#3. as palavras que você deixou pra trás.

      Este texto é o terceiro de uma série. Leia o primeiro aqui, e o segundo aqui.

      Quando comecei a escrever essa série de textos, eu queria falar sobre pessoas & relacionamentos como se fossem luzes, inspirada por uma canção chamada “Mikrokosmos”. Confesso que não era assim que eu havia planejado fechar a trilogia, mas, olhando de volta pros faróis, e pro som que a estrela faz, eu percebo que estava desde o começo me preparando pra escrever isso aqui. Hoje, 17 de Setembro, fazem 4 anos que um álbum chamado “Story Op. 1” foi lançado. Eu pretendia guardar este assunto pra Dezembro, ou próximo Abril, mas achei justo publicá-lo hoje, em homenagem ao insubstituível Kim Jonghyun.

      Há uns 3 anos, eu perguntei pros céus qual era minha vocação divina na Terra; fui respondida na mesma hora – “você é uma contadora de histórias”.

      Ainda que existam palavras celestiais que chegam como uma surpresa, e trazem à existência novas realidades e novas identidades, as palavras que eu escutei apenas colocaram em ordem coisas que já existiam em mim. Eu gosto de histórias; aliás, eu gosto das pessoas que existem por trás delas, e do Deus que nos criou e que se revela através dos fragmentos da nossa rotina desorganizada – como se o plano dessa realidade fosse uma cortina, e a Eternidade estivesse a um pequeno rasgo de distância. Eu já escrevi muito sobre os motivos pelos quais eu gosto de escrever, como se eu me mantivesse como uma permanente leitora do mundo, como alguém que está sempre respondendo à outra coisa. 

      Hoje, especificamente, quero responder ao Jonghyun. Escolher publicar este texto é algo que eu faço com muito cuidado; tenho muito zelo e respeito por ele, sua família, fãs, e pelo legado que construiu. No desenrolar dos fatos, eu sou das que perderam o privilégio do seu tempo em vida, e só se apaixonaram pelo seu trabalho brilhante depois da sua morte. Falar sobre o Jjong hoje é falar sobre as palavras que ele deixou pra trás – como a luz de uma estrela que continua viajando e iluminando por muitos anos-luz, mesmo depois que ela se vai. 

      Em todo meu fascínio por estrelas, eu coleciono a luz de muitas dentro da minha mente e do meu coração. Eu me criei muito sozinha, dentro do meu próprio mundo, e os artistas cujo trabalho influenciou minha vida são como os melhores amigos que muitas vezes eu não tive, mas que estiveram ali pra mim, de uma forma ou outra. Minha vida já deu muitas voltas, mas, até hoje, conhecer o trabalho de alguém é como ganhar uma nova companhia, que chega no tempo certo, pra agregar como deve. Quando comecei a me aproximar da música coreana, mantive uma distância consciente do trabalho solo do Jonghyun, poque eu nunca quis que a tragédia falasse mais alto que qualquer outra coisa que ele tivesse pra me dizer. Pro meu deleite, com o tempo, a aproximação veio naturalmente, cuidadosamente mediada pelo aleatório do meu Spotify, e facilitada pela voz doce e cativante de alguém que, como eu, amava histórias, e era muito bom em escrevê-las e contá-las [e cantá-las]. 

Promovendo seu primeiro EP, “Base”, em 2015, cantando também “Juliette”, música que compôs para o SHINee. Das minhas performances preferidas, prestem atenção nos vocais.

      Além de membro por 9 anos de um dos maiores grupos da sua geração [o SHINee]Jonghyun também apresentou um programa de rádio, chamado “Blue Night”, entre 2014-2017. Em uma entrevista concedida em Abril de 2017, no último dia em que o programa foi ao ar, ele disse que entrar para o rádio foi o segundo maior ponto de virada da sua vida [o primeiro sendo a decisão de largar a escola no Ensino Médio]. Ele considerava ambos mais importantes que entrar pra indústria do k-pop, ou publicar o primeiro livro, pois foram decisões que transformaram e ampliaram sua visão de mundo. No Blue Night, que ia ao ar entre 00:00 e 02:00, ele se juntava aos seus ouvintes para construir e compartilhar um mesmo espaço, e fazer daquelas duas horas um lugar seguro de descanso no fim dos dias.

      O grande triunfo do programa foi ter tido sucesso como um canal de comunicação e troca, tão sinceros quanto fosse possível. Das muitas histórias que eram compartilhadas, ele começou a escrever canções, em um quadro especial intitulado “Escrito pelo Blue Night, composto por ele”, em que ouvintes enviavam seus relatos – vagos ou específicos, expressões de desejo do momento, desabafos curtos, pequenas manifestações de rotina que passariam totalmente desapercebidas até que alguém colocasse em palavras. Essas canções se tornaram eventualmente sua primeira coletânea musical – o Story Op. 1lançado em 2015, e que completa 4 anos hoje.

      Algumas músicas surgiram a partir de mensagens dos ouvintes – como a faixa “Like You”, baseada na história de um rapaz que estava em uma paixão unilateral e não-confessada, ou “I’m sorry”, sobre uma moça que havia recebido um e-mail de seu ex-namorado. “Maybe tomorrow” foi uma resposta às muitas mensagens sobre cansaço e desânimo ao fim de um expediente, enquanto “End of a Day” fala sobre ter pra quem voltar no fim de mais um dia. A excelente “Diphylleia grayi [skeleton flower]” partiu de uma proposta que ele recebeu, de descrever a vida através de flores e tempo, e foi também o título de um romance, publicado em Setembro de 2015, que combinava trechos e aspectos das canções do álbum em uma mesma história. [para saber mais sobre cada faixa – em inglês] A coletânea não foi promovida de forma convencional, nos music shows coreanos, mas com uma série de pequenos concertos, intitulados The Story by Jonghyun – momentos de convergência modestos para o vocalista de um grupo acostumado a esgotar as maiores arenas da Ásia.

      “U & I”, faixa no. 2 do álbum e música tema do Blue Night, fala sobre o encontro de todos os dias entre Jonghyun e seus ouvintes, para compartilhar um pouquinho de si uns com os outros. De dentro daquele estúdio, ele pode desconstruir partes da sua imagem de ídolo jovem, e revelar seu lado pessimista, suas indisposições, sua rotina atípica, e conhecer mais sobre a vida comum das pessoas que o acompanhavam – tanto as que viviam na mesma cidade quanto as que o escutavam de outros países, em outros fusos horários. Incontáveis pessoas que ele nunca conheceria pessoalmente, mas de cujas vidas ele fez parte – como imagem, como voz, como artista, poeta, canção – como lembrança. Todos os dias, quando se encerrava às 2 da manhã, ele deixava um convite, quase como uma declaração de missão – “Aqui fala o Jonghyun do Blue Night. Se você não tem um lugar de descanso, você é bem-vindo aqui sempre que precisar. Venha e descanse aqui amanhã, também.”

“U&I”, apresentada em um dos pequenos shows que acompanharam o lançamento do Story Op. 1.

      Hannah Ewens, em seu livro “Fangirls” [2019] chama atenção para o uso do termo “fandoms” [ou fan kingdoms] para se referir ao universo de admiradores que se organiza em torno de uma figura mais ou menos pública – um reino, algo que pressupõe a existência de um território sob o domínio de alguém. De fato, o maior poder que um artista tem é o de fundar mundos ao seu redor; abrir espaços e inaugurar novos lugares de encontro, dimensões paralelas em que pessoas diferentes se cruzam, e constroem memórias, e tocam as vidas umas das outras, movimentando a história e as redes da nossa sociedade. Na ocasião de seu último programa, no dia 02 de Abril de 2017, entre as muitas mensagens que recebeu, uma sempre me chama a atenção – “Graças ao Jjong-D, minha vida simples se tornou um pouco mais especial. Muito obrigada por sempre ter estado aqui, independente do quão bom ou ruim tivesse sido meu dia”. Assistindo às suas transmissões antigas, lendo suas entrevistas, e escutando suas músicas, ele continua fundando novos mundos e novos espaços, em mim e em outros; suas canções dão o tom de alguns dias, mudam o clima de outros, ou às vezes não encontram espaço algum. Algumas são como um abraço, outras me fazem rir e dançar, outras ficam como plano de fundo dos afazeres do dia. Já fiz amigos falando delas, já levei unfollows falando delas, e, hoje, eu escrevo um texto sobre elas, na esperança de que elas possam tocar a vida de mais alguém. O farol continua brilhando.

“Our Page”, música escrita pelos 4 membros do SHINee, a respeito da perda de seu 5º membro.

      Das muitas coisas que me fascinam sobre ele e sua música, a maior talvez seja o esforço em se manter sensível ao mundo ao seu redor, mesmo que as circunstâncias apontem na direção oposta. Todos nós enxergamos a realidade em narrativas – os pontos de vista, subjetividades, vieses, preconceitos e peculiaridades do nosso próprio olhar. Estar em constante troca é o que nos permite ver por outros olhos, reconhecer outras perspectivas e descobrir mais das facetas da vida que não se revelam quando estamos sozinhos. As histórias que guardamos e compartilhamos ficam bem sobre o limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo – como os faróis que nós construímos, e que continuam iluminando os mares, mesmo depois que ninguém mais se ocupa de tirar o pó das escadas. Nas palavras do próprio Jonghyun, “qualquer tipo de relacionamento [ou de conexão] é importante, pois você nunca sabe qual será o fim”

“1000”, minha música preferida, parte da coletânea Story Op. 2 [lançada em 2017]. A canção foi escrita em comemoração ao 1000º dia do Blue Night

      Olhar para uma pessoa como o Jonghyun me faz pensar no contraste pungente dos cheios e vazios que ficam quando uma pessoa vai embora, mas deixa muito. Os lugares que ele ocupava continuam lotados, porque as suas palavras eram muitas, eram fortes, altas, poderosas, e preenchiam todos os espaços. E é por isso que a sua ausência também fala tão alto; tudo que ele deixou pra trás faz lembrar a falta que ele faz. Fica um vazio de tudo aquilo que ele ainda poderia fazer e viver, mas não fez; a família que não construiu, as histórias que não contou, as músicas que não compôs, os livros que não escreveu, o retorno ao Blue Night que não aconteceu. As coisas que ele dizia com os olhos, com as mãos, além da própria voz, ainda ecoam, ainda se fazem presente, pra quem se importa de parar e ouvir, e pra quem não se importa, mas cuja vida toca a de outros que pararam pra escutar. São gatilhos pra lembranças, são o motivo de ficarmos acordados à noite, esbarram nos pedaços da rotina… Mas isso não é só sobre o Jonghyun, ainda que seja a respeito dele que eu fale aqui, hoje. 

      E, claro, de tudo que eu falo, falo apenas como simples fã, e uma fã póstuma – a menor e mais insignificante de todos, que nunca experimentou a expectativa presente de admirá-lo em vida, e para quem a ausência foi a primeira realidade. Mas este é o poder das histórias que compartilhamos – aquele limite entre aquilo que se pode, e o que não se pode conhecer de alguém com quem não se convive; nem sempre nós abrimos nossa boca pra falar algo bom, construtivo, ou verdadeiro, mas o momento do encontro sempre abre um novo mundo. Mesmo como fã póstuma – mesmo assim – eu sinto meu coração vazio toda vez em que, assistindo um vídeo ou escutando uma canção, eu me lembro que ele não está aqui mais. A morte é nosso problema mais antigo, mas é sempre um problema novo, porque morremos só uma vez, e quem continua em vida segue em direção à própria morte sem saber também o que isso significa. Sempre vai doer em alguém, mas isso também vai passar – mas algo também fica. Acho isso intrigante. 

      Se ele fosse uma história, seria uma grande história; é difícil explicar isto sem que pareça absurdo, então vou deixar em aberto, e confiar na imaginação dos leitores. De qualquer forma, a vida continua, e nós todos ainda temos muitas páginas para encher até o fim de todas as coisas. É assim que tudo corre, como um grande jogo de pinball, ou uma partida de futebol de botão, ou uma fissão nuclear e sua reação em cadeia; as ilustrações são muitas, mas o sentido é mais ou menos o mesmo. Nem tudo é bom, quase nada é louvável, pouca coisa é agradável, mas o mundo não parou de girar ainda por causa de nada disso. Contar histórias é uma forma de nos lembrar que, apesar de tudo, ainda pode ser um privilégio fazer parte da vida uns dos outros. Pelo menos, eu penso assim. Muito obrigada por fazer parte da minha, Jonghyun. You did well. 

      [Tem playlist também.]

Mas você gosta mesmo de BTS?

     “Mas você gosta mesmo de BTS?”

     Entre as muitas pessoas que me fizeram essa pergunta nos últimos tempos, minha preferida foi eu mesma, no diálogo imaginário que criei com meu eu aos 15. Foi nessa idade que eu fiz uma promessa solene de que nunca me renderia à “moda” do kpop, desde que Super Junior roubou metade dos fandoms dos quais eu fazia parte na época – da banda alemã Tokio Hotel, a paixão da minha juventude, e da fatídica banda brasileira de happy pop punk, Restart. Isso foi há quase dez anos.

     A segunda melhor reação que recebi ao BTS foi dos meus pais, que perguntaram se eu havia decidido voltar àqueles meus 15 anos, de calça colorida, Pe Lanza e Bill Kaulitz. Restart foi a última banda socialmente estigmatizada da qual eu gostei, antes que outros interesses e novas percepções ocupassem minha mente. Aos 16, eu consumia Glee diariamente, e comecei a me interessar por filosofia, política, o que me levou a consumir livros diferentes do que eu costumava ler até então. Terminei o Ensino Médio e comecei a faculdade de Arquitetura, e me reconectei com as histórias em quadrinhos. Com os anos, aprofundei minhas raízes e fundamentos cristãos, fortaleci minha teologia, conheci a história do punk rock e morei na Inglaterra, cercada de bandas indies e amigos que haviam sido emos.

     Não é difícil entender porque minha família, num primeiro momento, achou que gostar de uma boyband coreana era uma regressão, já que qualquer coisa que envolva garotos bonitos e fãs escandalosas não recebe muito crédito social. Eu provavelmente não teria me interessado por BTS se não tivesse passado por um período complicado e musicalmente intenso entre 2017 e 2018, acompanhado por doses cavalares de Foster the People, Twenty One Pilots, Joy Division, George Ezra, SWMRS e My Chemical Romance. Trabalhar no meu TCC foi um processo solitário, temperado por muitas horas de música, que me fizeram refletir sobre o quanto eu havia sido construída pelas coisas que havia escutado, muito mais do que eu já havia concluído até então. Eu reconhecia, nas minhas crises e respostas emocionais, traços que haviam sido retirados diretamente de canções que eu escutava há 10, 12 anos, que ficaram gravadas em mim, mesmo depois que joguei meus CDs fora. Apesar das coisas preciosas que descobri, algumas foram surpresas negativas, que eu tenho tentado arrancar do meu subconsciente, e que me fizeram questionar quais são as coisas que não só eu, mas os adolescentes desta época, têm escutado.

     Eu provavelmente também não teria começado a gostar tanto de BTS se não tivesse começado a consumir TV coreana, que me fez ganhar simpatia pela cultura pop do país, e pela língua. Mas o ponto de virada definitivo foi o dia em que, falando dos meus doramas [novelas coreanas] no Twitter, um pastor do Rio de Janeiro compartilhou comigo sua surpresa ao descobrir, em favelas, que a febre entre os adolescentes era o k-pop. Eu tinha uma vaga noção de que o BTS já havia discursado na ONU, e subido ao palco dos Grammy Awards, mas saber que um grupo cantando em língua coreana conseguia entrar em um dos locais e corações mais socialmente vulneráveis do país despertou minha curiosidade.

     Uma coisa que eu sempre considerei maravilhosa sobre a internet é a possibilidade de que assuntos sejam discutidos ativamente diante dos nossos olhos sem que nós sequer precisemos conhecer aquilo de que se está sendo falado. Admito que meu distanciamento era metade desinteresse, metade um desprezo quase elitista (uma reprodução do mesmo desprezo que outras pessoas demonstraram por mim quando relatei que havia gostado deles). Até então, eu sequer havia me dado ao trabalho de reparar os sinais de que aquilo era muito maior do que eu dava crédito. Jogar “BTS” no Google foi o primeiro passo pra um mundo de número absurdos, feitos extraordinários, e um exército de fãs que é potencialmente a força construtiva/destrutiva mais poderosa do planeta, centralizados em torno de 7 rapazes de aproximadamente 1,75-1,80 metros de altura, cada, juntamente com sua agência e produtores, a Big Hit Entertainment.

     BTS foi a forma reduzida que os fãs internacionais encontraram pra se referir ao Bangtan Sonyeondan, ou Bangtan Boys“Garotos à Prova de Balas”, formados a partir 2010 e lançados em 2013. Neste artigo de Setembro de 2018 para o Vox, Aja Romano descreve bem o processo que os transformou num fenômeno global. O grupo certamente não teria se tornado o que se tornou sem seu poderosíssimo fandom, o ARMY. Existe espaço para discutir muito aqui sobre os limites da idolatria, e a cultura tóxica do fã, mas eu queria me concentrar mais no fato de que, antes de tudo, este exército de fãs assumiu a postura de trabalhar agressiva & eficientemente para promover os garotos devido ao fortíssimo senso de empatia que eles são capazes de gerar.

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BTS no Grammy 2019. Da esquerda para a direita: V/Kim Tae-hyung (1995), Jungkook/Jeon Jeong-guk (1997), Jin/Kim Seok-jin (1992), RM/Kim Nam-jun (atrás, 1994), J-Hope/Jeong Ho-seok (abaixado, 1994), Jimin/Park Ji-min (1995) e Suga/Min Yun-ki (1993). Fonte: Getty Images [romanização revisada]

     A proposta de seu produtor Bang Si-hyuk era de criar um grupo que se conectasse com o coração do público e fosse capaz de quebrar os paradigmas de perfeição e divindade que fazem parte da imagem dos idols coreanos. Quase que uma sacada messiânica do mercado, em que você tira deus do céu e o coloca caminhando sobre a face da terra – ele queria um grupo de working class heroes (ou youth class heroes), que oferecessem um ombro e te dissessem, com suas músicas, que entendem suas dores, seus sofrimentos, porque fazem parte deles também [não é meu objetivo falar sobre a indústria do kpop como um todo neste texto, mas vou deixar links recomendando outras leituras, no final]. O primeiro desafio foi juntar um grupo de rapazes talentosos que pudessem contar histórias e representar sua geração. O segundo desafio, claro, foi provar que isso era real.

     Suas músicas contam histórias sobre a realidade e os sentimentos dos jovens, em um nível local (na Coreia do Sul), mas com um apelo global. Fazem críticas sociais incisivas, falam de bullying, sonhos, ambições, amor-próprio, família, amizade, medo e esperança, e refletem sobre a constante luta de entender quem somos, e qual nosso lugar no mundo. Seus clipes e storytelling fazem referências à psicologia Junguiana, Hermann Hesse, iconografia greco-romana, e seus álbuns são organizados em ciclos, com histórias em uma linha do tempo paralela. Pra completar, cada um dos três rappers do grupo lançou mixtapes próprias (RM, J-Hope e Suga, sob o nome Agust D), buscando se expressar individualmente como artistas.

     Quando eu caí no limbo das suas entrevistas no YouTube, e dos muitos episódios de Run! BTS (na plataforma VLive), fui tomada por um sentimento generalizado de que deveria ter alguma coisa errada com as coisas que eu estava assistindo, porque eles comunicavam muita verdade (e eu naturalmente desconfio da toda e qualquer verdade na indústria pop). Mesmo tendo ciência das estratégias da indústria pop pra manipular a realidade, e oferecer uma alternativa maquiada e financeiramente conveniente, a impressão que eu tinha era de que, a despeito disso tudo, havia algo de honesto que permeava o que os rapazes fazem e são. Não é muito difícil saber que existem muitas pessoas interessadas em lapidar a imagem pública deste grupo para que ganhe os corações de seus fãs de forma sem precedentes. Por isso, se faz necessário voltar ao início de todas as coisas – porque, para além de ser uma iniciativa de uma pequena agência, e de um produtor renegado, o BTS se organizou a partir do seu líder, Kim Nam-jun – o RM – , um rapper talentoso e jovem brilhante, e certamente o principal responsável por cultivar entre os 7 rapazes os valores e o senso de responsabilidade que os torna um grupo tão singular. Nos bastidores da indústria musical, eles são reconhecidos por serem gentis, atenciosos e humildes, a despeito do quão grandes se tornaram.

     A grande tragédia do clichê é que nunca deixa de ser verdade – com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Talvez tenha sido a atitude de ousadia perante a tarefa de influenciar, misturada com uma humildade diante da proporção que a mensagem tomou, que me fez entrar pro grupo das pessoas que torcem muito pelo sucesso genuíno de tudo que os Bangtan Boys fazem. Eu poderia argumentar que estou muito velha pra vestir camisetas ou acampar nas filas dos shows, mas isso nunca foi muito minha praia; a questão é que eu cresci me reconhecendo como artista, e minha coisa favorita do mundo, ao longo dos meus 24 anos, tem sido descobrir os corações por trás daquilo que eu admiro. Nem sempre as descobertas são positivas, mas, neste caso, foi uma feliz surpresa, mesmo pra mim, que sempre acreditei que Deus poderia agir de formas imprevisíveis. Escutar coisas que eles têm a dizer sobre como se enxergam como pessoas no mundo foi um alento em dias em que eu não queria escutar mais ninguém.

     Apesar da intensa desconstrução do elitismo intelectual e cultural que eu já havia experimentado até então, uma parte de mim ainda tratava os fenômenos mais populares de cada tempo como aquilo de menos digno que a cultura de uma época tinha para oferecer – talvez uma consequência dos anos em que consumi Crepúsculo, e me arrependi? É certo pra mim também que eu fugia de certos fenômenos por conta do estigma de ser vista como mais uma dessas garotas “vazias” que gostam de gritar por qualquer coisa que tenha garotos bonitos, mas, ao mesmo tempo, quando eu descobri o tesouro escondido em BTS, eu quis muito contar pro mundo que eles estavam errados. Claro, nós todos temos todo esse direito de não nos interessar por certas coisas, e de desistir de outras, e talvez eu só esteja ainda sob o impacto de ter saído da minha zona de conforto e ter encontrado algo de valor.

     E, claro, existem muitas coisas que precisam ser pontuadas em afirmações tão emotivas quanto as que eu acabei de fazer. Transformar mensagens importantes em um produto é um dos grandes dilemas da indústria dos nossos tempos, e o quão genuíno é converter valores importantes em estratégias de mercado. No fim das contas, esses rapazes ainda viram objetos nas mãos de companhias, são embranquecidos nos seus vídeos e fotos promocionais, lançam canções com títulos convenientemente ligados ao marketing de grandes grifes, fazem lip sync, e caem em contradição. Eu talvez precise confessar que nem sempre gosto de todas as músicas deles, e que existem muitos grupos que eu considero musicalmente melhores, passando até mensagens melhores (já ouviu falar de SWMRS?), mas o processo de descobrir BTS foi o processo de descobrir um reflexo meu em algo que eu sequer sabia que poderia me refletir. Encontrar algo precioso pra mim naquilo que eu considerava menos importante.

     Acho que me toquei da relevância do que eles fazem em um dia particularmente ruim, em que eu fui pra academia pra tentar fugir de mim mesma, correndo na esteira. Não escutei BTS, mas escutei Welcome to the Black Parade [2006], do My Chemical Romance. Já perdi as contas dos anos e momentos em que essa música me acompanhou, e, naquele dia, mais uma vez, ela gerou em mim o sentimento do qual eu precisava para fazer as pazes comigo mesma – “on and on we carry through the fears […] do or die, you’ll never break me, because the world will never take my heart”. Por coincidência, hoje é aniversário do Gerard Way, frontman da banda e cantor desta canção; toda vez que escuto suas músicas, sou tomada por uma sensação de que os sons que eles produziram vão continuar ecoando em mim por muito tempo. As turnês passam, as camisetas desbotam, os CDs se quebram, o dinheiro gasto vai embora, e a maioria das memórias também – aliás, coisas como perder um show importam cada vez menos conforme os anos passam, e manter isso em mente vai te ensinando a ser um consumidor mais consciente. O tempo ensina que a verdadeira grande estrutura é o que se pode construir no coração, e que os palcos, arenas e estádios são muito pequenos perto disso.

     O que você , escuta, assiste, consome, te constrói, e eu na verdade ainda teria (tenho) muitas outras coisas pra falar sobre isso. Eu deveria mencionar que, desde que incluí k-pop nas minhas manhãs, meu humor melhorou exponencialmente, e assistir entrevistas e doramas me fez começar a apreciar minhas bochechas de uma forma que meus ícones ocidentais bichectomizados nunca foram capazes. Também, que a coisa mais importante que eu fiz em 2018, além de me formar, foi contar pro Mark Foster como Deus havia me dado uma das músicas do Foster the People de presente. Eu te garanto que, se eu tivesse filhos agora, eles estariam escutando BTS comigo, dançando cedo enquanto lavo a louça, faço minha corrida, ou aspiro meu quarto. Aprendendo a pronunciar fonemas coreanos pra cantar sobre amizades e amores doces, ou pra apreciar o próprio sotaque (algo que também aprendi com BTS), ou conhecendo a cultura de honra que existe na Coreia. Enfim. Em três dias, eles lançam música nova, que pode ser horrível, ou excelente, e logo depois vem os anos, e o momento deles passa, como muitos outros passaram. Eu torço muito para que todos eles tenham futuros felizes; que colham bons frutos do que plantaram, mesmo nos lugares em que os olhos não alcançam. E que continuem crescendo e descobrindo as coisas ainda maiores, e melhores, e mais importantes, que a vida tem a oferecer.

     E, claro, levantando o comentário específico com aquilo que eu acredito que seja a coisa mais preciosa do Universo, o Evangelho de Cristo Jesus; fico às vezes pensando na vida como um grande jardim de flores cheias de pólen, e insetos que voam pra todos os lados. Nós podemos argumentar que mensagens “positivas” que não possuem o Evangelho não tem valor – já que qualquer bem do qual o ser humano seja capaz ainda assim é insuficiente pra salvar sua alma – , mas eu nunca seria capaz de desprezar uma mensagem, porque nunca seria capaz de prever os caminhos misteriosos que as palavras fazem pela mente e pelo coração das pessoas. Em algum lugar dessa rocha gigante em que nós vivemos, 1 entre quase 8 bilhões de pessoas pode estar sendo alcançada por uma voz inesperada, e gerando algo que vai mudar sua vida pra sempre. Só isso não faz tudo valer a pena? Eu sempre penso que sim.

@luisadoamaral no Twitter [e no Instagram].

[imagem de capa: LOVE_YOURSELF 轉 ‘Tear’ concept photo]

Outras leituras [em inglês]: