Eu só sei amar em alto e bom som

     Eu me lembro que comecei a escrever compulsivamente aos 14 porque queria muito dar vazão às coisas que eu não conseguia dizer. Com o tempo, a necessidade de escrever apenas foi passando, e eu passei a querer que as pessoas lessem as ideias e sentimentos que eu colocava no papel (foi bem quando surgiu o Corvo Correio). O passo seguinte foi levar isso pras redes sociais, e garantir que o máximo possível de pessoas tivesse acesso. 
     
     Se desnudar em público, através da literatura, é um vício. Você se acostuma a compartilhar tudo que sente com gente indefinida, e elas sabem o que tá dentro de você, e quem sabe até sintam o mesmo. Tem quem diga que é perigoso e nocivo, e eu não deixo de concordar – se fosse pra gente se expôr em praça pública dessa forma, o coração não vinha guardado dentro do peito, com tanto osso, carne, sangue e pele cobrindo.
     
     Acontece é que, quando o coração entra em combustão, explode e sai voando por conta própria, não dá pra fingir que tá tudo bem, tudo normal.  Faz até mal, eu acho, não abrir uma janela pelo menos pra que a fumaça escape e não sufoque de dentro pra fora. Deixo meus parabéns aos que sabem amar em silêncio, acho que o mundo recompensa melhor vocês que aprendem a guardar para si. Eu só sei amar em alto e bom som.

   
   

Do Amor

     Eu me encantei com a ideia de amar muito jovem ainda. Conheci o Perfeito Amor criança, aos 8, e carreguei comigo até que, aos 16, eu compreendi o que significava. E, ainda assim, mesmo conhecendo e conquistando o maior Amor do mundo, eu não entendia como eu poderia senti-lo. Parecia tão grande pro meu pequeno coração humano, tão inseguro e simples.
    
     Nesse meu pouco tempo de vida, eu achei que amei muitas pessoas. Hoje, eu vejo como não passavam de sentimentos rasos e incompletos, egoístas, até meio bobos. Amor é uma decisão bonita demais pra ser reduzida a uns quereres mal quistos, mal compreendidos, cheios de poréns. E amor não acaba, também. Você só pode desistir. Uma pena, mas existe quem cujo coração não suporte o peso deum mundo que matou o Perfeito Amor.
    
     Meu esclarecimento chegou, ao mesmo tempo, ao coração e ao conhecimento. Papai, numa sintonia dessas que só pais sabem proporcionar, foi quem me trouxe as palavras que descreviam aquilo que vinha crescendo dentro de mim. A olhos totalmente nus, eu vi que te amo mais em seu estado mais inútil, mais despojado de belezas, de encantamentos, atrativos, charmes, finos tratos.
    
     Na plenitude da sua feiúra e da sua pobreza, o amor é tão maior que aí, enfim, é amor de verdade. Sem potências, só a essência daquilo que você é, do seu coração. Sem vigor, sem juventude, sem perspectivas, sobra tanto quanto ou mais dentro de mim, pra que metade de mim seja Amor, e a outra metade seja aquilo que te faz sobreviver.
    

     

Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada (Constatação)

Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada –
E nem andei mais que dez milhas, ainda, da jornada.
Não sei em que bolso guardei, não sei de que bolso caiu –
Ninguém que andava comigo se recorda se viu.
      
Já voltei mais umas milhas e ainda não achei;
Que lamento, fui provar do mel e logo enjoei.
Era muito açúcar pra que eu conseguisse digerir –
Seria o Romantismo tolerância pra engolir?
      
E o Amor não é mais fogo que arde sem se ver.
De tudo que me resta, só secura e sofrer;  
A razão é que sobrou só a Razão acumulada –
Eu perdi meu Romantismo em algum ponto da estrada.
      

[Ou, quem sabe, de romântica, eu não tenha tido nada.]
   
   

Coração de Papel.


“Você me entregou um coração de papel.
        
Era um pequeno origami, feito a partir de uma folha de caderno pintada a lápis de cor vermelho. Alguns vincos se destacavam nas suas superfícies, como se as dobraduras houvessem sido erroneamente feitas várias vezes, antes que a forma final fosse alcançada. Chegou num dia qualquer, pelo correio, em uma caixa amarela comum. Nenhum bilhete, nenhuma plaquinha, nem mesmo o nome seu escrito em grafite acinzentado em uma das faces mal coloridas. Mas eu sabia a quem pertencia. Sabia que era seu. Tinha aquele seu cheiro que eu nunca havia sentido.
        
Por muito tempo eu pensei que ele fosse uma piada, ou até mesmo alguma forma de me mandar uma mensagem subliminar. Talvez você não me amasse tanto assim, ou tivesse medo de entregar-se por completo. Talvez você houvesse produzido várias cópias desse coração, para distribui-lo entre as muitas pessoas inocentes que passassem pela sua vida, e não lhe conquistassem a cordialidade mais profunda. 
       
Era engraçado carrega-lo por aí. Enquanto usei-o pendurado na minha mochila, exibindo-o a todos, escutei as mais diversas teorias e opiniões. Você bem entende como eu não realmente sabia o que significava, pra você, o tal do coração de papel, mas era tudo que eu podia ter vindo da vossa pessoa. Protegia-o quando muito chovia, e a água ameaçava sua integridade, e o tomava nas mãos quando o espaço era muito apertado para que sua forma não se desmontasse. Guardava-o numa caixinha sobre minha mesa de estudos quando não estava fora. Gostava de mantê-lo sempre perto de mim. Mesmo que fosse tão frágil, de papel.
       
Só entendi que era real quando você o pediu de volta.
       
As circunstâncias já me indicavam que as coisas entre nós não eram mais as mesmas, mas nunca pensei que teria que lhe entregar aquele coração. Era tão feio, mal feito… Tão meu. Tão meu havia se tornado, que quase amava mais àquele amontoado de dobraduras do que a ti. Não sei se você ainda se lembra, mas quando foi à minha casa, coloquei-o em suas mãos dentro da caixinha de vidro. Tinha medo que você o estragasse.
      
Mal sabia eu que eu o estragava, a cada dia.
       
Toda a sua fragilidade, sua simplicidade, sua delicadeza e suas peculiaridades se refletiam naquele papel mal colorido. Era parte de ti. Eu o isolei de sua fonte de vida, e não percebi que seu brilho se apagava, sua força morria, seu pulsar desaparecia. Sua essência morria. Ambos morriam.
       
Quando virou as costas para mim, lágrimas pesadas rolaram pelo meu rosto. Tanto tempo tentando cuidar de um coração de papel, que eu julgava ser uma piada tua. Que fosse ser pra sempre meu.
       
Sempre sentirei falta do coração.
             
        
Sempre sentirei sua falta.”

Discórdia

“(…) a Discórdia infatigável,
Companheira e irmã do homicida Ares,
Quem a princípio se apresenta timidamente, mas que logo
Anda pela terra enquanto a fronte toca o céu.” Homero – Ilíada

– Quem dera fosse eu um passarinho. – Ele disse baixinho, entre suspiros.
– Por quê? – Ela falava entre dentes, sem movimentar a cabeça ou focalizar o olhar vazio.
– Por que o quê?
– Por que você queria ser um passarinho.
– Ah, estava apenas pensando alto. Nada demais. Só uma reflexão boba. Não vale a pena falar sobre.
– Nós estamos sentados aqui há mais de quarenta minutos sem trocar mais do que cinco palavras. Por favor, diga algo sobre essa reflexão boba, antes que o silêncio comece a fazer mais barulho que a minha circulação sanguínea.
Ambos se endireitaram sobre o tapete não muito felpudo, apoiados na parede da sala.
– Ok, vou começar a falar agora. Bem, eu gostaria de ser um passarinho.
– Certo, Batman. E essa parte eu já entendi.
(Um olhar raivoso) Precisava mesmo dessa grosseria, Anna? Também não vou desenvolver meu pensamento mais.
(Um acre tom irônico) Desculpa-me, Hulk, não intendia deixar-te zangado – (Um doce olhar sarcástico) – Não obstante, não enxergo tal grosseria. Por qual razão Vossa Mercê gostaria de ser um passarinho?
– Mais uma gracinha, e eu me calo
– Mais uma frescura, e eu não te escuto.
– Você quem pediu que eu falasse sobre minha reflexão, desgraçada. Admita, você não queria me escutar, queria era me esculachar. Seu veneno não estava aguentando ficar tanto tempo fechado dentro dessa boca enorme, sua língua de cobra já clamava por liberdade.
– Se você ia ficar se machucando com qualquer coisinha que eu falasse, por que aceitou falar sobre essa sua maldita reflexão?
– Quer saber de uma coisa, dane-se aquela reflexão, tenho uma ideia nova. Queria ser um passarinho pra poder sair voando, ficar livre de você e de brinde poder defecar na sua cabeça.
– A porta está sempre destrancada para você, Homem Pássaro. E outra coisa, aquela pasta branca é ureia, ou seja, urina, não fezes. Além disso, você já deixa tantos resquícios de urina no vaso sanitário que, na cabeça ou no banheiro, já não me faz muita diferença, actu.
Alguns poucos minutos em silêncio.
– Você não se cansa de todas as nossas melhor intencionadas conversas terminarem desse jeito?
– Não, nem tanto. Sabe, acho que foram elas que me deram a certeza de que devia me casar com você.
– Talvez. – Ele escorregou levemente as costas e encarou, pensativo, o vazio.
Mais um pouco de silêncio.
– Acho que eu só gostaria de ser um passarinho se você também pudesse ser um.
– Mas eu não tenho vontade de ser um passarinho.
– Desgraçada.

Soneto de um peito sem coração

Um sopro de vento que atravessa meu peito
Não é tão gelado que congele a alma
Que, já fria, desprezada, em morte de leito,
Relaxa suas armas e enfim repousa, calma.
E tal qual corpo atordoado de inconstância
Que reprime, mas revela olhos de verdade,
Não há, para o peito vazio, a esperança
De sentir, sem um coração ou realidade.
Mas quem procuraria um coração perdido,
Tão machucado, desprezado e deprimido,
E jogado ao relento, e por ti perfurado,
Repleto de dor e feridas, maltratado?…
Tua é a culpa, quem dera não me rejeitasse
Cada vez que te olho; queria que me amasse!
[Imagem: Tumblr]