Sobre o tempo, desenhos e pessoas.

Ontem eu me peguei em um momento de muita nostalgia. Não sei se seria bem um momento – segundo um livro de medidas inglês, um momento corresponde a 90 segundos, e eu definitivamente gastei mais do que isso. A questão é que meu sofrimento foi devido a um momento de recordações dos desenhos animados que eu assistia quando crianças.
Não seria útil mencioná-los, pois acabariam originando uma discussão que não tem parte no meu plano. Mas, de fato, essa lembrança me perturbou por horas, me afligindo com suas personagens inesquecíveis, musiquinhas impagáveis e jargões que continuamos a repetir, mesmo que inconscientes da origem. Assistindo aos vídeos, e sentindo uma imensa falta de tudo aquilo, acabei chegando a uma conclusão interessante a respeito de mim mesma.
Minha mãe costuma dizer que ela desconhece outra pessoa que goste tanto de fazer aniversário quanto eu. E essa é a pura verdade, eu amo a passagem do tempo. Amo observar como tenho mudado, e imaginar como estarei daqui a alguns anos. Mas, você imaginaria, uma pessoa assim não deveria sentir-se nostálgica. Foi então que a tal conclusão apareceu de súbito e me deu um soco no nariz.
O que me machuca não é a renovação do tempo, mas a renovação das coisas. Não de qualquer tipo de coisa – você nunca me verá sofrendo pela obsolência do iPod, ou do Pentium 4 – mas das coisas às quais me apego, aquelas que me envolvem efetivamente e que, intimamente, afetam minha alma e até meu espírito. Porém, além do sofrimento pela “dialética natural” das coisas, eu sofro pela dialética das pessoas.
Meu pai percebeu minha dificuldade em desapegar das pessoas quando eu era ainda uma criança – e, diga-se de passagem, estou na espetacular idade de 16 – e sempre me disse que, infelizmente, eu deveria me acostumar a tudo isso. Mas não, não, eu me recuso. Eu não quero esse tipo de mudança na minha vida!
Essa postura pode soar não só egoísta, mas também mimada, porém fico muito amargurada quando penso que este ano – a 3ª série do Ensino Médio – pode ser o prazo final para a maioria das minhas amizades. E, de fato, isso acontece com muito maior frequência do que eu gostaria de admitir. Às vezes escuto pessoas dizendo “Ah, aquela pessoa ali foi uma grande amiga no colegial”. E, ao mesmo tempo em que fala, a pessoa passa, e são como dois estranhos. Seguem suas vidas, vidas que talvez tivessem sido planejadas em conjunto, prevendo futuros encontros que, com certeza, não foram imaginados de forma tão fria e distante, como se o tempo facilmente apagasse qualquer coisa que ali existira.
Não, não, não pode ser assim! O tempo não apaga tudo assim. O tempo encobre, mascara, esconde, mas bastam meios momentos – talvez menos de 45 segundos – para que tudo aquilo seja revelado. Toda dor – bem como toda alegria – explode como um banho de canivetes ou de água morna sobre a alma. Eu, pessoalmente, não gasto meu tempo pensando na dor que reencontros possam me causar. Acho bem mais sensato o esforço em manter aquela chama mágica da amizade, um fogo que consome toda e qualquer coisa ruim que está a nos circundar, ainda que seja só naquele momento.
Meus amigos são a minha alegria, meus irmãos. Eles me animam, me consolam, me dizem a verdade, me fazem acreditar em mim mesma. Eles são como aqueles desenhos da minha infância, que me traziam a pura alegria de simplesmente viver. Querer nem sempre é poder, e meus esforços podem acabar indo, por completo, rio abaixo. Mas, enquanto eles estiverem por perto, eu sorrirei melhor, chorarei melhor, ouvirei melhor e verei melhor. E nenhum outro grupo de amigos poderá me fazer viver da mesma forma. Não estou dizendo que a fatalidade da mudança seria como a morte, porém, pessoas continuam sendo insubstituíveis.
Eu já aceitei que o poder das circunstâncias acaba vencendo o meu próprio poder em algum ponto da vida, então eu treino minhas habilidades de consolar-me através da nostalgia usando a televisão. Eu tenho plena certeza da importância desses amigos para mim agora e, por enquanto, isso basta para minha alma.

Irmão mais velho

Ser a criança mais nova não é exatamente a coisa mais simples do mundo. Especialmente no meu caso. Nasceram cinco filhas e um filho, para então nascer eu. Não que eu esteja reclamando nem nada, mas às vezes eu penso se existia algum complô do Universo ou algum plano maléfico, para me colocar nesse lugar.
Quando eu nasci, minha irmã mais velha já tinha 13 anos; A segunda, 10; A terceira, 8; As gêmeas, 6. Meu irmão tinha 5 anos. E então lá estava eu. Uma gravidez um pouco atrasada, um desejo que veio com a idade. Seis meninas, um menino. Satisfação concedida aos pais.
Minhas irmãs cresceram rapidamente diante dos meus olhos. Tornaram-se adolescentes, adultas. Formaram-se, casaram. Quando eu tinha 9 anos só ganhei minha primeira sobrinha, uma garotinha linda com os olhos azuis da família. Ainda na idade de 12, já era a única menina ainda morando em casa, com os meus pais. E foi quando a tragédia aconteceu.
Meu pai morreu. E de repente, minha mãe viu-se sozinha comigo e com meu irmão de 17 anos. As gêmeas ofereceram-se para voltar para casa e nos ajudar, mas como um coração maternal conseguiria aceitar que as filhas largassem seus sonhos e caminhos apenas para ajudá-la? Com muita coragem, ela resolveu segurar a barra. E eu, com apenas 12 anos, me vi sem nenhuma figura masculina para me orientar naquela complicada transição pra adolescência.
Meu irmão é autista. Ele passa a maior parte de seus dias imerso em seu mp3, pulando de música em música, sem conectar-se com a realidade. Eu passava várias horas ao seu lado, tentando trazê-lo para meu mundo, mas ele nunca respondia. Nunca.
– André, ajuda a Letícia a guardar as almofadas?
– Almofadas. – Ele repetia por algum tempo alguma palavra que eu dissera, até finalmente dar seu veredicto. – Escuto música. Música.
Fernanda e Kátia vinham algumas vezes pra casa. Iam conosco até a praça, onde ele observava passarinhos e, vez e outra, olhava para nós, e dizia entre dentes.
– Sol é bom. – E a luz nos aquecia.
Até que chegou um dia muito importante para mim. Talvez meio fútil, mas era meu primeiro encontro. Mamãe estava em uma reunião, e minhas irmãs estavam tocando suas vidas. Uma de nossas tias havia se oferecido pra cuidar do André por mim, naquela noite. Ela não se cansara de dizer que eu estava linda demais, mas a insegurança me consumia. Não me sentia pronta.
Quando ouvi a campainha soar, desci as escadas afobada. Antes de abrir a porta, porém, decidi tentar mais uma vez com meu irmão. Chamei-o pelo nome, mas ele não olhou para mim. Juntei o fôlego e perguntei:
– André, eu estou bonita?
A cabeça dele se virou lentamente, até encontrar fundo meu olhar. Ele falou com uma voz límpida e consciente.
– Você tá linda.
Logo voltou ao seu mundo paralelo. E eu nunca, em toda minha vida, consegui me sentir mais forte e bonita do que naquele dia, aos 15 anos.
Texto fictício, criado para um concurso de contos de 2010.

Covarde Coragem

Eu tenho medo. Medo, só. Medo de mudar demais, medo de mudar de menos; medo de agradar, medo de desagradar; medo de ser igual, medo de ser diferente; medo de ser sincera, medo de ser falsa. E, às vezes, tenho mais medo de viver do que de morrer. Viver é tão difícil que não só por poucas vezes, eu tenho medo de que tudo isso seja só um sonho. E todo esse medo é por imaginar que, se um dia eu acordasse, as coisas conseguissem ser ainda piores.
Não é como se eu fosse uma pessimista (nem uma obscurantista); Esses ainda tem a coragem de se admitirem assim. Até disso eu tenho medo, de deixar as pessoas saberem o que eu realmente penso das coisas. Tenho medo de deixa-las saberem o que eu realmente penso das coisas. Tenho medo de deixa-las saberem se meus olhos estão opacos ou brilhantes. Tenho medo de deixa-las revirarem-me a alma. Mas, apesar de todo esse medo de viver, o medo de morrer não deixa de existir. Então, acho que prefiro continuar nesse sonho covarde. E, se possível, entrar em outro sonho, dentro deste, onde as coisas pudessem ser menos assustadoras e meu medo pudesse fingir alguma coragem mais sincera.
Mas não vou me permitir tentar esperanças. Eu bem sei que o medo me impede o sono, e que ele próprio me acordaria de qualquer pequeno deleite onírico. Talvez essa certeza de que eu nunca acordarei da realidade me faça mais corajosa. Prefiro ignorar o medo das circunstâncias e seguir com a cabeça erguida, escondendo tudo aquilo que demonstra minha real covardia. É melhor assim.
Dedicado à minha amiga Isabella, a primeira a ler este texto e a quem eu o dei de presente.