implica manifestar-se como representante, embaixador do Mesmo. Não há nada que Deus possa operar por sobre a Terra, sem que haja pelo menos um coração disposto a agir conforme Sua vontade. Quanto falta para que nós consigamos entender que a fé sem obras é morta? (Tg 2:20) Quantos mais precisam perecer, oprimidos por um mundo injusto, privados de sua liberdade, de seus direitos? Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados. (Pv 31:8-9)     

     Vivamos a plenitude da fé que se submete à vontade do nosso Deus, que é bondoso em todo o tempo, e não mais nos omitamos diante daqueles que necessitam. Ou você não vê que isso é pecado?
     
     
     

Nós ainda temos tanto pra viver, M.

Então é isso, M., é isso aí. Não era pra ser agora. Não era pra funcionar, pra ser perfeito e ideal como eu sonhava. Pode ser que seja depois, e pode ser que não seja nunca mais. Quem sabe, M.? Só Deus mesmo. Pudera eu entender as coisas que nos acontecem nessa vida complicada. Por enquanto, é mais dor que conforto; mais pesar que alegria; mais doença que saúde; mais veneno que cura.

Eu não queria ter que deixar pra lá, M., eu não queria. Eu desejava poder insistir mais um pouquinho, em vez de só deixar que o tempo engula. Eu sei que deixar a cargo do tempo é permitir que a dor ainda corroa as superfícies do meu coração enquanto ela permaneça.

Eu achava, M., que seria eu e você por muito tempo. Você insiste que será, que será, mas nós sabemos que não é a mesma coisa. Eu esperei compartilhar muitas coisas com você ainda, porque foi bom o tempo e os pequenos momentos que foram meus e seus, que só nós conhecemos e lembraremos. Era gostosa a sensação de te procurar em meio à todo mundo, e, encontrando os seus olhos, receber carinho de volta. Eu permiti que você apagasse minhas luzes, e que visse tudo isso que eu escondi dentro de mim, pra que outros não vissem; eu te deixei ser luz onde eu não queria abrir os olhos.

E, agora, M., acabou. Acabou assim, já não vai mais continuar como era. Não vai, M., não vai. Nós já não somos como um do outro, mas somos comuns um pro outro. E, por mais que me doa, eu sei que comum é o melhor que nós seremos, agora ou pra sempre. É por isso que eu te escrevo agora, M. Nunca me faltou coragem pra falar de tudo de bom que eu sentia. Agora me falta alguma vergonha pra conter esse ímpeto de me desnudar em público. Está tudo claro e simples, apesar de que não pareça muito, agora. Você sabe que eu sou só aquilo que você vê.

Nós ainda temos tanto pra viver, M., que seria egoísmo meu não te deixar viver as coisas tão grandes que te esperam. Pode ser que o tempo te faça tão melhor que seja bom demais pra mim. E, pode ser que o Tempo te leve pra tão longe, que eu nunca mais te veja. Podia ser que, um dia, nós estivéssemos bons o bastante um para o outro, e prontos pra levar adiante. Mas, por ora, eu vou só deixar pra lá, M. Só deixar pra lá.

Uma em um bilhão

Eu nem sempre tive 100% de certeza de onde eu vim. E eu sei que você também não. Acontece que, às vezes, a gente olha pra esse mundão e não consegue nem imaginar o tamanho que tem, e quantas pessoas diferentes existem, e quanta fauna, flora, e todos os outros planetas e corpos celestes que existem nesse universo. E, voando pelo espaço, procurando uma resposta, a gente perde altura de voo e vai caindo aos poucos de volta pra atmosfera, pro nosso país, pra nossa cidade, até que volta pro nosso umbigo, e não sabe mais sequer qual o valor que se tem.
     
Eu gosto de pensar que sou o fruto de uma máquina de improbabilidade infinita. Não só pensando em tudo que fez parte do surgimento do planeta, do universo, e das espécies todas, mas pensando em tudo que me torna quem eu sou. Todos os meus atributos, minha personalidade, as pessoas que conheci, os lugares por onde andei. É lindo imaginar que nada aconteça por acaso.
     
Eu não sou só filha dos meus pais. Sou filha dos meus avós, bisavós, tataravós, e dos tataravós deles, e dos tataravós seguintes. Eu não seria quem sou se outro dos espermatozoides do meu pai tivesse fecundado o óvulo da minha mãe. Eu poderia nunca ter existido sem alguém a centenas de anos atrás tivesse tomado um caminho diferente num dia quente, ou não tivesse se mudado de cidade. Se, em vez de olhar pra esquerda, e visto a pessoa por quem se apaixonou, tivesse olhado pra esquerda.
     
Isso parece pequeno, mas é grande, poderoso, precioso. Eu não sou um acidente, nem milhares de acidentes. Eu sou como uma canção da orquestra do Universo. E toda pedra no caminho é uma nova história em potencial para que surja na minha vida. Todo bem, e todo mal que vem, faz parte da minha vida, e estará sempre contido na história de quem vier depois.
     
Eu poderia ter sido várias, mas fui eu quem venci nessa máquina de possibilidades. Eu sou uma em um bilhão, mas também sou só uma parte dessa rede que relações sobre a qual nós construímos a vida. Muitas outras pessoas ainda virão. Pessoas que eu conhecerei, pessoas cujas vidas começarão através de mim. E eu fico feliz em saber que farei parte da improvável preciosidade da vida delas.
     
     

Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada (Constatação)

Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada –
E nem andei mais que dez milhas, ainda, da jornada.
Não sei em que bolso guardei, não sei de que bolso caiu –
Ninguém que andava comigo se recorda se viu.
      
Já voltei mais umas milhas e ainda não achei;
Que lamento, fui provar do mel e logo enjoei.
Era muito açúcar pra que eu conseguisse digerir –
Seria o Romantismo tolerância pra engolir?
      
E o Amor não é mais fogo que arde sem se ver.
De tudo que me resta, só secura e sofrer;  
A razão é que sobrou só a Razão acumulada –
Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada.
      

[Ou, quem sabe, de romântica, eu não tenha tido nada.]
   
   

“Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
“Guarda essas garras devagar,
“E nos teus belos olhos de ágata e aço
“Deixa-me aos poucos mergulhar.”
   
“Quando meus dedos cobrem de carícias
“Tua cabeça e dócil torso,
“E minha mão se embriaga nas delícias
“De afagar-te o elétrico dorso,”
   
“Em sonho o vejo. Seu olhar, profundo
“Como o teu, amável felino,
“Qual dardo dilacera e fere fundo,”
   
“E, dos pés a cabeça, um fino
“Ar sutil, um perfume que envenena
“Envolve-lhe a carne morena.”

O Gato – Charles Baudelaire     
     

     

[sem título]

   Às vezes eu só quero escrever, sabe. Não quero mudar o dia de alguém. Não quero transformar o mundo. Não quero tocar os corações. Só quero botar pra fora. Mas só botar pra fora dá trabalho.
     
   Só botar pra fora pode ser demais. As pessoas são más, as pessoas destroem vidro quando o tem em mãos. Eu posso ser de vidro, às vezes. Ou eu posso ser de aço. De pedra. Pedra quebra e se quebra. Eu não sei bem o que eu sou hoje. Mas isso não importa.
     
   Hoje eu não quero que faça sentido. Que você se identifique. Você pode até conseguir, mas não porque eu quis. Hoje eu só quero pensar que consegui escrever o bastante pra aliviar meu coração. Como uma torneira um registro global, abrindo e fechando uma tubulação com mais de cinquenta milímetros de diâmetro. Parada, acumulando. Preciso vazar, preciso jorrar.
       
   Então, hoje, não é para que outros entendam, para que outros concordem. Hoje eu escrevo pra mim. Pra que eu saiba que eu escrevi, que eu estive aqui. Que eu estou sentindo, estou mudando, estou pensando, estou sorrindo, estou sofrendo. Para que eu me lembre que hoje, neste momento, eu estive viva, e em explosão.