Ponto de Fuga

     Estava vendo fotos das minhas viagens (faço isso frequentemente), e encontrei uma vista do alto do salão do Museu d’Orsay, em Paris. Pra além de ser um projeto incrível e um museu fantástico, a foto é naturalmente bonita por causa do ângulo em que foi tirada. Estou longe de ser uma fotógrafa muito talentosa, mas o local de onde eu observava o salão do museu permitiu que o ponto de fuga da cena ficasse claramente destacado.
    
     Eu cresci entre papéis e lápis de desenho, sendo ensinada pelo meu pai e minha mãe nos caminhos da arte. Acabei na faculdade de Arquitetura e, em um dado momento disso, virei brevemente professora de desenho pra alunos que queriam entrar no curso. Quão grande foi minha surpresa quando eu descobri que muita gente não consegue enxergar os pontos de fuga quando olha pro mundo!
    
     Os anos de treino fazem com quem eu naturalmente identifique os eixos principais de construção de qualquer objeto ou cena que observo, e isso é natural pra desenhistas, artistas, arquitetos. Uma pessoa que não foi ensinada a entender o básico de como funciona a geometria dos pontos de fuga consegue vê-los, mas não os entende, não os identifica. Elas são capazes até de desenhar um objeto em “perspectiva” com linhas paralelas, apesar de sua visão mostrar o contrário, porque elas não foram ensinadas a enxergar isso. 
    
     Acontece que pontos de fuga e perspectiva não são facilmente entendidos porque não são materializados. São uma estratégia da nossa visão para que o mundo ordenado faça sentido em sua profundidade completa. Sem as deformações da perspectiva, não conheceríamos este mundo em toda sua altura, largura e profundidade. 
    
     O ponto chave da questão é justamente como a falta de conhecimento de algo que todas as pessoas enxergam faz com que elas não entendam o que estão vendo. Me parece um pouco com o Evangelho. As boas novas da Salvação e do Reino de Deus não se encaixam na lógica comum deste mundo, mas, sem elas, este mesmo mundo não faz sentido. A altura, largura e profundidade da nossa existência são plenamente apreciadas sob a perspectiva de que temos um propósito que vai além dessa vida; que temos um Pai Eterno que nos ama, e fomos chamados a fazer parte de um Reino que nunca terá fim. E, por mais que isso pareça uma distorção da realidade, no fim, é a forma correta de enxergar a vida em sua plenitude.
     
     Uma vez, Jesus me disse que todas as coisas que criou nesta terra imperfeita eram uma metáfora da realidade espiritual. Isso faz todo sentido quando penso que a Bíblia fala em Provérbios 8:30 que Ele foi o Arquiteto do Universo. Assim como C.S. Lewis falava que cria no Evangelho como cria no Sol – não por vê-lo, mas por ver tudo através dele – , eu digo que hoje o Evangelho é meu ponto de fuga. A perspectiva ideal através da qual eu enxergo e compreendo o Universo que Ele criou. E assim como, um dia, ensinei alunos a enxergar os eixos que constroem nossa visão do mundo, quero ensinar outros a descobrir quais são os eixos que ordenam as perspectivas da vida.
     
      

A tal da foto.
      

     

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