31 Devocionais #2 – Aba, eu pertenço à Ti

     Estava hoje em um momento de oração, e a canção “Aba”, da Laura Souguellis, foi ministrada. Essa música tem falado muito comigo desde o último sábado, quando ela veio inesperadamente na playlist aleatória do Spotify, e eu senti que o Senhor tinha algo a me falar através dela. As palavras entraram no meu coração e lá permaneceram desde então.
     
         
     Enquanto a escutava novamente hoje, comecei a dissecar a letra e refletir sobre ela. “És mais real que o chão que eu piso”. Como poderia Deus, o Invisível, ser mais real que o chão no qual eu me sentava naquele momento? Eu me lembrei então de todas as vezes em que meu mundo desabou e me parecia que o chão havia sumido. E, quando meu chão sumia, eu tinha a certeza de que o Senhor estaria lá pronto pra me segurar e ser a Rocha onde eu me firmaria. “És mais real que o ar em meus pulmões” – porque às vezes me falta o ar, mas nunca me falta o Amor do Senhor. 
    
     “Estás mais perto que a pele em meus ossos” – porque a Palavra me diz que, quando o véu se rasgou, o Senhor não mais habitou em templos construídos por homens, mas escolheu fazer morada em mim, e meu coração é casa dEle (1 Co 6:19). “Estás mais perto que a canção em meus lábios” – porque houve tempos em que as angústias levaram os louvores para longe de mim, mas Ele continuou comigo, segurando minha mão, e me levando por entre as tempestades.
    
     Ah, Abba. Quer eu viva, quer eu morra, eu pertenço à Ti (Rm 14:8). Os Teus pensamentos me definem, pois o Senhor bem sabe os pensamentos que tem a meu respeito – pensamentos que são de paz, e não de mal, mesmo que eu ande pelo vale da sombra da Morta (Jr 29:11, Sl 23:4). És tudo para mim, Senhor, e És a minha realidade – assim como a Tua realidade entrou na vida de Isaías e o transformou pra sempre (Is 6), o Senhor têm me transformado todos os dias, e me aperfeiçoado em Teu perfeito Amor. 
    
    

Nada escapa aos Teus olhos.

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     Existe um mistério por trás dos olhos do Pai.

     Pra ser sincera, existe um mistério por trás de todos os olhos que estão por aí, já que fomos feitos à imagem e semelhança dEle. Como são incríveis as muitas visões que podemos ter uns sobre os outros, e como eu gostaria de me enxergar pelos olhos de outros, e como eu gostaria de emprestar meus olhos para que outros vissem valor naquilo que é precioso para mim.
     Mas os olhos do Senhor passam por toda a Terra. Somos 7 bilhões hoje, mas nosso Deus Forte conhece cada pessoa que já andou por este planeta. Cada pessoa que já morreu já esteve sob o olhar do Pai uma, duas, tantas vezes. Ele vê tudo, aleluia. Ele conhece tudo, glorifiquem Seu nome. Não há onde possamos nos esconder, que Seu Amor não nos encontre – pois o Senhor não é um que nos vigia como um cão de guarda, porém um que cuida de nós.
     Deitada aqui na minha cama, muito depois da minha hora de dormir, enquanto penso sobre quem sou, ainda acho incrível que o Senhor tenha me visto, e me escolhido. Não posso culpar aqueles que acham difícil acreditar que Deus os ama e tem um plano para eles – apesar da nossa geração acreditar que o mundo gira em torno de nossos umbigos, os números de depressão e baixa auto-estima crescem. O mundo é tóxico à nós – às nossas identidades, à cada uma das nossas características e peculiaridades. Tudo nos é roubado, tudo é uniformizado. Eu já estive assim – não sabia quem eu era, pra onde ir, sem propósito. Só medo, e dúvida.
     Mas, nessa multidão de 7 bilhões, nada escapa aos olhos dEle.
     Pra ser sincera, eu não acho que seja grande coisa. Nenhum de nós é, não podemos fazer nada sozinhos. Somos limitados, mas Ele faz por nós tudo aqui que não poderíamos fazer. Quando caímos, quando nos perdemos, quando nos calamos, quando toda esperança se esvai, Ele está lá, esperando que clamemos Seu nome. Ele é a luz que queima mais que o Sol, e eu sou só uma coisinha de nada, me gloriando no Senhor. Eu celebro minha vida, os anos que se passaram, os que virão, o que estou vivendo. Celebro cada dia difícil, celebro as dores de ir e vir, porque o Senhor vai adiante de mim cada vez que dou um novo passo.
     Eu acredito que o mistério da piedade se basta em como o Deus Glorificado nos mantém seguros em Seus braços, e, apesar da nossa pequenice, tem um propósito para nós. E Ele só nos diz a verdade, e Sua verdade nos liberta – quando o mundo nos diz que somos fracos, e pequenos, e nos sufoca com suas perfeições inalcançáveis, o Senhor é misericordioso, e Suas misericórdias se renovam a cada manhã, e nós nos alegramos nas nossas fraquezas, pois é nelas que o Poder dEle se aperfeiçoa a nos faz forte.
     Os anos podem passar, mas meu coração permanecerá maravilhado por esse Amor que me salvou, e que me salva todos os dias, do qual eu nunca serei merecedora. Eu nasci para a glória do Senhor! Meu Pai cuida de mim. E que o mundo inteiro saiba que eu sou amada, todos os bullies, todos os senhores, todos saibam que o Senhor é meu escudo, o meu melhor Amigo, que levanta minha cabeça e me toma pela mão direita quando o mundo cai ao meu redor. Havia, sim, um mistério por trás dos olhos do Pai, e eu olhei através deles, e eu descobri – eu sou dEle, e Ele é meu.
    
    

Welcome to the New

     Já foram 44 dias de Reino Unido e, apesar do layout estar pronto já há vários meses, não havia arriscado escrever nada ainda. 2015, na verdade, foi um ano muito parado, apesar de todos os planos que eu havia feito. Ninguém mais usa blogs hoje em dia, alguns diriam, mas eu continuo mantendo o meu, mesmo que às vezes fique tão abandonado. Casa é casa, e, no fim, a gente sempre volta. 
    
     Engraçado porque, no momento, tudo aquilo que eu chamo de “casa” é novo, diferente do que era 45 dias atrás. Agora, já estou bem estabelecida, correndo pra viver meus sonhos mas, acima de tudo, os sonhos de Deus pra mim aqui. E, mesmo sabendo que eventualmente a vida vai me levar de volta pra casa, o tal do choque cultural não me pegou. Nenhuma dificuldade me fez chorar e sentir tanto a falta do lar que eu quisesse largar tudo e ir embora correndo.
    
     Se você é alguém que já me leu em outros momentos, sabe que sempre fui muito apegada à dor, em parte por acreditar que ela constrói, muito mais que destrói. E isso é bíblico, na verdade – “melhor estar na casa em que há luto que na casa em que há riso”. Não que eu não ria aqui; rio muito, o tempo todo, pelos bons amigos brasileiros que vieram comigo, e pelos bons amigos que estou fazendo no ambiente um tanto hostil da universidade e na igreja tão aquecida pelo amor do Senhor que encontrei. Mas, para alguém que sempre ponderou tanto sobre solidão, nunca deixa de faltar a ponta de dor no coração quando se lembra de que tudo que já conheceu até hoje na vida está muito, muito distante.
     
     Tudo ainda é lindo, até a neblina que cegava a vista da minha janela hoje de manhã, os ternos e gravatas dos rapazes se preparando para apresentar trabalhos de arquitetura, as árvores despidas de outono, a mistura de sotaques de todos os dias. Poderia ser deslumbramento, mas é um pouco mais que isso. É gratidão.
    
     Uma gratidão bem mais funda, que consegue se regozijar no domingo perdido lavando roupa, no quarto bagunçado, na falta de família no Natal, na ausência de caronas num dia de chuva inesperada, na falta de colos e mimos quando algum mal ataca o corpo ou, tão fortemente, o coração. Muito mais que feliz por morar na Europa, no Reino Unido, em Leicester – essa cidadezinha tão mal compreendida – , estou feliz por estar construindo minha história e poder contar com esse ano tão privilegiado.
     

     Por trás de toda compra feita com dinheiro trocado hoje pra não faltar amanhã, existe um propósito muito maior, que foi orquestrado com amor pelo Autor da minha Fé. Estou cumprindo meu destino. Nada pode ser mais gostoso que isso.
   
   
     

Insomnia

 

Já faz duas horas que eu estou aqui na cama, deitada, sem conseguir dormir, encarando o teto. Não, não é culpa de ninguém. É culpa minha mesmo. Os dias passam e a vida permanece igual; 24 horas por dia, sete dias por semana, a mesma babaquice, as mesmas reclamações, os mesmos atos estúpidos e o mesmo tempo desperdiçado. Rancor, mau amor, revolta, orgulho, e o mundo segue girando na mesma velocidade, sem se mover um pouco a mais ou a menos por causa do meu drama. Ficar sentada, parada, esperando o oceano criar uma onda fantástica que varrerá tudo aquilo que precisa ser destruído na minha vida é inútil. A ficção IMITA a realidade, e não o contrário. Um dia vai dar certo, mas não agora, e querer apressar as coisas é desnecessário: o ritmo delas não se altera. E no meio de tanta futilidade, ainda sobra tempo pra acusar O único que não tem culpa em nada disso. Sim, Senhor, fui eu que errei, mas cadê a força de vontade pra mudar? Suponho que foi embora na última vez em que eu virei as costas pra Ti.

Então eu tenho uma vida, um Deus, um monte de gente que amo, um monte de gente que não amo, e tanta coisa pra acontecer ainda. E eu me pergunto: quando eu vou começar a fazer mais que o mínimo para que o movimento da minha existência saia do movimento retrógrado? Claro, a mesma desculpa de sempre. “Você é tão jovem, tem tanto tempo ainda para fazer tantas coisas”. Engraçado, lembro-me de me falar essas mesmas palavras há sete anos e, então; desnecessário mencionar como nada se transformou de verdade. O fato é que cada segundo imóvel, desperdiçado com choros e lamentações é um minuto a menos do meu tempo de ação que se vai. Não que isso seja tão difícil de ser percebido, mas é que é muito difícil conseguir retirar as nádegas tão confortavelmente colocadas no sofá, principalmente quando o melhor programa do universo está passando na televisão.

Uma hora a menos.

Uma hora a menos que será repetida logo em seguida, se o próximo programa for tão bom como o anterior. A dúvida fica presa, então, e em parte presa na lerdeza emocional do sofredor em questão. É complicado entender a motivação verdadeira de toda essa necessidade de drama e enrolação que permeia não só a minha vida, mas muitas – mas vamos nos ater à desgraça da minha vida: se eu não estou fazendo nem por mim, quem dirá por outros.

Um dia, talvez, eu consiga me levantar desse sofá emocional e colocar minha vida em movimento. Deus, eu com certeza vou precisar de alguma ajuda, então neste momento de insônia e reflexões vazias e infrutíferas, eu gostaria que o Senhor atentasse para a minha voz e me fizesse mais forte. Talvez, talvez amanhã seja esse dia. Esse dia em que, acreditando em Ti e em mim, eu entenderei como a vida é simples e a complicação sou eu. Sou eu. Eu.

Eu.

Estou com sono agora.